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  • quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

    Espiritismo, Política e Poder — Uma reflexão necessária




    Jorge Hessen

    Brasília-DF

    O Espiritismo não é uma doutrina alienada da realidade social, mas tampouco se confunde com sistemas ideológicos ou projetos partidários. Seu compromisso central é a transformação moral do indivíduo, condição indispensável ao progresso coletivo(¹).

    Deve o espírita repudiar projetos de dominação ideológica de matriz “ditatorial vermelha”? Sim, como espírita consciente, desde que o faça com lucidez, sem fanatismo e com firmeza moral, sem ódio.

    É bem verdade que Allan Kardec foi explícito ao afirmar que o Espiritismo não se ocupa da política prática nem se associa a projetos de poder:

    “O Espiritismo não vem absolutamente ocupar-se das questões políticas; deixa às instituições humanas o cuidado de se organizarem conforme lhes parecer melhor.”(²)

    Essa neutralidade doutrinária, contudo, não equivale à indiferença moral. A Doutrina Espírita avalia as consequências das ações humanas, através dos rótulos ideológicos que as revestem(³).

    Projetos políticos que, ainda que em nome da justiça social, resultam em perseguição a opositores, censura da imprensa, criminalização da divergência e concentração prolongada de poder entram em conflito direto com a ética espírita, pois violam o livre-arbítrio, a responsabilidade individual e a dignidade humana(⁴).

    Kardec é categórico ao afirmar:

    “A liberdade de consciência é uma consequência da liberdade de pensar, que é um dos atributos do homem.”(⁵)

    Do mesmo modo, assistencialismo sem emancipação e promoção social não é caridade. O Espiritismo distingue a caridade moralmente edificante do assistencialismo que perpetua a dependência:

    “A verdadeira caridade passa pela [benevolência, pela indulgência e pelo perdão] e busca no fundo do coração a causa dos males, para [ressignificá-los].”(⁶) (grifos meus)

    Assim, políticas que mantêm populações em dependência crônica do Estado, desestimulam o esforço pessoal ou instrumentalizam a pobreza não se harmonizam com o ideal espírita de progresso moral e material do Espírito(⁷).

    Kardec ainda adverte: “Os Espíritos inferiores procuram dominar; os bons jamais impõem, aconselham.”(⁸) Portanto, quando projetos políticos revelam vocação autoritária, isso reflete o grau moral dos Espíritos que os sustentam, encarnados e desencarnados, bem como das coletividades [militantes] que os toleram(⁹). grifo meu

    O dever do espírita não é idolatrar ideologias nem justificar abusos mas analisar com lucidez, denunciar injustiças e preservar a verdade sem ódio, lembrando que: “O verdadeiro espírita reconhece-se pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações.”(¹⁰)

    O Espiritismo não condena nem absolve instituições políticas específicas, mas condena toda prática que viole a justiça, a liberdade e a dignidade humana, venha de onde vier.

    A Doutrina Espírita não é de esquerda nem de direita — é da consciência.
    Não serve a projetos de poder — serve ao progresso moral da Humanidade.

    Toda estrutura que se afaste desse ideal responderá, cedo ou tarde, à Lei de Causa e Efeito, soberana sobre homens, partidos e governos(¹¹).


    Notas Bibliográficas:

    1. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Introdução e questões 776–785.
    2. ________ Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XXII, item 4.
    3. ________, Allan. O Livro dos Espíritos, questões 843–850.
    4. ________, Allan. O Livro dos Espíritos, questões 872–875.
    5. ________, Allan. O Livro dos Espíritos, questão 833.
    6. ________, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XIII, item 7.
    7. ________, Allan. O Livro dos Espíritos, questões 685–687.
    8. ________, Allan. O Livro dos Médiuns, item 258.
    9. ________, Allan. A Gênese, cap. XVIII, itens 24–27.
    10. ________, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XVII, item 4.
    11. ________, Allan. O Livro dos Espíritos, questões 964–965.

    Referências

    KARDEC, Allan. A gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, s.d.

    ________, Allan. O evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, s.d.

    ________, Allan. O livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, s.d.

    ________, Allan. O livro dos médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, s.d.