Jorge Hessen
Brasília-DF
O Espiritismo não é uma
doutrina alienada da realidade social, mas tampouco se confunde com sistemas
ideológicos ou projetos partidários. Seu compromisso central é a transformação
moral do indivíduo, condição indispensável ao progresso coletivo(¹).
Deve o espírita repudiar projetos
de dominação ideológica de matriz “ditatorial vermelha”? Sim,
como espírita consciente, desde que o faça com lucidez, sem fanatismo e com
firmeza moral, sem ódio.
É bem verdade que Allan
Kardec foi explícito ao afirmar que o Espiritismo não se ocupa da política
prática nem se associa a projetos de poder:
“O Espiritismo não vem
absolutamente ocupar-se das questões políticas; deixa às instituições humanas o
cuidado de se organizarem conforme lhes parecer melhor.”(²)
Essa neutralidade doutrinária,
contudo, não equivale à indiferença moral. A Doutrina Espírita avalia as
consequências das ações humanas, através dos rótulos ideológicos que as
revestem(³).
Projetos políticos que,
ainda que em nome da justiça social, resultam em perseguição a opositores,
censura da imprensa, criminalização da divergência e concentração prolongada de
poder entram em conflito direto com a ética espírita, pois violam o livre-arbítrio,
a responsabilidade individual e a dignidade humana(⁴).
Kardec é categórico ao
afirmar:
“A liberdade de
consciência é uma consequência da liberdade de pensar, que é um dos atributos
do homem.”(⁵)
Do mesmo modo, assistencialismo
sem emancipação e promoção social não é caridade. O Espiritismo distingue a
caridade moralmente edificante do assistencialismo que perpetua a dependência:
“A verdadeira caridade passa
pela [benevolência, pela indulgência e pelo perdão] e busca no fundo do
coração a causa dos males, para [ressignificá-los].”(⁶) (grifos meus)
Assim, políticas que
mantêm populações em dependência crônica do Estado, desestimulam o esforço
pessoal ou instrumentalizam a pobreza não se harmonizam com o ideal espírita
de progresso moral e material do Espírito(⁷).
Kardec ainda adverte: “Os
Espíritos inferiores procuram dominar; os bons jamais impõem, aconselham.”(⁸)
Portanto, quando projetos políticos revelam vocação autoritária, isso reflete o
grau moral dos Espíritos que os sustentam, encarnados e desencarnados,
bem como das coletividades [militantes] que os toleram(⁹). grifo meu
O dever do espírita não é
idolatrar ideologias nem justificar abusos mas analisar com lucidez,
denunciar injustiças e preservar a verdade sem ódio, lembrando que: “O
verdadeiro espírita reconhece-se pela sua transformação moral e pelos esforços
que faz para domar suas más inclinações.”(¹⁰)
O Espiritismo não condena
nem absolve instituições políticas específicas, mas condena toda prática que
viole a justiça, a liberdade e a dignidade humana, venha de onde vier.
A Doutrina Espírita não
é de esquerda nem de direita — é da consciência.
Não serve a projetos de poder — serve ao progresso moral da Humanidade.
Toda estrutura que se
afaste desse ideal responderá, cedo ou tarde, à Lei de Causa e Efeito,
soberana sobre homens, partidos e governos(¹¹).
Notas Bibliográficas:
- KARDEC, Allan. O Livro dos
Espíritos. Introdução e questões 776–785.
- ________ Allan. O Evangelho
segundo o Espiritismo, cap. XXII, item 4.
- ________, Allan. O Livro dos
Espíritos, questões 843–850.
- ________, Allan. O Livro dos
Espíritos, questões 872–875.
- ________, Allan. O Livro dos
Espíritos, questão 833.
- ________, Allan. O Evangelho
segundo o Espiritismo, cap. XIII, item 7.
- ________, Allan. O Livro dos
Espíritos, questões 685–687.
- ________, Allan. O Livro dos
Médiuns, item 258.
- ________, Allan. A Gênese,
cap. XVIII, itens 24–27.
- ________, Allan. O Evangelho
segundo o Espiritismo, cap. XVII, item 4.
- ________, Allan. O Livro dos
Espíritos, questões 964–965.
Referências
KARDEC, Allan. A
gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Tradução de
Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, s.d.
________, Allan. O
evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de
Janeiro: Federação Espírita Brasileira, s.d.
________, Allan. O
livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Federação
Espírita Brasileira, s.d.
________, Allan. O
livro dos médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Federação
Espírita Brasileira, s.d.
