A soberania do povo venezuelano esteve por muitos anos sob o cabresto da intervenção cubana, chinesa e russa. Ora, sabemos que o livre-arbítrio é atributo essencial do Espírito, estendendo-se também às coletividades humanas.
Os povos, assim como os indivíduos, colhem os frutos de suas escolhas: “Os povos, como os indivíduos, têm a sua infância, juventude e maturidade; sofrem as consequências de seus atos.”(¹)
Daí decorre que nenhuma nação pode arrogar-se o papel de juiz moral absoluto da outra, pois cada sociedade vive ou deveria viver experiências compatíveis com seu grau evolutivo, suas provas e expiações.
A soberania, sob o prisma espiritual, não é apenas um conceito jurídico; é a expressão do direito de aprendizado coletivo, ainda que doloroso. O fato de um povo atravessar regimes autoritários não isenta os governantes de responsabilidade espiritual. Até porque o abuso de poder constitui grave falta moral e “todo aquele que exerce autoridade responde pelo mau uso que dela fizer.”(²)
Emmanuel pronuncia que “nenhum tirano se sustenta sem a colaboração direta ou indireta dos que o cercam.” Diz, ainda, que a tirania nunca é obra de um único homem, mas resultado de conivências, omissões e medos coletivos.” (³)
Assim, reconhecemos o sofrimento causado pela guerra e pelas ditaduras, mas obviamente não deveríamos transferir automaticamente a terceiros o dever de “corrigir” pela força aquilo que pertence ao processo educativo de uma coletividade.
A Lei de Justiça é inseparável da Lei de Amor e de Caridade. Justiça, logicamente, não se confunde com imposição, coerção ou violência travestida de boas intenções, até porque “a justiça consiste no respeito aos direitos de cada um.” (⁴)
Sob esse ângulo, qualquer forma de intervenção, seja comunista ou liberal, que viole a autodeterminação dos povos e imponha modelos pela força, obviamente gera sofrimento indiscriminado e entra em conflito direto com a Lei Divina, ainda que sob a retórica de objetivos nobres. OK!
Não perfilhamos guerras “justas” do ponto de vista espiritual, pois toda violência gera débitos morais e compromissos futuros. Mas não endossamos a indiferença moral diante do sofrimento alheio (a Venezuela está sob as algemas comunistas há vários anos). Kardec alerta que a omissão consciente pode ser forma de culpa: “Ser culpado não é apenas fazer o mal, mas deixar de fazer o bem quando se tem o poder de fazê-lo.” (⁵)
Aqui surge uma distinção essencial entre essa intervenção política ou militar norte-americana e a solidariedade moral e humanitária. Refletimos que a Venezuela deixou de ter soberania há muito tempo; portanto, o que ocorreu exatamente HOJE (3-01-2026) entendemos como auxílio extremo e, embora com uso da força militar, se desponta como um socorro policial humanitário de um povo que grita aos quatro ventos por liberdade.
Destarte, percebemos a atitude do Tio Sam como asilo aos perseguidos e denúncia ética das cruéis injustiças a fim de estimular a consciência venezuelana pela liberdade, não admitindo jamais a dominação ou tutela forçada de nações de ideologia comprovadamente totalitária.
André Luiz, pela observação da vida espiritual, esclarece que as grandes crises sociais são, muitas vezes, provas coletivas, destinadas ao despertar moral dos povos, para ele, “as nações, como os indivíduos, atravessam experiências educativas que lhes burilam a alma coletiva.” (⁶)
A eterna interferência externa cubana, chinesa e russa, motivada por interesses “ocultos” (ouro negro) ou imposição ideológica, tem prolongado conflitos, agravando sofrimentos e gerando compromissos espirituais duradouros para todos os envolvidos.
Temos consciência de que a questão da intervenção e da soberania não se resolve por slogans políticos nem por paixões ideológicas. Ela exige discernimento moral, humildade histórica e fidelidade à Lei de Justiça, Amor e Caridade.
Repudiamos qualquer tipo de tirania; não veneramos políticos de estimação; jamais sacralizaremos governos totalitários. A verdadeira libertação dos povos (soberania) principia na consciência, cresce na responsabilidade coletiva e se solidifica na educação moral da população, jamais na imposição pela força de uma traidoríssima democracia avermelhada.
Notas bibliográficas
1. KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 52. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira (FEB), 2016. Cap. XVIII.
2. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013. Questão 932.
3. EMMANUEL. Pensamento e Vida. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 27. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2015. Cap. 24.
4. KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 131. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2017. Cap. XI, item 3.
5. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013. Questão 642.
6. ANDRÉ LUIZ. Evolução em Dois Mundos. Psicografia de Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira. 20. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2014. Parte II, cap. I