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  • sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

    Os “mornos bonzinhos” no movimento espírita: entre a aparência e a vivência


     Jorge Hessen

    Brasília-DF

    O movimento espírita, ao longo de sua trajetória, sempre valorizou o estudo, a caridade e o esforço pela transformação moral. Ainda assim, há a liderança dos  “mornos bonzinhos”.

    A ideia de mornidão espiritual refere-se àquele que conhece a Doutrina, mas evita aplicá-la a si mesmo ou mascara virtude através de palavras e gestos mansos. Embora frequente a Casa Espírita, porém resiste à autotransformação.

    Não se trata de praticar o mal deliberadamente, mas de não avançar no bem , porque mascaram bondade  permanecendo em uma zona confortável de neutralidade ética. Ou pensam que todos estão errados menos eles....

    Allan Kardec nunca separou o Espiritismo do aprimoramento moral. Ao contrário, estabeleceu um critério objetivo e inconfundível para identificar o verdadeiro espírita: “Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas más inclinações.”¹

    Essa afirmação desloca o centro da vivência espírita do discurso para a prática, do saber para o ser. O Espiritismo não se mede pela projeção pessoal, pela eloquência nem pela frequência às reuniões, mas pelo trabalho silencioso que cada um realiza sobre si mesmo.

    No mornão a virtude que não é transparente. O termo “bonzinho” surge porque, em regra, essas pessoas são “educadas”, “afáveis”, “respeitosas” e “bem-intencionadas”. No entanto, a bondade, quando não sustentada pela vigilância interior, pode permanecer apenas na superfície, confundindo cordialidade social com virtude moral.

    A caridade eventual, o comportamento gentil e a ausência de conflitos não substituem o esforço contínuo de superação do orgulho, do egoísmo e da vaidade.

    Emmanuel alerta para esse risco sutil: “O bem que não se renova acaba por estagnar.”² A estagnação espiritual não é barulhenta, mas é profundamente limitadora.

    É importante destacar: o Espiritismo não condena, não acusa, não rotula. Ele esclarece, orienta e convida. Todos nós, em diferentes momentos da caminhada evolutiva, já experimentamos fases de acomodação moral.

    Reconhecer-se, ainda que parcialmente, em atitudes mornas não deve gerar culpa, mas consciência e responsabilidade. O progresso espiritual não exige perfeição imediata, mas esforço honesto e perseverante.

    O movimento espírita necessita menos de “bonzinhos conformados” e mais de trabalhadores conscientes, dispostos a aprender, cair, levantar-se e seguir adiante sem omissões.

    O Espiritismo não nos chama à santidade aparente, mas à coerência possível. Não exige heróis morais, mas discípulos sinceros do Evangelho, comprometidos com a própria transformação.

    A verdadeira superação da mornidão começa quando o espírita deixa de perguntar apenas “o que a Doutrina diz?” e passa a refletir diariamente: “O que estou fazendo, de fato, sem falsas virtudes, com o que aprendi?”


    Notas bibliográficas:

    1-  KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulo XVII, item 4 – “O homem de bem”.

    2-  XAVIER, Francisco Cândido. Fonte Viva. Pelo Espírito Emmanuel. Federação Espírita Brasileira (FEB).