Respeitar as crenças
alheias é dever elementar de toda consciência esclarecida. Entretanto, aos
espíritas cabe igualmente uma responsabilidade intransferível: preservar a integridade
da Doutrina Espírita sem intolerância, sem sectarismo, mas também sem
concessões que a descaracterizem.
A experiência de
trabalhadores como Chico Xavier e Divaldo Franco demonstra que a vigilância
doutrinária constitui requisito indispensável para a manutenção da identidade
espírita.
Nos dias atuais, a ameaça
à integridade doutrinária não se apresenta apenas sob a forma de antigos
modismos espiritualistas. Ela surge, igualmente, por meio das redes sociais,
da cultura do espetáculo com as famigeradas cartas “consoladoras” , da busca
por soluções instantâneas e da crescente mercantilização do sagrado.
Multiplicam-se influenciadores espirituais, fórmulas de prosperidade, terapias
supostamente revolucionárias e práticas que buscam legitimação no Espiritismo
sem qualquer respaldo na Codificação.
Allan Kardec estabeleceu
um método seguro para avaliar novas ideias: o crivo da razão, da lógica e do
controle universal dos ensinos dos Espíritos. À luz desse critério, não
basta que uma prática se apresente como mediúnica, espiritual ou terapêutica
para que seja considerada espírita. A Doutrina possui fundamentos próprios,
construídos sobre bases filosóficas, científicas e morais claramente definidas.
Nesse contexto,
permanecem atuais as reflexões sobre propostas como a estranha apometria, a
chamada desobsessão por corrente magnética e outras técnicas que
reivindicam eficiência superior aos métodos recomendados em O Livro dos
Médiuns. Se tais recursos representassem efetivo avanço doutrinário, por que
não foram objeto de confirmação pelos Espíritos Superiores através do método
kardequiano? A prudência recomenda cautela diante de novidades que não passaram
pelo exame rigoroso da universalidade e da concordância dos ensinos
espirituais.
A obsessão, conforme
ensina Kardec, não se resolve por mecanismos automáticos, fórmulas energéticas
ou procedimentos ritualísticos. Trata-se de processo complexo que envolve transformação
moral, higiene mental, perseverança no bem, oração e educação espiritual do
encarnado e do desencarnado. Qualquer proposta que minimize esses fatores
essenciais afasta-se dos princípios da fé raciocinada.
Outro fenômeno
preocupante é a personalização excessiva do movimento espírita. Alguns
transformam tribunas em palcos, dirigentes em celebridades e centros
espíritas em espaços de promoção pessoal. O Espiritismo, contudo, não
necessita de palestrantes famosos (aqueles com muitos seguidores na internet).
Sua força reside na simplicidade do Evangelho e na autoridade moral dos seus
trabalhadores.
A história do
Cristianismo oferece importante advertência. A mensagem pura de Jesus
conquistou corações pela sua simplicidade. Posteriormente, enxertos
doutrinários, interesses humanos e desvios de finalidade contribuíram para seu
obscurecimento. O movimento espírita não está imune a riscos semelhantes.
Quando Kardec é relegado a plano secundário e substituído por teorias sem
fundamento doutrinário, abre-se caminho para a descaracterização da proposta
espírita.
Por isso, a melhor defesa
da Doutrina não consiste em perseguições ou disputas estéreis, mas no estudo
sério das obras básicas, na prática do Evangelho e no compromisso com a
verdade. Como adverte Vianna de Carvalho, pela psicografia de Divaldo Franco, o
Espiritismo deve ser divulgado conforme foi apresentado por Allan Kardec, sem
adaptações de conveniência destinadas a atrair adeptos.
A integridade da
Doutrina Espírita não é conservadorismo estéril; é respeito à estrutura de
uma doutrina que se fundamenta na razão. O futuro do Espiritismo dependerá
menos das novidades que surgem a cada momento e mais da capacidade de seus
adeptos de permanecerem fiéis aos princípios que lhe deram origem.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Livro
dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, 2019.
KARDEC, Allan. A Gênese.
Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, 2018.
FRANCO, Divaldo Pereira.
Pelo Espírito Vianna de Carvalho. Aos Espíritas. Salvador: LEAL, 2002.
XAVIER, Francisco
Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Estude e Viva. Brasília: FEB, 2013.
FEDERAÇÃO ESPÍRITA
BRASILEIRA. Orientação ao Centro Espírita. Brasília: FEB, 2022.
