Jorge Hessen
Brasília -DF
Há criaturas que nasceram para o trabalho honesto. Outras, para a arte. Algumas, para a ciência. E há aquelas que descobrem, com notável esperteza, que a dor alheia pode ser um excelente modelo de negócio.
Esta “criatura”, por exemplo, não precisava possuir nem tinha mediunidade. Que necessidade haveria disso? A mediunidade autêntica exige responsabilidade moral, estudo, disciplina, desinteresse e, sobretudo, consciência. Tudo muito trabalhoso. Mais simples é inventar uma ligação direta com o Além, convocar os mortos para o palco das cartas consoladoras e deixar que os vivos paguem a conta.
E a “criatura” prosperou. Primeiro, descobriu a força de uma lágrima. Depois, percebeu o poder da saudade. Finalmente, compreendeu que poucas coisas tornam uma pessoa mais vulnerável do que a dor de perder alguém que ama. Eis o seu grande laboratório: corações partidos.
Então, entra em cena. Com voz solene, gestos estudados e a indispensável aura de “elevação espiritual”, anuncia que alguém do outro lado deseja “falar ou escrever”. Os enlutados choram. A “criatura” comove-se — profissionalmente, naturalmente. E, de repente, numa dessas extraordinárias coincidências que só acontecem nos negócios espirituais da “criatura” , o morto também demonstra grande preocupação com… dinheiro.
Que prodígio! Os Espíritos, segundo a “criatura” , não pedem uma transformação moral mais profunda, nem recomendam prudência diante das aparências, nem alertam contra a exploração da credulidade. Não. Eles parecem estar sempre preocupados com leilões, campanhas, arrecadações e doações para a obra da própria “criatura” .
É realmente uma “mediunidade” muito eficiente. Os mortos fazem propaganda, os vivos se emocionam e o caixa financeiro agradece.
Mas toda representação possui seus espectadores inconvenientes. Surgem aqueles que perguntam. Aqueles que investigam. Aqueles que desejam saber como as mensagens são produzidas, por que existem contradições, onde estão as evidências e por que tanta espiritualidade precisa de tanta publicidade.
A “criatura” , naturalmente, não gosta. Em vez de responder às perguntas, conta e compara o número de seguidores.
— Quantos seguidores vocês têm? Têm poucos seguidores na internet, ah! São uns perrapados!
E pronto! Está resolvido o problema da verdade.
Porque no universo mental da “criatura” , aparentemente a razão funciona por contagem de cabeças virtuais da Internet. Se “milhões” a seguem, ela deve estar certa. Se alguém tem poucos seguidores, deve estar errado. É uma espécie de novo Evangelho segundo o algoritmo: “Bem-aventurados os viralizados, porque deles será o reino da verdade.”
Que maravilha! A “criatura” confunde popularidade com legitimidade, fama com caráter e aplauso com inocência. Talvez ainda não tenha descoberto que multidões já aplaudiram inúmeros impostores ao longo da história. Uma multidão pode ser barulhenta, mas não possui o poder mágico de transformar mentira em verdade.
E há outro detalhe curioso. Quanto mais questionada, mais a “criatura” se declara perseguida. É o último recurso de certas consciências: quando as perguntas se tornam incômodas, o questionador vira inimigo; quando as evidências apertam, surge uma conspiração; quando a máscara ameaça cair, proclama-se martírio; daí advém o ASSÉDIO JUDICIAL.
A “criatura” , então, sobe ao altar de sua própria fantasia e se proclama vítima. Afinal, como poderia alguém tão admirado estar errado?
Simples: admiração não é atestado de honestidade. Allan Kardec jamais ofereceu ao Espiritismo um cheque em branco para celebridades do sobrenatural. Ao contrário, recomendou o exame, a razão e o discernimento, advertindo contra a exploração e os perigos da mistificação. A mediunidade séria não precisa transformar a morte em espetáculo nem a saudade em máquina de arrecadação.
A verdadeira tragédia MENTAL da “criatura” , entretanto, talvez seja outra: depois de representar tanto tempo, pode ter começado a acreditar no próprio personagem MENTIROSO.
A mentira repetida tornou-se sua biografia. A fama, sua defesa. Os seguidores, seu tribunal de absolvição. E os “perrapados” que fazem perguntas, seu inimigo imaginário.
Mas, quando os refletores se apagarem e os seguidores forem embora, restará uma pergunta que nenhum leilão poderá arrematar:
De que vale conquistar multidões, se para isso foi necessário perder a própria consciência?
Porque “PERRAPADO” não é quem tem poucos seguidores. Pobretão — miserável, espiritualmente miserável — é a “criatura” que transforma lágrimas em capital, saudade em mercadoria e mentira em profissão.
E nenhum aplauso do mundo consegue enriquecer uma consciência falida.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O livro dos médiuns: guia dos médiuns e dos evocadores. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2000
KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2000
KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2000
