01 setembro 2026

Ministério Público investiga. Polícia Civil apura. Pernambuco homenageia.


Jorge Hessen

Brasília -DF  

Enquanto denúncias graves são apuradas em Brasília, uma honraria pública está marcada para Recife. É coincidência? Imprudência? Ou simplesmente ninguém está olhando? O Movimento Espírita  precisa olhar.

Segundo reportagem publicada pelo Metrópoles, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) recebeu denúncias contra uma cidadã, apontada como médium e dirigente de uma instituição supostamente “religiosa” em Águas Claras. Diante das manifestações, o MPDFT instaurou Notícia de Fato, encaminhada para análise de uma Promotoria de Justiça Criminal. A Polícia Civil do Distrito Federal também mantém inquérito sobre fatos relacionados à atuação da suposta médium.

Isso muito obviamente não significa condenação. Significa investigação. E investigação oficial não pode ser tratada como detalhe irrelevante.

O que causa perplexidade é que, enquanto Brasília apura denúncias envolvendo supostas cartas “consoladoras” psicografadas, está prevista para esta quarta-feira, 2 de setembro, em Recife, uma homenagem pública à mesma pessoa.

É preciso perguntar: 

QUE CORRERIA É ESSA?

Por que conceder agora uma honraria de tamanha simbologia? Por que não aguardar o esclarecimento de fatos tão graves? Ninguém está pedindo condenação antecipada. Está-se pedindo prudência institucional.

Uma investigação não transforma automaticamente alguém em culpado. Mas uma homenagem pública também não transforma ninguém em inocente. O título de cidadania não é um certificado de idoneidade.

As denúncias, segundo a imprensa, envolvem alegações de que informações disponíveis em redes sociais de familiares teriam aparecido posteriormente em cartas atribuídas a pessoas desencarnadas. Há relatos de inconsistências, erros e contradições que precisam ser tecnicamente examinados.

Se tudo for falso, que a investigação demonstre. Se houver explicações plausíveis, que sejam apresentadas. Mas, se as acusações forem comprovadas, estaremos diante de algo moralmente devastador: a possível exploração da vulnerabilidade de pessoas mergulhadas no luto.

E há ainda a referência a R$ 300 MIL em patrimônio, mencionada nas denúncias relacionadas ao caso.

Trezentos mil reais não são apenas números. Podem representar anos de trabalho, economias familiares e a confiança depositada em alguém, justamente quando a pessoa está emocionalmente fragilizada.

O luto não pode transformar-se em território de caça. Quem perdeu um filho não está procurando espetáculo. Quem perdeu uma mãe não está participando de um jogo. Quem procura uma suposta mensagem psicografada pode estar disposto a acreditar em qualquer palavra que, por alguns instantes, devolva a sensação de proximidade com quem partiu.

É justamente por isso que a mediunidade exige responsabilidade, ética e absoluta repulsa à exploração da dor humana.

Se houver fraude, que seja desmascarada. Se não houver, que a investigação o demonstre.

Mas transformar uma pessoa sob investigação em personalidade homenageada, antes do esclarecimento de acusações dessa natureza, é uma decisão que merece explicações públicas.

Ministério Público investiga. Polícia Civil apura. Pernambuco homenageia. Essa sequência deveria, no mínimo, provocar reflexão.

Não se trata de perseguir uma pessoa. Trata-se de defender instituições, famílias, o direito à verdade e a própria dignidade da mediunidade.

Às autoridades responsáveis pela homenagem, fica uma pergunta simples: Se não há nada a temer, qual seria o problema em esperar?

A verdade não desaparece porque uma solenidade é adiada.

Uma investigação séria não pode ser atropelada por aplausos. E uma honraria pública não deveria produzir, ainda que involuntariamente, uma aparência de respeitabilidade enquanto órgãos oficiais procuram descobrir o que realmente aconteceu.

Antes da medalha, a verdade. Antes do aplauso, os fatos. Antes da homenagem, a investigação.

Quando estão em jogo luto, fé, patrimônio e denúncias de possível fraude, a sociedade não pode simplesmente aplaudir e virar a página.

É preciso parar. Perguntar. Investigar. E, acima de tudo, exigir verdade.

Referências Bibliográficas:

CARONE, Carlos; ALMEIDA, Thamires; ARAÚJO, Saulo; BRAGANÇA, Miguel. Médium é acusada de forjar psicografia com dados obtidos em redes sociais. Metrópoles, Brasília, 31 ago. 2026. Disponível em: https://www.metropoles.com/. Acesso em: 1 set. 2026.

CARONE, Carlos. MPDFT recebe denúncias e abre apuração de supostos crimes da médium Maira. Metrópoles, Brasília, 1 set. 2026. Disponível em: https://www.metropoles.com/. Acesso em: 1 set. 2026.

DISTRITO FEDERAL. Ministério Público do Distrito Federal e Territórios. Corregedoria-Geral: Notícia de Fato e Procedimento Administrativo. Brasília: MPDFT. Disponível em: https://www.mpdft.mp.br/. Acesso em: 1 set. 2026