31 outubro 2026

Brasil: precisamos de líderes que unam, não de personalidades que dividam!




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

À luz do Espiritismo, a proteção espiritual de uma nação deve inspirar o progresso coletivo, mas a construção da unidade nacional depende também da maturidade moral dos cidadãos e de lideranças comprometidas com o bem comum.

Nas últimas três décadas, o Brasil conheceu diferentes lideranças políticas, algumas carismáticas, outras controversas, mas frequentemente marcadas por uma característica preocupante: a incapacidade de unir os brasileiros em torno de um projeto nacional. Direita ou esquerda, os extremos têm alimentado antagonismos, ressentimentos e disputas que ultrapassam os espaços políticos e invadem famílias, instituições religiosas e antigas amizades.

É inquietante observar compatriotas que, embora compartilhem a mesma história, cultura e território, passaram a enxergar uns aos outros como adversários irreconciliáveis. A divergência democrática é legítima; a transformação do contraditório em hostilidade permanente, entretanto, representa um preocupante retrocesso civilizatório.

À luz do Espiritismo, essa realidade merece uma reflexão mais profunda. Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, aborda expressamente a assistência espiritual às coletividades. Na questão 518, os Espíritos explicam que sociedades, cidades e povos recebem influências espirituais conforme as paixões e o caráter predominantes entre seus integrantes. Na questão 519, esclarecem que as nações possuem Espíritos protetores especiais, por constituírem individualidades coletivas que necessitam de direção superior.

Essa abordagem oferece uma perspectiva instigante: a trajetória espiritual de um povo não está dissociada de sua conduta moral. A questão 518 é particularmente elucidativa ao relacionar o aperfeiçoamento moral das coletividades à atração de influências espirituais mais elevadas.

Seria razoável, portanto, imaginar que a espiritualidade superior permaneça indiferente às dificuldades de uma nação com tantas possibilidades como o Brasil? Não temos como conhecer seus planejamentos, tampouco afirmar que determinado governante esteja sendo preparado no mundo espiritual. Entretanto, podemos admitir, dentro dos princípios doutrinários, que Espíritos comprometidos com o progresso das coletividades trabalhem pela inspiração de consciências e pelo amadurecimento dos povos.

Talvez estejamos precisando, mais do que nunca, de lideranças com outra estatura moral. Homens e mulheres capazes de compreender que governar não significa conquistar seguidores incondicionais, insuflar ressentimentos ou alimentar a idolatria da própria personalidade. Governar significa servir à sociedade, respeitar as instituições democráticas e trabalhar por todos, independentemente de classe social, origem, cor ou convicção ideológica.

Precisamos de estadistas, não de supostos salvadores da pátria; de conciliadores, não de incendiários políticos; de projetos nacionais, não de projetos pessoais ou de grupos. O verdadeiro patriotismo não consiste em hostilizar quem pensa diferente, mas em reconhecer que a diversidade de opiniões pode coexistir com o compromisso de construir uma nação melhor.

Não se trata de defender uma terceira via partidária, tampouco de alimentar expectativas messiânicas em torno de algum nome. Trata-se de aspirar a lideranças genuinamente democráticas, solidárias, equilibradas e comprometidas com a dignidade humana.

O Brasil, frequentemente associado à expressão Pátria do Evangelho, precisa demonstrar essa vocação também nas relações entre seus cidadãos. Não basta ostentar uma referência espiritual; é indispensável vivenciá-la na fraternidade, na justiça e no respeito recíproco.

Até quando permaneceremos reféns de uma polarização que enfraquece a convivência nacional? A mudança, certamente, não virá exclusivamente de um governante nem poderá ser transferida à espiritualidade como se os Espíritos superiores devessem resolver aquilo que compete aos encarnados.

A espiritualidade pode inspirar, mas cabe aos homens escolher. A transformação nacional começa pela transformação das consciências.

Tenho esperança de que surjam lideranças capazes de reunir os brasileiros em torno de objetivos superiores, sem radicalismos, sem personalismos e sem submissão ideológica. Que o futuro nos apresente homens e mulheres que compreendam a grandeza de servir ao Brasil.

Precisamos de uma liderança que desperte o sentimento de pertencimento nacional, e não de personalidades que transformem irmãos em inimigos. A união é possível. E o Brasil merece conquistá-la!

 

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2013. Parte segunda, cap. IX, questões 518 a 520.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2013.