Jorge
Hessen
Brasília
-DF
Entre a expansão
extraordinária do conhecimento e os riscos da desinformação, a Doutrina
Espírita precisa avançar tecnologicamente sem perder sua identidade kardeciana.
Em 2009, quando a
internet ainda consolidava sua presença na sociedade, escrevemos sobre seu
potencial para transformar a divulgação espírita. Naquela ocasião, já
percebíamos que a comunicação virtual permitiria aproximar instituições,
integrar pesquisadores, compartilhar conhecimentos e levar a mensagem espírita
a lugares onde ela ainda era praticamente desconhecida. Hoje, aquela
perspectiva tornou-se realidade, mas estamos diante de uma transformação ainda
mais profunda: a inteligência artificial (IA).
Allan Kardec, em Obras
Póstumas, já reconhecia a importância da publicidade em larga escala para
popularizar as ideias espíritas. A internet materializou essa possibilidade,
enquanto as plataformas digitais, as transmissões audiovisuais e, agora, a IA
ampliaram exponencialmente seu alcance. Segundo o IBGE (2026), 90,5% dos
brasileiros com dez anos ou mais utilizaram a internet em 2025. Estamos,
portanto, diante de um ambiente extraordinário para a difusão do conhecimento
espírita.
A IA poderá auxiliar na
tradução de obras, na organização de bibliotecas digitais, na comparação de
textos, na pesquisa histórica, na elaboração de cursos interativos e na
acessibilidade do conhecimento. Poderá aproximar estudiosos de diferentes
países e facilitar o acesso à monumental obra de Kardec. Entretanto, precisamos
compreender uma distinção fundamental: a tecnologia pode processar
informações, mas não substitui a consciência, o discernimento moral nem a
responsabilidade intelectual.
Surge, nesse cenário, um
desafio preocupante. A mesma ferramenta capaz de facilitar estudos poderá
produzir textos apócrifos, falsas comunicações mediúnicas, citações
inexistentes, imagens manipuladas e mensagens atribuídas indevidamente a
Espíritos ou personalidades respeitáveis. A fabricação artificial de conteúdos
poderá alimentar o misticismo, a credulidade e o comércio da fé. A aparência de
autenticidade não constitui prova de veracidade.
Por isso, o futuro do
Espiritismo dependerá também da capacidade de seus adeptos de desenvolver o
pensamento crítico. Não podemos confundir popularidade com autoridade
doutrinária, quantidade de seguidores com conhecimento, nem respostas
produzidas por algoritmos com verdades comprovadas. A recomendação da UNESCO
(2021) sobre a ética da inteligência artificial adverte para a necessidade de
transparência, responsabilidade e proteção contra distorções e desigualdades.
É indispensável,
igualmente, que o movimento espírita não se transforme em refém dos algoritmos,
das disputas ideológicas e da superficialidade das redes sociais. A divulgação
não pode sacrificar o estudo sistemático, a pesquisa séria e a fidelidade aos princípios
fundamentais da Codificação. Emmanuel, André Luiz e Chico Xavier, entre outros
autores respeitáveis, permanecem fontes subsidiárias de estudo, sem substituir
a referência doutrinária de Kardec.
Os centros espíritas
precisam incorporar essas ferramentas à educação doutrinária, à formação de
trabalhadores, às atividades assistenciais e ao intercâmbio internacional. A
tecnologia deve aproximar pessoas, não substituir o acolhimento presencial, o
abraço fraterno e a convivência solidária. A exclusão digital e as limitações
de acesso também exigem atenção.
Não devemos temer o
progresso tecnológico, mas tampouco idolatrá-lo. Kardec ensinou que o
Espiritismo deve caminhar com o progresso, sem se afastar da razão e do exame
criterioso dos fatos.
O futuro da Doutrina não
será determinado pela velocidade dos computadores, pela sofisticação dos robôs
ou pela inteligência artificial. Será determinado pela maturidade intelectual e
moral dos espíritas que utilizarem esses recursos.
A internet pode levar o
Espiritismo aos quatro cantos do planeta; a inteligência artificial pode
ampliar seu acesso; mas somente o estudo, a razão, a ética e a vivência do
Evangelho poderão preservar sua essência.
Referências Bibliográficas:
BIBLIOTECA NACIONAL DE
ESTATÍSTICAS (IBGE). Proporção de usuários da internet no país ultrapassou
90% da população de 10 anos ou mais, em 2025. Rio de Janeiro: IBGE, 2026.
KARDEC, Allan. Obras
póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 2001.
LÉVY, Pierre. As
tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática.
São Paulo: Editora 34, 2004.
UNESCO. Recomendação
sobre a ética da inteligência artificial. Paris: UNESCO, 2021.
