30 outubro 2026

O futuro do Espiritismo na era da internet e da inteligência artificial




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Entre a expansão extraordinária do conhecimento e os riscos da desinformação, a Doutrina Espírita precisa avançar tecnologicamente sem perder sua identidade kardeciana.

Em 2009, quando a internet ainda consolidava sua presença na sociedade, escrevemos sobre seu potencial para transformar a divulgação espírita. Naquela ocasião, já percebíamos que a comunicação virtual permitiria aproximar instituições, integrar pesquisadores, compartilhar conhecimentos e levar a mensagem espírita a lugares onde ela ainda era praticamente desconhecida. Hoje, aquela perspectiva tornou-se realidade, mas estamos diante de uma transformação ainda mais profunda: a inteligência artificial (IA).

Allan Kardec, em Obras Póstumas, já reconhecia a importância da publicidade em larga escala para popularizar as ideias espíritas. A internet materializou essa possibilidade, enquanto as plataformas digitais, as transmissões audiovisuais e, agora, a IA ampliaram exponencialmente seu alcance. Segundo o IBGE (2026), 90,5% dos brasileiros com dez anos ou mais utilizaram a internet em 2025. Estamos, portanto, diante de um ambiente extraordinário para a difusão do conhecimento espírita.

A IA poderá auxiliar na tradução de obras, na organização de bibliotecas digitais, na comparação de textos, na pesquisa histórica, na elaboração de cursos interativos e na acessibilidade do conhecimento. Poderá aproximar estudiosos de diferentes países e facilitar o acesso à monumental obra de Kardec. Entretanto, precisamos compreender uma distinção fundamental: a tecnologia pode processar informações, mas não substitui a consciência, o discernimento moral nem a responsabilidade intelectual.

Surge, nesse cenário, um desafio preocupante. A mesma ferramenta capaz de facilitar estudos poderá produzir textos apócrifos, falsas comunicações mediúnicas, citações inexistentes, imagens manipuladas e mensagens atribuídas indevidamente a Espíritos ou personalidades respeitáveis. A fabricação artificial de conteúdos poderá alimentar o misticismo, a credulidade e o comércio da fé. A aparência de autenticidade não constitui prova de veracidade.

Por isso, o futuro do Espiritismo dependerá também da capacidade de seus adeptos de desenvolver o pensamento crítico. Não podemos confundir popularidade com autoridade doutrinária, quantidade de seguidores com conhecimento, nem respostas produzidas por algoritmos com verdades comprovadas. A recomendação da UNESCO (2021) sobre a ética da inteligência artificial adverte para a necessidade de transparência, responsabilidade e proteção contra distorções e desigualdades.

É indispensável, igualmente, que o movimento espírita não se transforme em refém dos algoritmos, das disputas ideológicas e da superficialidade das redes sociais. A divulgação não pode sacrificar o estudo sistemático, a pesquisa séria e a fidelidade aos princípios fundamentais da Codificação. Emmanuel, André Luiz e Chico Xavier, entre outros autores respeitáveis, permanecem fontes subsidiárias de estudo, sem substituir a referência doutrinária de Kardec.

Os centros espíritas precisam incorporar essas ferramentas à educação doutrinária, à formação de trabalhadores, às atividades assistenciais e ao intercâmbio internacional. A tecnologia deve aproximar pessoas, não substituir o acolhimento presencial, o abraço fraterno e a convivência solidária. A exclusão digital e as limitações de acesso também exigem atenção.

Não devemos temer o progresso tecnológico, mas tampouco idolatrá-lo. Kardec ensinou que o Espiritismo deve caminhar com o progresso, sem se afastar da razão e do exame criterioso dos fatos.

O futuro da Doutrina não será determinado pela velocidade dos computadores, pela sofisticação dos robôs ou pela inteligência artificial. Será determinado pela maturidade intelectual e moral dos espíritas que utilizarem esses recursos.

A internet pode levar o Espiritismo aos quatro cantos do planeta; a inteligência artificial pode ampliar seu acesso; mas somente o estudo, a razão, a ética e a vivência do Evangelho poderão preservar sua essência.

 

 

Referências Bibliográficas:

BIBLIOTECA NACIONAL DE ESTATÍSTICAS (IBGE). Proporção de usuários da internet no país ultrapassou 90% da população de 10 anos ou mais, em 2025. Rio de Janeiro: IBGE, 2026.

KARDEC, Allan. Obras póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 2001.

LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. São Paulo: Editora 34, 2004.

UNESCO. Recomendação sobre a ética da inteligência artificial. Paris: UNESCO, 2021.