05 outubro 2026

Conservadores e “vermelhos” e o palácio de rancores


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

Acompanhamos a polarização digital invadindo a intimidade e a divergência, deixando de ser debate e passando a ser instrumento de destruição. Estamos sob o guante de uma máquina extraordinariamente eficiente para transformar divergências em conflitos. As redes digitais, alimentadas pela lógica do engajamento, converteram a indignação em mercadoria e a polarização em espetáculo.

O mecanismo é perversamente simples: quanto maior a reação emocional, maior a circulação do conteúdo. E nada mobiliza mais rapidamente do que a raiva. Assim, opiniões são comprimidas em rótulos, argumentos substituídos por slogans e adversários transformados em inimigos.

É a vitória da simplificação sobre o pensamento.

O fenômeno seria apenas lamentável se permanecesse no espaço político. O problema é que atravessou a porta de nossas casas. Já não ameaça somente o debate público; ameaça amizades, casamentos, relações familiares e antigas fraternidades.

Pessoas que durante décadas conviveram com uma “amizade” respeitosa passam a se hostilizar por causa de opiniões políticas ou da defesa de “político de estimação”. A divergência, que deveria ser natural numa sociedade livre, converte-se em suspeita moral. Quem pensa diferente já não é simplesmente alguém que pensa diferente: passa a ser tratado como alguém que precisa ser combatido.

Eis o perigo! Não precisamos concordar uns com os outros. Precisamos, isto sim, recuperar a capacidade civilizatória de discordar sem maldizer.

O Espiritismo oferece uma preciosa advertência contra essa irracionalidade intoxicante coletiva. Kardec consagrou o livre exame, a liberdade de consciência e o uso da razão. O Evangelho, por sua vez, não autoriza a transformação do semelhante em inimigo. A verdade não precisa da violência verbal para prevalecer.

Também não basta dizer: “Só Jesus na causa”. A fé não pode servir de anestésico para nossa responsabilidade. Orar é necessário; pensar, igualmente. Confiar em Deus não significa entregar nossa consciência ao algoritmo, nem permitir que uma tela determine quem devemos amar ou odiar.

Precisamos recuperar o domínio sobre nossas próprias emoções. Antes de compartilhar uma mensagem incendiária, convém perguntar: ela esclarece ou apenas provoca? Antes de romper uma amizade, talvez seja prudente lembrar que nenhuma eleição, nenhum partido e nenhuma disputa ideológica merecem destruir décadas de convivência.

A política passa. As plataformas mudam. Os governos terminam. Os algoritmos são substituídos. Mas uma palavra impensada pode produzir uma ferida que atravessa anos.

Não entreguemos às redes sociais aquilo que há de mais valioso em nossa existência: a amizade fraterna.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 2019.

SANTAELLA, Lucia. A pós-verdade é verdadeira ou falsa? Barueri: Estação das Letras e Cores, 2018