03 abril 2010

O CLONE HUMANO É UMA UTOPIA PATÉTICA? ALGUMAS ANOTAÇÕES KARDECISTAS

A clonagem humana é defensável? Eis a questão! O assunto é intrigante e impõe debate mais amplo. Não há respostas definitivas para o problema. Qual a melhor atitude bioética diante dela? A resposta não é fácil. O tema ainda é assustador, todavia, invariavelmente, será uma prática rotineira nos séculos futuros, atendendo a cuidadoso planejamento que envolverá Espíritos encarnados e desencarnados. Atualmente, é complexo o assunto, por isso, suscita problemas e dúvidas.
Para alguns, o clone (1) humano é uma utopia patética. Para os estressados, há um certo delírio que faz com que algumas pessoas pensem na possibilidade de se criarem indivíduos descerebrados na clonagem e depois armazenados para transplantes de órgãos. É uma sandice! Isso não nos deve preocupar. Outros acreditam que podem interferir no gene, no DNA e retirar a sensibilidade para fazerem indivíduos, totalmente, imunes à dor, mas, em verdade, isso não passa de "ciência-ficção. Contudo, “a busca de conhecimento é característica fundamental do Homem, ainda que muitas vezes proceda como um aprendiz de feiticeiro, sem domínio sobre suas próprias conquistas, em virtude de seu subdesenvolvimento moral.” (2)
O geneticista Panayiotis Zavos tem, insistentemente, afirmado que implantou 11 embriões clonados em quatro mulheres e crê que, se ampliar os esforços atuais, poderá chegar ao primeiro bebê clonado em um ano ou dois. Para algumas autoridades, o procedimento de Zavos é um “brutal desvio de ciência genética”, por isso, o método é ilegal em vários países. Há alguns anos, Panayiotis não apresentou qualquer evidência da técnica e foi condenado como “irresponsável” por dar falsas esperanças a mulheres que não podiam ter filhos.
Considerando-se que há um descarte de gigantesca quantidade de embriões, o método é, ainda, algo muito arriscado. A cada 100 tentativas, no mínimo 95 não prosperarão, deixando um rastro de abortos e mortes de gestantes; as cinco gestações que, eventualmente, prosperarem, provavelmente, não garantirão vida saudável para os clones, a começar pelo previsível envelhecimento celular precoce.
Os métodos, ainda, estão muito distantes de êxito real; há, ainda, muito espaço a percorrer, haja vista os impedimentos éticos e legais que obstam os experimentos. Contudo, chegará o dia em que a clonagem será factível. Se não hoje, sem dúvida alguma no futuro. Os espíritas sabem que é o Espírito que dá vida inteligente ao corpo. Se um corpo humano for clonado a partir de uma célula de alguém já desencarnado, certamente será designado um Espírito para dar vida àquele corpo, mas é pouco provável que seja o do doador da célula. Mesmo que fosse o Espírito deste, seria uma nova vida e com nova missão. A vida não se repete.
Os clones já existem de forma natural. Os gêmeos univitelinos, por exemplo, são uma clonagem da Natureza. Nesse caso, só um óvulo dará origem a dois seres, geneticamente, idênticos, mas com impressões digitais diferentes. São idênticos no ponto de vista genotípico, porque têm a mesma carga genética, mas não são iguais quanto à fenotipia. Um corpo poderá ser clonado perfeitamente igual, contudo, não se pode realizar o mesmo com a personalidade, raciocínio, lucidez e outros itens psicológicos, porque são do espírito. Na clonagem de seres humanos, teremos uma cópia de gens, absolutamente igual. Mas, quanto à sua personalidade, caráter, inteligência, índole, e tudo o que distingue um ser humano de outro, será, invariavelmente, diferente, guardando conformidade com o estágio evolutivo e a maneira de ser do Espírito reencarnante.
Toda criança que vive “após o nascimento, tem, forçosamente, encarnado em si um Espírito, do contrário, não seria um ser humano”. (3) Assim, se a clonagem humana for sucesso, certamente, não produzirá robôs, mas seres autênticos. Pode o homem manipular óvulos e espermatozóides, mas jamais poderá determinar que alma irá habitar em um eventual clone. Nenhum pesquisador poderá “escolher” a alma que irá habitar no resultado de uma clonagem humana reprodutiva.
Se nos basearmos, apenas, na palavra clonagem, nada encontraremos em Kardec, especificamente. Mas, com o Codificador, sem a menor dificuldade, deduzimos o quanto o Espiritismo tem de sabedoria, no seu tríplice aspecto de Ciência, Filosofia e Religião: os desdobramentos científicos, filosóficos e religiosos da clonagem lá estão. “Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará” (4)
O Livro dos Espíritos esclarece que na reencarnação o “espírito se une ao corpo no momento da concepção, isto é, no instante da formação do zigoto ou célula-ovo.” (5) Segundo o Gênio de Lyon “essa célula inicial exerce sobre o espírito uma atração tão irresistível, que ele, geralmente, une-se a ela, instantaneamente, através de “um laço fluídico” do seu perispírito ou corpo sutil.”(6) André Luiz descreve “o instante da concepção ou fertilização como sendo o das primeiras movimentações do espírito na matéria, quando começa, então, a estruturar o novo corpo. Ele atua sobre a célula-ovo como um vigoroso modelo, como se fosse um ímã entre limalhas de ferro.” (7)
Não há como duvidar que chegará  o momento em que a genética encontrará recurso para clonar o ser humano, mas quando isso for possível, evidentemente o espírito reencarnará. Quando a ciência conseguir meios que facultem a reencarnação, o espírito se fará presente. Observemos que a fecundação "In Vitro" substituiu perfeitamente o organismo humano. Detalhe: Kardec não confirma que, apenas, no momento da fecundação o espírito pode se unir ao corpo. Ele afirma que no momento da fecundação isso ocorre, mas não somente neste. Este raciocínio deve ser aplicado caso a clonagem humana seja fatível.
A reprodução humana, certamente, passará por mudanças consideráveis ao longo dos próximos séculos, por isso, não devemos nos surpreender com a clonagem reprodutora (8) e mesmo com as gestações em ambientes extra-uterinos. Destarte, novos conhecimentos espíritas precisam ser incorporados à Doutrina sobre um momento alternativo que o Espírito possa se unir ao corpo.  Também, entendemos que o fato de a fecundação se dar fora do útero, em nada interferirá no processo de encarnação, pois este ovo gerado será implantado no útero materno e se desenvolverá normalmente.
Para os especialistas espíritas, as indagações bioéticas continuam em aberto, aguardando progressos tecnológicos na área da pesquisa espiritual e, sobretudo, avanços humanos, no campo do amor e da misericórdia. Portanto, a clonagem humana será importante quando a Ciência estiver iluminada pelo conhecimento do espírito e trabalhando pelo engrandecimento espiritual da Humanidade.
Jorge Hessen
http://jorgehessen.net
jorgehessen@gmail.com

FONTES:
(1)    A palavra clone, tem origem etimológica grega – klón – que significa broto, ramo. O clone é um ser VIVO, que tem a mesma constituição genética de outro; é o “broto” da planta que, ao ser destacado, pode se desenvolver como a planta-mãe.
(2)    Simonetti , Richard. Reencarnação: Tudo o que você precisa Saber, Bauru-SP: Editora: CEAC, 2001
(3)    Kardec, Allan.  Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed FEB, 1991, perg 356
(4)    Kardec, Allan.  A Gênese, Rio de Janeiro: Ed FEB, 1978, cap. 55
(5)    Kardec, Allan.  Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed FEB, 1991, perg 344
(6)    Kardec, Allan.  A Gênese, Rio de Janeiro: Ed FEB, 1978, cap. 11
(7)    )Xavier, Francisco Cândido. Missionários da Luz, ditado pelo espírito André Luiz, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1992, cap. 13
(8)    Alguns espíritas defendem que a utilização dos métodos de clonagem deve ser exclusivamente para fins terapêuticos, jamais, reprodutivos.
  

26 março 2010

AYAHUASCA? - ESTADO ALTERADO DA CONSCIÊNCIA? LOUCURA? OBSESSÃO?

Parentes e o advogado de Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, suspeito de ter matado o cartunista Glauco e o filho Raoni, afirmam que o homicida fazia tratamento psicológico, psiquiátrico e antidrogas, e que seu quadro de esquizogrenia teria agravado após ter tido contato com a igreja do santo Daime. Há dois anos, Carlos Eduardo começou a frequentar a seita. E isso coincide com o tempo em que seu estado de saúde piorou. Alguns afirmaram que não se deveria permitir que o jovem ingerisse a bebida enteógena. Para alguns estudiosos, ingerir bebida enteógena (1) sacramental, conhecida como chá de Ayahuasca (santo Daime), pode agravar ou gerar um estado psicótico ou problemas psicológicos.
O chá de Ayahuasca é consumido por comunidades indígenas da Amazônia há, pelo menos, 300 anos e para alguns não chega a ser um alucinógeno, porém, provoca um estado alterado de consciência e, por isso, não é combatido nem condenado pelas autoridades.  Seguidores dessas seitas afirmam que o uso do Daime nos cultos não deve ser encarado como uma droga, mas, sim, como um elemento “religioso” importante. Porém , sabemos que muitas substâncias “inofensivas”, além de serem tóxicas, também, são viciativas, ou seja, causam dependência, que pode ser física, psicológica e, por via de extensão, “espiritual”. Para tais praticantes, beber o chá não traz problemas à saúde física e mental, se for administrado corretamente. E se não for administrado corretamente? Estamos convencidos de que essa relação é emblemática.
Quem ingere chá de Ayahuasca tem alteração de consciência. Pode ocorrer certo descontrole, dor e perturbação evidentes; sintomas que são percebidos, inclusive, em nível de sensações perispirituais. Se o objetivo (o tal caráter “religioso”) for manter contato com o “mundo espiritual”, é importante alertar que, para se obter um intercâmbio com o mundo dos espíritos, é, absolutamente, dispensável a ingestão de quaisquer substâncias modificadoras da consciência. Portanto, é, totalmente, desnecessária a utilização do chá do santo Daime para esse fim; nem mesmo pode-se dizer que facilite o transe mediúnico; muito pelo contrário, pode ser, inclusive, prejudicial, dependendo do caso. O transe mediúnico é favorecido pela educação dos sentimentos e não por meios artificiais, pois é um fenômeno, absolutamente, natural.
Há alguns anos, pesquisadores da USP, de Ribeirão Preto, tentam conhecer melhor os efeitos do chá usado no Santo Daime e como ele atua no cérebro. Após a ingestão do chá, a substância vai para o estômago, entra na corrente sanguínea e segue para o cérebro, onde se espalha. O lado mais ativado é o hemisfério direito, que controla as emoções, como: satisfação, insatisfação, equilíbrio, desequilíbrio e euforia. Os estudos mostram que o chá leva, em média, meia hora para fazer efeito. Em uma hora, as pessoas começam a apresentar alterações de comportamento: primeiro, um estado de relaxamento; depois, muita euforia e, logo em seguida, alteração de percepções. É quando começam as visões distorcidas do cérebro.
A Doutrina Espírita esclarece que “os órgãos têm uma influência muito grande sobre a manifestação das faculdades [espirituais]; porém, não as produzem; eis a diferença. Um bom músico com um instrumento ruim não fará boa música, mas isso não o impedirá de ser um bom músico.” (2) O Espírito age sobre a matéria e a matéria reage sobre o Espírito numa certa medida, e o Espírito pode se encontrar, momentaneamente, impressionado pela alteração dos órgãos pelos quais se manifesta e recebe suas impressões materiais”. (3) Cada caso é um caso, mas, sabe-se que certas substâncias, que alteram a consciência, trazem  conseqüências  para o corpo físico, para o perispírito e para a mente. Para o corpo físico, são inúmeros os malefícios, desde a dependência física e sintomas que podem levar a quadros de intoxicação aguda, até a morte (há caso registrado em Goiás). Para o perispírito, a consequência é a impregnação energética-mórbida nesse corpo. E pior, o psicossoma, que é o modelo organizador biológico, leva, com ele, toda a lesão, inclusive, para outra encarnação.
“A loucura tem, como causa principal, uma predisposição orgânica do cérebro, que o torna, mais ou menos, acessível a algumas impressões. Se houver predisposição para a loucura, ela assume um caráter de preocupação principal, transformando-se em idéia fixa, podendo tanto ser a dos Espíritos, em quem com eles se ocupou, como poderá ser a de Deus, dos anjos, do diabo, da fortuna, do poder, de uma arte, de uma ciência, da maternidade ou a de um sistema político-social.” (4) No trágico caso “Cadu/Glauco/Raoni”, tudo nos leva a crer que o homicida é um esquizofrênico. Sua doença mental apresenta um conjunto de sintomas bastante diversificado e complexo, sendo, por vezes, de difícil compreensão. Essa psicopatologia pode surgir e desaparecer em ciclos de recidivas e remissões. Hoje, é encarada, não como uma doença única, mas, como um grupo de enfermidades, atingindo todas as classes sociais e grupos humanos.  Geralmente, o diagnóstico tem mostrado níveis de confiabilidade, relativamente, baixos ou inconsistentes.
Lembrando, aqui, que a esquizofrenia não é a dupla pessoalidade, pois é muito mais ampla que isso, e não há motivos de incluir, nela, os Transtornos de Personalidade Múltipla. É uma doença gravíssima que atinge, aproximadamente, 60 milhões de pessoas do planeta (1% da população mundial), sendo distribuída, de forma igual, pelos dois sexos. A sua diagnose tem sido criticada como desprovida de validade científica ou confiabilidade, e, em geral, a validade dos diagnósticos psiquiátricos tem sido objeto de críticas. Os sintomas podem ser confundidos com "crises existenciais", "revoltas contra o sistema", "alienação egoísta", uso de drogas, etc.
O delírio de identidade (achar que é outra pessoa - o Carlos Eduardo acreditava ser “Jesus”) é a marca típica de um esquizofrênico. Foi, durante muitos anos, sinônimo de exclusão social, e o diagnóstico de esquizofrenia significava internação em hospitais psiquiátricos (manicômios) ou asilos, como destino "certo", onde os pacientes ficavam durante vários anos. A Organização Mundial de Saúde editou critérios objetivos e claros para a realização do diagnóstico da esquizofrenia. As causas do processo patogênico são um mosaico: a única coisa evidente é a constituição pluricausal da doença. Isso inclui mudanças na química cerebral [a atividade dopaminérgica é muito elevada nos indivíduos esquizofrênicos], fatores genéticos e, mesmo, alterações estruturais.
É importante frisar que a Esquizofrenia tem cura. Até bem pouco tempo, pensava-se que era incurável e que se convertia, obrigatoriamente, em uma doença crônica e para toda a vida. Atualmente, entretanto, sabe-se que uma porcentagem de pessoas que sofre desse transtorno pode recuperar-se por completo e levar uma vida normal, como qualquer outra.
Não podemos desconsiderar, ante o fato (“Cadu/Glauco/Raoni”) narrado no texto, o processo obsessivo, consoante esclarecem os ditames doutrinários. André Luiz, Espírito, comenta que “muitos dos nossos irmãos desencarnados, ainda presos a sentimentos de ódio e ira, cercam suas vítimas encarnadas, formando perturbações que podemos classificar como "infecções fluídicas" e que determinam o colapso cerebral com arrasadora loucura”. (5)
Jorge hessen
http://jorgehessen.net
jorgehessen@gmail.com
Fontes:
(1)     estado xamânico ou de êxtase induzida pela ingestão de substâncias alteradoras da consciência. É um neologismo que vem do inglês: entheogen ou entheogenic proposto por estudiosos desde 1973.
(2)     Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 2001, questão 372
(3)     Idem questão 375
(4)     Idem – Introdução , item 15, A Loucura e o Espiritismo
(5)     Xavier, Francisco Cândido. Evolução Em Dois Mundos, ditado pelo Espírito André Luiz, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 2000

22 março 2010

ALGUMAS EXPLICAÇÕES ESPÍRITAS PARA UMA LEITORA DO BLOG



Sem uma religião definida, embora crente em Deus, uma leitora dos artigos do nosso blog pediu-nos alguns esclarecimentos. Ela mesma considera inaceitável a fé cega nos mitos da Gênese Mosaica e do Novo Testamento, citando os seis dias da Criação, a arca de Noé, Adão e Eva, a serpente e a maçã, o Paraíso perdido, a virgem Maria de Nazaré, a estrela guia, etc. Porém, o que mais a intriga é: Por que deificaram somente Jesus, se tantos outros cristos que, certamente, passaram pela humanidade e que, também, deveriam operar os tais “milagres”, permaneceram anônimos na História? Segundo ela, como admitir que Jesus tenha vindo ao mundo para sofrer pelos nossos “pecados”? Por que Deus não impediu a crucificação do Mestre, consentindo que O matassem?
Percebemos que o raciocínio da nossa leitora é aguçado, sem dúvida; mas, faz-se mister considerar que o raciocínio humano vem sendo trabalhado, de muitos séculos no planeta, pelos vícios de toda sorte. “Temos plena confirmação deste asserto no ultra-racionalismo europeu, cuja avançada posição evolutiva, ainda agora, não tem vacilado entre a paz e a guerra, entre o direito e a força, entre a ordem e a agressão.”(1) Sobre suas questões, vamos por partes. Os hábitos mentais dos espíritas, também, tendem a ser conduzidos pela fé raciocinada.
Sobre os mitos mosaicos que cita, lembramos que se Moisés se utilizou de muitas metáforas, e se não transmitiu ao mundo a lei definitiva, ele deu, à Terra, as bases da Lei divina e imutável. Aqui devemos considerar que os homens receberão, sempre, as revelações divinas de conformidade com a sua posição evolutiva. Para nós, a Humanidade da Era Cristã recebeu a grande Revelação em três aspectos essenciais: Moisés trouxe a missão da Justiça; o Evangelho, a revelação insuperável do Amor, e o Espiritismo, em sua feição de Cristianismo redivivo, traz, por sua vez, a sublime tarefa da Verdade.
Sem querer esbarrar na deificação do Cristo, sabemos que no centro das três revelações encontra-se Jesus-Cristo, como o fundamento de toda a luz e de toda a sabedoria. Portanto, não há outros Cristos na Terra. Ele, o Mestre, está conosco há mais de 4,5 bilhões de anos. Jesus foi o divino escultor da obra geológica do planeta. Junto de seus prepostos, iluminou a sombra dos princípios com os eflúvios sublimados do seu amor, que saturaram todas as substâncias do mundo em formação. E mais ainda, “Todas as entidades espirituais encarnadas no orbe terrestre são Espíritos que se resgatam ou aprendem nas experiências humanas, após as quedas do passado, com exceção de Jesus-Cristo, fundamento de toda a verdade neste mundo, cuja evolução se verificou em linha reta para Deus, e em cujas mãos angélicas repousa o governo espiritual do planeta, desde os seus primórdios.”(2)
Sobre a supremacia do Cristo, lembremos do “Meu Pai e eu somos Um”. Essa afirmativa evidenciava a sua perfeita identidade com Deus, na direção de todos os processos atinentes à marcha evolutiva do planeta terrestre. (3) Por várias razões, qualquer comentário sobre o Cristo não julgamos acertado fazer, para não condicionar a figura Dele aos meios humanos, num paralelismo injustificável, porquanto, em Jesus, temos de observar a finalidade sagrada dos gloriosos destinos do espírito. “N’Ele, cessaram os processos tacanhos de julgamentos humanos, sendo indispensável reconhecer, na sua luz, as realizações que nos compete atingir. Representando, para nós outros, a síntese do amor divino, somos compelidos a considerar que, de sua culminância espiritual, enlaçou, no seu coração magnânimo, com a mesma dedicação, a Humanidade inteira, depois de realizar o amor supremo.”(4) É que Jesus,  com Amor, manifestou-se na Terra no seu esplendor máximo; Com Jesus, a Justiça e a Verdade nada mais são que os instrumentos divinos de exemplificação, Ele que é o Cordeiro de Deus, alma da redenção de toda a Humanidade.
Portanto, o  tipo mais perfeito que Deus ofereceu ao homem para lhe servir de guia e modelo foi o Cristo. Para Allan  Kardec “Jesus é para o homem o exemplo da perfeição moral a que pode pretender a humanidade na Terra. Deus nos oferece Jesus como o mais perfeito modelo, e a doutrina que ensinou é a mais pura expressão de sua lei, porque era o próprio Espírito Divino e foi o ser mais puro que apareceu na Terra. Se alguns daqueles que pretenderam instruir o homem na lei de Deus algumas vezes o desviaram, ensinando-lhe falsos princípios, foi por se deixarem dominar por sentimentos muito materiais e por ter confundido as leis que regem as condições da vida da alma com as do corpo. Muitos anunciaram como leis divinas o que eram apenas leis humanas criadas para servir às paixões e dominar os homens.”(5)
A respeito dos mitos e crendices do Novo Testamento, sabemos que foram impostos por seres sem escrúpulos. A começar com Constantino, que permitiu o famigerado Concílio de Nicéia. Posteriormente, com Teodósio, oficializando o Cristianismo no Estado Romano. Em 384, São Jerônimo teve a missão de redigir uma tradução latina do Antigo e do Novo Testamento. Essa tradução tornar-se-ia a norma das doutrinas da Igreja: foi o que se denominou a “Vulgata”.  Essa tradução oficial, que deveria ser definitiva, segundo a cúpula da Igreja, foi, entretanto, alterada em diferentes épocas, por ordem dos ulteriores pontífices. Portanto, os chamados livros canônicos, foram submetidos a diversas e trágicas interpolações para satisfazer os mesquinhos interesses da Igreja. “Sufocaram, antes de desabrochar, os fortalecedores princípios que teriam conduzido os povos à verdadeira crença, à que eles hoje em dia inda procuram. Tudo para assegurar, fortalecer, tornar inabalável a autoridade da Igreja.” (6)
Sobre a crucificação do Messias, permitida por Deus, deve ser apreciado, tão-somente, pela dolorosa expressão do Calvário? Cremos que não, pois o Gólgota representou o coroamento da obra do Senhor, mas, o sacrifício na sua exemplificação, verificou-se em todos os dias da sua passagem pelo planeta. E o cristão deve buscar, antes de tudo, o modelo nos exemplos do Mestre, porque o Cristo ensinou com amor e humildade o segredo da felicidade espiritual, sendo imprescindível que todos os discípulos edifiquem, no íntimo, essas virtudes, com as quais saberão demonstrar ao calvário de suas dores, no momento oportuno. (7)
Os mistérios das Leis divinas são insondáveis. Óbvio que não cai um fio de cabelo de nossas cabeças sem que Deus o saiba e permita. A crucificação estava nos ditames da Vontade suprema e não havia como ser modificada. E, mais ainda, a crucificação teve efeito simbólico, uma vez que, após a condenação, o Mestre ressurge para nós. Desde então, a morte deixou de ser o lúgubre ingresso para o Nada; porquanto, na verdade, é a esplendorosa revelação de que a vida é eterna, como perenes serão as realizações do bem, na terra e no espaço. Quando o Celeste Amigo revelou o Túmulo Vazio, Ele venceu a morte. É verdade! Todos os evangelistas narram as aparições de Jesus, após sua crucificação, com circunstanciados pormenores, que não permitem se duvide da realidade do fato. Pois bem, minha irmã, eis o motivo pelo qual Deus não impediu a crucificação de Jesus.
Em outro  assunto, a leitora do blog http://jorgehessenestudandoespiritismo.blogspot.com/ lembra o aborto provocado, questionando se essa decisão não deveria ser da mãe, uma vez que o livre-arbítrio nos dá, a todos, a liberdade de escolha?  Explicamos que o aborto provocado, para quem estuda a Doutrina Espírita e segue os conselhos dos Espíritos, constitui crime.  Se você diz: Eu não praticaria, mas que outras mulheres tenham o direito de escolha é nada mais, nada menos que presenciar alguém prestes a cometer suicídio e fechar os olhos, não tentando, de forma alguma, impedi-lo e pensar, intimamente: - Nada posso fazer. A escolha é dele.
Portanto, tentar impedir, o quanto nos seja possível, que mulheres cometam o aborto, nada mais é que valorizar a vida dessas futuras mães e reconhecer a importância da encarnação dos Espíritos que se ligam a elas, desde o momento da fecundação. Que a leis humanas e as religiões continuem firmes no propósito da não descriminalização do aborto.
Jorge Hessen
http://jorgehessen.net
jorgehessen@gmail.com
Fontes:
(1)    Xavier, Francisco Cândido. O Consolador, ditado pelo espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed FEB, 2001
(2)    idem pergunta 243
(3)    idem pergunta 288 –
(4)    idem pergunta 327
(5)    Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed. Feb, 2001, pergunta 625
(6)    Denis. Léon.  Cristianismo e Espiritismo, Rio de Janeiro: Editora FEB, 2001
(7)    Xavier, Francisco Cândido. O Consolador, ditado pelo espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed FEB, 2001, pergunta 286 –

20 março 2010

UM DIÁLOGO ABERTO SOBRE COBRANÇA DE TAXAS DE EVENTOS "ESPIRITAS"

Cícero:
Prezado irmão Jorge

Gostaria de parabenizá-lo pelo tema industrialização de eventos. Ressaltar as oportuníssimas orientações promovidas pela Federação Espírita do Paraná é apenas dignificar o nosso movimento, isento dos apelos falaciosos do momento. Lembrar que neste ano em que se comemora o centenário do querido Chico Xavier há um movimento frenético de muitas casas espíritas para estarem presentes nessa homenagem ao inesquecível médium. Como se o querido Chico aprovasse semelhante fato. Esquecendo-se de seu exemplo que nunca cansou de nos conclamar a todos para um espiritismo simples, com Jesus. Por isso nunca deixou de estar debaixo de um abacateiro, lado a lado com os desprovidos dos bens materiais nos deixando a lição inolvidável de que sem abraçarmos a causa simples e os simples da sociedade não chegaremos a lugar algum. Portanto escrever sobre cobranças de taxas em pleno frisson do nosso movimento é de fato estimular a ira de muitos espíritas que estão na cúpula de casas de nossa doutrina julgando-se benfeitores da humanidade por suas falas mansas e sorrisos largos, cheio de chavões de conteúdos caridosos. Se o Espiritismo é para todos que de fato em seu caminho não encontre nenhuma cobrança imposta e legitimada de taxas. E se Vinde a mim todos de corações simples é preciso aparar arestas e revolver o caminho de tal maneira que o solo de nossas edificações doutrinárias sejam sedimentados em um crescimento capaz de sobrepor a qualquer vendaval mesmo que este tenha o poder de sedução capaz de envolver os bens intencionados cujo objetivo seja discutir de forma pomposa as orientações maiores de nossa Causa e nisso Jesus sabia das dissimulações humanas registrando que o comportamento do coração deveria estar destituído de qualquer natureza humana para melhor vivenciar a comunhão com o alto. Não podemos apoiar essas determinações em que os meios justificam os fins, porque por trás dos bastidores há a presença dos espetáculos, dos currículos acadêmicos envernizados pela vaidade perniciosa, enfim há presença da erva daninha espiritual em que nada acrescenta. Querido amigo que o Senhor da Vida possa continuar fortalecer sua vida, seu trabalho para que proporcione sempre as inspirações que incomodam, mas que não passam em vão. Abraços profundo do amigo e irmão de ideal

Cícero

Jorge Hessen:
Prezado Cícero

Sua afabilidade para conosco e seu apoio ao nosso trabalho cristão, servem-nos de grande estímulo.
Embora não o conheça pessoalmente, identifico-o como um vanguardeiro discípulo de Jesus, nosso Mestre maior.
Muito embora eu tenha total certeza de que nossa proposta de reflexão sobre o tema nada servirá de obstáculo a que se promovam cada vez mais tais eventos pagos, os quais são (na minha concepção doutrinária) um insulto à fraternidade, à lei do amor e da caridade, nenhuma ofensa, dirigida a mim, direta ou indiretamente por parte dos que têm opinião diferente da minha, ser-nos-á motivo de desequilíbrio interior, pois temos consciência plena de que estamos (eu e as diretrizes da Federação Espírita do Paraná) no caminho seguro e, mesmo porque, se tais confrades conseguem convencer as mentes de espíritas incautos, pelas aparências, não podem enganar a Deus. Ao ensinamento de Jesus que diz: “Quando fizerdes um festim, convidai para ele os pobres, os estropiados, os coxos e os cegos; e estareis felizes, porque não terão meios para vo-lo retribuir; porque isso vos será retribuído na ressurreição (reencarnação) dos justos”, respeitosamente, concluímos: convidai, principalmente, os espíritas CRISTÃOS assalariados que sobrevivem às custas de parcos recursos financeiros para manterem uma casinha popular alugada, os espíritas CRISTÃOS iletrados, os espíritas  CRISTÃOS desempregados, os espíritas CRISTÃOS que passam por todas os tipos de provações materiais.
Quantos há, ainda no mundo e, até mesmo, no movimento espírita (o que é uma lástima) que, ao rejeitar as nossas observações justas, faz repelir, raivosamente, as mais sensatas advertências?  Se, nos momentos de surtos de ódio manifesto, tais irmãos pudessem, por um instante sequer, olhar-se ao espelho, veriam refletida a imagem da pobre vítima que lhes compromete a vida por um longo curso de anos. Devemos apiedar-nos deles! Lastimamos, muito!
Enfim, meu amigo, sigamos confiantes, apoiados nos ensinamentos do Nosso Senhor Jesus Cristo, dando gratuitamente o que Dele recebemos gratuitamente, ou seja, Amor.
Não nos importemos com os que se fazem quais "escribas e fariseus" em nossa Era, pois, que, um dia, forçosamente, deixarão de ser quais são e seguirão os trajetos de Jesus, como muitos  estamos nos esforçando para fazê-lo.
Mais uma vez, obrigado pelo apoio de sempre. Em você, Cícero, identificamos uma certeza cristalina: Não estamos sozinhos nesse afã de um Espiritismo mais simples, consoante Chico Xavier vivenciou.
Aviso-lhe que estou enviando, por cópia, este nosso diálogo para os mesmos que, como eu mesmo, receberam as contundentes e pouco fraternais críticas aos argumentos que publicamos sobre os festivais de eventos espiritas industrializados para a elite.
Informo-lhe que construímos um blog, exclusivamente, para permanecer definitivamente anexado ao blog principal (http://jorgehessenestudandoespiritismo.blogspot.com/), mantendo as advertências, qual archote poderoso, que hão de ajudar a iluminar idéias e caminhos de alguns líderes do movimento espírita atual. 
Atenciosamente,
Jorge Hessen