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19 de maio de 2013

ENTREVISTA DO PRESIDENTE DA FEB PARA "O CONSOLADOR" - FINAL




JORGE HESSEN
jorgehessen@gmail.com
Brasília, Distrito Federal (Brasil) 


Antonio Cesar Perri de Carvalho: 

“Recentemente, foi aprovada a inserção de uma antiga campanha da USE ‘Comece pelo Começo’, ou seja, comece pelas obras de Kardec. Nós vamos introduzi-la também dentro da FEB” 

Radicado em Brasília, Cesar Perri vem trabalhando para serenar os desafios que afrontará para coordenar o Movimento Espírita Brasileiro 

(Parte 2 e final) 

 
Antônio Cesar Perri de Carvalho (foto), presidente da Federação Espírita Brasileira, nasceu em Araçatuba (SP) e atualmente reside em Brasília (DF). Foi fundador de mocidade e de centro espírita, conselheiro e presidente da União Municipal Espírita de Araçatuba, diretor e presidente da USE – União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo, secretário geral do Conselho Federativo Nacional e membro da Comissão Executiva do Conselho Espírita Internacional (CEI). 
Na entrevista que nos concedeu, cuja primeira parte foi publicada na edição passada, Cesar Perri fala sobre os desafios que enfrentará para coordenar o Movimento Espírita Brasileiro. Comenta ainda sobre obras mediúnicas polêmicas, eventos espíritas pagos, as obras de Emmanuel e André Luiz, o 4º Congresso Espírita Brasileiro, dentre outros temas. 

As obras psicográficas de André Luiz e, principalmente, as assinadas por Emmanuel têm sido recriminadas por alguns segmentos do Movimento Espírita. Qual a sua opinião sobre esse comportamento? 

Temos que respeitar essas tendências, assim como a diversidade de opinião, mas eu particularmente admiro profundamente os dois autores espirituais. Considero o Espírito Emmanuel o maior comentador do Novo Testamento. São nove livros publicados especificamente comentando os versículos do Novo Testamento, cinco deles pela FEB. É um aprofundamento à luz do Espiritismo que está disponível na Editora da FEB. 

Os romances históricos dele também recuperam fatos, tendo sempre como pano de fundo o Cristianismo, e estão sendo pesquisados hoje por alguns companheiros nossos. Algumas informações históricas divulgadas foram confirmadas, datas e fatos, por exemplo. Na obra Paulo e Estêvão e no livro Renúncia, temos casos de uma pessoa que vem fazendo pesquisa exaustiva, comprovando que determinadas descrições que Emmanuel faz de Paris no séc. XVII e no séc. XVIII conferem com os registros da época. Como é que Chico Xavier, uma pessoa que cursou apenas o antigo grupo escolar, morando numa cidade do interior, na década de 30 e década de 40, que não tinha acesso a comunicação nenhuma, saberia disso? Emmanuel nos presenteou com uma literatura monumental. 

Sobre André Luiz, ele não só detalha a relação entre mundo corpóreo e incorpóreo nas suas dimensões, como desde o livro Nosso Lar traz informações que são antecessoras de eventos científicos e de várias inovações. Na literatura de André Luiz encontramos não só o melhor entendimento da relação do psiquismo humano com o espírito imortal, e hoje a medicina vem estudando sobre isso, mas encontramos também a antecipação de inovações científicas e tecnológicas, com vários aparelhos e equipamentos que começaram a ser desenvolvidos a partir dos anos 50. Nós admiramos profundamente a obra de André Luiz e a obra de Emmanuel, e conseguimos estabelecer uma vinculação clara com a obra de Kardec, e isso é o mais importante. 

Considerando a disseminação do Evangelho com as fundações de “igrejas”, visitas e, sobretudo, intercâmbios epistolares de Paulo de Tarso com os “chefes” dos núcleos cristãos, pode-se identificar, nos primórdios do Cristianismo, um movimento organizado para a unificação dos postulados da Segunda Revelação? 

Nós identificamos claramente, nos primeiros cristãos, um trabalho que nos serve de inspiração e que estamos estimulando presentemente. Guardadas as devidas proporções, acreditamos que haja semelhança entre o trabalho dos cristãos primitivos e o Espiritismo. A rigor, a Codificação Espírita tem pouco mais de cento e cinquenta anos e isso é um período de tempo muito curto. A Doutrina se apresenta como Cristianismo Redivivo e o Consolador Prometido, que restabeleceria a Verdade e ensinaria algumas coisas a mais. Dessa forma, percebemos que os trabalhos pioneiros dos cristãos nos servem de estímulos, sim! 

Quando Paulo de Tarso reunia os interessados do Cristianismo para o estudo da mensagem de Jesus, considerando as condições da época, fazia visitas, estimulava o intercâmbio, levava orientação e praticava trabalhos mediúnicos. Observemos que na Carta aos Coríntios consta a necessidade de “ordem no culto”. Quando olhamos as necessidades dessa “ordem”, claramente é como se fosse orientação para prática mediúnica, certa disciplina. Ao final do trabalho, quando percebeu que não teria mais condições de visitar a todos, Paulo foi inspirado pelo Espírito Estêvão para minutar as epístolas, ou seja, estimulou o contato próximo, direto; todavia também a distância. Identificamos aí a origem, vamos assim dizer, daquilo que hoje nós praticamos na imprensa espírita. 

Essa era a razão predominante, o objetivo dele em ajudar, apoiar e orientar os primeiros agrupamentos cristãos, inclusive para a prática da caridade no verdadeiro sentido da palavra. Recordemos que existia entre eles muita solidariedade – dessa forma encontramos entre os primeiros cristãos as bases que inspiram o Movimento Espírita atual, com um detalhe fundamental: naquela época não existia hierarquia, não existia uma organização que preponderasse sobre outra; isso surgiu muito mais tardiamente, daí ser importante olharmos a vivência dos primeiros cristãos e verificarmos aquilo que aproveitamos como parte de reflexão e de orientação para o Movimento Espírita atual. 

Allan Kardec comenta no item 334, cap. XXIX, d´O Livro dos Médiuns, que a formação do núcleo da grande família espírita um dia consorciaria todas as opiniões e uniria os homens por um único sentimento: o da fraternidade. Estaria aqui o Codificador formulando alguma programação doutrinária visando à unidade dos espíritas por intermédio de instituições colegiadas? 

Allan Kardec trabalhou exatamente a ideia colegiada, e fala da fundamentação, do vínculo da fraternidade. Mas percebemos, igualmente, em “Obras Póstumas”, que ele nos orienta sobre o funcionamento das instituições. Anota sobre uma comissão não centralizada numa única pessoa e essa experiência que nos sugere foi uma ideia que serviu de referência para a atualidade. Notemos que a noção de presidencialismo, não só na questão político-partidária, como ocorre no Brasil, mas igualmente nas instituições espíritas, é um presidencialismo que às vezes excede o conceito do termo presidencialismo em si; muitas vezes chega a se confundir com o autoritarismo. 

Allan Kardec chega a propor que as decisões institucionais sejam colegiadas; que se discuta, que se troquem ideias, e nós estamos vivenciando essa experiência aqui na FEB. Desde que assumimos primeiramente de forma interina em maio de 2012, e atualmente eleito, trabalhamos em conjunto com todos os diretores da FEB, fazendo reuniões com periodicidade muito curta e tratamos todos os assuntos e decidimos em nível de diretoria. Entendo que é uma experiência enriquecedora, facilita a tomada de decisões e evita, às vezes, determinadas tendências pessoais. 

Os princípios institucionalizados da Unificação inibem o ideário da união espontânea entre os espíritas? 

A rigor, não. Em 1949 foi definido através do Pacto Áureo um itinerário de ação, dando origem ao CFN – Conselho Federativo Nacional, que é composto pelas entidades federativas estaduais com base na obra de Allan Kardec. Hoje em dia, dentro do contexto da ideia de união e de unificação, podemos perfeitamente estabelecer propostas de união e de parceria entre várias instituições, somando esforços, e portanto não há necessidade, desde que haja propósitos comuns, de ficarmos na dependência de conceitos antigos de controles. Essa é a ideia. 

O Pacto Áureo ainda pode ser avaliado como o grande marco da Unificação? 

Pode ser considerado, sim, pois ele é genérico. Ele define a obra de Allan Kardec e decide também com base na obra “Brasil Coração do Mundo Pátria do Evangelho”. Os membros do Pacto chegaram à conclusão que esse livro mostrava qual seria a missão do Espiritismo no Brasil e qual a missão espiritual do Brasil também. É esse o roteiro que ele oferece. O Pacto não entra em detalhamentos, mas fala da União e criou o Conselho Federativo Nacional. Para o CFN funcionar ele foi primeiramente introduzido no Estatuto da FEB. Com a instalação do CFN, a área federativa da FEB é corporificada com a ação do CFN – é importante que saibamos disso. Então o CFN é que traz a orientação geral e define planos para o Movimento Espírita Nacional. Esse Conselho é presidido pelo presidente da FEB, mas é integrado pelas representações dos 27 estados. 

Quais os grandes desafios vistos para o Movimento Espírita Brasileiro? 

Nós estamos vivendo vários desafios. A ideia de difundirmos o Espiritismo, na sua pureza, é um grande desafio, pois, como ficou claro, de várias orientações de Allan Kardec, sempre haveria alguma tendência natural de se valorizar pessoas, de se personalizar, e com isso, o que nós assistimos atualmente é que há uma diferença entre a proposta de Kardec e algumas práticas. Por exemplo, na apresentação de O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec explica que optou por não colocar o nome dos médiuns junto às mensagens e apenas colocou o nome dos Espíritos, a cidade e a data. Para Kardec era mais importante o conteúdo das mensagens do que o nome do médium. Infelizmente, notamos que hoje em dia muitas pessoas, antes de ler o texto, querem saber primeiro quem é o médium, ou seja, inverte-se a situação. 

Urge buscar-se mais a coerência doutrinária e maior compatibilidade com a base da Codificação ao invés de ficarmos exaltando ou levantando fileiras em torno de médiuns A, B, C ou D, ou seja, temos que somar, independente de quem seja o médium, desde que a mensagem tenha coerência e esteja fundamentada nas obras de Kardec; esse é o grande desafio. 

O modelo federativo foi idealizado por mentes superiores, não temos dúvidas. O crescimento do Espiritismo gera distorções e perda na qualidade da mensagem e da prática espírita – é fato – fenômeno sociologicamente explicável. Boa parte dos dirigentes de casas espíritas nem sempre valorizam as ações dos órgãos de Unificação, atribuindo-lhes caráter meramente administrativo, burocrático, com pouco sentido prático. Considerando a sua larga experiência doutrinária, seja como fundador de mocidade espírita, conselheiro e presidente da União Municipal Espírita de Araçatuba, membro fundador de centro espírita, diretor e presidente da USE (União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo) e, por fim, presidente da Federação Espírita Brasileira, quais as ações que pretende desenvolver para aproximar a FEB das casas Espíritas? 

Reportarei a minha primeira experiência. Quando era muito jovem, assumi a presidência da União Municipal Espírita de Araçatuba – órgão da USE - São Paulo. Naquele momento batalhei contra essas dificuldades, porque o Movimento de Unificação era recente, tinha apenas 20 anos (pós Pacto Áureo). Nessas condições, havia uma certa confusão entre as lideranças espíritas, sobretudo de qual seria a função do órgão unificador. Alguns tinham receio de que seria um órgão controlador ou fiscalizador. Por outro lado, havia muitas pessoas (jovens) no Movimento de Unificação, que pensavam também assim, e ocorriam muitos conflitos. As reuniões eram simplesmente administrativas, então quando assumimos a presidência da UMEA, dentro desse contexto, tornamos as reuniões minimamente administrativas e preponderantemente voltadas para diálogos, para as propostas de ação, juntando esforços, de tal modo que conseguimos descentralizar, fazendo as reuniões em rodízios pelos centros espíritas da cidade. Aproveitamos experiências para que elas se tornassem coletivas. 

Essa a ideia que, guardadas as devidas dimensões, ainda seguimos, embora atualmente exista uma abrangência gigantesca e um grau de complexidade muito maior, mas mantivemos essa postura para tornar mais dinâmicas as reuniões do CFN. Vejamos: conseguimos suprimir a leitura de relatórios, e hoje as federativas encaminham um relatório por meio de um formulário eletrônico – transferimos para um DVD e distribuímos; desse modo utilizamos o espaço da reunião para discutir planos de ação e, assim, avaliarmos situações que merecem discussão para o desenvolvimento espírita. Entendemos que esse seja o melhor caminho. 

Considerando que as sandálias de nosso Mestre Jesus sempre estiveram próximas aos necessitados e sofridos, e especialmente junto a esses irmãos em humanidade foi que Ele nos ofereceu provas de amor insuperáveis, e considerando que sobre a FEB repousam muitas esperanças, mas também expectativas, como atuará para se aproximar dos pobres e pouco instruídos na educação formal, dado que representam significativo estrato da sociedade brasileira? 

Essa é uma preocupação para a qual estamos procurando colocar a solução em prática. Há três anos consubstanciamos um projeto que se titulava “interiorização”, ou seja, estimulávamos a ação de representantes, diretores e colaboradores da FEB juntamente com uma federativa estadual para ir ao interior, não ficarmos só nas capitais. Assim, tive o prazer de conhecer duas cidades do interior do Amazonas, uma delas viajando de barco durante duas horas, justamente para ter o contato com a realidade da base. Um desses centros que visitamos não possuía luz elétrica. A nossa participação à noite foi através do clarão de uma fogueira, porque para eles era uma ocasião especial, pois normalmente usavam a luz de velas. 

Após essa experiência (interiorização), começamos outros projetos que seriam implementados, que são as ações integradas de acolhimento, consolo, esclarecimento e orientação no centro espírita, porquanto concluímos também que aquela ideia de departamento ou setor, ou seja, muita burocracia, não seria efetiva, até porque a grande maioria dos centros espíritas do Brasil são casas simples e pequenas, não tendo espaço nem condições para tais trâmites. 

Assim, começamos a trabalhar em torno de um projeto, uma ação, um acolhimento junto a essas pessoas simples, além da ideia de valorizar os centros humildes, periféricos, pequenos, que às vezes não têm condições de manter os custos, mas podem perfeitamente seguir esses passos de acolhimento, consolo e orientação. 

Nós estamos caminhando nesse sentido e aí me recordo de um companheiro nosso que foi muito feliz na confecção de um cartaz com a imagem da formiguinha. Ele fez a comparação com a formiga e que nos remete a uma mensagem de Fénelon, no cap. I d´O Evangelho segundo o Espiritismo, em que o Espírito examina: “não são esses animálculos (formigas) que conseguem levantar o solo?” É a ideia do trabalho simples, mas persistente e em conjunto, isso que pretendemos disseminar. 

Suas palavras finais. 

As nossas palavras finais são de sugestão aos espíritas para que aproveitemos o momento que nós estamos vivendo, que é o período, segundo Emmanuel, de aferição de valores, e é um momento bastante delicado e sensível, porque nós temos os compromissos individuais e compromissos coletivos, e, com relação ao Movimento Espírita, é muito importante lembrar o nosso trabalho respaldado no propósito de união, de concórdia e de benevolência recíproca. Então é isso que deve animar a nossa atuação conjunta no Movimento Espírita e no relacionamento com a própria sociedade.

17 de maio de 2013

CÉREBRO HUMANO PUBLICADO NA REVISTA "ESPIRITISMO E CIÊNCIA"

Jorge Hessen
http://aluznamente.com.br

O cérebro é um complexo órgão composto de ligações, filamentos e redes bem estabelecidas que formam uma conexão transportando informações para todas as partes do corpo físico. Na “massa cinzenta” não há somente uma célula individual que decifra uma função distintiva, mas um grupo admirável delas vinculadas numa “rede neural”. A atividade comum dos múltiplos espaços do cérebro está abrangida com todas as funções cerebrais, incluindo as experiências de consciência, como os pensamentos, a visão, a audição, as destrezas.
A cada dia, a neurociência depara com vastos desafios (expostos ou ocultos) nas entranhas cranianas. “O cérebro assemelha-se a complicado laboratório em que o espírito – prodigioso alquimista – efetua inimagináveis associações atômicas e moleculares, necessárias às exteriorizações inteligentes.” (1) É a máquina ("hardware humano") que expressa a inteligência no mundo material; por isso, muitos estudiosos da mente humana fazem da inteligência um predicado do cérebro. São fascinantes as transformações encefálicas que sobrevêm diante dos esforços de aprendizagens de idiomas, música, ciências exatas, artes em geral. Até mesmo nos transes mediúnicos há alterações cerebrais. Pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Thomas Jefferson, da Filadélfia, EUA, monitorou os fluxos sanguíneos em diferentes regiões do cérebro durante a psicografia, sendo observada a atividade cerebral através de tomografia computadorizada por emissão de fótons únicos a áreas ativas e inativas. Foi constatado que a mediunidade altera a dinâmica cerebral. (2) Contudo, conforme Andrew Newberg, diretor de pesquisa do Myrna Brind Center of Integrative Medicine, “a reação cerebral à mediunidade recebe pouca atenção científica.” (3)
Admirável e insólito conjunto conexo de dezenas de bilhões de neurônios em rede específica e complexa, o cérebro é comparado ao mais extraordinário computador que o homem ainda não pode edificar. Suas secreções governam as reações de todo o cosmo fisiológico, trabalhando pela vida física e psíquica. Há semelhanças notáveis com a cibernética, pois os computadores contemporâneos são legítimos “cérebros artificiais”, conquanto extremamente elementares e restritos em analogia com o encéfalo psicossomático. São simples bancos de dados que resolvem entre duas opções, segundo um código preestabelecido e de acordo com o acervo de dados que têm registrado em suas memórias. É óbvio que não desejamos afirmar que o computador seja inteligente, e muito menos que tenha intuição, porém é exato expor que se aproveita de uma das qualidades da inteligência humana, ou seja, a memória.
Os resultados das pesquisas sobre as reações cerebrais, quando se estuda idiomas por exemplo, apontam para a expansão do hipocampo, dentre outros fenômenos encefálicos. Mas será que da influência dos órgãos se pode inferir a existência de uma relação entre o desenvolvimento do cérebro e o das habilidades e inteligências? Advertem os Benfeitores Espirituais para “não confundirmos o efeito com a causa. O Espírito dispõe sempre das faculdades que lhe são próprias. Ora, não são os órgãos que dão as faculdades [aptidões e inteligências], e sim estas que impulsionam o desenvolvimento dos órgãos.”(4)
O Espiritismo e a Ciência se completam, os princípios do mundo espiritual e as leis do mundo material são faces de um evento comum. A Ciência necessita do Espiritismo, tanto quanto o Espiritismo precisa da Ciência; isolados, não chegarão a um saldo final e submergirão no labirinto de suposições arriscadas. A neurociência é de viés essencialmente mecanicista, e logicamente, nesse caso, há uma diferença basilar entre uma ciência materialista e a ciência espírita, pois, enquanto a primeira faz do cérebro o excretor da habilidade e inteligência, a segunda faz do encéfalo apenas um instrumento do espírito, que é o ente inteligente individualizado.
Para alguns especialistas, um dos aspectos perturbadores do tema sintetiza-se nas indagações: “Cérebro menor é sinônimo de habilidade e inteligência mínimas?”; “Cérebro grande é garantia de uma inteligência e habilidade maiores?” Entendemos que habilidade (aptidão) e inteligência são atributos essenciais do espírito, portanto o corpo físico é simplesmente um envoltório que serve de instrumento para o exercício das capacidades espirituais. Entretanto, será que a massa cerebral maior realmente pode ser indício de maior aptidão e inteligência? E cérebro menor pode ser indicativo de inteligência e competência menor? As pesquisas de alguns neurocientistas garantem que sim.
Mas não podemos prever categoricamente a habilidade e inteligência de uma pessoa medindo o tamanho do seu cérebro. “Um dos alunos que estuda na universidade (Sheffield University) tem um QI de 126, ganhou prêmios como melhor aluno de matemática e tem uma vida social normal. Mas não tem cérebro, literalmente falando... Quando foi submetido a um exame, verificou-se que em vez de um cérebro normal de espessura de 4,5 centímetros entre os ventrículos e a superfície cortical, havia apenas uma fina camada de tecido de pouco mais de um milímetro de espessura. Seu crânio é preenchido apenas com fluido cerebrospinal.” (5)
É bastante difícil explanar sobre esses curiosos elementos a fim de apreciar a função desempenhada pelo cérebro; ir mais adiante, visando levantar pontos para melhor compreensão do assunto é desafiador. É interessante indagar aos neurocientistas: onde a sede da consciência e do pensamento? Do que são feitas as “vozes” e imagens da lembrança? Onde enxergamos as imagens produzidas pela imaginação? O que é o inconsciente e de onde brotam as lembranças antes de as termos conscientemente? O que é a mente e o que anima o corpo? São pontos que a neurociência não dá conta de explicar.
Conforme o Espírito André Luiz, o cérebro “se divide em três regiões distintas, onde, na primeira região, situamos a “residência de nossos impulsos automáticos”, simbolizando o sumário vivo dos serviços realizados; na segunda, localizamos o “domicílio das conquistas atuais”, onde se erguem e se consolidam as qualidades nobres que estamos edificando; na terceira, temos a “casa das noções superiores”, indicando as eminências que nos cumpre atingir. Numa delas, moram o hábito e o automatismo. Na outra, residem o esforço e a vontade; e, na última, moram o ideal e a meta superior a ser alcançada. E assim distribuímos o subconsciente, o consciente e o superconsciente. Como vemos, possuímos em nós mesmos o passado, o presente e o futuro.” (6)
Mesmo que permaneça aparentemente estacionária, a mente (espírito) prossegue seu caminho, sem recuos, sob atuação das forças visíveis ou invisíveis. Na vontade, “temos o controle que a dirige nesse ou naquele rumo, estabelecendo causas que comandam os problemas do destino. Sem ela, o desejo pode comprar ao engano aflitivos séculos de reparação e sofrimento; a inteligência pode aprisionar-se na enxovia da criminalidade; a imaginação pode gerar perigosos monstros na sombra, e a memória, não obstante fiel à sua função de registradora, conforme a destinação que a natureza lhe assinala, pode cair em deplorável relaxamento.” (7)
Ainda sob o enfoque espírita, “o cérebro é o dínamo que produz a energia mental, segundo a capacidade de reflexão que lhe é própria. A mente (espírito) é a mestra desse mundo microscópico, em que bilhões de corpúsculos e energias multiformes se aplicam a seu serviço. Dela procedem os fluxos da vontade, produzindo vasta rede de estímulos, reagindo ante as exigências da paisagem externa, ou atendendo às sugestões das zonas interiores. Posta entre objetivo e subjetivo, é coagida, pela lei divina, a aprender, verificar, escolher, repelir, aceitar, recolher, guardar, enriquecer-se, iluminar-se, progredir sempre.


Referência bibliográfica:

(1)    Xavier, Francisco Cândido. “Emmanuel”, ditado pelo espírito Emmanuel, RJ: Ed. FEB, 1938 
(2)    As áreas do lóbulo frontal estão ligadas ao raciocínio, ao planejamento, à geração de linguagem, aos movimentos e à solução de problemas, pelo que os pesquisadores acreditam que durante a psicografia “mecânica” ocorre uma ausência de percepção de si mesmo e de consciência.
(3)    Artigo divulgado pela revista Public Library of Sciences, dezembro de 2012, disponível em http://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/efe/2012/11/17/cientistas-estudam-o-cerebro-de-mediuns-brasileiros-em-transe.htm , acessado em 07/02/2013
(4)    Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Editora FEB, 2002, questão 370.
(5)    Bruce H. Lipton. A biologia da crença - Ciência e espiritualidade na mesma sintonia, (os  estudos pioneiros de Lipton sobre a membrana celular foram os precursores de uma nova ciência, a epigenética, da qual se tornou fundador e um dos seus maiores especialistas). Disponível em http://www.guia.heu.nom.br/cerebro.htm , acessado em 06/03/2013
(6)    Xavier, Francisco Cândido. No mundo maior, ditado pelo espírito André Luiz, Rio de Janeiro: Editora FEB, 1947.
(7)    Xavier, Francisco Cândido. Pensamento e Vida, ditado pelo espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Editora FEB, 1999.

13 de maio de 2013

OS SONHOS SÃO CIRCUNDADOS DE ENIGMAS


Jorge Hessen
http://aluznamente.com.br

 Para determinados ortodoxos da academia, o sonho é uma experiência de imaginação do inconsciente durante o estágio de sono. Os neurocientistas, de modo geral, afiançam que o sonho é apenas uma espécie de tráfego de informação sem sentido, que tem por função manter o cérebro em ordem. É verdadeiramente estranho que um fenômeno tão corriqueiro quanto o dos sonhos tenha sido objeto de tanta indiferença pelos arautos do conservadorismo da ciência mecanicista, e que ainda se esteja a desprezar a causa dessas visões.
A metodologia da ciência dominante analisa tão somente os aspectos fisiológicos das atividades oníricas e ainda não conseguiu conceituar com clareza e objetividade o sono e o sonho. Contudo, algumas janelas estão se abrindo. Recentemente os cientistas do laboratório de Yukiyasu Kamitani, do Instituto Internacional de Pesquisas de Telecomunicações Avançadas (ATR) de Kyoto, Japão, organizaram interessante “dicionário” para definir por comparação os sinais do cérebro provindos das imagens do orbe dos sonhos. O estudo objetiva a interpretação plausível dos conteúdos das imagens oníricas através de um dispositivo decodificador das representações dos sonhos.
A análise da atividade cerebral foi realizada por ressonância magnética, permitindo registrar as “imagens” que os voluntários “viam” durante os sonhos, e compará-las a uma tabela de correspondências entre a atividade do cérebro e objetos ou temas de diversas categorias. Para obtenção das imagens sensíveis era necessário que o voluntário fosse acordado durante o sono, a fim de descrevê-las. Será mesmo que uma pessoa que dorme pode ter consciência de que está sonhando? Sim, garante o psiquiatra holandês Dr. Frederick Willem van Eeden, com absoluto respaldo do  Dr. Stephan Laberge, da Universidade de Stanford (EUA).
Os sonhos são cercados de mistérios desde os primórdios da existência humana. Para os povos antigos, eles carregavam algo de “sobre-humano”. Eram vistos como um meio de alguém receber orientações e mensagens do além, tanto das divindades quanto dos espíritos. Narrações sobre sonhos são recorrentes nas Escrituras. O texto bíblico reúne mais de 700 citações de sonhos e visões. Grande parte do conteúdo do Corão – livro do Islã – foi revelada a Maomé em sonho.
A “oniromancia” (previsão do futuro pela interpretação dos sonhos) tem ampla confiabilidade nas tradições judaico-cristãs – consta na Torá e na Bíblia que Jacó, José e Daniel possuíam a habilidade de decifrar os sonhos. No Novo Testamento, José é avisado em sonho pelo anjo Gabriel de que Maria traz no ventre uma Criança divina, e depois da visita dos Reis Magos um “anjo” em sonho o avisa a fim de fugir para o Egito e quando seria seguro retornar a Israel. No Islamismo, os sonhos bons são inspirados por Alá e podem trazer mensagens divinatórias, enquanto os pesadelos são considerados armadilhas de “Satã”.
Defendem alguns estudiosos que as imagens consistentes na mente das pessoas no instante do sono são, muitas vezes, resultado de percepções e de memórias antigas que vêm à tona e se encaixam. Isso explicaria os sonhos que parecem trazer soluções para a vida real, como a história do físico alemão Albert Einstein, que concluiu a Teoria da Relatividade depois de um “’cochilinho”. Paul McCartney, certa vez acordou com uma música maravilhosa na memória. Foi até o piano e começou a achar as notas. Tudo seguiu uma ordem lógica. Gostou muito da melodia e como havia sonhado com ela, não podia acreditar que tinha escrito aquilo. “Foi a coisa mais mágica do mundo”, disse o cantor. É dessa maneira que McCartney explicou a criação de "Yesterday", meio século atrás. Abraham Lincolnviu, em sonho, cenas de seu próprio velório, uma semana antes de ser assassinado, relatando-o ao amigo Ward Lamon, que escreveu o episódio em seu diário.
Pensadores, cientistas e filósofos como René Descartes e Friedrich August Kekulé von Stradonitz também tiveram em sonhos visões reveladoras. Descartes, em viagem à Alemanha, teve uma visão em sonho de um novo sistema matemático e científico. Kekulé propôs a fórmula hexagonal do benzeno após sonhar com uma cobra que mordia sua própria cauda. O pai da tabela periódica, Dmitri Mendeleiev, afirmou ter tido um sonho no qual era mostrado o modelo da tabela periódica atual.
Em 1900, com a publicação do livro A Interpretação dos Sonhos, Sigmund Freud propôs dar um caráter científico à matéria. Os sonhos são cargas emocionais armazenadas no inconsciente, que projetam imagens e sons. Fazendo uma analogia, poderíamos pensar numa espécie de "fotografia" do inconsciente naquele momento. Por isso, o sonho sempre demonstra aspectos da vida emocional. Nos sonhos sua linguagem são o que Freud denomina de simbólicas. Para entender seus variados conteúdos, temos que reconhecer o que os símbolos representam nesse sonho. Os sonhos são a estrada fidedigna para o conhecimento da mente.
Carl Gustav Jung, baseado na observação dos seus pacientes e em experiências próprias, tornou mais abrangente o papel dos sonhos, que não seriam apenas reveladores de desejos ocultos, mas sim uma ferramenta da psique que busca o equilíbrio por meio da compensação. Ao contrário de Freud, as situações absurdas dos sonhos para Jung não seriam uma fachada, mas a forma própria do inconsciente de se expressar. Ele aponta os sonhos como forças naturais que auxiliam o ser humano no processo de individualização.
Um aspecto muito importante em se atentar nos sonhos, segundo a linha junguiana, é saber como o sonhador, o protagonista no sonho (que representa o ego) lida com as forças malignas (a sombra), para se averiguar como, na vida desperta, a pessoa lida com as adversidades, a autoridade e a oposição de ideias.
Dormimos cerca de um terço de nossas vidas e o sono, além das propriedades restauradoras da organização física, concede-nos possibilidades de enriquecimento espiritual através das experiências vivenciadas enquanto repousamos. Os quadros simbólicos que os Espíritos fazem passar sob nossos olhos podem  nos dar úteis advertências e salutares conselhos, se são Espíritos bons, ou “induzir-nos ao erro ou lisonjear paixões, se são Espíritos imperfeitos.". (1)
O Codificador indagou aos Espíritos "por que não nos lembramos de todos os sonhos?". Os Benfeitores responderam: "Nisso que chamas sono só tens o repouso do corpo, porque o Espírito está sempre em movimento. No sono ele recobra um pouco de sua liberdade e se comunica com os que lhe são caros, seja neste ou noutro mundo. Mas, como o corpo é de matéria pesada e grosseira, dificilmente conserva as impressões recebidas pelo Espírito durante o sono, mesmo porque o Espírito não as percebeu pelos órgãos do corpo.". (2)
Encarnados, não temos consciência das ocupações que podemos assumir durante o momento do sono. Apesar disso, esses trabalhos são inexprimíveis. “Infelizmente porém, a maioria se vale de repouso noturno para sair à caça de emoções frívolas ou menos dignas. Relaxando-se as defesas próprias, certos impulsos longamente dominados durante a vigília extravasam-se em todas as direções por falta de educação espiritual verdadeiramente sentida e vivida.". (3)
Os amigos podem visitar-se durante o sono. “Muitos que julgam não se conhecerem, costumam reunir-se e falar-se. Podemos ter, sem que o suspeitemos, amigos em outros países. É tão habitual o fato de irmos nos encontrar, durante o sono, com amigos e parentes com os que conhecemos e que nos podem ser úteis, que quase todas as noites fazemos essas visitas.”. (4) No transcurso do sono, desapertam-se os laços que “nos prendem ao corpo e nos lançamos pelo espaço, entrando em relação mais direta com os outros Espíritos.”. (5) Quando dormimos, temos “mais capacidades do que no estado de vigília. Lembramos do passado e algumas vezes prevemos o futuro. Adquirimos maior potencialidade e podemos nos colocar em comunicação com os demais Espíritos, quer deste mundo, quer do além.”. (6)
Recomendamos a tarefa preparatória do repouso físico noturno, através dos trabalhos diários honradamente consagrados, a fim de que a noite organize uma região de reencontro das nossas almas, em preciosa reunião de forças, não unicamente a benefício de nossa experiência pessoal, mas sobretudo a benefício dos que estão mergulhados na dor.
Referências bibliográficas:
(1) Kardec, Allan.O LIVRO DOS MÉDIUNS, 59a ed. Rio de Janeiro: Ed FEB, 2001
(2)Kardec, Allan.O LIVRO DOS ESPÌRITOS,Rio de Janeiro: Ed FEB, 2001 questão 403
(3) Xavier, Francisco Cândido. Missionário da luz, ditado pelo Espírito André Luiz,  Rio de Janeiro: Ed FEB 2000
(4)Kardec, Allan.O LIVRO DOS ESPÌRITOS,Rio de Janeiro: Ed FEB, 2001 questão 414.
(5)idem questão 401
(6)idem questão 402