21 janeiro 2014

LIBERDADE E ESCRAVIDÃO NO CONTEXTO DA DOUTRINA DOS ESPÍRITOS (Jorge Hessen)

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Estima-se que existam no mundo entre 12 a 27 milhões de pessoas escravizadas nas diversas atividades da indústria, serviços urbanos, agricultura e nos calabouços da prostituição. “Andrew Forrest, o 4º homem mais rico da Austrália e 211º do mundo, segundo o ranking da revista Forbes, almeja erradicar a exploração do trabalho forçado do planeta. Em 2012 ele criou a ONG Walk Free, injetou nela 8 milhões de dólares, mais doze milhões em 2013, e aliou-se ao mais famoso dos neoabolicionistas, o americano Kevin Bales. O primeiro fruto da Walk Free é um mapeamento da exploração da mão-de-obra em 162 países do mundo”. (1)
Constatamos que Forrest (talvez ele nem saiba disso) movimenta-se sob os auspícios dos ideais que alguns ricos disseminaram na Europa no século XIX. À época instituíram metas solidárias (2) para a erradicação da escravidão na sociedade, e sob essa bandeira abolicionista vários países aderiram, inclusive o Brasil.
No entanto, os envelhecidos ideários abolicionistas não conseguiram erradicar a servidão da sociedade. O termo “escravidão” constitui prática social em que um homem assume direitos de propriedade sobre outro através do engenho da barbaridade. Em algumas sociedades, desde os tempos mais remotos, os escravos eram legalmente definidos como uma mercadoria. A expressão “escravidão” aqui pesquisada tem significado peculiar, pois atualmente não se compram ou se vendem pessoas como outrora. No entanto, é legítima a expressão escravidão para mencionar, por exemplo, as atuais relações de cidadania ante governos autoritários e de trabalho em que os trabalhadores são constrangidos a desempenhar uma atividade contra sua vontade, sob intimidação, agressão corporal e psicológica ou outras formas de barbaridade.
Portanto podemos dizer que há escravidão nos países, notadamente os de “soberania popular volátil”, regados a regimes totalitários, onde não se admite livre expressão do pensamento. A liberdade de consciência é uma particularidade da civilização em seu mais adiantado estágio de desenvolvimento. Uma sociedade pacata para sustentar a estabilização, a conformidade e o conforto necessita constituir preceitos coerentes, leis e códigos legais portadores de medidas disciplinadoras.
Para a Doutrina dos Espíritos, os meios compõem os fins; não se pode aspirar ao amor, à justiça, à liberdade, operando por meios impetuosos, abomináveis, políticos e partidários violentos. Na questão 837 de O Livro dos Espíritos, Kardec indagou qual seria o resultado dos entraves à liberdade de consciência. E os Espíritos responderam: "Constrangimento dos homens a agir de maneira diversa ao seu modo de pensar, o que os tornaria hipócritas". (3) As doutrinas materialistas “são as grandes chagas da sociedade”. (4) Qualquer organização social “fundada sobre base materialista traria em si mesma os germes da dissolução e os seus membros se despedaçariam entre si como animais ferozes.” (5)
Há diversos tipos de cerceamento da liberdade (“escravidão contemporânea”), a exemplo das mulheres e meninas que são “arrebatadas” para a servidão dos empregos de ocupações domésticas ou de ajudantes de serviços gerais, além de ocorrerem, em várias partes do orbe, o tráfico de mulheres para o meretrício forçado.
Impossível permanecermos impassíveis frente à brutalidade e violência contra a liberdade humana em pleno século XXI. Sou apolítico por natureza, mas avaliando diariamente os noticiários nacionais e internacionais sobre a liberdade do cidadão, apesar de revelar uma aberração, identificamos que a escravidão, sobretudo ideológica e partidária, ainda acontece em diversas partes do mundo, mormente nos países unipartidários, a exemplo da República Popular da China, República de Cuba, República Socialista do Vietname, República Democrática Popular da Coreia, República Democrática Popular de Laos.
Sobre a escravidão através do tráfico de pessoas (principalmente mulheres e crianças), nenhum país do planeta está livre dessa desonra. O trabalho escravo contemporâneo pode ser tão ou mais cruel que sua versão histórica, pois suas vítimas oferecem-se voluntariamente ao serviço, iludidas por uma promessa de emprego.
Mergulhando doutrinariamente na essência do tema “Escravidão X Abolição”, somos convidados a compulsar a monumental obra literária espírita “Brasil Coração do Mundo Pátria do Evangelho”, a fim de nos deter na elaboração da Abolição no Brasil, inicialmente articulada no além-túmulo, segundo certifica o Espírito Humberto de Campos.
O célebre poeta maranhense, “Conselheiro XX” da Academia Brasileira de Letras, expõe que a Princesa Isabel reencarnou compromissada com a libertação dos escravos na “Pátria do Cruzeiro”. Todavia, todo o curso do processo já vinha sido tracejado pelas equipes de Ismael, sob as ordens de Jesus, que buscavam administrar as animações republicanas e abolicionistas com elevada quietação e muita prudência, com o intento de impedir desordens.
Disse o Mestre:
- Ismael, o sonho da liberdade de todos os cativos deverá concretizar-se agora, sem perda de tempo. Prepararás todos os corações, a fim de que as nuvens sanguinolentas não manchem o solo abençoado da região do Cruzeiro. Todos os emissários celestes deverão conjugar esforços nesse propósito e, em breve, teremos a emancipação de todos os que sofrem os duros trabalhos do cativeiro na terra bendita do Brasil.
Sob a anuência do Governador da Terra, Ismael deu início à tarefa de erradicar a escravidão no Brasil. Influenciado pelos responsáveis invisíveis da pátria, D. Pedro II foi apartado do trono nos albores de 1888. Desta forma, a Princesa Isabel, que já havia sancionado a Lei do Ventre Livre em 1871 - lei que garantia a liberdade aos filhos dos escravos - assumia a Regência. Sob a inspiração do Divino Galileu, a princesa escolhe o Senador João Alfredo para organizar o novo ministério, que seria formado por notáveis espíritos ali encarnados.
Em 13 de maio de 1888, os abolicionistas apresentam à regente a proposta de lei que Isabel, cercada de entidades angelicais e misericordiosas, sancionou sem hesitar. Nessa data, toda uma onda de claridades compassivas descia dos céus sobre as vastidões do norte e sul da Pátria do Evangelho. Ao Rio de Janeiro afluem multidões de seres invisíveis, que se associam às grandiosas solenidades da abolição. Junto ao espírito magnânimo da princesa, permanecia Ismael com a bênção da sua generosa e tocante alegria.
Enquanto se entoavam hosanas de amor no Grupo Ismael e a Princesa Imperial sentia, na sua grande alma, as comoções mais ternas e mais doces, os pobres e os sofredores, recebendo a generosa dádiva do céu, iam reunir-se, nas asas cariciosas do sono, aos seus companheiros da imensidade, levando às alturas o preito do seu reconhecimento a Jesus que, com a sua misericórdia infinita, lhes outorgara a carta de alforria, incorporando-se, para sempre, ao organismo social da pátria generosa dos seus sublimes ensinamentos.” (6)
Na “Pátria do Evangelho”, a escravidão foi abolida oficialmente em 13 de maio de 1888; porém, lamentavelmente, 107 anos após a “Lei Áurea” (1995), o governo brasileiro admitiu a existência de condições de trabalho análogas à escravidão do século XIX. Embora haja diversos acordos e tratados internacionais que abordam a questão do trabalho escravo, muitos trabalhadores ainda não recebem salários, assistência médica nem têm direitos trabalhistas. São vigiados por pistoleiros e proibidos de sair dos locais de trabalho forçado.
Para os espíritas, é totalmente “contrária à lei de Deus toda sujeição absoluta de um homem a outro homem. A escravidão é um abuso da força. Desaparece com o progresso, como gradativamente desaparecerão todos os abusos. É contrária à Natureza a lei humana que consagra a escravidão, pois que assemelha o homem ao irracional e o degrada física e moralmente.” (7)


Referências bibliográficas:

(1) Disponível em <http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/bilionario-australiano-investe-no-fim-da-escravidao>, acessado em 15/01/2014;
(2) Consistentes teses acadêmicas comprovam que não foi e nem poderia ter sido por motivos econômicos;
(3) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, questão 837, RJ: Ed. FEB, 2006;
(4) Idem, questão 799;
(5) Idem, questão 148;
(6) Xavier, Francisco Cândido. Brasil, Coração do Mundo Pátria do Evangelho, ditado pelo espírito Humberto de Campos, RJ: ed. FEB, 2006;
(7) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, questão 829, RJ: Ed. FEB, 2006.

11 janeiro 2014

PERIPÉCIAS E EFICÁCIAS DO “PASSE” NOS CENTROS ESPÍRITAS (Jorge Hessen)

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Ainda muito jovem fui convidado para “receber” um “passezinho” no centro espírita. Após ouvir a palestra, adentramos na sala de passes, postamo-nos diante do passista e, de modo repentino, o passista deu início a estrondosos e arrepiantes “ARROTOS” na sala. Procuramos consultar o que estava ocorrendo e fomos informados, pasmem! Que o ARROTO era um tratamento de “dispersão” fluídica concentrada no ambiente. Naquela época não professava o Espiritismo, e obviamente fiquei muito indignado.
Os anos advieram, estudei as obras de Allan Kardec, adotei a proposta da Doutrina dos Espíritos como ideal de vida; contudo, tragicamente ainda hoje tenho informações sobre “técnicas” terapêuticas curiosíssimas, realizadas em algumas casas “espíritas”. Atualmente existem instituições que oferecem sessões de passes para todos os gostos e interesses, a exemplo do passe “normal”, aplicado obrigatoriamente após as palestras públicas, normalmente destinado aos famosos papa-passes; do passe “forte” (com direito a arremedos de exorcismos de obsessores na presença do obsedado); do passe “ultra forte” do tipo CURA TUDO (destinado a enfermos graves, obsedados, psicóticos etc., com direito a acorrentamento de obsessores e até "engarrafamento e enrolhamento” dos algozes das trevas); do passe "virtual", VIRTUAL (!? hummm...) etc. Seria caricata se não fosse patética tal ocorrência.
Há os que “transmitem” passes através de gestos desabridos, malabarismos manuais, choques bizarros com tremeliques corporais, estalos de dedos, cantos peculiares, e ainda os famigerados ARROTOS. Isso mesmo, ARROTOS...! Há passistas que incorporam “entidades” durante o passe, esquecidos de que não se deve aplicar passe mediunizado porque não é prática espírita. Não há necessidade de incorporação mediúnica nas sessões de passe. O passista pode até agir sob a influência da entidade, mas não carece verbalizar, aconselhar ou transmitir mensagens outras concomitantes ao passe. É contraproducente! O assunto é recorrente, mas não há como ignorá-lo, até porque a aplicação do passe magnético não comporta atitudes imprudentes, nem admite desatino nas suas expressões. Exige sim, um estudo contínuo dos seus mecanismos, sobretudo quanto à necessidade de sua aplicação.
Conhecemos médiuns que só aplicam passes com roupas brancas, ou debaixo de pirâmides metalizadas. Há os que terceirizam para o além o passe através das viagens astrais (através das  milagrosas apometrias), e mais uma infinidade de métodos, para todos os (des)gostos. Isso, sem deixar de citar que aplicam-se passes magnéticos nas paredes dos centros espíritas para "descontaminá-las" das energias negativas. “Eita, quanta criatividade!”...
Afastando-nos dessas peripécias passistas, analisemos efetivamente o significado do tema na instituição espírita. Vimos que existem inúmeras práticas não compatíveis com a sã Doutrina Espírita que urge sejam arguidas à exaustão, nas bases da compostura cristã, sem nenhuma  pecha  de intolerância, obviamente. Até porque a verdadeira prática Espírita é a expressão da moral cristã, consubstanciada no Evangelho do Cristo.
O bom emprego do passe não admite qualquer expediente espetaculoso. As encenações preparatórias – “mãos erguidas ao alto e abertas, para suposta captação de fluidos pelo passista, mãos abertas sobre os joelhos, pelo paciente, para melhor assimilação fluídica, braços e pernas descruzados para não impedir a livre passagem dos fluidos, e assim por diante – só servem para ridicularizar o passe, o passista e o paciente. A formação das chamadas “correntes” mediúnicas, com o ajuntamento de médiuns em torno do paciente, “as ‘correntes’ de mãos dadas ou de dedos se tocando sobre a mesa – condenadas por Kardec – nada mais são do que resíduos do mesmerismo do século XIX; inúteis, supersticiosos e ridicularizantes.”(1)
O passe deverá sempre ser ministrado de modo silencioso, com naturalidade. Os espíritas não são proibidos de nada, todavia práticas alucinadas são inaceitáveis. A propósito do legítimo passe,“assim como a transfusão de sangue, representa uma renovação das forças físicas, o passe é uma transfusão de energias psíquicas, com a diferença de que os recursos orgânicos (físicos) são retirados de um reservatório limitado, e os elementos psíquicos o são do reservatório ilimitado das forças espirituais.” – explica o Espírito Emmanuel. (2) Recordemos que Jesus utilizou o passe "impondo as mãos" sobre os enfermos e os perturbados espiritualmente para beneficiá-los. E ensinou essa prática aos seus discípulos e apóstolos, que também a empregaram largamente. Entretanto, é nas hostes espíritas que o passe é melhor compreendido, mais largamente difundido e utilizado.
O Evangelista Mateus numa das suas narrativas assegura que "Jesus, estendendo a mão, tocou-lhe dizendo: Quero, fica limpo! E imediatamente ele ficou limpo de sua lepra". (3) Mas o que é efetivamente o passe? “É uma transfusão de energias, capaz de alterar o campo celular.” (4) Na definição do “Aurélio”, o passe seria o “ato de passar as mãos repetidamente ante os olhos de uma pessoa para magnetizá-la, ou sobre uma parte doente de uma pessoa para curá-la.” (5) No Pentateuco mosaico localizamos o seguinte evento: "Josué, filho de Num estava cheio do espírito de sabedoria, porquanto Moisés havia posto sobre ele suas mãos: assim os filhos de Israel lhe deram ouvidos, e fizeram como o Senhor ordenara a Moisés.” (6)
Sabemos que "é muito comum a faculdade de curar pela influência fluídica e pode desenvolver-se por meio do exercício.” (7) Mas cabe esclarecer que o passe e imposição de mãos não são a mesma coisa. Tem-se a imposição de mãos como apenas um método, mas naturalmente uma pessoa desprovida dos braços pode fornecer um passe pela força do desejo e pelo auxílio dos Espíritos. O fluxo magnético se sustenta e se arremessa à custa da vontade tanto do passista quanto de seres desencarnados que o acodem na conciliação dos fluídos.
O evangelista Marcos descreve sobre um dos chefes da sinagoga, “chamado Jairo que logo após avistar a Jesus, lançou-se-lhe aos pés. E lhe rogava com instância, dizendo: Minha filhinha está nas últimas; rogo-te que venhas e lhe imponhas as mãos para que sare e viva.” (8) Na obra Mecanismos da Mediunidade, André Luiz explana que “o passe, como gênero de auxilio, invariavelmente aplicado sem qualquer contraindicação, é sempre valioso no tratamento devido aos enfermos de toda classe” (9)
Em suma, não é demasiado recordar que o exercício das práticas espíritas sem a devida base moral será, fatalmente, uma incursão inequívoca no mundo da inadvertência e, consequentemente, nas teias das ESCURIDÕES TRANSCENDENTAIS.



Referência Bibliográfica:

(1)            Pires, José Herculano. Artigo “O Passe” disponível emhttp://www.espirito.org.br/portal/publicacoes/herculano/opd-12.html> acessado em 07/11/2011
(2)            Xavier, Francisco Cândido. O Consolador, ditado pelo espírito Emmanuel, Rio de janeiro: Ed FEB, 2000, perg. 98
(3)            Mateus 8: 3.
(4)            Xavier, Francisco Cândido. Nos Domínios da Mediunidade, ditado pelo espírito André Luiz, Rio de janeiro: Ed FEB, 2004, Cap. XVII.
(5)            Aurélio Buarque de Holanda Ferreira . Novo Dicionário da Língua Portuguesa, SP: editora Nova Fronteira, 2001
(6)            Deuteronômio 34: 9 -12.
(7)            Kardec Allan. A Gênese, RJ: Ed FEB, 2004, Cap. XIV, item 34.
(8)            Marcos 5: 21 - 23).
(9)            Xavier, Francisco Cândido. Nos Domínios da Mediunidade, ditado pelo espírito André Luiz, Rio de janeiro: Ed FEB, 2004, Cap. XI

29 dezembro 2013

FORA DA GRATUIDADE NÃO HÁ ABSOLVIÇÃO (Jorge Hessen)

Jorge Hessen
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Analisemos o princípio contido no capítulo XXVI do Evangelho Segundo o Espiritismo e concluiremos que a regra “Dai de graça o que de graça recebestes” não se circunscreve apenas ao que se produz mediunicamente, todavia igualmente desaprova a mercantilagem, a usura, a agiotagem de qualquer procedência em nome da Codificação Espírita. Por justa razão Jesus recomendou que os intermediários (médiuns) entre o céu (mundo espiritual) e a Terra não poderiam receber dinheiro por essa tarefa.
O Criador não vende os benefícios que concede. A mediunidade é conferida gratuitamente por Deus para alívio dos que sofrem e (especificamente nas hostes espíritas) para difusão da Terceira Revelação, não podendo pois ser empregada comercialmente. Essa reprovação de Jesus do comércio das coisas abençoadas recaiu sobre as permutas de muambas religiosas praticadas pelos vendilhões do Templo de Jerusalém. Ao expulsá-los, o Mestre deu enérgica demonstração de que não se deve comerciar com as coisas espirituais, nem torná-las objeto de especulação ou meio de cobiças.
Os intérpretes dos Espíritos (médiuns), para instruírem os homens, mostrar-lhes o caminho do bem e conduzi-los à fé não podem apelar para o lucro material. Não devem, pois, vender-lhes as mensagens que não lhes pertencem, pois não são produto da sua lavra nem de suas pesquisas nem de seu trabalho pessoal. É diferente do trabalho, por exemplo, do médico, do advogado, do engenheiro, do professor, que oferecem o fruto dos seus estudos, dos seus esforços e até dos seus sacrifícios nos bancos acadêmicos e daí poderem auferirem lucros das suas aptidões, bem longe das hostes espíritas. Já o médium, sobretudo o “curador”, (re)transmite o fluido dos Espíritos e assim não pode vendê-lo sob qualquer contexto, seja onde for, fora ou dentro do ambiente kardeciano.
O ancestral sacerdote druída da velha Gália anota que o Espiritismo compreendeu o lado sério da mediunidade, lançando o descrédito sobre a exploração e elevando a prática mediúnica à categoria de mandato sublime. Essa questão não se relativiza. O "dai de graça ao que de graça recebemos" não pode ser deformado. A única moeda que o Criador acolhe como câmbio é o amor ao próximo. O Espiritismo deve ser a disseminação da palavra de consolo tal como Jesus nos ensinou, tal como Ele pregava, tal como Kardec esperava, tal como Chico Xavier exemplificou, para todos e ao alcance de todos sempre gratuitamente.
Ficamos estarrecidos ao assistir ao sepultamento da simplicidade da Terceira Revelação no jazigo dourado da especulação mercantil das palestras, dos seminários sob os aplausos provindos da população desprovida de raciocínio, das aclamações extravagantes, dos galanteios esplêndidos e delirantes. O Cristianismo primitivo, pela simplicidade dos primeiros núcleos cristãos, foi conquistando integralmente a sociedade de sua época, porém, lamentavelmente, com o esvair dos séculos, desgastou-se ideologicamente. O Evangelho conspurcou-se tragicamente por imposição dos interesses políticos, institucionais e principalmente financeiros, e ultimamente existe os que contam as moedas douradas arrecadadas em nome do Cristo, de mãos unidas com "Mamon".
Jesus assegurou que "digno é o trabalhador do seu salário". Ora, o médium que exerce sua faculdade segundo o Cristo recomenda, sem interesses materiais ou egoístas, não deixará de receber uma correspondente recompensa espiritual. Todavia, inevitavelmente o médium mercenário atrairá para si os espíritos levianos, pseudo-sábios, malévolos.
O Espiritismo não assenta com interesses comerciais, e a divulgação das mensagens do mundo espiritual não pode ser objeto de lucro financeiro; apenas moral. Notamos com bastante inquietação que setores influentes do movimento espírita vêm transformando-se em censurável balcão de negócio. Ressalvando-se as preciosas exceções e sem generalizar, percebe-se decidida argúcia, especificamente no trato comercial de livros espíritas de autores encarnados e desencarnados, de CDs e DVDs, refletindo em boa dose a pretensão da compulsiva ganância, mormente quando são encarecidos os preços dos livros doutrinários.
Do exposto indagamos: será justo transformar um templo espírita em uma espécie de agência mercantil? Em uma espécie de núcleo financeiro lucrativo? Será que os Benfeitores Espirituais consentem tal procedimento? Foi isso o que nos ensinou Kardec? Óbvio que não!
Viver o Evangelho, sim! Ganhar dinheiro à custa da mensagem espírita, nunca!
A Terceira Revelação veio para todas as pessoas. É forçoso que a exercitemos democraticamente junto aos deserdados material e intelectualmente. Caso contrário, no futuro os centros espíritas serão transformados em estabelecimentos mercantis (visando lucros materiais), ou em espaço restrito aos notáveis abastados, sublevando-se o Evangelho do Cristo que somente será pregado para os que possuam saborosos cartões de crédito e obviamente laureadas por títulos acadêmicos.
Entre os moldes atuais para a melhor difusão espírita, cremos que é importante uma revisão das estratégias e costumes mercantilistas, a fim de que a mensagem do Espiritismo alcance todas as faixas sociais. Destarte, o acolhimento dos simples [espíritas desempregados, iletrados, pobres] no ambiente das reuniões espíritas é tarefa de primordial importância nos tempos em que vivemos. A divulgação doutrinária deve ter como parâmetros o que é simples e viável para todas os centros espíritas, mormente os de periferia. Lembremos que “as raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos, mas Jesus não teve onde reclinar a cabeça.”, segundo narra Mateus no oitavo capítulo, versículo vinte.
Não vão nossos lembretes destinados àqueles que revertem a mensagem espírita em prol das comprovadas obras filantrópicas (creches, asilos, hospitais etc), contudo para os especuladores, os vendilhões ambiciosos.

20 dezembro 2013

O ESPÍRITO E O CÉREBRO SE DISTINGUEM SEM GRILHETAS MATERIALISTAS (Jorge Hessen)

Jorge Hessen
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James Fallon, neurocientista, professor de psiquiatria e comportamento humano da Universidade da Califórnia, passou anos pesquisando o cérebro de potenciais homicidas. Aos 58 anos de vida acreditava ser uma pessoa “normal”, tendo como referência a família equilibrada e intensa atividade acadêmica. Certa tarde de outubro de 2005, vasculhando exames de pessoas que sofrem desordens psiquiátricas graves, através das imagens cerebrais de assassinos misturados com esquizofrênicos, depressivos e outros cérebros “normais”, teve uma singular surpresa: na análise dos exames deparou com determinada imagem que revelava o cérebro de um psicopata; todavia identificou que era o seu exame. Surpreendeu-se, afinal foi uma revelação chocante e começou a questionar a própria identidade. (1) Fallon descobriu que o seu cérebro apresenta “inativa” uma área ligada à conduta ética e à tomada de decisão. Observou igualmente que possui genes vinculados à violência.
Sob o guante das surpreendentes descobertas, publicou um livro intitulado “O psicopata no interior”. Na obra esquadrinha alguns argumentos sobre as causas de um homem feliz no casamento e na profissão, que pode ser um psicopata com as mesmas características genéticas de um serial killer. (2) É difícil determinar precisamente o que faz de uma pessoa um psicopata. Na verdade, a anormalidade mental tem uma variedade de sintomas que nem sequer aparecem no manual de diagnóstico de transtornos mentais. James Fallon acredita que, graças em grande parte à sua educação e apoio de sua família, tem sido capaz de canalizar suas tendências psicóticas.
Para os Espíritos, a nossa “mente é o campo da nossa consciência desperta, na faixa evolutiva em que o conhecimento adquirido nos permite operar”. (3) Destarte, “a mente transmite ao carro físico, a que se ajusta durante a encarnação, todos os seus estados felizes ou infelizes.” (4) Notamos no neurocientista da Califórnia que a plenitude do Espírito (estado mental), embora possa ser influenciada pelo universo cerebral, mantém preponderância sobre a “massa cinzenta”. Não fosse assim, seria ele, Fallon, um fantoche do mundo encefálico.
Para André Luiz, o cérebro é o ninho da mente. O cérebro é o veículo da inteligência no mundo carnal; por isso, muitos neurologistas fazem da personalidade um atributo do cérebro, porém sabemos que “a inteligência [individualidade] é um atributo essencial do Espírito”. (5) Kardec, explanando a questão 368, diz o seguinte: “pode-se comparar a ação que a matéria grosseira exerce sobre o Espírito a de um charco lodoso sobre um corpo nele mergulhado, ao qual tira a liberdade dos movimentos.” (6)
Atualmente há diferença essencial entre a neurociência acadêmica e a neurociência Espírita. Enquanto a primeira entroniza no cérebro o quartel-general da personalidade, a segunda faz da estrutura encefálica apenas mais um dos vários órgãos de manifestação do Espírito. Em que pesem as limitações das capacidades do Espírito após a sua união com o corpo, por causa da densidade material, o corpo carnal não é mais que o invólucro do Espírito, e este, ao se unir ao corpo, conserva os atributos espirituais. Sem dúvida que o corpo físico é um obstáculo à livre manifestação das faculdades do Espírito, como um vidro opaco se opõe à livre refração da luz.
Os órgãos são os instrumentos da manifestação das capacidades do Espírito. Essa manifestação está submissa ao desenvolvimento e ao grau de apuro dos atinentes órgãos. O Espírito tem sempre as aptidões que lhe são inerentes, e não são os órgãos que lhe dão as capacidades, mas são as faculdades que impelem o desenvolvimento dos órgãos. Deste modo, a distinção das aptidões entre os homens dimana do estágio do Espírito. As qualidades do reencarnado, que pode ser mais ou menos adiantado, constituem o princípio, mas obviamente “é necessário ter em conta a relativa influência da matéria, que pode limitar mais ou menos o exercício dessas faculdades.” (7)
Sobre a questão do cérebro humano, o Espiritismo e a Neurociência devem se complementar, pois as leis do mundo espiritual e as leis do mundo físico são expressões de uma realidade comum. A Neurociência precisa do Espiritismo, tanto quanto o Espiritismo encontra apoio na Neurociência; isolados, no estudo do cérebro não chegarão a um resultado final e submergirão no labirinto de hipóteses arriscadas. Lembrando, contudo, que o Espiritismo marcha ao lado da ciência, mas não se detém onde a ciência tem seus limites.
Inaceitável é a ciência materialista insistir em algemar o espírito no cérebro, como se ele fosse um cativo, para ser fartamente dissecado, a fim de ser comprovado que o cérebro é o agente integral da personalidade. Ora, em verdade o espírito continuamente tem se mantido incólume em relação a esse reducionismo materialista. No século XIX, Kardec, conhecedor das teses de Franz Josef Gall, médico alemão, teórico da frenologia (8), indagou aos Espíritos o seguinte: “da influência dos órgãos se pode inferir a existência de uma relação entre o desenvolvimento dos do cérebro e o das faculdades morais e intelectuais?” A resposta dos Mentores Espirituais é fulgente: “Não confundais o efeito com a causa. O Espírito dispõe sempre das faculdades que lhe são próprias. Ora, não são os órgãos que dão as faculdades, e sim estas que impulsionam o desenvolvimento dos órgãos.”. (9)
Das relações existentes entre o desenvolvimento do cérebro e a manifestação de certas faculdades, concluíram alguns estudiosos materialistas que os órgãos do cérebro são a própria fonte das faculdades, ideia que tende para a negação do princípio inteligente estranho à matéria. Consequentemente, faz do homem uma máquina sem livre arbítrio e sem responsabilidade por seus atos, pois sempre poderia atribuir os seus erros à sua organização e seria injustiça puni-lo por faltas que não teriam dependido dele. Ficamos, com razão, abalados pelas consequências de semelhante teoria. Até porque, “a psicologia e a psiquiatria, entre os homens, conhecem tanto do Espírito, quanto um botânico, restrito ao movimento em acanhado círculo de observação do solo, que tentasse julgar um continente vasto e inexplorado, por alguns talos de erva, crescidos ao alcance de suas mãos.”. (10)
A Doutrina Espírita esclarece que “os órgãos têm uma influência muito grande sobre a manifestação das faculdades [espirituais]; porém, não as produzem – eis a diferença. Um bom músico com um instrumento ruim não fará boa música, mas isso não o impedirá de ser um bom músico.”. (11) O espírito age sobre a matéria e a matéria reage sobre o espírito numa certa medida, e o espírito pode se encontrar, momentaneamente, impressionado pela alteração dos órgãos pelos quais se manifesta e recebe suas impressões materiais”. (12)
Há outra questão a ser considerada a respeito das influências captáveis pelo cérebro humano. Tais impressões podem advir de outras mentes de “encarnados e desencarnados que povoam o Planeta, na condição de habitantes dum imenso palácio de vários andares, em posições diversas, produzindo pensamentos múltiplos que se combinam, que se repelem ou que se neutralizam. Correspondem-se as ideias segundo o tipo em que se expressam, projetando raios de força que alimentam ou deprimem, sublimam ou arruínam, integram ou desintegram, arrojados sutilmente do campo das causas para a região dos efeitos. (13)
Avaliando essas variáveis, é certo que o Espiritismo e a Neurociência, no futuro, poderão se entender não se contradizendo, todavia unidas, marchando conectadas, procurando todos os expedientes disponíveis no sentido de compreender mais profundamente o homem. Caso contrário, a Neurociência flutuará em um mar de equívocos, enquanto conceber que o Espirito está amarrado, unicamente, no universo  cerebral. Carece, pois, os estudiosos distinguirem as causas físicas das causas espirituais nos fenômenos psicológicos, a fim de poder melhor explicar o enigma da função do cérebro humano.


Referências Bibliográficas:
(1) Na época, James Fallon também estava envolvido em um estudo de Alzheimer e havia feito exames de seu próprio cérebro e de familiares.
(2) É um tipo de criminoso de perfil psicopatológico que comete crimes com uma certa frequência, geralmente seguindo um modus operandi.  Muitos dos que foram capturados aparentavam ser cidadãos respeitáveis - atraentes, bem sucedidos, membros ativos da comunidade. Geralmente os serial killers demonstram três comportamentos durante a infância, conhecidos como a Tríade MacDonald (Urinam na cama -Enurese noturna, Obsessão por incêndios -Piromania, Crueldade para com os animais).
(3) Xavier, Francisco Cândido. Pensamento e Vida, ditado pelo espírito Emmanuel, RJ: Ed FEB, 4ª edição, 1975.
(4) _______, Francisco Cândido e Vieira Waldo. Evolução em Dois Mundos, Ditado pelo Espírito André Luiz, RJ: Ed. FEB 2003
(5) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Questão 24, Ed. FEB, 1999
(6) Idem questão 368
(7) Idem  questões de 367 
(8) Princípio  que alega  cada função mental a uma zona do cérebro, sustentando que a própria forma do crânio indica o estado das diferentes faculdades mentais.
(9) _______, Allan. O Livro dos Espíritos, questão 370, Rio de Janeiro: Ed FEB, 1999-
(10) Xavier, Francisco Cândido. Roteiro, ditado pelo Espírito Emmanuel, cap.  25 - Ante a vida mental, RJ: Ed. FEB, 1972
(11) ______, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 2001, questão 372
(12) Idem questão 375
(13) ______, Francisco Cândido. Roteiro, ditado pelo Espírito Emmanuel, cap.  25 - Ante a vida mental, RJ: Ed. FEB, 1972