Jorge
Hessen
Brasília
-DF
Há experiências humanas
que exigem do Espiritismo menos respostas prontas e mais discernimento. Uma
delas ocorre quando uma pessoa nasce biologicamente homem ou mulher e, ao longo
da existência, não consegue identificar-se com o sexo corporal, chegando a
considerar tratamentos hormonais ou outras intervenções para adequar o corpo à
maneira como se percebe.
Como interpretar essa
situação à luz da Doutrina Espírita?
Considerando antes de
tudo que obviamente Kardec não tratou do
tema . A moderna concepção de identidade de gênero é posterior ao período em
que Allan Kardec codificou o Espiritismo. Entretanto, encontramos no Livro
dos Espíritos princípios importantes para a reflexão. Nas questões 200 a
202, os Espíritos esclarecem que o sexo está relacionado à organização física e
que o mesmo Espírito pode encarnar como homem ou mulher em diferentes
existências. O Espírito, portanto, não se confunde com o organismo que
temporariamente utiliza (KARDEC, 2019).
Essa compreensão impede
que reduzamos a pessoa à anatomia. Somos Espíritos imortais submetidos, durante
a encarnação, às experiências proporcionadas pelo corpo, pela família, pela
cultura e pelas circunstâncias existenciais.
Também não devemos
afirmar que uma pessoa que vive essa experiência esteja necessariamente pagando
por erros de vidas passadas, cumprindo determinada expiação ou escolhendo
previamente essa condição. Sem conhecimento seguro, uma afirmação semelhante seria mera especulação. A Doutrina Espírita recomenda investigação, prudência e livre
exame.
Outro princípio
fundamental é o livre-arbítrio. Kardec ensina que a liberdade de pensar
acompanha a liberdade de agir e que a lei divina está inscrita na consciência
(KARDEC, 2019, q. 621, 843). Todavia, liberdade não significa ausência de
consequências. Toda escolha envolve responsabilidade.
Por isso, uma pessoa
adulta, lúcida e devidamente informada pode decidir sobre o próprio corpo,
inclusive recorrer a tratamentos médicos. O fato de uma intervenção ser artificial não a torna automaticamente uma transgressão das leis divinas. A medicina modifica continuamente o organismo humano para tratar enfermidades,
restaurar funções e aliviar sofrimentos.
A questão espírita
fundamental não é simplesmente saber se o corpo pode ser modificado, mas com
que consciência, intenção, conhecimento e responsabilidade essa decisão é
tomada.
Emmanuel enfatiza a
responsabilidade moral e a renovação íntima; André Luiz apresenta, em suas
obras, a profunda interação entre corpo, mente e Espírito; Joanna de Ângelis
dedica especial atenção ao autoconhecimento, à educação emocional e ao
equilíbrio interior; e Manoel Philomeno de Miranda examina conflitos
espirituais e processos obsessivos sob a perspectiva da responsabilidade e da
necessidade de auxílio. Contudo, nenhum desses autores deve ser apresentado
como formulador de uma doutrina específica sobre identidade de gênero.
Fidelidade doutrinária também significa não fazer os Espíritos dizerem o que
não disseram.
Para as famílias, essa
compreensão é decisiva. Pais, avós e irmãos podem ter dúvidas, receios e até
discordâncias. Mas a divergência jamais deveria transformar-se em rejeição,
humilhação ou abandono. Acolher não significa necessariamente concordar;
significa não deixar de amar.
A família espírita pode
orientar, estudar, dialogar, buscar acompanhamento médico e psicológico
qualificado e ajudar a pessoa a avaliar serenamente as consequências de suas
decisões. Não lhe cabe substituir sua consciência.
A Doutrina Espírita
oferece, assim, uma postura equilibrada: nem condenação automática, nem
aprovação irrefletida; nem preconceito, nem imprudência — mas liberdade,
responsabilidade, discernimento e caridade.
O corpo é instrumento da
experiência reencarnatória; a consciência é o santuário da lei divina; o
livre-arbítrio pertence ao Espírito; e a caridade constitui a mais elevada
expressão da lei moral.
Talvez, diante de alguém
que não se reconhece no próprio corpo, a pergunta mais espírita não seja: “Como
fazê-lo pensar como nós?”, mas: “Como ajudá-lo a atravessar essa
experiência reencarnatória com mais consciência, responsabilidade, dignidade e
amor?”
Porque antes de
enxergarmos a anatomia que diferencia, precisamos reconhecer o Espírito imortal
que nos iguala.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Livro
dos Espíritos. Brasília, DF: FEB, 2019.
EMMANUEL (Espírito). O
Consolador. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. Brasília, DF: FEB,
2019.
ANDRÉ LUIZ (Espírito). Evolução
em dois mundos. Psicografado por Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira.
Brasília, DF: FEB, 2013.
ÂNGELIS, Joanna de
(Espírito). O homem integral. Psicografado por Divaldo Pereira Franco.
Salvador: LEAL, 1990.
MIRANDA, Manoel Philomeno
de (Espírito). Nos bastidores da obsessão. Psicografado por Divaldo
Pereira Franco. Salvador: LEAL, 2013
