Jorge Hessen
Brasília -DF
O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) merece ser tratado com seriedade, tanto pela família quanto pela escola e pelas instituições religiosas. Não se trata simplesmente de uma criança mal-educada, preguiçosa, desobediente ou “sem limites”. O TDAH é uma condição do neurodesenvolvimento, caracterizada por um padrão persistente de desatenção e/ou hiperatividade-impulsividade suficientemente intenso para provocar prejuízos acadêmicos, profissionais, sociais ou familiares. O Ministério da Saúde possui um protocolo específico para o diagnóstico e o acompanhamento da condição.
Quais são os sintomas? Na desatenção, a pessoa pode apresentar dificuldade para manter o foco, não acompanhar instruções até o fim, deixar tarefas incompletas, ter problemas de organização, perder objetos, esquecer compromissos e distrair-se facilmente. Na hiperatividade, pode demonstrar inquietação corporal, dificuldade para permanecer sentada ou quieta, necessidade constante de movimento e fala excessiva. Na impulsividade, pode interromper os outros, responder antes que a pergunta termine, ter dificuldade para esperar sua vez ou agir sem avaliar adequadamente as consequências.
Todavia, uma criança distraída, agitada ou impulsiva não deve ser automaticamente diagnosticada como portadora de TDAH. O diagnóstico é clínico e exige avaliação especializada. Os sintomas precisam constituir um padrão persistente, aparecer em diferentes contextos e produzir prejuízo significativo; também devem ser considerados o desenvolvimento, o ambiente familiar e escolar e outras possíveis condições que possam explicar os comportamentos.
Aqui se abre uma importante reflexão espírita. A Doutrina Espírita ensina-nos a compreender o ser humano em sua integralidade. Somos Espíritos imortais, mas estamos temporariamente vinculados a um organismo físico, através do qual nos manifestamos no mundo material. Portanto, reconhecer uma condição neurobiológica não significa negar a dimensão espiritual do indivíduo. Ao contrário: significa respeitar o instrumento corporal mediante o qual o Espírito se expressa.
Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, apresenta a encarnação como oportunidade de desenvolvimento e progresso. Isso, porém, não autoriza afirmar que determinada pessoa tenha TDAH por causa de supostas faltas cometidas em existências anteriores. Não há fundamento kardeciano para transformar o diagnóstico em castigo espiritual.
André Luiz, ao examinar as relações entre mente, cérebro e manifestação espiritual, oferece elementos para uma compreensão integrada do ser humano. Emmanuel, por sua vez, valoriza o esforço, a disciplina, o trabalho e a educação. Joanna de Ângelis amplia a reflexão psicológica em torno do autoconhecimento e da educação emocional. Manoel Philomeno de Miranda contribui para a compreensão dos processos obsessivos, mas isso não significa que devamos atribuir automaticamente ao TDAH uma causa espiritual ou obsessiva.
A postura espírita madura, portanto, não é escolher entre ciência e espiritualidade. É saber colocá-las em seus respectivos campos.
Se há necessidade de avaliação neurológica, psiquiátrica ou psicológica, devemos buscá-la. Se houver indicação terapêutica, devemos respeitá-la. Se a criança necessita de rotina, acompanhamento pedagógico, orientação familiar e estratégias específicas de organização, devemos oferecê-los. A oração, o passe, a evangelização e o acolhimento fraterno podem constituir recursos espirituais de amparo, mas não substituem o tratamento profissional.
Também precisamos abandonar a antiga prática de humilhar o indivíduo dizendo-lhe que precisa simplesmente “prestar atenção”, “ter força de vontade” ou “tomar vergonha”. Quem enfrenta TDAH não precisa de condenação; precisa de compreensão, orientação e tratamento adequado.
À família espírita cabe uma tarefa ainda mais elevada: não transformar sofrimento em culpa, nem diagnóstico em identidade permanente.
A criança com TDAH continua sendo um espírito em desenvolvimento. Possui dificuldades, mas também talentos, afetividade, inteligência, criatividade e possibilidades de crescimento. Nosso dever é ajudá-la a desenvolver aquilo que possui, e não a fazer sentir-se inferior por aquilo que momentaneamente não consegue realizar.
A verdadeira caridade começa quando deixamos de perguntar: “Por que ele não consegue ser como os outros?” e passamos a perguntar: “O que podemos fazer para ajudá-lo a tornar-se, plenamente, aquilo que ele pode ser?”
Essa é uma maneira mais humana, científica e verdadeiramente espírita de compreender o TDAH.
Referências Bibliográficas:
BRASIL. Ministério da Saúde. Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade – TDAH: Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Serviços e Informações do Brasil
KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira.
FRANCO, Divaldo Pereira. O homem integral. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL.
FRANCO, Divaldo Pereira. Tormentos da obsessão. Pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda. Salvador: LEAL.
XAVIER, Francisco Cândido. Nos domínios da mediunidade. Pelo Espírito André Luiz. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira.
XAVIER, Francisco Cândido. Pensamento e vida. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Clinical descriptions and diagnostic requirements for ICD-11 mental, behavioural and neurodevelopmental disorders. Geneva: WHO, 2024
