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  • 24.1.26

    Quando a revolução ignora o espírito, a liberdade é sepultada




     

    Jorge Hessen

    Brasília – DF

     

    A cansativa cantilena materialista travestida de “justiça social” é um lixo para a humanidade. Por isso, propomos aqui  uma profunda reflexão kardeciana, indicando que movimentos de mudança radical (revoluções) que focam apenas em estruturas materiais, políticas ou econômicas, negligenciando a dimensão espiritual, moral ou humana (o "Espírito"), resultam em tirania e por consequência  no colapso da liberdade individual.

    Há um erro recorrente — e perigosamente confortável — em certos segmentos “espíritas(?!)” contemporâneos: o de tentar conciliar o inconciliável. Em nome de uma “sensibilidade social legítima”, alguns decrépitos passaram a flertar com o marxismo como se ele fosse uma extensão ética do Espiritismo. Não é. Nunca foi. E não pode ser, sem violentar os alicerces da Doutrina Espírita.

    O marxismo não apenas ignora o Espírito — também o nega como realidade ontológica. Sua concepção do homem é estritamente material. E nessa roda quadrada a consciência não é causa, é efeito; a moral não é transcendência, é superestrutura; o sofrimento não é drama espiritual, é subproduto econômico; a história não é educação da alma, é guerra permanente entre classes. Nesse modelo esdrúxulo, o ser humano não é Espírito em aprendizado, mas um robozinho na engrenagem histórica.

    E qual uma roda redonda o Espiritismo parte do ponto exatamente oposto: o Espírito é o princípio inteligente do universo; a matéria é instrumento, a economia é circunstância; a política é expressão temporária do nível moral dos povos; portanto, reduzir o destino humano a relações de produção é, sob a ótica espírita, uma forma míope de visão filosófica.

    O marxismo promete redenção por decreto. Acredita que, mudando a estrutura, muda-se o homem. A experiência histórica mostra o contrário: muda-se o regime, perpetua-se o ego. Cai a burguesia, sobe a burocracia. Derruba-se um opressor, institucionaliza-se outro. A tirania muda de nome, mas não de natureza.

    O Espiritismo afirma que não existe sistema capaz de salvar uma humanidade moralmente doente. Nenhuma engenharia social cura orgulho, vaidade, ódio, sede de poder e violência. Não há revolução econômica que substitua o esforço constante que o Espírito realiza para evoluir moralmente. Não há estatização que substitua a educação do caráter. Não há partido político que substitua a consciência.

    Quando Marx chama a religião de “ópio do povo”, ele revela não apenas sua crítica social, mas sua incompreensão radical da dimensão espiritual do ser. Para Kardec, a ignorância das leis espirituais é que constitui o verdadeiro ópio. É pura ilusão se acreditar que se pode construir um mundo justo com pessoas injustas.

    Mas a questão é que o mais grave não é a cegueira de Marx — fruto de sua prepotência, de sua formação e de sua filosofia caolha. O mais bizarro é o erro de “espíritas(?!)” que, conhecendo a imortalidade da alma, a pluralidade das existências e a lei de causa e efeito, ainda assim tentam importar modelos materialistas como se fossem compatíveis com a Doutrina. Reafirmo que a roda quadrada não move veículo.

    Ceder para a militância vermelhona não é diálogo, mas uma concessão doutrinária intolerável; não é atualização, mas destroçamento doutrinário. Ceder para o marxismo jamais seria caridade intelectual, mas assombrosa confusão conceitual.

    A nossa abençoada Doutrina dos Espíritos combate a miséria, mas recusa veementemente a famigerada luta de classes. Nós espíritas defendemos a justiça social e não toleramos opressões, mas não canonizamos ideologias e nunca trocaríamos o Evangelho por manifestos indigestos.

    O Espiritismo não certifica paraísos coletivos construídos à base de violência. Ele propõe algo mais complexo, mais pausado e mais profundo: a construção do homem novo. Sem isso, toda revolução é apenas a troca de ditadores.

    Entre a ditadura do capital e a ditadura do Estado, o Espiritismo aponta um terceiro eixo: a soberania da consciência esclarecida. Até porque onde ela falta, qualquer sistema — de direita ou de esquerda — degenera.

    O marxismo quer mudar o mundo sem mudar o Espírito. O Espiritismo propõe  mudar o Espírito para, então, transformar o mundo. Misturar Kardec com Marx não é síntese. É aberração.

    E tenho dito!!

     

    Referências bibliográficas :

    MARX, Karl. Contribuição à crítica da filosofia do direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2010.

    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 86. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013.

    KARDEC, Allan. A Gênese. 52. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2012.

    EMMANUEL (Espírito). O Consolador. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 28. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2016.

    DENIS, Léon. Depois da Morte. Rio de Janeiro: FEB, diversas edições.

     

    23.1.26

    “Autogratificação sexual”, autodomínio e equilíbrio espiritual numa abordagem consciente


     

    Jorge Hessen

    Brasília - DF

     

    A sexualidade em si mesma permanece como um dos temas mais sensíveis — e frequentemente mal compreendidos — no movimento espírita. Entre heranças de moral religiosa repressiva e leituras modernas excessivamente permissivas, muitos espíritas sinceros encontram dificuldade em adotar uma postura verdadeiramente coerente com a filosofia moral da Codificação.

    O  tema onanismo, em particular, costuma ser cercado por silêncios constrangedores, culpas injustificadas ou banalizações acríticas. Proponho uma abordagem serena, doutrinariamente fundamentada e espiritualmente responsável, à luz dos ensinamentos de Allan Kardec e dos desdobramentos ético-filosóficos apresentados por alguns Benfeitores.

    Vejamos, a Doutrina Espírita não demoniza o corpo nem sacraliza os instintos, mas os compreende como instrumentos da evolução do Espírito. Kardec jamais classificou práticas sexuais específicas como “impuras” em si mesmas. O critério espírita é claro: “o valor moral dos atos reside na intenção e nas consequências que produzem sobre o próprio Espírito” (1).

    A sexualidade é força natural, poderosa e inevitável. Como toda energia, pode ser educada, orientada e sublimada, ou, quando mal administrada, tornar-se fator de desequilíbrio mento espiritual.

    Nesse contexto, a autogratificação sexual não é tema central da moral espírita, nem define, por si só, o grau evolutivo do indivíduo. Nesse sentido, a contribuição de André Luiz é essencial para compreender o tema sem fantasias punitivas. Em suas obras, o enfoque não é o ato isolado, mas o campo mental que o sustenta.

    Em Nos Domínios da Mediunidade, ele esclarece que “a mente cria formas, hábitos e sintonias, e que a repetição de estímulos sexuais associados a imagens inferiores pode gerar fixações psíquicas e desgaste do campo vital, sobretudo quando há compulsão ou automatismo” (2). Todavia, André Luiz não condena a sexualidade nem cria interditos absolutos. O alerta que faz recai sobre: a viciação mental, a perda do autodomínio, a dependência emocional ou energética.

    Recorrendo ao Espírito Emmanuel, com seu estilo ético e pedagógico, ele nos diz que “a evolução do Espírito não se dá pela negação do desejo, mas pela sua educação” (3). Assim, o problema moral não está na função fisiológica, mas na escravidão psicológica. Quando a prática sexual — solitária ou não — passa a dominar a vontade, substituir afetos, gerar culpa recorrente ou impedir o crescimento espiritual, ela se transforma em obstáculo evolutivo.

    Por outro lado, o Mentor de Chico Xavier critica implicitamente a repressão e os excessos de culpa, lembrando que a repressão neurótica fragiliza o caráter; o moralismo externo não gera virtude, até porque  a transformação moral exige lucidez, não medo, pois a  consciência reta nasce do equilíbrio entre disciplina e compreensão de si mesmo.

    Recorro ao sábio Léon Denis, que oferece a chave filosófica mais profunda para o tema. Em O Problema do Ser, do Destino e da Dor, ele ensina que “o progresso espiritual ocorre quando o Espírito se torna senhor de si, e não escravo de impulsos ou convenções” (4).

    As paixões para Denis não são más em si, porém , tornam-se nocivas quando governam o indivíduo. Considerando que a virtude nasce do autogoverno consciente e aplicando esse princípio à autogratificação sexual, compreende-se que o ato ocasional não define inferioridade moral, mas o vício indica desequilíbrio interior. Mas ressalta que a liberdade espiritual cresce com o autodomínio, não com proibições artificiais, posto que o Espírito evolui quando tem a liberdade de escolher, não quando apenas obedece temerosamente.

    A rigor, um dos pontos mais negligenciados no tema é que a culpa exagerada costuma gerar mais prejuízos espirituais do que o comportamento em si. O Codificador lembra que  “Deus não julga por códigos externos, mas pelo esforço sincero no bem” (5).  Em verdade, a autocondenação compulsiva perturba o campo mental,  fragiliza o perispírito e obviamente favorece estados de obsessão intensa.

    Em síntese, compreendo que  esse não é tema central da moral espírita, porém quero destacar que o Espiritismo não propõe vigilância neurótica, mas autoconhecimento lúcidoPosso, pois, assegurar com serenidade que o onanismo não é um desvio moral; logo, não define o valor do Espírito. Contudo, também sei que pode tornar-se problemática quando compulsiva, degradante ou alienante, mas o critério será sempre o equilíbrio, a intenção e os efeitos íntimos.

    Do exposto, refletimos que a questão espiritual fundamental não é: “Isso é permitido?”, mas sim: “Isso me fortalece espiritualmente ou me aprisiona?”. Desta forma, essa é a ética da liberdade responsável ensinada pela Doutrina dos Espíritos.

     

    Referências bibliográficas:

    1. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 86. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013. Questões 629, 711–712.
    2. XAVIER, Francisco Cândido (André Luiz). Nos Domínios da Mediunidade. 44. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2012. cap. XX.
    3. XAVIER, Francisco Cândido (Emmanuel). Vida e Sexo. 29. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2011.
    4. DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. 27. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2011. cap. XXIII.
    5. KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. 59. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2011. Primeira Parte, cap. III.

     

     

    22.1.26

    A visão do “socialismo” segundo Léon Denis

     


    Jorge Hessen

    Brasília-DF

    A relação entre Espiritismo e questões sociais sempre foi motivo de debates intensos no movimento espírita. Em meio a desigualdades econômicas, tensões políticas e disputas ideológicas, surge a pergunta: seria o Espiritismo compatível com o socialismo?

    Para responder a essa questão de forma equilibrada e fiel à Doutrina Espírita, é forçoso recorrer ao pensamento de Léon Denis, um de seus mais lúcidos continuadores. Ele não se afastou da realidade social de seu tempo. Ao contrário, enfrentou com coragem intelectual os dilemas provocados pelo capitalismo industrial e pelo avanço do socialismo materialista, oferecendo uma leitura doutrinária profunda da chamada “questão social”.

    Denis reconhece a injustiça social, a exploração do trabalhador e a concentração abusiva de riquezas, mas afirma que tais males têm origem mais profunda: o egoísmo humano. Para ele, nenhuma reforma social será eficaz se ignorar a transformação moral do indivíduo. Leis, sistemas políticos e modelos econômicos podem atenuar abusos, mas não regeneram consciências. O Espiritismo ensina que o progresso verdadeiro começa no íntimo do ser e se projeta naturalmente no campo social.

    Em sua obra Socialismo e Espiritismo, Léon Denis faz uma distinção clara entre duas concepções de socialismo.

    O socialismo materialista, predominante em seu tempo e atualmente, nega a existência da alma, rejeita a reencarnação e fundamenta-se na luta de classes. Para Denis, essa visão conduz inevitavelmente ao conflito permanente, pois substitui a fraternidade pelo antagonismo e a responsabilidade moral pela coerção coletiva.

    Já um socialismo de inspiração espiritual, voltado à solidariedade, à justiça e à cooperação, poderia ser aceitável desde que não anulasse o livre-arbítrio nem a lei de causa e efeito. Denis alerta, contudo, que mesmo esse modelo se torna perigoso quando atribui à coletividade um poder redentor que pertence à consciência individual.

    Léon Denis é categórico ao afirmar que o Espiritismo não se identifica com partidos ou ideologias. A Doutrina Espírita não é de direita nem de esquerda, pois sua referência não está nos sistemas humanos, mas na Lei Divina.

    Isso não significa neutralidade moral diante da injustiça. O Espiritismo condena privilégios injustos, exploração econômica e indiferença social. Contudo, também rejeita soluções violentas, autoritárias ou dogmáticas, ainda que apresentadas sob o discurso da igualdade.

    O critério espírita não é ideológico, mas ético: toda proposta deve ser avaliada à luz da fraternidade, da responsabilidade individual e do respeito à liberdade espiritual.


    Embora Léon Denis não tenha conhecido o esquerdismo contemporâneo, seus princípios permitem uma reflexão atual. Grande parte das correntes modernas de esquerda adota um discurso fortemente materialista, reduzindo o ser humano a fatores econômicos, sociais ou identitários.

    À luz do Espiritismo, essa visão é inconciliável. O homem não é produto exclusivo do meio; é Espírito imortal, responsável por suas escolhas ao longo de múltiplas existências. Negar essa realidade conduz a um determinismo que enfraquece a noção de responsabilidade moral.

    Além disso, o moralismo ideológico, a intolerância ao pensamento divergente e a crença de que os fins justificam os meios são duramente criticados por Denis, que sempre combateu qualquer forma de dogmatismo, seja religioso, seja político.

    Para Léon Denis, a verdadeira revolução é espiritual. A justiça social duradoura não nasce da imposição externa, mas da transformação íntima dos indivíduos. A caridade, a fraternidade e a solidariedade são conquistas da consciência, não decretos do Estado.

    Isso não implica passividade diante do sofrimento alheio. Ao contrário, o Espiritismo conclama à ação no bem, à assistência aos necessitados e ao combate às injustiças, mas sempre orientado pelo amor, pela razão e pela elevação moral.

    Portanto, o pensamento de Léon Denis oferece ao movimento espírita um caminho seguro diante das tensões políticas contemporâneas. Ele reconhece a legitimidade da busca por justiça social, mas rejeita soluções baseadas no materialismo, no coletivismo absoluto ou na violência ideológica.

    O Espiritismo é profundamente social, mas sua força transformadora reside na reforma íntima do ser humano. Sem essa base espiritual, qualquer projeto político corre o risco de apenas substituir antigas opressões por novas formas de tirania.

    Cabe, portanto, ao espírita consciente atuar no mundo com responsabilidade social, sem submeter a Doutrina a rótulos ideológicos, lembrando sempre que o progresso da humanidade começa no progresso moral de cada Espírito.

    Os “PhD de Kardec”, autoproclamados guardiões da “pureza doutrinária” e a falácia do Espiritismo restrito à “Codificação”



    Jorge Hessen

    Brasília

     

    A ideia de que apenas o que se encontra literalmente na Codificação pode ser considerado espírita revela uma leitura reducionista, dogmática e antimetodológica da Doutrina Espírita. Trata-se, paradoxalmente, do mesmo tipo de postura que o Espiritismo nasceu para combater ao se apresentar como ciência filosófico-moral fundada na razão, na observação e no progresso.

    É necessário esclarecer, desde o início, um ponto fundamental: a Codificação é a base do Espiritismo, não o limite do conhecimento espírita. Kardec jamais concebeu sua obra como um sistema fechado, acabado ou imune ao avanço das ideias humanas. Ao contrário, ele a definiu explicitamente como uma doutrina progressiva, aberta ao desenvolvimento das ciências e da filosofia.

    Na Introdução da Gênese, Kardec é categórico ao afirmar que o Espiritismo “marchará sempre com o progresso” e que, se a ciência demonstrar algo novo e verdadeiro, a Doutrina não terá dificuldade em assimilá-lo (1). Tal afirmação desmonta, por si só, qualquer tentativa de transformar a Codificação em um cânone estático, semelhante aos textos sagrados das religiões dogmáticas.

    A Codificação, portanto, funciona como alicerce doutrinário, não como cárcere intelectual. É a estrutura que sustenta o edifício, não o teto que impede sua ampliação. Confundir esses papéis é comprometer o próprio método kardequiano, que se apoia no exame crítico, na comparação dos ensinos e no uso permanente da razão.

    Além disso, é preciso recordar que o chamado “corpus kardequiano” não se limita às cinco obras fundamentais. Allan Kardec escreveu, organizou e publicou, ao longo de doze anos, dezenas de artigos, estudos e análises na Revista Espírita, que ele próprio definia como o laboratório experimental da Doutrina Espírita (2). Nela, conceitos são testados, hipóteses são revistas, comunicações são analisadas e princípios são aplicados à realidade social, científica e moral do século XIX.

    Esses escritos não contradizem a Codificação; ao contrário, a ampliam, esclarecem e contextualizam. Negar sua legitimidade é negar o método do próprio Codificador. Trata-se de um paradoxo frequente: invoca-se Kardec enquanto se ignora Kardec.

    Nesse contexto, o conceito de “obras subsidiárias” não apenas é legítimo, como é coerente com a história e a metodologia espíritas. Desde que respeitem os princípios fundamentais — imortalidade da alma, comunicabilidade dos Espíritos, pluralidade das existências, progresso moral e supremacia do ensino ético de Jesus —, tais obras contribuem para o amadurecimento do pensamento espírita.

    Autores como Léon Denis, Gabriel Delanne, Camille Flammarion e Ernesto Bozzano, entre outros, desempenharam papel essencial na consolidação e no aprofundamento da Doutrina, especialmente em seus aspectos filosóficos e científicos (3). Em período posterior, produções mediúnicas e estudos sérios também se inserem nesse campo, desde que submetidos ao crivo da razão, do controle universal do ensino dos Espíritos e da coerência moral.

    O problema surge quando alguns adeptos — verdadeiros “PhD de Kardec”, autoproclamados guardiões da ortodoxia — confundem fidelidade doutrinária com imobilismo intelectual. Transformam Allan Kardec em ídolo infalível e a Codificação em texto sagrado, exatamente o que ele jamais desejou (4).

    O verdadeiro espírita, conforme o próprio Kardec ensina, analisa, compara, raciocina e questiona. Não aceita ideias por autoridade, mas por coerência lógica e elevação moral. O critério espírita não é a origem do texto, do médium ou do autor, mas sua consonância com os princípios fundamentais, sua racionalidade e sua finalidade moral.

    Portanto, nem tudo o que está fora da Codificação é “lixo doutrinário”, assim como nem tudo o que se autodenomina espírita o é de fato. O Espiritismo não se define por fronteiras editoriais, mas por método, princípios e finalidade ética.

    Reduzi-lo a um compêndio fechado não é defendê-lo — é empobrecê-lo.

    E temos dito!

    Referências bibliográficas:

    1      KARDEC, Allan. A Gênese. Introdução, item I. Paris: Didier, 1868.

    2      KARDEC, Allan. Revista Espírita. Janeiro de 1858. Considerações preliminares.

    3      DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Paris: Librairie Philanthropique, 1903; BOZZANO, Ernesto. Fenômenos Psíquicos.

    4      KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Introdução, item VIII: “Fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão face a face em todas as épocas da humanidade.”

     

    20.1.26

    A exploração do luto e as “fake news” do além

     


    Jorge Hessen

    Brasília-DF

     

    O crescimento do movimento espírita brasileiro, especialmente a partir da segunda metade do século XX, trouxe consigo não apenas a difusão da Doutrina Espírita, mas também a ampliação de práticas que se afastam de seus fundamentos científicos, filosóficos e morais. Entre essas distorções, destaca-se a exploração sistemática da dor do luto por indivíduos que se apresentam como médiuns psicógrafos, promovendo supostos “contatos com o além” em ambientes públicos, em eventos pagos e nas redes sociais.

    Essas práticas, longe de representarem o Espiritismo codificado por Allan Kardec, configuram uma verdadeira indústria da ilusão, na qual o sofrimento humano é convertido em capital simbólico egolátrico e egocêntrico.

    Desde a Codificação, Allan Kardec advertiu de forma clara sobre os riscos do uso leviano da mediunidade. No Livro dos Médiuns, o codificador afirma que: “A mediunidade não é uma arte, nem um talento; não pode, portanto, tornar-se uma profissão.” (KARDEC, 2013, p. 321).

    A mediunidade, segundo Kardec, é instrumento de serviço moral, jamais meio de exploração psíquica ou promoção pessoal. A psicografia, quando legítima, submete-se a rigorosos princípios: simplicidade, discrição, ausência de espetacularização e abertura à análise crítica. Qualquer prática que se afaste desses parâmetros contraria frontalmente a metodologia espírita.

    No contexto atual, observa-se a utilização da psicografia como instrumento privilegiado de manipulação emocional. Os falsos médiuns dirigem-se, majoritariamente, a pessoas em estado de sofrimento psíquico profundo, especialmente familiares enlutados.

    A fraude é potencializada pelo uso intensivo das redes sociais digitais, que oferecem um vasto acervo de informações pessoais sobre falecidos e seus familiares: datas, nomes, fotografias, preferências, locais de sepultamento e rituais fúnebres. Esses dados tornam-se a base para a elaboração de cartas genéricas, emocionalmente apelativas e recheadas de elementos verificáveis.

    A presença recorrente de dados burocráticos — como números de telefone, documentos pessoais ou endereçosconstitui forte indício de fraude, pois tais elementos não fazem parte do padrão histórico das psicografias reconhecidas como autênticas.

    Em muitos casos, tais práticas configuram não apenas desvio doutrinário, mas também possível ilícito civil e penal, sobretudo quando associadas ao estelionato emocional.

    Embora existam manifestações isoladas de repúdio e apoio a médiuns sérios, observa-se a ausência de posicionamento institucional firme por parte de entidades de grande visibilidade. Tal omissão pode ser interpretada como conivência indireta, especialmente quando interesses editoriais e agendas midiáticas se sobrepõem ao compromisso doutrinário.

    A exportação dessas práticas para outros países agrava ainda mais o problema, pois compromete o trabalho sério de núcleos espíritas comprometidos com a fidelidade à Codificação.

    É indispensável ressaltar que nem todos os médiuns psicógrafos atuam de má-fé. Existem trabalhadores sérios, discretos e moralmente comprometidos, que jamais exploram financeiramente sua faculdade e que aceitam submeter suas práticas à análise ética e doutrinária.

    A distinção entre o médium honesto e o charlatão não se faz pela popularidade ou pelo impacto emocional causado, mas pelo histórico moral, pelo desapego material e pela fidelidade à Codificação Espírita.

    A indústria das falsas cartas do além representa uma das mais graves distorções contemporâneas do Espiritismo. Ao explorar o luto, descaracterizar a mediunidade e promover espetáculos emocionais públicos, tais práticas traem os fundamentos kardecianos e ferem profundamente a ética espírita.

    Até quando sobreviveremos a tudo isso?

     

    Referências bibliográficas:

    KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 76. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013.