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  • 28.1.26

    A fraude ideológica “vermelha” contra Kardec

     


    Jorge Hessen

    Brasília – DF

     

    A cooptação entre Espiritismo e socialismo (materialista) não é fruto de ingenuidade, mas de abominável manipulação “intelectual”. Para que Allan Kardec caiba no discurso igualitarista contemporâneo, é preciso destroçar sua obra, calar princípios centrais da Doutrina Espírita e substituir a reforma moral pelo ativismo político. Portanto, é claro que não se trata de evolução do pensamento espírita, mas de sequestro ideológico.

    A Doutrina dos Espíritos jamais prometeu justiça social por meio de estruturas estatais. Os Benfeitores do além não conceberam uma doutrina de redenção coletiva fundada na repressão. Ao contrário, estabeleceram como lei fundamental o progresso individual do Espírito, condicionado ao mérito, ao esforço e à responsabilidade pessoal. Por isso, foram taxativos ao afirmarem que a igualdade absoluta não existe na Terra, nem poderia existir.

    Essa afirmação, ignorada pelos espíritas poliqueiros, desmonta a base moral do socialismo (materialista).

    Repetiremos mil vezes se preciso for que a desigualdade social não é uma falha estrutural do sistema econômico, mas consequência pedagógica do adiantamento desigual dos Espíritos. Tentar suprimi-la por decreto não eleva consciências; apenas mascara diferenças morais que só o tempo e a reencarnação corrigem. O igualitarismo forçado não cria justiça: produz ressentimento.

    Outro ponto irreconciliável com o Espiritismo é a propriedade privada. Enquanto o socialismo (materialista) a transforma em iniquidade social, o espirita  reconhece como direito natural sendo tanto natural e tão legítimo quanto o direito de viver

    O Espiritismo não condena quem possui, mas quem abusa; não criminaliza o sucesso, mas adverte sobre o egoísmo. A concentração de recursos, quando fruto do trabalho e da iniciativa, pode cumprir função social legítima.

    Portanto, denunciamos aqui  a ilusão da igualdade material como solução moral, até porque jamais será pelo nivelamento das fortunas que se fará a igualdade humana, mas pela elevação moral dos homens. Destarte, aqui implodimos qualquer tentativa de alinhar Espiritismo e socialismo (materialista).

    A confusão atinge seu ápice quando o serviço social é reduzido a política pública. Devemos distinguir virtude moral de assistência compulsória, posto que a correta caridade é aquela em que se busca o economicamente desprovido, sem humilhá-lo. Assistencialismo piegas imposto não é virtude; é cabresto. Quando o famigerado Estado substitui a consciência, forma dependentes, não Espíritos livres.

    Nenhuma mudança da massa cega isenta a renovação do individual por dentro. Eis o ponto que o socialismo não suporta: sem reforma íntima, toda reforma social é conversa fiada.

    O caolho socialismo materialista tenta resolver no plano econômico o que só se resolve no plano espiritual. O Espiritismo desmonta essa fantasia ao afirmar que fora da vida futura, não há verdadeira sanção moral. Portanto, sem reencarnação, sem responsabilidade além da morte, resta apenas a ilusão de que redistribuir bens regenerará consciências.

    Destaco que o Espiritismo não foi, não é  e jamais será  socialista. Para torná-lo compatível com essa exótica ideologia, é preciso negar o mérito, apagar a reencarnação e substituir a moral pela torpe militância. Os Espíritos propõem a transformação do Espírito, já o socialismo promete a salvação pelo sistema social, portanto, são projetos incombináveis.

    Quando Kardec é suprido por seitas "vermelhonas" abjetas


    Jorge Hessen

    Brasília-DF

     

    Causa perplexidade — mas não surpresa — o surgimento de um discurso que tenta alinhar o Espiritismo a ideologias políticas "vermelhonas", como se a Doutrina codificada por Allan Kardec fosse um apêndice moral de projetos sociais terrenos. Trata-se de um equívoco grave, pois não nasce do Espiritismo, mas da sua desfiguração conceitual.

    A primeira desordem é elementar: beneficência  não é engenharia social. Kardec ensina que a desigualdade das condições sociais não é uma aberração moral, mas uma lei natural com finalidade educativa. “A desigualdade das condições sociais é uma das leis da Natureza” (KARDEC, 2013, q. 806). A claudicação está no excesso, não na diversidade de situações. Substituir o assistencialismo voluntário por igualitarismo compulsório é enxertar no Espiritismo uma seita de prática esdrúxula e estranha à sua base moral.

    Outro desvio recorrente é a adoção irrefletida de uma antropologia materialista. As ideologias "vermelhonas" explicam o homem pelo meio, pela classe, pela estrutura. O Espiritismo afirma exatamente o contrário: o Espírito é anterior à matéria, responsável por seus atos e herdeiro de si mesmo (KARDEC, 2013, q. 132). Ignorar a Lei de Causa e Efeito é esvaziar o núcleo pujante da Doutrina.

    Léon Denis advertiu com clareza contra esse tipo de ilusão reformista: “Não se transforma a sociedade sem transformar o homem” (DENIS, 2005). Toda promessa de redenção coletiva sem regeneração moral individual resulta apenas em deslocamento de responsabilidades — e em ressentimento travestido de virtude.

    Emmanuel é igualmente incisivo ao negar o messianismo político: “Nenhuma transformação exterior dispensará o homem da renovação íntima” (EMMANUEL, 2010). A obsessão por soluções estatais revela, muitas vezes, a dificuldade de aceitar o esforço silencioso da autotransformação.

    O absurdo dos absurdos é quando o centro espírita se converte em palanque ideológico, onde se perde sua finalidade essencial. A Casa Espírita não é trincheira partidária de nenhuma ideologia, mas oficina de atividade  consciencial, voltada à educação do Espírito imortal. Misturar Espiritismo com militância é submeter o divino ao esgoto partidário circunstancial.

    Não existe Espiritismo “de esquerda”, “de direita”ou “centro-direita ou esquerda”. Existe fidelidade ou infidelidade à Doutrina. Quando Kardec é suprido por seitas "vermelhonas" abjetas, o Evangelho por palavras de ordem e a responsabilidade moral por acusações estruturais, resta apenas um lustra-móveis para os petulantes  “espíritas” sobre velhas e decrépitas ideologias materialistas.

    Como sintetiza Léon Denis: “O progresso social será sempre consequência do progresso moral, jamais a sua causa” (DENIS, 2005). Inverter essa ordem é desvario intelectual — não probidade e muito menos justiça.

     

    Referências bibliográficas:

    DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. 29. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005.

    EMMANUEL (Espírito). Pensamento e vida. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 21. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2010.

    KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. 93. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013

     

    A igualdade de riquezas prometida pelo comunismo é um frenesi irracional

    Jorge Hessen - DF

    A existência simultânea de ricos e pobres não decorre de uma vontade arbitrária ou de um determinismo social imutável, mas constitui uma condição pedagógica própria dos mundos de expiações e provas, como ainda é a Terra. Nessas esferas, as desigualdades materiais funcionam como instrumentos de aprendizado moral, destinados a favorecer o progresso individual e coletivo.

    Em certos momentos da evolução humana, faz-se necessário que os recursos materiais se concentrem nas mãos de alguns, a fim de impulsionar o desenvolvimento econômico, científico e social. Há Espíritos mais proativos, empreendedores e audaciosos, que assumem a dianteira das iniciativas, enquanto outros se beneficiam, direta ou indiretamente, dos frutos desses empreendimentos. Tal dinâmica, entretanto, não legitima abusos, exploração ou egoísmo, pois toda posse implica responsabilidade moral proporcional (KARDEC, 1861).

    É inegável que o mau uso da riqueza gera injustiças e sofrimentos. Contudo, à luz da Lei de Justiça, Amor e Caridade, nada permanece em desordem indefinidamente. O Espiritismo ensina que a Lei da Reencarnação corrige os aparentes desequilíbrios da vida social, permitindo que o Espírito experimente, ao longo de múltiplas existências, situações contrastantes: ora a opulência, ora a escassez; ora a condição de dirigente, ora a de subordinado; ora o poder de decidir, ora a necessidade de obedecer (KARDEC, 1857).

    Dessa forma, aquele que possui bens materiais é chamado a aprender a nobreza no uso da riqueza, exercitando a generosidade, a solidariedade e o desprendimento. Já aquele que enfrenta a carência é convidado ao aprendizado da humildade, da perseverança e do esforço construtivo, desenvolvendo valores espirituais que não dependem da posse material. Ambos se encontram sob provas distintas, mas igualmente educativas (DENIS, 1911).

    Importa destacar que essa diversidade de condições sociais não é uma característica dos mundos superiores. Nas esferas mais elevadas da Criação, onde a matéria é sutil e as necessidades físicas são mínimas ou inexistentes, não subsistem as ambições, o orgulho ou o apego aos bens transitórios. Ali habitam Espíritos moralmente adiantados, para os quais a verdadeira riqueza reside no saber, na harmonia e no amor vivido em plenitude (EMMANUEL, 1950).

    A igualdade de riquezas prometida pelo comunismo é uma alucinação aritmética aplicada a uma realidade humana complexa. Ao negar as diferenças naturais e morais entre os indivíduos, ela subverte a justiça, corrói a liberdade e empobrece a sociedade. A justiça social autêntica não nivela; eleva. Não confisca; capacita. Não promete paraísos — constrói caminhos.

    Assim, riqueza e pobreza, longe de serem fins em si mesmas, constituem meios educativos temporários, destinados a desaparecer à medida que a humanidade progride moralmente e se aproxima da lei divina em sua expressão mais pura.

     

    Referências bibliográficas:

    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 86. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2009.

    KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 131. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2015.

    DENIS, Léon. Depois da morte. Tradução de Leopoldo Cirne. Rio de Janeiro: FEB, 2010.

    EMMANUEL (Espírito). O Consolador. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 29. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2014

    26.1.26

    Preexistência é causa eficiente da genialidade precoce

    Jorge Hessen

    Casos como o de Laurent Simons e de outros jovens prodígios da ciência contemporânea reacendem um debate recorrente: de onde procedem talentos intelectuais tão desproporcionais à idade cronológica?

    Embora a biologia e a neurociência ofereçam explicações importantes, elas se revelam insuficientes diante de inteligências que, ainda na infância, ultrapassam padrões acadêmicos normalmente construídos ao longo de décadas.

    Na história humana temos exemplos de genialidades precoces  como Miguel Ângelo, que aos doze anos já era um magistral artista; Balzac, aos oito, já compunha pequenas comedias; Wagner, aos 6, já havia lido a história de MozartCarlyle aprendeu a ler aos 4; Alexandre Dumas, aos 4, lia a História Natural de Buffon.

    Walter Scott aprendeu a ler entre 3 e 4 anos. Voltaire; educado por um padre; aprendeu a ler aos 3. Antes dos 12 versejava com admirável fluência; Goethe; aos 7 compunha versos em latim e; antes dos 9; fazia um poema; parte em latim; parte em grego e parte em alemão; Hermógenes; aos 15 ensinava retórica ao imperador Marco Aurélio; Victor Hugo; aos 13 ganhava um prêmio nos jogos florais de Toulouse; Stuart Mill, aos 8 já conhecia o grego perfeitamente e aos 10 aprendeu o latim.

    No século XIX, numerosos pensadores renderam-se à reencarnação: Dupont de Nemours, Charles Bonnet, Lessing, Constant Savy, Pierre Leroux, Fourier, Jean Reynaud. A doutrina das vidas sucessivas foi vulgarizada para o grande público por autores como Balzac, Théophile Gautier, George Sand e Victor Hugo. Pesquisadores como Ian Stevenson, Brian L. Weiss, H. N. Banerjee, Raymond A. Moody Jr., Edite Fiore e outros trouxeram resultados notáveis sobre a tese reencarnacionista.

    Grande parte das tentativas de estudar precocidade intelectual, sem levar em conta a pré-existência do Espírito, esbarra em resultados nada satisfatórios ou em dificuldades insuperáveis, em face da necessidade de se considerar essa hipótese. Caso contrário, entra-se em um beco sem saída e o progresso da ciência nessa área permanecerá na inércia

    O Espiritismo aborda essa questão sem recorrer ao milagre nem ao acaso. Fundamenta-se na lei do progresso do Espírito, segundo a qual o ser pensante não reinicia sua trajetória do “zero” a cada encarnação, mas prossegue um processo contínuo de aprendizado.

     Allan Kardec afirma que o Espírito progride através de múltiplas existências corporais, acumulando experiências e aquisições intelectuais e morais (KARDEC, 2005).

    À luz desse princípio, a precocidade intelectual não constitui exceção às leis naturais, mas sua confirmação. A inteligência precoce pode ser compreendida como a exteriorização de conhecimentos anteriormente adquiridos, que o Espírito reencontra com facilidade quando dispõe de um organismo físico adequado. O cérebro, nesse contexto, funciona como instrumento de manifestação, e não como origem do saber.

    Kardec é explícito ao tratar do fenômeno do gênio, afastando a ideia de privilégio arbitrário. Para o Codificador, a genialidade representa faculdades conquistadas anteriormente, revelando progresso já realizado pelo Espírito (KARDEC, 2008). Assim, o que parece desigualdade injusta revela-se consequência lógica da lei de causa e efeito aplicada ao desenvolvimento espiritual.

    Léon Denis aprofunda essa reflexão ao afirmar que as grandes inteligências da Humanidade são Espíritos antigos, que atravessaram longos ciclos de experiência, esforço e sofrimento. Para ele, o gênio não surge de uma única existência, mas resulta de um passado espiritual rico em aprendizados sucessivos (DENIS, 2010).

    Entretanto, o pensamento espírita é cuidadoso ao distinguir progresso intelectual de progresso moral. Denis adverte que o desenvolvimento da inteligência não implica, necessariamente, elevação do caráter, podendo coexistir com desequilíbrios emocionais, orgulho ou fragilidades éticas (DENIS, 2011). A genialidade, portanto, não é sinônimo de superioridade espiritual.

    Essa advertência é reforçada por Emmanuel, ao lembrar que a inteligência é instrumento neutro, cuja direção depende dos valores que a orientam. Sem o amparo da moral, o intelecto pode converter-se em fator de desequilíbrio individual e coletivo (EMMANUEL, 2013).

    Não surpreende, assim, que muitos gênios precoces enfrentem provas complexas no campo afetivo, social ou psicológico. A precocidade intelectual, longe de representar apenas privilégio, pode constituir compromisso espiritual exigente, no qual o Espírito é chamado a harmonizar conhecimento, humildade e responsabilidade moral.

    O Espiritismo, portanto, não vê nos gênios mirins uma negação da justiça divina, mas sua expressão mais coerente. A pluralidade das existências explica as desigualdades aparentes sem recorrer à arbitrariedade: cada Espírito colhe, no tempo oportuno, os frutos do próprio esforço acumulado.

    Conclui-se que a genialidade precoce pode oferecer suporte robusto à reencarnação em sentido científico e ajusta-se a ela com notável coerência filosófica e moral. Diante desses fenômenos, a Doutrina Espírita reafirma seu eixo central, a preexistência da alma.

     

    Referências  bibliográficas:

    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 86. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005.

    KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 52. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2008.

    DENIS, Léon. Depois da Morte. Tradução de Carlos Imbassahy. 26. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2010.

    DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Tradução de Homero Dias de Carvalho. 28. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2011.

    EMMANUEL. Pensamento e Vida. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 25. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2013.

    25.1.26

    Centro Espírita não é clínica médica para espetáculos de cura física

     


    Jorge Hessen

    Brasília - DF

     

    Com certeza absoluta um Centro Espírita não se estabelece para curar corpos físicos, embora possa eventualmente auxiliar indiretamente na saúde orgânica. Mas a sua finalidade essencial é a cura da alma, isto é, o esclarecimento da consciência; a educação do sentimento; a transformação e reorganização moral do Espírito imortal.

    Quando a Casa Espírita é reduzida a um “pronto-socorro de curas físicas”, perde sua função libertadora da consciência humana e se converte em clínica de espetacularização de cirurgia de emergência (sempre inócua para a alma) e buscada apenas quando a doença física incomoda o enfermo da alma. No Brasil existe até uma estranhíssima e pretensa “cidade espírita”  que oferece essas práticas “milagrosas”  de “cura física” (ou cura tudo?).

    A busca pelo alívio do sofrimento físico sempre acompanhou a história religiosa da humanidade. No movimento espírita, entretanto, tal busca frequentemente assume contornos  místicos equivocados, quando o Centro Espírita é confundido com clínica de cura orgânica, espaço de promessas terapêuticas ou solução imediata para dores do corpo.

    Allan Kardec jamais apresentou o Espiritismo como sistema místico de curas físicas. Ao contrário, definiu-o como doutrina filosófica de consequências morais, destinada ao progresso do Espírito imortal. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, é categórico: “O verdadeiro espírita reconhece-se pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações.” A cura do corpo, portanto, não constitui critério de saúde espiritual. Para Kardec, sem reforma íntima não há libertação, apenas alívio transitório (1).

    O centro espírita, nessa perspectiva, é escola para despertamento da consciência lúcida, e não dispensário de milagrosas cirurgias do além. A propósito, veio-nos à mente o depoimento de Inácio Bittencourt que admite: “Em minha última romagem no campo físico, mobilizando os poucos préstimos de minha boa-vontade, devotei-me ao serviço da cura mediúnica; no entanto, desencarnado agora, observo que a turba de doentes, que na Terra me feria a visão, aqui continua da mesma sorte, desarvorada e sofredora.” (2)

    Essa constatação aponta uma realidade dramática no além-túmulo: “curaram-se” corpos, mas não consciências. A dor que não educa o Espírito apenas muda de plano, prosseguindo no mundo espiritual sob outras formas. O texto de Inácio denuncia, com sobriedade, a ineficácia de práticas de curas físicas desvinculadas da responsabilidade moral.

    André Luiz, amplia essa reflexão ao descrever, em Nosso Lar, vastas regiões espirituais habitadas por Espíritos profundamente enfermos, muitos deles frequentadores assíduos de templos religiosos na Terra (3).

    A doença no além  não é do corpo, mas do remorso não dissolvido; da culpa não reparada; do apego aos vícios morais e da ignorância espiritual e doutrinária persistente.

    Em Missionários da Luz, ainda André Luiz  reforça que a assistência espiritual verdadeira exige educação da alma e que o passe, isolado de esforço íntimo, tem efeito limitado (4). grifei

    Emmanuel aprofunda o tema ao reinterpretar a dor não como punição, mas como instrumento pedagógico da Lei Divina. Em O Consolador, responde de forma direta: “A dor é uma bênção que esclarece.” (5)

    Quando a dor física é suprimida sem que o Espírito compreenda suas causas morais, perde-se uma oportunidade valiosa de crescimento. Não estamos aqui desaprovando o eventual socorro físico, mas alertando que socorrer não é isentar  o doente da responsabilidade espiritual.

    Percebemos  o risco da distorção assistencialista, pois quando o centro espírita se converte exclusivamente em espaço de filas por passes, promessas implícitas de “cura”, dependência emocional do atendimento espiritual, ele corre o risco de alimentar um misticismo milagreiro infantilizado, onde o doente espera ser curado, mas não se dispõe a se transformar moralmentePor essas e outras,  o Codificador já advertia contra esse desvio ao afirmar que o Espiritismo não veio suprimir o esforço pessoal, mas sim esclarecer o dever moral (6).

    Do exposto reafirmamos que o Centro Espírita não existe para curar corpos físicos, embora possa contribuir para o equilíbrio orgânico. Sua missão essencial é curar a alma, educar o Espírito e promover a libertação interior.

    Toda cura que não alcance o despertamento da consciência lúcida é provisória,  e toda dor que educa o Espírito é libertadora.

    Nosso artigo é uma reflexão sobre a maturidade doutrinária, a fim de evitarmos os espetáculos da cura e investirmos mais nos instrumentos pedagógicos para a necessária transformação moral.

     

    Referências bibliográficas:

    1.    KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Cap. XVII, item 4.

    2.    XAVIER, Francisco Cândido; Espíritos diversos. Vozes do Grande Além. Rio de Janeiro: FEB

    3.    XAVIER, Francisco Cândido; ANDRÉ LUIZ. Nosso Lar. Rio de Janeiro: FEB, cap. 1–3.

    4.    XAVIER, Francisco Cândido; ANDRÉ LUIZ. Missionários da Luz. Rio de Janeiro: FEB, cap. 4.

    5.    XAVIER, Francisco Cândido; EMMANUEL. O Consolador. Rio de Janeiro: FEB, questão 100.

    6.    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte terceira, leis morais.