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  • 12.2.26

    ​A transição de gênero e reencarnação - uma reflexão sobre corpo, espírito e responsabilidade moral


    Jorge Hessen

    Brasília -DF

    A questão da transição de gênero, à luz da reencarnação, exige serenidade, caridade e rigor ético. Sob o olhar esp​Írita não cabem o juízo apressado nem o extremismo moralista. Sabemos que o Espiritismo não tratou explicitamente do tema sobre a mudança cirúrgica de sexo durante a encarnação; todavia, oferece princípios seguros para reflexão: a imortalidade da alma, a reencarnação, o livre-arbítrio e a responsabilidade moral.

    O Codificador  lembra que “os Espíritos não têm sexo, como o entendemos” (1), pois a sexualidade pertence ao organismo físico. O Espírito, em sua essência, é princípio inteligente, que pode reencarnar como homem ou mulher, segundo as necessidades evolutivas. A alternância dos sexos corporais, ao longo das existências, constitui mecanismo pedagógico da Lei Divina, favorecendo o aprendizado do equilíbrio afetivo e moral.

    Entretanto, se o Espírito é assexuado, o corpo físico não o é. André Luiz destaca que o veículo carnal resulta de complexo planejamento espiritual, envolvendo fatores genéticos, compromissos pretéritos e necessidades expiatórias ou educativas (2). O corpo não é mero invólucro descartável: é instrumento de trabalho concedido por comodato pela Providência Divina para determinado programa reencarnatório. Emmanuel destaca que o corpo “é empréstimo sagrado” (3), confiado ao Espírito para seu progresso. Não se trata de propriedade absoluta do encarnado, mas de concessão (cessão)  divina vinculada a responsabilidades.

    A sensação de não identificação com o sexo biológico pode refletir conflitos psíquicos profundos, lembranças de experiências de vidas passadas ou provas específicas da atual existência. Léon Denis observa que o Espírito traz, muitas vezes, “impressões e tendências adquiridas em vidas anteriores” (4) , que podem repercutir na presente organização psíquica. Tais situações reclamam acolhimento fraterno, acompanhamento psicológico e espiritual, jamais escárnio ou exclusão.

    Todavia, a Doutrina Espírita também ensina a importância da aceitação consciente das provas escolhidas. Kardec esclarece que, antes de reencarnar, o Espírito pode escolher as experiências que julga necessárias ao seu adiantamento (5). Se assim é, a condição biológica integra, em princípio, um contexto educativo mais amplo. Modificá-la deliberadamente por meio de intervenção cirúrgica suscita reflexão moral: estaria o indivíduo abreviando aprendizado previsto? Ou estaria exercendo o livre-arbítrio dentro dos limites da lei humana, assumindo as consequências espirituais do ato?

    O Espiritismo não impõe códigos civis nem substitui a consciência individual. Reconhece o livre-arbítrio, mas adverte quanto à lei de causa e efeito. Toda ação gera consequências, não como punição, mas como mecanismo de equilíbrio. A prudência recomenda que decisões irreversíveis sobre o corpo sejam amadurecidas à luz da razão, da ciência e da espiritualidade, evitando impulsos momentâneos ou pressões ideológicas.

    A caridade deve presidir qualquer posicionamento espírita. Emmanuel lembra que “a maior caridade que podemos fazer pela Doutrina é divulgá-la” (6) — e divulgá-la significa vivê-la com misericórdia. Isso implica acolher pessoas em sofrimento, independentemente de suas escolhas, sem transformar o centro espírita em tribunal moral.

    Conclui-se que a transição de gênero não encontra, na Codificação, respaldo explícito nem condenação direta. O que há são princípios. O corpo é instrumento sagrado; o Espírito é imortal e assexuado; o livre-arbítrio é real, mas vinculado à responsabilidade. Se o Espírito não se identifica com o corpo em que renasceu, a Doutrina convida à reflexão profunda e à aceitação consciente das provas, sem violência contra si mesmo nem contra os outros. A decisão última pertence à consciência individual, que responderá perante a própria lei divina inscrita em si mesma.

    Entre o julgamento e a permissividade irrefletida, o caminho espírita permanece o da ponderação, da ciência aliada à fé raciocinada e, sobretudo, da benevolência, indulgência e perdão das ofensas, isto é, caridade.


    Referências Bibliográficas:

    1.     KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Questão 200. Rio de Janeiro: FEB.

    2.     XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito André Luiz. Missionários da Luz. Rio de Janeiro: FEB.

    3.     XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. O Consolador. Rio de Janeiro: FEB.

    4.     DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Rio de Janeiro: FEB.

    5.     KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Questões 258–273. Rio de Janeiro: FEB.

    6.     XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. O Consolador. Rio de Janeiro: FEB

     

    11.2.26

    Os centros vitais (“chakras”) como órgãos do perispírito

     

    Jorge Hessen

    Brasília-DF


    A noção de “chakras”, consagrada por tradições orientais, encontra na literatura espírita equivalente conceitual sob o nome de centros vitais. Não se trata de importação mística, mas de descrição funcional do próprio perispírito, o envoltório semimaterial definido por Kardec como elo entre o Espírito e o corpo físico (1). Se o organismo carnal possui órgãos para as atividades biológicas, o corpo espiritual apresenta estruturas específicas (órgãos) para o governo das energias psíquicas. Esses núcleos atuam como estações de captação, transformação e distribuição das forças que sustentam a vida mental e orgânica.

    André Luiz denomina tais pontos de “fulcros de força”, responsáveis por presidir sistemas fisiológicos e estados da alma (2). O autor descreve o centro coronário, que comanda os demais; o cerebral, ligado ao pensamento; o laríngeo, veículo da palavra; o cardíaco, regulador das emoções; o esplênico, administrador das energias vitais; além dos gástrico e genésico, vinculados à nutrição e às potências criadoras (3). Essa organização revela que o perispírito é organismo complexo, sensível às impressões morais e às vibrações do meio.

    Léon Denis já assinalava que o corpo fluídico possui “aparelhos delicados” (órgãos) capazes de registrar as ondas do pensamento e repercuti-las na matéria (4). Por isso, grande parte das enfermidades físicas reflete desarmonias instaladas nos centros vitais, nascidas de ressentimentos, culpas e vícios prolongados. Emmanuel adverte que “o desequilíbrio da alma repercute inevitavelmente nos tecidos do veículo carnal”⁵, indicando que a verdadeira terapêutica não se limita ao remédio exterior, mas exige renovação íntima.

    Os recursos espirituais — prece, passe e disciplina moral — operam diretamente nesses órgãos sutis. Quando o pensamento se eleva, os centros vitais entram em ritmo harmonioso e permitem a circulação de energias superiores. Kardec ensina que a vontade orientada para o bem modifica os fluidos que nos envolvem (6), princípio que explica a ação do magnetismo e da assistência espiritual. Assim, a saúde do perispírito depende menos de técnicas esotéricas e mais da qualidade ética das escolhas diárias.

    Convém afastar interpretações supersticiosas. Os centros vitais não são “rodas” mágicas, nem atalhos para poderes extraordinários; constituem mecanismos naturais da fisiologia do Espírito. Onde predominam ódio e egoísmo, eles se obscurecem; onde florescem caridade e equilíbrio, iluminam-se e restauram o corpo físico. A educação dos sentimentos é, portanto, a mais segura higiene energética.

    Compreender os chakras à luz do Espiritismo é reconhecer a unidade entre ciência, filosofia e moral. O perispírito, com seus centros vitais, é oficina em que o pensamento modela o destino humano. Cuidar desses órgãos significa cultivar responsabilidade sobre o que se pensa e sente, pois — como resume André Luiz — “a mente é a senhora do corpo, e o corpo é o espelho da mente” (7).

     

    Referências Bibliográficas:

    1          KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 93. ed. Brasília: FEB, 2019, q. 93-95.

    2          XAVIER, F. C.; VIEIRA, W. (Esp. André Luiz). Entre a Terra e o Céu. 28. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2018, cap. 20.

    3          XAVIER, F. C.; VIEIRA, W. (Esp. André Luiz). Evolução em Dois Mundos. 26. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2017, 1ª parte, cap. 2.

    4          DENIS, Léon. No Invisível. 21. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2016, cap. 12.

    5          XAVIER, F. C. (Esp. Emmanuel). Pensamento e Vida. 18. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2015, cap. 6.

    6          KARDEC, Allan. A Gênese. 53. ed. Brasília: FEB, 2018, cap. XIV, itens 13-18.

    7          XAVIER, F. C. (Esp. André Luiz). Nosso Lar. 70. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2019, cap. 9.

    “Fraternidade sem fronteiras” - uma reflexão sobre a espetacularização do bem

     

     

    Jorge Hessen

    Brasília -DF

    A Doutrina Espírita estabeleceu que a caridade é, antes de tudo, atitude moral. O Codificador sintetizou-a como benevolência para com todos, indulgência diante das imperfeições alheias e perdão das ofensas (1). Qualquer ação material que não nasça desse núcleo íntimo converte-se em simples fazeção de coisa material, obviamente “respeitável”, porém estranha à essência do Evangelho Segundo o Espiritismo.

    O pão distribuído sob a bandeira do “oba-oba” sem benevolência, indulgência e perdão das ofensas pode até alimentar corpos, mas, ao mesmo tempo, também pode fortalecer vaidades dos seus líderes, dependências e, com certeza, projetos de poder.

    Observa-se, no cenário contemporâneo, a expansão de um modelo de caridade monumental: campanhas polpudas, marcas humanitárias, dirigentes transformados em celebridades e voluntários convertidos em plateia emocional. André Luiz advertiu que obra externa sem renovação interior assemelha-se a edifício sem alicerce (2). Quando o bem precisa de holofotes, já não é luz que esclarece, mas marketing religioso que negocia a dor alheia como produto de comoção pública.

    Emmanuel recorda que o auxílio barulhento perde valor espiritual por misturar-se ao fermento da vaidade (3). Vejamos que o Cristo serviu sem logotipos, sem captação profissional de recursos e sem transformar necessitados em instrumentos de propaganda. A caridade espírita não pode copiar métodos do mercado, nos quais números substituem consciências e metas financeiras valem mais que a reforma íntima dos trabalhadores.

    Léon Denis ensinou que o Espiritismo veio iluminar o homem para que ele próprio se torne fonte de fraternidade, e não para administrar impérios assistenciais (4). Quando instituições confundem quantidade de obras com fidelidade doutrinária, instala-se um materialismo às avessas: fala-se de espiritualidade enquanto se age segundo a lógica da competição por doadores e visibilidade. O personalismo corrói o ideal, cria castas intocáveis e intimida qualquer reflexão crítica.

    A ajuda material é necessária diante da miséria real, mas não pode substituir o dever de educar almas. Kardec afirmou que o Espiritismo seria reconhecido pela melhoria moral da Humanidade, e não pelo tamanho de seus empreendimentos (5). Se dirigentes exploram emocionalmente a pobreza para manter máquinas arrecadatórias, traem o princípio de que a caridade não humilha, não manipula e não transforma o necessitado em vitrine.

    Urge recolocar o eixo no ser e não no parecer. Instituições espíritas não são agências de captação, e o trabalhador do bem não é influenciador digital. A legítima caridade começa pelo trato digno com o divergente, pela transparência com o dinheiro alheio, pelo anonimato que liberta do ego. Sem isso, qualquer movimento, por mais “grandioso”, reduz-se a um assistencialismo material inócuo e distancia-se da proposta kardequiana e, principalmente, do Cristo.

    Se o Espiritismo aceitar ser confundido com ONG de espetáculo, terá renunciado à sua missão educativa. A caridade que salva não é a que ergue MARCAS e casebres mundo a fora, mas a que reconstrói consciências e devolve ao homem a responsabilidade sobre si mesmo.

    Urge refletirmos tudo isso.

     

    Referências Bibliográfica:

    1     KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB.

    2     XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito André Luiz. Conduta Espírita. Rio de Janeiro: FEB.

    3     XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Fonte Viva. Rio de Janeiro: FEB.

    4     DENIS, Léon. Depois da Morte. Rio de Janeiro: FEB.

    5     KARDEC, Allan. A Gênese. Rio de Janeiro: FEB.

    8.2.26

    Tribuna Espírita não é palco para estrelato

    Jorge Hessen

    Brasília -DF

     

    A instituição espírita nasceu para ser oficina de trabalho anônimo, laboratório de caridade silenciosa e escola de transformação moral. Entretanto, observa-se crescente deformação: o centro que deveria exaltar o Cristo passa a exaltar currículos de palestrantes, nesse sentido ,o estudo cede lugar à espetacularização da mensagem e a tribuna transforma-se em vitrine de vaidades.

    O personalismo da tribuna espírita infiltra-se como erva daninha e, pouco a pouco, substitui a autoridade moral da Doutrina pelo prelado artificial das biografias dos palestrantes “famosos” (com muitos “seguidores” na internet).

    Allan Kardec advertiu que o Espiritismo não teria líderes infalíveis, mas servidores da verdade. Quando um nome (do palestrante) passa a valer mais que a ideia, já não estamos no terreno da Codificação, e sim na lógica mundana das vãs celebridades.

    A mediunidade, a oratória e a capacidade intelectual não foram concedidas para produzir ídolos, e sim para aliviar dores e esclarecer consciências. Os Benfeitores do além recordam que o trabalhador do Cristo é chamado a desaparecer para que a obra apareça. O inverso — aparecer para que a obra desapareça — é a negação do ideal espírita.

    O endeusamento de palestrantes produz consequências gravíssimas. Forma-se plateia (fã-clube) dependente de figuras “iluminadas”, enfraquecendo o estudo metódico das obras básicas. Substitui-se a divulgação séria por frases de efeito, aleijando a fé raciocinada pela emoção coletiva e a fraternidade por competição de agendas.

    Centros espíritas disputam vaidosamente nomes “de cartaz” como se o Evangelho necessitasse de marketing. Esquece-se de que o verdadeiro orador espírita trabalha sem trombetas e serve sem exigir reconhecimento.

    Há ainda efeito moral devastador: o personalismo do palestrante espírita “estrela” alimenta a ilusão de superioridade espiritual. Quem sobe ao palco (tribuna) começa a acreditar que está em cima do auditório e obviamente  quem aplaude transfere para o expositor a responsabilidade da própria transformação. Cria-se uma relação infantilizada, oposta ao convite kardeciano ao livre exame. Ora,  o Espiritismo deve formar consciências autônomas, não rebanhos fascinados.

    A casa espírita precisa voltar à sua simplicidade e resgatar sua identidade cristã. Reuniões singelas, estudo regular, atendimento fraterno discreto, assistência e promoção social sem propaganda — eis o caminho.

    E mais ainda, a tribuna espírita deve ser rodízio de oradores e não trono vitalício. A direção de uma casa espírita deve funcionar como colegiado de trabalho, não como corte de notáveis. Numa reunião pública de palestra o nome do expositor é detalhe inexpressivo, pois que o essencial é a fidelidade e essencialidade do conteúdo programado.

    Portanto, numa reunião pública  o mérito não está no “microfone”, mas no serviço ignorado; não no aplauso, mas na lágrima consolada; não na foto do cartaz multicolorido, mas na reforma do caráter. Quando o centro espírita voltar a ser espaço de anonimato fecundo, o Espiritismo retomará sua força moral. Até porque a Doutrina Espírita não precisa de estrelas do púlpito — precisa de semeadores do bem, do belo e do bom.

     

    7.2.26

    A fraude do luto e a responsabilidade moral da justiça brasileira



    Jorge Hessen

    Brasília -DF

     

    A existência de falsos médiuns produtores de estranhas “cartas desoladoras” não é apenas um desvio moral individual — é um mecanismo organizado de dominação psicológica. Esses falsos “psicógrafos” percebem rapidamente que a dor humana é território fértil: o luto fragiliza, a saudade suspende o senso crítico e a esperança pode ser transformada em “pedestal da fama de boteco”. A partir daí constrói-se um teatro espiritual onde a emoção substitui o critério, e a fé, desfigurada, vira instrumento de controle desses falsários de mediunidade "paraguaia".

    A mediunidade, quando autêntica, é faculdade destinada ao consolo e à educação moral. Transformá-la em aviltamento da dor constitui uma das mais graves perversões espirituais do nosso tempo. O Espiritismo garante que a mediunidade é coisa santa que deve ser praticada santamente, religiosamente. Quando suposto “médium” “paraguaio” engana com cartas desoladoras do “além”, intimida críticos com processos judiciais ou cria dependência psicológica em pais desesperados, não estamos diante de religião, mas de fraude moral qualificada que costumo dizer ser CRIME LESA-DEUS.

    Ora onde surge o interesse pessoal (PERSONALISMO), a mediunidade se contamina e o intercâmbio com o invisível converte-se em porta aberta às mistificações. O falso médium não consola; ele vampiriza e parasita. Alimenta-se das lágrimas alheias, pela cega idolatria constrói impérios pessoais e, para manter o poder, apresenta qualquer investigação como “violência” ou  “perseguição”. Esse macete jurídico intimidador parece encontrar, infelizmente, eco em setores da Justiça que confundem liberdade de crença com licença (alvará) para delinquir.

    A exploração da fé alheia cria correntes de perturbação moral de extrema gravidade, porque aprisiona o sofredor à mentira que lhe promete “alívio” (mas é uma desolação). O dano não é apenas moral: é psíquico, afetivo e espiritual. Cada mensagem fabricada com dados colhidos da Internet para parentes enlutados aprofunda a ferida e adia o verdadeiro luto.

    Os charlatães do invisível prosperam quando a sociedade abandona o dever de vigilância moral. A omissão estatal, ao tratar tais casos como meras divergências religiosas, converte-se em cumplicidade objetiva com o crime. A Constituição protege a fé; não protege a enganação nem o cinismo da fraude mediúnica.

    Obviamente a Justiça não deve julgar a “existência” da mediunidade, mas a conduta concreta. Se há vantagem pessoal indevida, manipulação emocional e organização para obter arrecadação de doações para a célebre “caridade”, o tipo penal está configurado.

    Logo, quem vive de fama com a falsa mediunidade ameaça críticos e pesquisadores sérios e cultiva autoadoração, desmente a nossa abençoada doutrina. O médium autêntico  não necessita de máscaras, nem o dever reclama aplausos. Os falsos médiuns, porém, exigem aplausos e silêncio. Transformam centros espíritas em feudos, seguidores em sanguissedentas tropas virtuais e o luto em mercado cativo. Contra isso, a resposta não pode ser apenas doutrinária; deve ser jurídica e pedagógica.

    Que o Estado brasileiro compreenda, enfim, que defender as famílias enlutadas é dever republicano. Enquanto a toga teme desagradar fanáticos, pais continuarão sendo lesados moralmente em nome das fajutas mensagens dos filhos. Os benfeitores costumam afirmar que  a verdade avança quando a coragem moral supera o medo das multidões. Que essa coragem alcance tribunais, promotorias e delegacias policiais.

    A mediunidade é patrimônio da consciência humana; o estelionato do luto é sua caricatura criminosa. Combater esse carcinoma não é ataque à religião — é defesa da dignidade dos “mortos” e dos “vivos”.