16 setembro 2026

Assistencialismo, terapismo e personalismo e um Espiritismo desidratado



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Entre assistencialismo, terapias inócuas e personalismos, a Doutrina Espírita corre o risco de ser empurrada para o canto, justamente onde deveria estar o centro de tudo.

Há algo profundamente reprovável quando uma Casa Espírita consegue multiplicar campanhas, terapias, tratamentos, eventos e atividades sociais, mas encontra cada vez menos tempo para estudar Allan Kardec.

É preciso dizer sem rodeios: assistência social não é sinônimo de Espiritismo, tanto quanto as terapias de “cura”  não são sinônimo de Espiritismo. Até mesmo os passes , os fenômenos mediúnicos não são sinônimos de Espiritismo. Tudo isso pode encontrar lugar numa instituição espírita. Nada disso, porém, pode ocupar o lugar da Doutrina.

O problema não é “ajudar” os pobres. Ao contrário. O problema é transformar a assistência em finalidade absoluta, criando uma instituição extremamente ativa no plano material e progressivamente desidratada no plano espiritual.

A caridade espírita não pode limitar-se à cesta básica. Ela deve também libertar da ignorância, educar a consciência, estimular a autonomia e promover a transformação moral. Kardec, em O Livro dos Espíritos, questão 886, ao tratar da caridade, não a reduz ao socorro material.

Mais preocupante ainda é a crescente terapização das Casas Espíritas. O Espiritismo não foi criado para funcionar como clínica alternativa.

O corpo precisa de cuidados médicos. O sofrimento físico merece assistência. Mas o objeto essencial da Doutrina é o Espírito: sua imortalidade, responsabilidade, evolução e transformação moral.

Quando uma Casa espírita passa a ser procurada principalmente por suas terapias, e não pelo estudo e vivência da Doutrina, alguma coisa saiu do eixo.

O Livro dos Espíritos, O Evangelho segundo o Espiritismo, O Livro dos Médiuns e A Gênese não podem ser tratados como peças decorativas de uma biblioteca. Kardec não pode virar rodapé de uma instituição que se diz espírita.

Léon Denis, Emmanuel e André Luiz, cada qual em sua perspectiva e contexto, igualmente colocaram a educação espiritual, a responsabilidade e o aperfeiçoamento moral no centro da experiência espírita. A literatura espírita clássica jamais autorizou a redução do ser humano ao corpo ou a substituição da reforma íntima por uma sucessão interminável de procedimentos.

E há uma questão que precisa ser enfrentada: caridade não significa conivência.  Devemos advertir, porque advertir não é odiar. Precisamos questionar, porque questionar não é perseguir. Discordar, com respeito e fundamento, não é faltar com a fraternidade. E humildade não significa silenciar diante do erro. Ao contrário: há momentos em que o verdadeiro compromisso com a fraternidade exige a coragem de advertir, questionar e discordar.

Uma Casa Espírita que não aceita questionamento corre o risco de trocar a Doutrina pelo personalismo de seus dirigentes. E o dirigente não é proprietário. Até porque  o cargo é encargo, tanto quanto o mandato é responsabilidade; ademais, uma instituição espírita não é feudo particular.

Também não se pode transformar a mediunidade em mercado. Jesus foi explícito: “De graça recebestes, de graça dai” (MATEUS, 10:8). A manutenção financeira de uma instituição é legítima e necessária; outra, muito diferente, é transformar benefícios espirituais em mercadoria, vinculando-os a relações comerciais.

O movimento espírita precisa recuperar o eixo.

Urge menos culto à estrutura, menos personalismo, menos terapismo, menos assistencialismo sem emancipação e mais Kardec,  Evangelho, estudo, discernimento,  educação espiritual e

Mais reforma moral.

A Casa Espírita não precisa fazer menos caridade. Precisa fazer caridade mais inteligente, mais educativa e mais libertadora. Nem precisa abandonar o cuidado do corpo, mas importa deixar de confundir o corpo com o Espírito.

A Casa Espírita precisa ser mais acolhedora,  mais fiel àquilo que afirma representar. Porque há uma diferença brutal entre uma instituição cheia de atividades e uma instituição vazia de doutrina. Pode haver uma multidão entrando pela porta de uma Casa Espírita e, paradoxalmente, o Espiritismo saindo pela porta dos fundos.

Esse é o perigo que não podemos fingir que não enxergamos.

 

 

15 setembro 2026

Quando a mediunidade vira espetáculo, o silêncio institucional já não pode ser confundido com prudência


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Entre cartas “consoladoras” contraditas, revelações espetaculares e supostos diálogos com Kardec, o movimento espírita parece ter esquecido a vacina contra a credulidade: a própria razão.

Há momentos em que o silêncio deixa de ser prudência e começa a parecer omissão ou cumplicidade. O movimento espírita brasileiro vive um desses momentos.

Não estamos diante de uma simples divergência entre correntes doutrinárias. O que se vê é algo muito mais grave: a progressiva banalização do charlatanismo, a personalização da mediunidade e a substituição do método kardeciano pela autoridade de quem afirma possuir acesso privilegiado ao mundo espiritual.

Cartas “consoladoras” supostamente psicografadas (com informações 100% obtidas na Internet), destinadas a famílias devastadas pelo luto, passaram a ser objeto de denúncias e questionamentos jornalísticos sérios porque informações atribuídas aos mortos poderiam, segundo as acusações, ter sido obtidas em redes sociais e na internet. O assunto chegou à televisão aberta, provocou reação pública e colocou sob suspeita procedimentos que, por sua natureza, deveriam ser tratados judicialmente com extremo rigor.

A resposta não pode ser o insulto aos jornalistas, aos pesquisadores ou às famílias que questionam. A resposta deve ser a prova. Se a comunicação é autêntica, que seja examinada. Se existem elementos verificáveis, que sejam apresentados. Se as acusações são infundadas, que sejam refutadas documentalmente.

Mas transformar todo questionamento em acusações difamatórias e perseguição pela internet é uma maneira particularmente criminosa de fugir da questão central. E a questão é brutalmente simples: de onde vieram as informações?

Kardec jamais construiu o Espiritismo sobre a credulidade diante do médium. Ao contrário. O Livro dos Médiuns é uma advertência permanente contra a mistificação, a fraude, a fascinação, o charlatanismo e a aceitação precipitada de comunicações espirituais.

É por isso que determinadas novidades que circulam no movimento causam perplexidade. Agora aparecem afirmações de comunicação direta com Allan Kardec e até a proposta de um suposto “Livro dos Espíritos 2”.

É preciso dizer sem rodeios: Allan Kardec não é selo de autenticação para qualquer revelação contemporânea. Quem afirma conversar com Kardec não recebe, por isso, autoridade kardeciana.

Quem declara receber mensagens do além não adquire imunidade contra a crítica. Quem reúne milhares de seguidores não ganha certificado de infalibilidade. O Espiritismo não funciona assim. Ou não deveria funcionar.

Há ainda a defesa pública de práticas mediúnicas realizadas no ambiente familiar, acompanhada da valorização da evocação de Espíritos como se a simples experiência pessoal fosse suficiente para legitimar o procedimento.

Não é.

No universo kardeciano, fenômeno sem exame é apenas fenômeno. Experiência pessoal não constitui doutrina. Convicção íntima não constitui prova. O Espiritismo não nasceu para abolir a razão em nome dos Espíritos. Nasceu para aproximar a investigação espiritual da razão.

E justamente por isso a postura da Federação Espírita Brasileira merece ser discutida. Não se trata de exigir que uma instituição condene pessoas sem investigação. Trata-se de perguntar qual é seu papel diante de episódios que repercutem nacionalmente e podem deformar a imagem pública da Doutrina Espírita.

Uma Federação que historicamente se apresenta como referência na difusão do Espiritismo não pode ser percebida apenas como uma indústria que só mira lucros com editora, distribuidora de livros ou administradora institucional.

O movimento precisa de uma voz doutrinária. Precisa de estudo, de esclarecimento e de coragem para dizer onde termina o Espiritismo e onde começam as invenções humanas atribuídas a ele.

Não há aqui qualquer guerra contra a mediunidade. A guerra é contra a credulidade travestida de fé. Contra o personalismo travestido de autoridade espiritual e o espetáculo travestido de fenômeno.

Contra a exploração do sofrimento e estelionato do luto  travestida de consolação. E contra a ideia absurda de que questionar um médium equivale a atacar o Espiritismo. É exatamente o contrário.

Questionar é proteger a Doutrina. Investigar é honrar Kardec. Exigir provas é respeitar os Espíritos. Desconfiar daquilo que parece maravilhoso demais é exercer a própria faculdade que Kardec mais valorizou: o pensamento.

O movimento espírita precisa decidir o que quer ser. Uma escola de pensamento fundada na observação, na razão, na moral cristã e no livre exame? Ou um ambiente de celebridades mediúnicas, revelações particulares e histórias extraordinárias consumidas por uma multidão sedenta de consolo?

A escolha não é pequena. Porque se tudo pode ser chamado de Espiritismo, então nada mais é Espiritismo. Talvez estejamos mesmo diante da apoteose dos desvios.

Talvez seja o momento em que a caricatura se tornou tão grotesca que já não pode ser ignorada. Então que venha a atitude. Não pela censura.Não pela perseguição. Não pela intolerância. Pela razão.

Que se abram os livros de Kardec e estudem os textos,  confrontem as afirmações,  investiguem os fatos. Que se retirem os holofotes. E que permaneça aquilo que sobreviver ao exame.

Porque o Espiritismo não precisa temer a verdade. Quem precisa temê-la é o falso médium. E se existe uma coisa que Allan Kardec jamais nos ensinou, foi a acreditar porque alguém mandou. Ele nos ensinou a pensar e a repelir dez verdades do que a admitir uma única falsidade, uma só teoria errônea.

 

Referências  Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns: ou guia dos médiuns e dos evocadores. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos: princípios da Doutrina Espírita. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA. Conheça a FEB: missão e história da Federação Espírita Brasileira. Brasília, DF: FEB.

 

14 setembro 2026

Mediunidade não é brinquedo de família


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há uma inquietante irresponsabilidade quando um protótipo de espírita , querendo ser “autoridade” no movimento espírita, transforma a mediunidade em atividade doméstica banal e, pior ainda, apresenta a evocação de desencarnados como se fosse prática simples, segura e recomendável a qualquer grupo familiar.

Convém separar as coisas. Allan Kardec não condenou pequenas reuniões familiares de estudo espírita. Em 1862, na Revista Espírita, ele chegou a reconhecer vantagens nas reuniões particulares realizadas nos lares, inclusive como espaços de iniciação e estudo.

Outra coisa, muito diferente, é transformar a residência em núcleo improvisado de manifestações mediúnicas, evocações e atendimento a Espíritos sofredores, sobretudo quando conduzido por soberbos e “infalíveis” espíritas sem preparo doutrinário, sem disciplina e sem compreensão dos riscos morais e psíquicos envolvidos.

O próprio Kardec é taxativo quanto à necessidade de ordem, prudência, recolhimento e finalidade séria. No regulamento da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, determinou-se que perguntas aos Espíritos poderiam ser recusadas quando fossem fúteis, pessoais, movidas por curiosidade ou desprovidas de finalidade geral.

Isso deveria bastar para desmontar certas aventuras mediúnicas travestidas de Espiritismo.

Evocar mortos por bisbilhotice, saudade, interesse particular ou desejo de obter respostas pessoais não é demonstração de fé; pode ser, precisamente, o contrário da prudência espírita. O capítulo das evocações, em O Livro dos Médiuns, não é um convite à improvisação. É um estudo sério sobre as condições, as consequências, a identidade dos Espíritos e as possibilidades de mistificação.

Também é grave a ideia de que todo pequeno grupo familiar seja, por isso mesmo, espiritualmente seguro. Número reduzido não significa competência; intimidade não produz superioridade espiritual; parentesco não confere autoridade mediúnica.

O Espiritismo não necessita de líderes soezes que fabriquem facilidades onde Kardec recomendou estudo, método, disciplina e discernimento. Tampouco precisa de pretensas autoridades que, pela força da fama, transformem opiniões pessoais em supostas orientações doutrinárias.

O movimento espírita precisa recuperar uma virtude elementar: responsabilidade.

Reunião familiar para estudar o Evangelho, refletir sobre Kardec e cultivar a prece é uma coisa. Outra, inteiramente diversa, é organizar em casa sessões mediúnicas para evocar desencarnados, atender Espíritos sofredores ou experimentar fenômenos como quem manipula um laboratório doméstico.

Não se trata de medo. Trata-se de prudência espírita. O Espiritismo sério não é espetáculo, passatempo nem laboratório de curiosidades sobrenaturais. É conhecimento submetido à razão, à observação e à moral cristã.

Quem pretende falar em nome de Kardec deveria, antes de tudo, lê-lo com honestidade. Porque a maior irresponsabilidade doutrinária não é desconhecer uma página de Kardec. É conhecê-la e, mesmo assim, ensinar de forma enviesada.

 

Referências Bibliográficas:  

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns ou Guia dos médiuns e dos evocadores. Rio de Janeiro: FEB, cap. XXV, XXIX e XXX.

 KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. Paris, jul. 1862, “Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas”. 

13 setembro 2026

O mar está fervendo e a humanidade continua dormindo



 


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

O aquecimento dos oceanos expõe a irresponsabilidade humana e exige mais consciência e não profecias “apocalípticas”.

“Cem dias de recordes de calor nos oceanos”. Não é manchete de filme de catástrofe. É o retrato de uma realidade climática que já bate à porta da humanidade. Desde 2 de junho de 2026, as temperaturas médias diárias dos mares permanecem em níveis sem precedentes nos registros contemporâneos. Em 10 de setembro, a estimativa global chegou a 21,15 °C.

Enquanto cientistas medem o aquecimento, parcela da humanidade continua discutindo se a crise climática existe. É como discutir a existência da chuva enquanto a água invade a sala. O problema já não é apenas ambiental. É civilizatório. Oceanos mais quentes ameaçam ecossistemas, favorecem eventos extremos, elevam o nível do mar e ampliam a vulnerabilidade de populações costeiras.

E há uma ironia amarga: justamente a humanidade que se proclama racional demonstra, diante dos fatos, uma preocupante incapacidade de aprender. O planeta registra sucessivos sinais de desequilíbrio, enquanto interesses econômicos imediatos continuam prevalecendo sobre a responsabilidade coletiva.

Há uma reportagem que aponta que o atual calor oceânico resulta da combinação do El Niño com o aquecimento decorrente das emissões humanas de gases de efeito estufa. Os oceanos absorvem cerca de 90% do calor adicional provocado por essas emissões. Ou seja: o mar vem funcionando como gigantesco amortecedor térmico da irresponsabilidade humana.

O Espiritismo oferece uma perspectiva que não combina nem com a negação irresponsável nem com o pânico apocalíptico.

Kardec ensinou que os grandes fenômenos da Natureza obedecem a leis e possuem finalidade dentro da ordem universal. Ao tratar dos flagelos destruidores, esclarece que muitos deles concorrem para o restabelecimento do equilíbrio das forças naturais. (KARDEC, 2001, q. 536).

Isso não significa que devamos cruzar os braços. A Lei de Causa e Efeito não transforma o homem em espectador passivo da própria história. Ao contrário: quanto maior o conhecimento, maior a responsabilidade. Se nossa civilização produz desmatamento, poluição, desperdício e emissões que agravam o aquecimento planetário, não podemos depois atribuir exclusivamente à “vontade divina” as consequências de nossas escolhas.

Deus não precisa ser responsabilizado por aquilo que a imprudência humana produz. Também é necessário combater outro equívoco: transformar cada desastre climático em anúncio de “fim do mundo”. O Espiritismo não é doutrina de terror. Não necessita de profetas do caos, datas apocalípticas ou interpretações mirabolantes para demonstrar que a humanidade precisa mudar.

O que precisamos é muito mais simples — e infinitamente mais complexo: educação moral, responsabilidade ambiental e fraternidade.

A Terra é nossa moradia. Não somos seus proprietários absolutos. Somos usufrutuários temporários de um patrimônio que pertence também às futuras gerações. Por isso, preservar a natureza não é moda ideológica. É dever moral.

O verdadeiro espírita não deve perguntar quando o mundo vai acabar. Deve perguntar que mundo está auxiliando a construir.

Os oceanos já deram o alerta. Agora falta à humanidade decidir se continuará dormindo diante dele.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2001.

MAES, Jéssica. Oceanos completam 100 dias de recordes de calor e a temperatura segue alta. Folhapress, 2026. Material reproduzido no documento fornecido.

HAWKING, Stephen. O universo numa casca de noz. 2. ed. São Paulo: Mandarim, 2002.

12 setembro 2026

Espiritismo não é marxismo com verniz espiritual


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 


Justiça social não exige submissão 
da Doutrina Espírita a qualquer ideologia.
 Kardec ensinou transformação moral, 
solidariedade e responsabilidade 
— não revolução política.

                               

A crítica ao meu artigo “Quando a revolução ignora o Espírito, a liberdade é sepultada”, feita por Lindemberg Macena , procura apresentar como “conservadorismo”, “alienação” e até “sadismo disfarçado” qualquer tentativa de distinguir o Espiritismo do marxismo. É precisamente aí que o debate perde qualidade, querido Macena. Discordar de uma determinada ideologia não significa defender a miséria, a desigualdade ou a injustiça. E defender  a justiça social não concede a ninguém autorização para transformar o Espiritismo em instrumento de militância ideológica.

Meu argumento jamais foi que o espírita deva ignorar a pobreza, a desigualdade ou o sofrimento social. Ao contrário. Kardec é claríssimo: “Numa sociedade organizada segundo a lei do Cristo ninguém deve morrer de fome” (KARDEC, 1998, q. 930). O problema está em dar um salto que Kardec não deu: transformar essa afirmação moral em autorização doutrinária para importar ao Espiritismo determinada teoria econômica, política ou revolucionária.

A questão 930, aliás, desmonta parcialmente a própria crítica. Kardec não atribui automaticamente toda desigualdade a uma estrutura econômica externa ao indivíduo. O texto afirma que as próprias faltas humanas podem resultar do meio em que o indivíduo se encontra, mas aponta como solução uma ordem social fundada na justiça e na solidariedade, acompanhada da melhoria moral do próprio ser humano. Não há ali uma palavra sequer sobre luta de classes, ditadura do proletariado, socialização dos meios de produção ou revolução marxista.

Mais importante: na questão 799, quando Kardec pergunta de que maneira o Espiritismo pode contribuir para o progresso, a resposta destaca a destruição do materialismo, a compreensão da vida futura e a solidariedade que deve unir os homens. Portanto, reduzir o pensamento espírita à transformação das estruturas materiais é tão unilateral quanto reduzir o Espiritismo à contemplação individual.

A caridade espírita também não pode ser sequestrada por uma concepção política. Kardec afirma que a caridade não se limita à esmola e abrange todas as relações humanas. Ela é complemento da justiça e exige benevolência, indulgência e respeito à dignidade do próximo. Isso é muito diferente de afirmar que uma determinada ideologia política seja a expressão necessária da caridade.

Há outro problema na crítica: citar Herculano Pires, Léon Denis, Humberto Mariotti, Manuel Porteiro ou outros autores para demonstrar que o Espiritismo pode dialogar com o socialismo não prova que Espiritismo e marxismo sejam doutrinariamente complementares. Prova apenas que espíritas podem estudar, dialogar, concordar parcialmente ou divergir de diferentes correntes filosóficas e políticas.

E aqui está uma distinção elementar: autor espírita não é sinônimo de Codificador.

O Espiritismo não pode ser reconstruído a partir da soma das opiniões políticas de seus intérpretes. Kardec estabeleceu um método de análise e não uma licença para revestir preferências ideológicas com autoridade doutrinária. O fato de um pensador espírita defender determinada concepção política não transforma essa concepção em princípio do Espiritismo.

Da mesma maneira, chamar de “conservador” quem discorda do marxismo não é argumento. É apenas um rótulo. Se alguém deseja demonstrar que meu artigo está doutrinariamente equivocado, precisa apresentar Kardec contra Kardec, não uma sucessão de adjetivos políticos.

Também não aceito a falsa alternativa segundo a qual existiriam apenas duas possibilidades: engajamento político revolucionário ou alienação espiritual. Há uma terceira — e ela é profundamente espírita: transformar o ser humano sem transformar o Evangelho em programa partidário.

O espírita pode combater a fome, defender a dignidade humana, trabalhar pela educação, amparar presidiários, acolher dependentes químicos, proteger crianças, socorrer vítimas de violência e denunciar injustiças. Pode, inclusive, exercer plenamente sua cidadania política. O que não pode é atribuir automaticamente à Doutrina Espírita a sua própria preferência ideológica.

A caridade não precisa de partido. A fraternidade não precisa de comitê político. A dignidade humana não pertence à esquerda nem à direita. E o Evangelho não cabe em manifesto ideológico.

É igualmente perigoso transformar o sofrimento humano em argumento de autoridade para uma corrente política. O necessitado não pode ser convertido em instrumento retórico para legitimar uma ideologia. A pobreza exige socorro, educação, oportunidades, responsabilidade pública e solidariedade privada — mas exige também respeito à liberdade e à consciência individual.

O verdadeiro perigo está justamente em outro lugar: quando uma doutrina espiritual passa a ser julgada pela régua de uma ideologia política, a autonomia do pensamento espírita começa a desaparecer.

A crítica afirma que o Espiritismo deve “encarnar-se” no mundo. Concordo. Mas encarnar-se no mundo não significa submeter-se ao mundo.

Kardec não propôs um partido espírita. Não criou um programa econômico espírita. Não transformou o Espiritismo em braço de qualquer revolução política. Sua contribuição foi muito mais profunda: modificar o homem pela compreensão da imortalidade, da responsabilidade pelos próprios atos, da lei de causa e efeito, da justiça divina e da fraternidade.

É precisamente por isso que meu artigo não precisa pedir desculpas por distinguir Espiritismo de marxismo.

Uma doutrina que pretende libertar o Espírito não pode trocar uma forma de dogmatismo por outra.

Nem dogmatismo religioso, nem dogmatismo político.

O Espiritismo deve dialogar com a filosofia, a sociologia, a psicologia, a pedagogia e as ciências humanas. Deve estudar a sociedade. Deve compreender suas contradições. Deve combater a miséria. Deve defender a dignidade humana. Mas deve fazê-lo preservando aquilo que lhe é próprio.

Porque se toda crítica ao capitalismo for automaticamente espírita, e toda crítica ao marxismo for automaticamente “conservadora”, já não estaremos diante de uma doutrina aberta ao livre exame.

Estaremos diante de uma ideologia procurando ocupar o lugar da Doutrina.

E isso, sim, seria sepultar a liberdade.

A verdadeira revolução espírita começa no Espírito, alcança as relações humanas e produz consequências sociais. Mas ela não precisa de Marx para ser cristã, nem de partido para ser fraterna.

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de José Herculano Pires. 59. ed. São Paulo: LAKE, 1998.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Brasília, DF: FEB, ed. consultada.

DENIS, Léon. Socialismo e espiritismo. Bragança Paulista: Comenius, 2022.

PIRES, José Herculano. O reino. 1946.

MARIOTTI, Humberto. O homem e a sociedade numa nova civilização. São Paulo: EDICEL, 1967.

PORTEIRO, Manuel. Espiritismo dialético. Bragança Paulista: Comenius, 2022.

 

11 setembro 2026

Kardec não foi revogado pela internet


Jorge Hessen

Brasília -DF

Na era da inteligência artificial, do algoritmo e da informação instantânea, o Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos é mais necessário do que nunca.

Há algo intelectualmente desconcertante em ouvir que o Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos teria perdido sua atualidade porque o mundo ingressou na era digital. Como se a internet tivesse revogado Kardec. Não revogou. Se alguma coisa mudou, foi o tamanho do problema: hoje circulam, em velocidade vertiginosa, milhões de mensagens atribuídas a Espíritos, médiuns e supostas autoridades espirituais. Nunca foi tão necessário separar ensino universal de opinião particular.

Kardec não criou o Controle Universal para uma época específica. Criou um método de aferição. Seu propósito era justamente impedir que o Espiritismo ficasse refém da palavra de um médium, de um expositor ou de qualquer liderança humana. Uma revelação isolada pode impressionar; uma opinião célebre pode seduzir; uma mensagem viral pode arrastar multidões. Nada disso, porém, transforma uma ideia em princípio doutrinário.

É exatamente aqui que reside o equívoco daqueles que imaginam que a tecnologia tornou obsoleto o método kardeciano. A internet multiplicou as vozes; não multiplicou automaticamente as verdades.

O Controle Universal não consiste em contar curtidas, visualizações, seguidores ou compartilhamentos. Milhares de pessoas reproduzindo a mesma mensagem não representam milhares de confirmações independentes. Podem representar apenas milhares de cópias da mesma fonte.

O método é outro: comparar comunicações obtidas por diferentes médiuns, em diferentes lugares e circunstâncias; verificar a concordância substancial dos ensinos; confrontá-los com a razão, a lógica e os princípios fundamentais da Doutrina. É a convergência independente que confere peso ao ensino — não a celebridade de quem o transmite.

E, na era da inteligência artificial, isso se tornou ainda mais evidente. Hoje é possível produzir textos, vozes, imagens e vídeos artificialmente convincentes. Informações pessoais podem ser recolhidas nas redes sociais e reapresentadas como se fossem revelações de cartas “consoladoras” . A aparência de autenticidade jamais foi tão fácil de fabricar.

Por isso, justamente agora, Kardec é mais atual do que nunca.

O Espiritismo não pode transformar médium em oráculo, dirigente em autoridade infalível ou experiência pessoal em dogma. Quem afirma algo em nome dos Espíritos deve aceitar o exame. Quem realmente confia na verdade não teme o confronto das ideias.

A Doutrina Espírita nasceu sob o signo da investigação, do livre exame e da razão. Não há lugar, portanto, para uma espécie de monarquia mediúnica, na qual a palavra de uma pessoa se torna suficiente para estabelecer aquilo que os Espíritos ensinam.

O verdadeiro espírita não pergunta apenas: “Quem disse?” Pergunta, sobretudo: “Onde está a confirmação? Qual é a concordância? O ensino é racional? É coerente com os princípios espíritas? Outros médiuns, independentes daquela fonte, receberam orientação semelhante?”

Essa é a vacina contra o personalismo.

Kardec não precisa ser atualizado pela internet. É a internet que precisa ser submetida ao método de Kardec. E quanto maior for o volume de mensagens espirituais despejadas diariamente nas redes, maior deverá ser nossa responsabilidade em submetê-las ao crivo da razão e ao Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos.

Porque uma coisa é divulgar uma opinião. Outra, muito diferente, é pretender transformá-la em ensinamento dos Espíritos.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

 

10 setembro 2026

Quando a fraternidade vira escudo



Jorge Hessen

Brasília -DF


No movimento espírita, caridade não pode significar silêncio diante do erro, nem misericórdia servir de salvo-conduto para práticas que exigem esclarecimento

Há algo profundamente equivocado quando, em nome da fraternidade, se tenta impedir a crítica; quando, em nome da caridade, se pretende encerrar o debate; quando, em nome do Evangelho, se exige silêncio diante de fatos que deveriam ser examinados. A fraternidade cristã não foi instituída para proteger erros, reputações ou interesses institucionais. Foi instituída para aproximar consciências da verdade.

O alerta de Emmanuel, no capítulo 20 de Caminho, Verdade e Vida, é de uma atualidade desconcertante. Sob o título “O Companheiro”, o autor espiritual recorda que ninguém percorre sozinho a estrada da evolução.

Encontraremos companheiros agradáveis e difíceis, concordantes e discordantes, aqueles que nos estimulam e aqueles que nos incomodam. Todos podem ser instrumentos de aprendizado. O problema começa quando transformamos a fraternidade em uma espécie de salvo-conduto moral para não examinar aquilo que nos convém ignorar.

Uma doutrina que ensina o livre exame não pode cultivar uma cultura de intocáveis. O Espiritismo não exige que seus adeptos concordem com tudo nem que aceitem uma prática simplesmente porque é realizada dentro de uma instituição espírita, por uma liderança admirada ou por alguém cercado de prestígio. Kardec não ensinou submissão intelectual. Ensinou investigação, raciocínio, observação e prudência. A fé espírita não teme a verdade — receia, isto sim, a acomodação que dispensa a verdade.

Emmanuel é ainda mais preciso ao recomendar: “Elevemos os que nos rodeiam.” Elevar não é adular. Não é proteger indefinidamente quem erra. Não é transformar crítica em perseguição e questionamento em ofensa. Muitas vezes, elevar significa ter a coragem de advertir o companheiro, apontar-lhe o equívoco e ajudá-lo a repará-lo.

Essa é uma concepção de fraternidade muito mais exigente do que a mera cordialidade.

O movimento espírita não pode cair na tentação de criar zonas de imunidade moral. Nenhum médium, dirigente, palestrante, trabalhador, instituição ou entidade federativa está acima do exame da consciência e dos princípios doutrinários.

Isso não significa licença para acusações irresponsáveis. Ao contrário. Toda crítica séria deve respeitar os fatos, evitar precipitações e distinguir claramente suspeitas, indícios e acusações comprovadas. Mas exatamente por isso não se pode responder a toda contestação com ataques pessoais, desqualificações ou tentativas de silenciamento.

A pergunta correta diante de uma crítica não deveria ser: “Quem está criticando?”

Deveria ser: “O que está sendo apontado é verdadeiro?”

Se a crítica for injusta, os fatos a desmontarão. Se houver equívoco, o esclarecimento será suficiente. Se existir uma falha, o caminho cristão será reconhecê-la e corrigi-la.

O que não é aceitável é substituir a investigação pela indignação. 

Também não se pode confundir caridade com permissividade. A questão 886 de O Livro dos Espíritos relaciona a caridade à benevolência, à indulgência e ao perdão das imperfeições alheias. Mas indulgência não significa negar a realidade. Podemos ser indulgentes com a pessoa sem sermos complacentes com o erro.

Perdoar não é aprovar. Compreender não é concordar. Amar não é acobertar.

Essa distinção deveria estar no centro de qualquer instituição que se apresente como cristã.

Há, ainda, um fenômeno particularmente preocupante: a transformação de determinadas personalidades em referências quase incontestáveis. Quando a admiração substitui o discernimento, nasce o personalismo. E quando o personalismo se instala, a crítica passa a ser percebida como ameaça.

É justamente nesse momento que o movimento espírita precisa recordar Kardec.

A Doutrina não é propriedade de indivíduos. Não existe “dono” da verdade espírita. O trabalhador é passageiro; a instituição é instrumento; a Doutrina permanece.

Por isso, nenhuma obra assistencial, por mais meritória que seja, pode ser utilizada como argumento para impedir questionamentos. A caridade não confere imunidade moral a ninguém. Fazer o bem não transforma automaticamente todas as práticas daquele que faz o bem em práticas corretas.

Essa é uma verdade incômoda, mas necessária.

Se houver erro, que seja corrigido. 

Se houver dúvida, que seja investigada.

Se houver denúncia, que seja examinada com serenidade.

Se houver injustiça, que seja reparada.

E se não houver fundamento, que os fatos esclareçam.

O que não podemos fazer é transformar o companheiro que questiona em inimigo e o companheiro questionado em vítima automática.

Emmanuel nos convida a enxergar no próximo uma oportunidade de aprendizado. Talvez seja hora de aplicar a mesma lição às nossas próprias instituições.

O crítico também pode ser um companheiro.

Pode incomodar. Pode contrariar. Pode expor aquilo que preferíamos não enxergar. Mas, se sua crítica tiver fundamento, talvez esteja prestando um serviço que muitos aduladores jamais tiveram coragem de prestar.

O verdadeiro espírita não deveria perguntar primeiro como preservar sua reputação.

Deveria perguntar como preservar sua consciência.

Porque, no fim, a maior ameaça à fraternidade não é a crítica honesta. É a mentira protegida pelo silêncio dos que deveriam ter coragem de examiná-la.

Fraternidade não é blindagem.

Fraternidade é verdade com misericórdia.

A fé que não teme a razão



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

“Andá com fé, eu vou, que a fé não costuma faiá”, canta Gilberto Gil. A imagem popular traduz uma experiência humana profunda: diante das incertezas da existência, precisamos de confiança para prosseguir. A Epístola aos Hebreus define a fé como “o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que se não veem” (BÍBLIA, Hebreus, 11:1).

Mas é preciso distinguir a fé da credulidade. Para o Espiritismo, fé verdadeira não significa acreditar cegamente, muito menos aceitar afirmações apenas porque alguém as apresenta como verdades espirituais. Allan Kardec é categórico: “Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da Humanidade” (KARDEC, 2008, p. 239).

Essa concepção é particularmente importante nos momentos de crise. Doença, desemprego, dificuldades financeiras, insegurança, envelhecimento, solidão e perdas afetivas podem despertar medo, ansiedade e desalento. A fé racional não elimina automaticamente essas experiências, mas pode oferecer ao indivíduo um eixo interior para enfrentá-las com maior serenidade, responsabilidade e esperança.

No entendimento espírita, essa esperança encontra fundamento na imortalidade da alma e na reencarnação. A morte deixa de ser compreendida como aniquilamento e passa a ser encarada como etapa da existência. Isso não autoriza passividade diante das dificuldades; ao contrário, convoca-nos ao trabalho, à resignação ativa e à transformação moral.

Fé, portanto, não é privilégio concedido a alguns, nem imposição religiosa. É conquista progressiva da consciência. Desenvolve-se pelo estudo, pela experiência, pela reflexão e, sobretudo, pela vivência do bem. A fé que dispensa a razão pode facilmente converter-se em superstição; a razão que despreza toda dimensão espiritual pode reduzir a existência àquilo que os sentidos conseguem perceber.

Jesus ensinou uma fé capaz de “transportar montanhas” (MATEUS, 17:20). As montanhas, porém, também podem representar nossas limitações interiores: medo, egoísmo, pessimismo, orgulho e desesperança.

A verdadeira fé não promete uma vida sem dificuldades. Ela nos ensina a atravessá-las sem perder o sentido da vida. Por isso, mais do que repetir que “a fé não costuma faiá”, precisamos construir uma fé que não tema a razão, não fuja dos fatos e, sobretudo, transforme-se em coragem para viver e amor para servir.

Referências Bibliográficas:

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1995.

GIL, Gilberto. Andar com fé. In: GILBERTO GIL. Um banda um. Rio de Janeiro: Warner Music Brasil, 1982.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 129. ed. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2008.