Jorge Hessen
Brasília -DF
A participação política é um direito do espírita; a vinculação partidária da doutrina, porém, desfigura sua vocação universalista. Insisto no tema. Porque a militância do chamado Movimento Espírita Progressista (MEP), favorável a determinada candidatura presidencial, reacende uma questão relevante: até que ponto podemos associar as convicções políticas de um grupo aos princípios do Espiritismo? O debate exige serenidade, rigor doutrinário e, sobretudo, respeito à liberdade de consciência.
O Espiritismo não é de esquerda nem de direita. Não é liberal, conservador, socialista ou social-democrata. É uma doutrina filosófica, científica, em seu método de investigação, e de consequências morais, conforme a compreensão kardeciana, que oferece princípios para a reflexão sobre a vida individual e coletiva, sem estabelecer uma plataforma de militância partidária ou um programa eleitoral obrigatório.
Essa distinção não significa afastar os espíritas das questões sociais. A desigualdade, a pobreza, a violência, a corrupção e a dignidade humana merecem nossa atenção e nosso compromisso moral. Entretanto, reconhecer a importância desses problemas não nos obriga a adotar uma única interpretação política, tampouco a apoiar determinado candidato como consequência necessária da fidelidade a Allan Kardec.
No Livro dos Espíritos, especialmente nas questões 835 a 842, Kardec aborda a liberdade de consciência e os limites da imposição de convicções. Esse fundamento é incompatível com qualquer tentativa de constranger a comunidade espírita a uma orientação eleitoral específica (KARDEC, 2013).
Cada espírita, na condição de cidadão, pode apoiar o candidato que considerar mais preparado para enfrentar os desafios nacionais. Pode, igualmente, criticar governos, defender políticas públicas e participar de movimentos sociais. São manifestações legítimas da cidadania. O que não se justifica é apresentar uma preferência particular como se representasse a posição oficial da doutrina ou a consciência de todos os seus adeptos.
Assim, integrantes do MEP têm plena liberdade para defender suas convicções progressistas. O mesmo direito pertence aos espíritas que sustentam posições liberais, conservadoras ou outras orientações políticas. A divergência não constitui, por si só, desvio moral, atraso espiritual ou infidelidade a Kardec.
O problema surge quando qualquer corrente pretende converter sua interpretação política em parâmetro de legitimidade doutrinária. A caridade, a justiça e a fraternidade não são patrimônios exclusivos de partidos. Tampouco a defesa da liberdade, da responsabilidade individual e da transformação moral pode ser monopolizada por uma ideologia.
No Evangelho segundo o Espiritismo, a caridade ocupa lugar central na renovação moral. Seu alcance, porém, ultrapassa fronteiras partidárias e não pode ser reduzido a instrumento de propaganda eleitoral (KARDEC, 2013).
O caráter apartidário do Espiritismo não significa indiferença política, mas independência doutrinária diante dos partidos. Podemos participar ativamente da vida pública sem transformar centros espíritas em palanques, instituições em comitês eleitorais ou divergências políticas em disputas de superioridade moral.
A doutrina pertence ao campo universal dos princípios espirituais; o voto pertence à consciência de cada cidadão. Preservar essa distinção é respeitar Kardec, proteger a pluralidade e impedir que interesses circunstanciais se sobreponham à finalidade essencial do Espiritismo: contribuir para o progresso intelectual e moral da humanidade.
Referências Bibliográficas:
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.







