05 agosto 2026

A internet desmascara os marionetes mediúnicos das “cartas consoladoras”



 




Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Durante mais de sete décadas, Chico Xavier psicografou milhares de cartas consoladoras em reuniões públicas, quase sempre realizadas diante de testemunhas, pesquisadores e familiares. As mensagens surgiam semanalmente, sem agendamento prévio e numa época em que não existiam redes sociais, inteligência artificial, mecanismos de busca ou bancos de dados digitais capazes de revelar, em poucos segundos, a intimidade de uma pessoa falecida.

A realidade contemporânea, contudo, é completamente diferente e sinistra. Atualmente, fotografias, conversas privadas, preferências pessoais, vídeos, registros escolares, homenagens póstumas e inúmeras informações familiares encontram-se disponíveis na internet. Basta um like na página do falsário da mediunidade e tudo sobre você e sua família estará à disposição do pérfido médium. Em consequência, no último lustro multiplicaram-se denúncias envolvendo supostos médiuns que utilizam insolentemente dados públicos para construir falsas “cartas consoladoras” destinadas a pais, mães e parentes devastados pela dor da “perda”.

Não é coincidência que alguns desses personagens, que outrora anunciavam psicografias semanais, tenham reduzido drasticamente a frequência de suas falsas mensagens, limitando-se, atualmente, a meia dúzia de apresentações anuais. Eles têm astúcia e sabem que a insistência na produção dos protótipos de “cartas consoladoras”,  constante, inevitavelmente expõe contradições, repetições, equívocos e indícios de informações obtidas por meios virtuais ordinários. Curiosamente, a tecnologia, paradoxalmente, tornou-se um poderoso instrumento de fiscalização das fraudes mediúnicas.

Allan Kardec advertiu que a credulidade irrefletida constitui grave ameaça ao Espiritismo. No Livro dos Médiuns, o codificador recomenda que toda comunicação espiritual seja submetida ao controle da razão, afirmando que "é preferível repelir dez verdades a admitir uma única falsidade" (KARDEC, 1861). O fenômeno mediúnico autêntico não teme a investigação; ao contrário, fortalece-se diante do exame rigoroso.

Quando indivíduos exploram a fragilidade emocional de famílias enlutadas, utilizando informações extraídas das redes sociais para fabricar mensagens supostamente espirituais, ultrapassam os limites da mistificação religiosa e aproximam-se de uma forma perversa de exploração sentimental: o verdadeiro estelionato do luto. Não se trata apenas de enganar intelectualmente, mas de instrumentalizar a saudade, a esperança e a dor humana.

O consolo genuíno jamais dependerá de espetáculos nem de mensagens fabricadas nas ondas virtuais. A Doutrina Espírita ensina que a fé raciocinada exige prudência, discernimento e responsabilidade moral. O silêncio respeitoso vale infinitamente mais do que palavras falsas construídas sobre pesquisas digitais.

Num mundo em que a internet desvenda quase toda a biografia de uma pessoa, a vigilância crítica tornou-se imperativa e ética. Defender as famílias enlutadas contra a fraude é preservar a dignidade da dor humana e proteger a própria credibilidade da mediunidade séria.

 

Referências Bibliográficas:


KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 2. ed. Paris: Didier, 1861.

KARDEC, Allan. Revista Espírita. Paris: Didier, 1862-1869.

XAVIER, Francisco Cândido. Entrevistas e depoimentos. Diversas edições.

04 agosto 2026

O luto deve ser vivido como uma travessia dolorosa iluminada pela esperança.


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A morte física continua sendo um dos maiores desafios emocionais da existência humana. Diante do túmulo de alguém amado, as teorias se calam, os discursos perdem a força e a saudade parece transformar-se numa ferida impossível de cicatrizar. A perda de um filho, de um companheiro, de uma mãe ou de um amigo produz uma dor que, muitas vezes, parece despedaçar a própria alma. Entretanto, segundo a visão espírita, o luto não deve ser vivido como um mergulho interminável no desespero, mas como uma travessia dolorosa iluminada pela esperança.

Antes de tudo, é importante compreender que a Doutrina Espírita não estimula uma dependência psicológica de supostos contatos com os desencarnados. O verdadeiro consolo não reside na busca obsessiva por notícias do além, mas na compreensão racional da imortalidade da alma e da continuidade da vida. Allan Kardec ensina, em O Livro dos Espíritos, que a morte representa apenas a destruição do envoltório físico, permanecendo intacta a individualidade espiritual (KARDEC, 1857).

O sofrimento pela separação é natural e legítimo. Emmanuel, porém, adverte que o desespero prolongado pode converter-se em pesada corrente de sofrimento para aqueles que partiram. As lágrimas do amor sincero são compreensíveis, mas a revolta e a desesperança transformam-se em obstáculos para a recuperação espiritual de quem desencarnou. O luto saudável exige oração, serenidade e confiança na justiça divina.

Vivemos excessivamente voltados para a matéria. Construímos a ilusão de permanência, como se a morte fosse um acidente reservado apenas aos outros. Todavia, todos somos chamados ao testemunho da despedida temporária. Refletir sobre a morte não significa cultivar pessimismo, mas desenvolver maturidade espiritual. Quem aprende a considerar a transitoriedade da existência terrestre prepara-se melhor para enfrentar as inevitáveis separações.

A mensagem espírita não nega a dor; ela lhe confere significado. O ente querido não desapareceu no vazio nem foi tragado pelo nada. Continua vivo, pensando, sentindo e prosseguindo sua jornada evolutiva. Por isso, diante da saudade, o caminho mais digno não é a revolta, mas a transformação da dor em serviço, em oração e em amor.

Emmanuel aconselha que realizemos, em favor daqueles que partiram, as tarefas nobres que eles gostariam de continuar a executar. A caridade, o estudo, o trabalho no bem e a elevação moral tornam-se pontes invisíveis entre os dois planos da vida. Nossas preces sinceras representam estímulos e energias renovadoras para aqueles que atravessaram a grande fronteira.

O Cristo constitui o maior símbolo dessa esperança. Sua trajetória começou na simplicidade, atravessou o sofrimento humano e culminou na mensagem do “túmulo vazio”, que se tornou a maior proclamação da imortalidade. A morte não é o fim, mas um novo despertar.

Diante dos que partiram, o Espiritismo convida à coragem interior: sofrer sem desesperar, amar sem possuir e recordar sem aprisionar. Os chamados mortos não desapareceram; apenas seguiram adiante. E, enquanto caminhamos na Terra, cabe-nos transformar a saudade em luz, até o reencontro prometido pela eternidade.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2004.

XAVIER, Francisco Cândido. Fonte Viva. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília: FEB, 2019.

XAVIER, Francisco Cândido. Religião dos Espíritos. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília: FEB, 2018.

XAVIER, Francisco Cândido. Palavras de Vida Eterna. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília: FEB, 2017.

DENIS, Léon. Depois da Morte. Rio de Janeiro: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2018.

 

 

01 agosto 2026

Obsessão e a crise moral por trás das depressões e ansiedades humanas


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Vivemos a era dos avanços tecnológicos, da comunicação instantânea e da abundância de informações. Nunca a humanidade dispôs de tantos recursos materiais e, paradoxalmente, nunca se mostrou tão angustiada, melancólica e espiritualmente desorientada. Multiplicam-se os transtornos emocionais, a desesperança e o vazio existencial. A pergunta inevitável permanece: por que o homem moderno sofre tanto?

A resposta espírita é que não se encontra nas circunstâncias exteriores, mas na intimidade da criatura. O sofrimento humano não nasce apenas das limitações da existência física; frequentemente, resulta do distanciamento das leis morais que governam a vida. O homem busca a felicidade no poder, no consumo e no reconhecimento social, esquecendo-se de que a Terra é uma escola transitória destinada ao aperfeiçoamento do Espírito.

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, François de Genève ensina que a encarnação constitui uma oportunidade de aprendizado e reparação. Cada criatura traz compromissos invisíveis, débitos morais e responsabilidades que ultrapassam os estreitos limites de uma única existência. Quando a revolta substitui a resignação ativa, quando o egoísmo sufoca a fraternidade e quando a vaidade ocupa o lugar da humildade, instala-se um terreno fértil para as perturbações espirituais.

É nesse contexto que surge a obsessão, fenômeno frequentemente banalizado ou reduzido a mera superstição. Allan Kardec definiu-a como a influência persistente exercida por Espíritos inferiores sobre o pensamento humano. Entretanto, a obsessão não representa uma invasão arbitrária do mundo espiritual sobre a vida terrestre. Antes de tudo, ela expressa uma sintonia moral. Ninguém se torna vítima de influências espirituais perturbadoras sem oferecer, consciente ou subconscientemente, pontos de afinidade.

O verdadeiro campo de batalha da obsessão encontra-se na consciência. Ressentimento, orgulho, inveja, ódio e indisciplina mental constituem portas abertas para a instalação de processos obsessivos. Em contrapartida, a oração, a vigilância e a renovação íntima funcionam como mecanismos de defesa espiritual.

André Luiz adverte que antigos desafetos frequentemente renascem no mesmo lar para reconstruir laços rompidos no passado. Contudo, incapazes de superar a antipatia e o orgulho, muitos transformam a convivência familiar em palco de disputas silenciosas, produzindo enfermidades emocionais e profundas perturbações psíquicas.

A sociedade contemporânea, dominada pela exaltação do individualismo e pela cultura da gratificação imediata, pouco estimula o esforço de autotransformação. Busca-se eliminar sintomas, mas raramente se investigam as causas morais profundas do sofrimento. O resultado é uma civilização tecnologicamente sofisticada, porém espiritualmente fragilizada.

No Livro dos Médiuns, Kardec é categórico ao afirmar que as imperfeições morais oferecem acesso aos obsessores e que o meio mais seguro de afastá-los consiste na prática sincera do bem. Não existem fórmulas mágicas, rituais exteriores ou soluções instantâneas para os conflitos da alma. A libertação espiritual exige disciplina interior, reforma moral e fidelidade aos ensinamentos do Evangelho.

A obsessão é impotente diante da consciência esclarecida e do coração renovado. Somente a vigilância permanente, a oração e o esforço cotidiano de aperfeiçoamento podem imunizar o Espírito contra as sombras que ele próprio alimenta. A advertência de Jesus permanece atual e inadiável: "Vigiai e orai, para que não entreis em tentação."

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Rio de Janeiro: FEB, 2018.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito André Luiz. Nos domínios da mediunidade. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Mateus 26:41; Marcos 14:38; Lucas 21:36; 1 Pedro 5:8.

 

30 julho 2026

O circo “mediúnico” e a sabotagem moral do silêncio federativo



Jorge Hessen

Brasília -DF


Há algo profundamente perturbador no cenário espírita brasileiro contemporâneo. A mediunidade, que Allan Kardec definiu como instrumento de esclarecimento e aperfeiçoamento moral, vem sendo gradativamente transformada em espetáculo, entretenimento digital e, em muitos casos, em simples mercadoria.

Em nome da audiência, do prestígio pessoal e da monetização das plataformas virtuais, multiplicam-se apresentações grotescas em podcasts e redes sociais, nas quais supostos médiuns afirmam transmitir mensagens de Espíritos veneráveis em performances que oscilam entre o teatro amador e o circo de quinta categoria.

Recentemente, uma dessas encenações alcançou níveis particularmente constrangedores: uma pretensa comunicação psicofônica atribuída a Chico Xavier, apresentada num ambiente mais próximo de um espetáculo de variedades do que de uma reunião mediúnica séria. O que se viu não foi recolhimento, elevação espiritual ou profundidade doutrinária, mas um show de gestos extravagantes e emocionalismo barato, incompatível com a sobriedade que sempre caracterizou a mediunidade responsável.

O problema, entretanto, não se limita ao folclore digital. Espalha-se pelo país uma indústria das falsas cartas consoladoras, alimentada pela facilidade de acesso a informações pessoais disponíveis na internet.

Redes sociais, fotografias, homenagens póstumas e dados familiares transformaram-se em matéria-prima para a fabricação de cartas (“consoladoras”) supostamente mediúnicas, muitas delas dirigidas a pais, mães e parentes devastados pela dor da perda. O luto converteu-se em filão dos charlatães e a saudade em oportunidade comercial, arrastando a fé para o lixo do consumo.

Mais grave ainda é a omissão das instituições federativas que deveriam exercer papel orientador. A ausência de notas doutrinárias contundentes, de campanhas educativas e de esclarecimentos públicos diante da proliferação desses abusos revela um silêncio institucional difícil de justificar. Enquanto a mistificação avança, muitos dirigentes parecem acomodados a uma posição de confortável neutralidade.

Não faltam seminários, feiras, congressos e lançamentos editoriais. Não faltam campanhas de divulgação nem sofisticadas estratégias industrial de marketing. Mas faltam coragem doutrinária e disposição para enfrentar o charlatanismo espiritual que corrói a credibilidade do Espiritismo brasileiro.

A impressão que se fortalece é a de que determinadas instituições abandonaram gradativamente sua missão pedagógica para assumir a lógica do mercado cultural. Transformaram-se em milionárias editoras, gestoras de marcas e promotoras de eventos, preocupadas com números, vendas e arrecadação, enquanto questões fundamentais para a preservação da seriedade doutrinária permanecem relegadas ao quinto plano.

Allan Kardec advertiu, em O Livro dos Médiuns, que a fascinação e a mistificação constituem alguns dos maiores perigos da prática mediúnica. Ensinou que toda manifestação espiritual deve ser submetida ao controle da razão e ao exame rigoroso dos fatos. O Espiritismo nunca autorizou a idolatria de médiuns nem a aceitação passiva de mensagens espetaculosas.

Quando instituições federativas se calam diante do abuso, da fraude e da exploração emocional, deixam de cumprir sua função histórica. A omissão, nesses casos, não é simples neutralidade: é abdicação de responsabilidade, ou seja, crime moral.

O movimento espírita brasileiro encontra-se diante de uma encruzilhada moral. Ou retornará aos fundamentos kardecianos — estudo, discernimento e austeridade — ou continuará assistindo, impotente, à transformação da mediunidade em mercadoria e da doutrina em espetáculo.

O silêncio dos que deveriam orientar talvez seja, hoje, um dos sintomas mais graves da crise espiritual que atravessa o movimento espírita brasileiro às avessas.

 

29 julho 2026

A justiça de Deus não se curva ao “igualitarismo ideológico” (comunismo)


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Poucas ideias exercem tanto deslumbramento sobre o pensamento contemporâneo quanto a promessa de uma igualdade absoluta entre os homens. Transformada em palavra de ordem por diversas correntes ideológicas, ela seduz pelo apelo emocional, mas fracassa diante da realidade e, sobretudo, diante das leis morais que regem a vida. A Doutrina Espírita não endossa esse igualitarismo. Ao contrário, ensina que a justiça divina opera segundo a equidade, jamais segundo um nivelamento artificial das criaturas.

Confundir igualdade com justiça é um erro filosófico de assombrosas dimensões. Deus não distribui destinos por sorteio, nem recompensa o mérito e a negligência com a mesma medida. A Providência Divina não ignora o esforço individual, tampouco transforma responsabilidade em privilégio. Sua justiça é perfeita justamente porque considera a história espiritual de cada ser, suas escolhas, seus valores e suas obras.

Jesus sintetizou esse princípio ao afirmar que o Filho do Homem "retribuirá a cada um segundo as suas obras" (Mateus 16:27). Não disse segundo seus discursos, suas reivindicações ou suas pretensões, mas segundo suas obras. O apóstolo Paulo reforça a mesma lei: "Tudo o que o homem semear, isso também ceifará" (Gálatas 6:7). É a Lei de Causa e Efeito, fundamento da responsabilidade moral e incompatível com qualquer pretensão de igualar consequências para condutas desiguais.

Allan Kardec demonstra que Deus concede a todos os Espíritos as mesmas possibilidades de aperfeiçoamento, mas jamais os mesmos resultados. O progresso é conquista, não concessão. Ninguém recebe evolução por decreto, virtude por herança ou felicidade por privilégio. Cada Espírito constrói o próprio destino pelo uso que faz do livre-arbítrio. As diferenças de inteligência, de caráter, de provas e de oportunidades não exprimem favoritismo divino; refletem diferentes estágios da caminhada evolutiva.

É precisamente nesse ponto que o igualitarismo ideológico colide com a visão espírita da existência. Quando se pretende apagar todas as diferenças em nome de uma igualdade abstrata, corre-se o risco de ignorar a responsabilidade individual, desvalorizar o mérito e obscurecer a justiça moral. A Doutrina Espírita não ensina que todos são iguais em evolução; ensina que todos são iguais em dignidade, em origem espiritual e em destino final, mas cada qual responde pelas próprias escolhas e avança conforme o próprio esforço.

A Previdência Divina não administra um universo de privilégios nem de nivelamentos artificiais. Administra um universo de justiça. Cada Espírito recebe oportunidades compatíveis com suas necessidades educativas. Cada prova possui finalidade corretiva. Cada conquista representa fruto do trabalho perseverante. Não há favorecidos; há trabalhadores mais ou menos diligentes na construção de si mesmos.

Essa compreensão desmonta tanto a inveja social quanto o orgulho. Ninguém deve vangloriar-se pelas próprias conquistas, porque elas são resultado de longas experiências reencarnatórias. Tampouco alguém pode revoltar-se diante das dificuldades, porque elas constituem instrumentos de crescimento. A justiça divina não pune por capricho nem recompensa por favoritismo. Educa, corrige e promove.

O Espiritismo proclama uma verdade frequentemente esquecida por uma cultura que prefere direitos sem deveres e recompensas sem esforço: perante Deus, ninguém recebe menos do que merece, mas ninguém recebe mais do que conquistou. A lei que governa o Universo não é a da igualdade artificial proclamada pelos homens. É a da equidade perfeita, na qual cada consciência colhe, inexoravelmente, aquilo que semeou.

 

Referências Bibliográficas:

BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus. Mateus 16:27; Gálatas 6:7.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, especialmente questões 171, 258, 804 e 805.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, cap. V, "Bem-aventurados os aflitos", e cap. XVII, "Sede perfeitos".

 

 

 

28 julho 2026

A ciência sem espírito: o impasse da medicina contemporânea


 


Jorge Hessen

Brasília-DF


A medicina alcançou um patamar tecnológico extraordinário. Nunca se diagnosticou tanto, nunca se operou com tanta precisão, nunca se desenvolveram tantos medicamentos. Apesar disso, multiplicam-se as doenças crônicas, os transtornos mentais e o sofrimento que resiste aos protocolos clínicos. O paradoxo merece reflexão.

Grande parte da formação médica continua assentada sobre um pressuposto raramente discutido: o de que a realidade humana se esgota na dimensão biológica. Estudam-se genes, neurotransmissores e mecanismos celulares com admirável profundidade, mas a consciência, a espiritualidade e suas possíveis repercussões sobre a saúde permanecem, em regra, relegadas à periferia do debate acadêmico. Não por terem sido definitivamente refutadas, mas porque o paradigma dominante simplesmente as exclui.

Esse reducionismo produz consequências. O paciente deixa de ser compreendido como uma unidade complexa para converter-se em um conjunto de indicadores clínicos. A consulta cede espaço ao protocolo; a escuta, ao prontuário eletrônico; a pessoa, ao diagnóstico. A medicina torna-se cada vez mais eficiente para controlar manifestações da doença, sem necessariamente alcançar as causas mais profundas do adoecimento.

Não se trata de negar a relevância dos avanços científicos nem o valor inestimável da terapêutica medicamentosa. Trata-se de reconhecer que ciência e reducionismo não são sinônimos. A crença de que toda experiência humana possa ser explicada exclusivamente por processos físico-químicos constitui uma opção filosófica, não uma conclusão científica.

Também não pode passar despercebido o crescente fenômeno da medicalização. Em muitos casos, a resposta imediata para o sofrimento humano é a prescrição de novos fármacos. Embora indispensáveis em inúmeras situações, medicamentos não substituem educação emocional, valores morais, sentido existencial nem mudanças de comportamento. Uma sociedade que transforma toda dor em diagnóstico corre o risco de perder a capacidade de compreender a própria condição humana.

Sob a perspectiva espírita, codificada por Allan Kardec, essa limitação torna-se ainda mais evidente. O ser humano não é apenas organismo biológico, mas a integração entre corpo, Espírito e perispírito. Nessa compreensão, a saúde resulta do equilíbrio entre essas dimensões, e muitas enfermidades refletem igualmente conflitos de natureza moral e espiritual. Essa visão pertence ao campo doutrinário espírita e propõe uma ampliação da compreensão do adoecimento, sem dispensar os recursos da medicina.

A universidade, por definição, deve ser o espaço do livre exame das ideias, não da consagração de dogmas. Se a ciência tem como vocação investigar a realidade, não há justificativa para interditar, por preconceito filosófico, o estudo rigoroso da consciência e da espiritualidade.

O verdadeiro desafio da medicina contemporânea talvez não seja desenvolver máquinas mais sofisticadas ou medicamentos mais potentes. Seja, antes, recuperar a capacidade de enxergar o ser humano em sua inteireza. Enquanto permanecer confinada ao paradigma estritamente materialista, continuará produzindo notáveis especialistas em doenças. Formar médicos capazes de compreender integralmente a pessoa humana ainda será uma tarefa em aberto.

27 julho 2026

Tarja preta não cura a alma


 



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Vivemos numa época em que a dor humana parece ter perdido o direito de existir sem receber imediatamente um diagnóstico estranho.

De repente, para o facultativo da esquisita psiquiatria materialista, a tristeza transforma-se em depressão. A inquietação converte-se em transtorno. A dificuldade de concentração ganha um rótulo de “transtorno”. O luto, muitas vezes, é tratado como disfunção. E, diante de cada sofrimento, apresenta-se uma solução aparentemente simples: uma classificação clínica e uma receita.

Não se trata de negar a medicina autêntica, indispor a psiquiatria ou demonizar os neurolépticos, ansiolíticos e benzodiazepínicos . Em inúmeras circunstâncias, eles reduzem sofrimentos, controlam crises, estabilizam quadros graves e podem ser indispensáveis. Negar isso seria insensatez.

Mas também é irresponsável transformar a farmacologia em resposta absoluta para todos os dramas da existência. Um comprimidinho  pode atuar sobre mecanismos biológicos, reduzir sintomas e favorecer o equilíbrio clínico. Entretanto, não reconstrói vínculos afetivos destruídos. Não elimina automaticamente a culpa. Não devolve sentido à vida. Não ensina a perdoar. Não produz fraternidade. Não realiza a reforma moral.

O medicamento, em alguns casos, pode ser necessário, mas não é onipotente. O problema começa quando o ser humano é reduzido ao cérebro e a consciência passa a ser tratada como simples produto da atividade neuronal. O materialismo pretende explicar o pensamento pela química, a personalidade pelos circuitos cerebrais e os sentimentos pelas reações orgânicas.

Essa visão pode descrever mecanismos biológicos, mas não explica integralmente a consciência, o amor, a responsabilidade moral, o sacrifício, a esperança nem a necessidade humana de encontrar significado para a existência.

O Espiritismo amplia essa compreensão. Para Allan Kardec, o homem não é apenas organismo. É Espírito imortal, temporariamente ligado ao corpo. O cérebro constitui instrumento indispensável à manifestação da inteligência durante a vida física, mas não representa necessariamente sua origem absoluta.

O homem não é apenas um cérebro que produz espiritualidade. É um Espírito que utiliza o cérebro para manifestar-se na matéria. Essa concepção não despreza a ciência legítima e menos materialista. Reconhece a influência relativa da genética, da neurologia, dos hormônios, dos traumas, do ambiente social e das experiências psicológicas. Entretanto, recusa a redução de toda a realidade humana à química cerebral.

Há dores que os exames médicos não alcançam. Nenhuma tomografia revela a ausência de propósito. Nenhum exame laboratorial mede a solidão moral. Nenhuma fórmula química produz consciência, maturidade ou responsabilidade.

Também é preciso questionar a sociedade que fabrica parte do sofrimento que depois tenta medicar. O jovem é submetido à comparação permanente das redes sociais. O adulto é consumido pela produtividade. As famílias se fragmentam. Os vínculos se enfraquecem. O idoso é frequentemente abandonado.

Depois, quando surgem ansiedade, esgotamento e desesperança, procura-se uma solução rápida para o indivíduo. Pouco se questiona o ambiente que adoece. Pouco se investe na reconstrução dos vínculos. A sociedade adoece coletivamente, mas o indivíduo é medicado isoladamente.

Isso não significa atribuir toda enfermidade mental a processos obsessivos. Tal simplificação é tão perigosa quanto o reducionismo materialista. Afirmar que toda dor psíquica é apenas desequilíbrio químico é reduzir o homem ao cérebro.

Afirmar que toda doença mental é obsessão é transformar o enfermo em “obsidiado”. Ambos os extremos ignoram a complexidade humana. A Casa Espírita não substitui médicos, psicólogos ou psiquiatras. Portanto, obviamente não lhe compete prescrever medicamentos, recomendar sua suspensão nem emitir diagnósticos clínicos.

A fé não autoriza a imprudência. A prece não substitui o médico. O passe não substitui a psicoterapia. Mas a medicina também não substitui o amor, o pertencimento, a esperança e a transformação moral.

A ciência deve continuar avançando, mas não pode perder a humanidade.

A espiritualidade deve iluminar a existência, mas não pode desprezar a razão. Antes do diagnóstico, existe uma pessoa. Antes do sintoma, existe uma história. E, além do corpo transitório, existe o Espírito imortal.

A tarja preta pode aliviar a dor. Pode controlar sintomas. Pode ser indispensável. Mas não cura a mente, apenas alivia a dor, mas não alcança as feridas da alma.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

KARDEC, Allan. A gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

XAVIER, Francisco Cândido. Evolução em dois mundos. Pelo Espírito André Luiz. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

26 julho 2026

Jesus é o "arquétipo da perfeição" e não cabe no imaginário humano


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

O Mestre Jesus é um ser de tal grandeza, de tal elevação espiritual e de tamanha excepcionalidade que, com certeza, não cabe nos estreitos limites do imaginário humano. Quando tentamos compreendê-lo, recorremos às categorias de pensamento que conhecemos, às experiências que acumulamos e aos conceitos que nossa razão é capaz de estabelecer. Entretanto, a grandeza de Jesus está justamente muito além de tudo aquilo que conseguimos conceber.

Para o Espiritismo, essa compreensão encontra uma referência fundamental no Livro dos Espíritos. Na questão 625, Allan Kardec pergunta aos Espíritos qual seria o tipo mais perfeito que Deus ofereceu à humanidade para servir-lhe de guia e modelo. A resposta é direta: Jesus. Kardec acrescenta que, para o homem, Jesus constitui o tipo da perfeição moral a que a humanidade pode aspirar na Terra, e que sua doutrina representa a expressão mais pura da lei de Deus. Assim, a grandeza de Cristo não deve ser avaliada apenas pelos fenômenos extraordinários que lhe são atribuídos, mas, sobretudo, pela sublimidade de sua consciência, pela pureza de seus sentimentos e pela perfeição de sua vivência moral.

Jesus não foi apenas um mestre que transmitiu ensinamentos. Ele viveu aquilo que ensinou. Sua existência tornou-se a demonstração concreta de uma lei moral baseada no amor, na compaixão, no perdão, na justiça e na fraternidade. Por isso, compreender Jesus exige mais do que estudá-lo intelectualmente: exige observar-lhe o exemplo e confrontá-lo com nossa própria conduta.

É possível que uma das maiores dificuldades humanas diante de Cristo seja justamente a tentativa de reduzi-lo às dimensões de nossa compreensão. Cada época constrói uma imagem de Jesus conforme sua cultura, seus valores e suas limitações. Uns o apresentam como simples reformador social; outros, exclusivamente como personagem religiosa; outros ainda o transformam em objeto de dogmas e disputas teológicas. Entretanto, Jesus permanece infinitamente maior do que todas essas interpretações.

A grandeza espiritual de um ser pode ser percebida, em parte, pelos efeitos que sua presença produz na história e, sobretudo, pela capacidade de transformar consciências. Passados mais de dois milênios, sua mensagem continua desafiando o egoísmo, o orgulho, a violência e a indiferença. Sua proposta de amar os inimigos, perdoar sem limites, servir aos semelhantes e fazer o bem sem ostentação permanece tão elevada que a própria humanidade ainda luta para vivê-la plenamente.

Por isso, afirmar que Jesus é um ser tão grande que não cabe no imaginário humano não significa abandonar a razão ou cultivar uma admiração irracional. Significa reconhecer, com humildade, os limites de nossa compreensão. Quanto mais avançamos espiritualmente, mais percebemos que ainda somos aprendizes diante da grandeza moral do “arquétipo da perfeição” segundo Carl Jung.

Talvez seja essa a atitude mais coerente diante de Jesus: estudá-lo sem presunção, admirá-lo sem idolatria e, sobretudo, segui-lo sem fanatismo. Não precisamos compreender toda a extensão de sua grandeza para começar a vivenciar seus ensinamentos. Se Jesus é, conforme Kardec, o nosso guia e modelo, o verdadeiro tributo que lhe podemos prestar não está apenas nas palavras de exaltação, mas no esforço cotidiano de transformar o amor que ele ensinou em realidade dentro de nós.

A grandeza de Jesus, portanto, não se encerra no que sabemos sobre ele. Ela se revela também no horizonte infinito daquilo que ainda precisamos aprender. Cremos que o Cristo é tão grande que não cabe no cognitivo humano justamente porque sua missão e sua elevação espiritual ultrapassam, em muito, o estágio evolutivo intelectual em que atualmente nos encontramos. E é exatamente por isso que ele continua sendo, para nós, não apenas uma figura do passado, mas um permanente convite à ascensão espiritual.

 

Referências Bibliográficas:

BÍBLIA. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2019.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2021.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos: princípios da Doutrina Espírita. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2021.

KARDEC, Allan. Obras póstumas. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

XAVIER, Francisco Cândido. Caminho, verdade e vida. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2022.

23 julho 2026

Sexo, casamento e celibato: Entre o instinto, o amor e a responsabilidade



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Falar de sexo, casamento e celibato é penetrar em um dos campos mais delicados da experiência humana. A sexualidade não se restringe ao corpo nem pode ser reduzida ao simples mecanismo biológico da reprodução. Ela envolve afetividade, desejo, intimidade, vínculos, escolhas, responsabilidades e, para o Espiritismo, repercussões profundas na vida psíquica e espiritual.

A própria Organização Mundial da Saúde compreende a saúde sexual como uma dimensão do bem-estar físico, emocional, mental e social relacionada à sexualidade, destacando a necessidade de relações respeitosas, seguras e livres de coerção, discriminação e violência. O Ministério da Saúde, igualmente, enfatiza informação, prevenção, autonomia, comunicação e responsabilidade nas relações.

Essa visão contemporânea pode dialogar, em muitos aspectos, com a orientação espírita de Emmanuel, para quem o problema sexual não deve ser enfrentado simplesmente pela proibição ou pela repressão, mas pela educação e pela responsabilidade. Em Vida e Sexo, o benfeitor espiritual sintetiza a questão pela necessidade de educação, respeito, controle e responsabilidade, afastando tanto a abstinência imposta quanto a indisciplina dos impulsos. A sexualidade, portanto, não deve ser demonizada nem transformada em objeto de libertinagem. Deve ser educada.

Esse ponto é fundamental. O Espiritismo não propõe uma moral sexual fundada no medo, na culpa ou na condenação do corpo. Propõe, antes, uma ética da responsabilidade. O problema não está na existência do desejo, mas no uso que fazemos dele. O desejo sexual é uma realidade humana; a elevação espiritual consiste em aprender a administrá-lo, integrá-lo à afetividade e submetê-lo aos valores superiores da consciência.

Nesse sentido, não parece suficiente perguntar se determinada conduta sexual é simplesmente "permitida" ou "proibida". A pergunta mais profunda é outra: qual é a qualidade moral da relação que estamos estabelecendo? Há respeito? Há reciprocidade? Há responsabilidade? Existe sinceridade? Há compromisso com as consequências dos próprios atos? O outro é reconhecido como pessoa ou reduzido a instrumento de satisfação?

A sexualidade contemporânea, muitas vezes estimulada por uma cultura de consumo e imediatismo, pode transformar o outro em objeto descartável. A publicidade, a indústria do entretenimento e, mais recentemente, os ambientes digitais e as redes sociais ampliaram a exposição do corpo e a mercantilização da intimidade. Entretanto, seria simplista atribuir exclusivamente à mídia a crise dos relacionamentos. A fragilidade afetiva possui raízes mais profundas: individualismo, narcisismo, dificuldade de renúncia, incapacidade de diálogo e a crescente confusão entre liberdade e ausência de responsabilidade.

A liberdade, no sentido espírita, não significa fazer tudo quanto se deseja. Significa responder conscientemente pelas próprias escolhas. O livre-arbítrio não elimina a lei de causa e efeito. Cada decisão constrói consequências, e a sexualidade não constitui exceção.

Allan Kardec, ao tratar da união dos sexos, esclarece que o estado de natureza corresponde à união livre e fortuita, enquanto o casamento representa um progresso na marcha da humanidade. Para o Codificador, a união estável e responsável constitui elemento importante do desenvolvimento social, embora a indissolubilidade absoluta do casamento seja uma instituição humana e, portanto, sujeita à transformação. A Doutrina Espírita, desse modo, valoriza o casamento sem transformá-lo em mecanismo de aprisionamento.

O casamento, entretanto, não é garantia automática de felicidade. É uma escola. Nele, duas individualidades espirituais são convidadas a aprender convivência, tolerância, fidelidade, renúncia, diálogo e cooperação. O lar pode converter-se em oficina de aperfeiçoamento moral, mas também pode fracassar quando os seus integrantes substituem o amor pela posse, o diálogo pelo autoritarismo e a fidelidade pela vigilância obsessiva.

Por isso, é necessário evitar uma interpretação simplista segundo a qual todos os casamentos seriam necessariamente planejados no mundo espiritual nos mínimos detalhes, ou que toda união difícil representaria obrigatoriamente uma expiação previamente programada. A Codificação reconhece a influência das escolhas, das provas e das expiações na existência humana, mas não autoriza generalizações que transformem toda experiência conjugal em roteiro previamente determinado. O Espiritismo ensina a responsabilidade pessoal e a liberdade, não o fatalismo.

A própria realidade social demonstra que o casamento permanece uma instituição relevante, embora tenha adquirido novas configurações jurídicas e culturais. Segundo o IBGE, em 2024 foram registrados 948.925 casamentos no Brasil, enquanto os registros apontaram 428.301 divórcios. Esses números não autorizam conclusões morais simplistas, mas revelam que casamento e dissolução conjugal continuam sendo fenômenos sociais expressivos e complexos.

Também não se deve confundir casamento com amor, nem sexualidade com amor. O amor pode manifestar-se pela sexualidade, mas não se reduz a ela. A sexualidade pode existir sem amor; o amor, porém, transcende a sexualidade. A afetividade genuína não se mede pela quantidade de contato físico, mas pela capacidade de respeitar, proteger, compreender e favorecer o crescimento do outro.

É precisamente nesse ponto que a sexualidade se relaciona com a espiritualidade. Para André Luiz, conforme a perspectiva apresentada em Evolução em Dois Mundos e No Mundo Maior, a experiência sexual não se limita aos órgãos físicos: envolve a vida mental, as emoções e os campos sutis da individualidade. Essa concepção não deve ser utilizada para alimentar medos, preconceitos ou explicações pseudocientíficas, mas para reforçar a responsabilidade do ser humano diante de seus próprios pensamentos, sentimentos e comportamentos.

A sexualidade, portanto, não deve ser tratada como algo impuro. O corpo não é inimigo do Espírito. O problema está no abuso, na exploração, na violência, na traição, na irresponsabilidade e na objetificação do outro. O que degrada a experiência sexual não é o fato de ela existir, mas o modo como é vivenciada.

Nesse contexto, o sexo antes do casamento não deveria ser analisado pelo Espiritismo através de uma tabela simplista de "permitido" e "proibido". A Doutrina não estabelece um código penal sexual. O que ela oferece é uma ética da consciência. A questão central está na responsabilidade pelos atos, na honestidade dos sentimentos, no respeito ao parceiro, na prevenção das consequências físicas e emocionais e na disposição de assumir os compromissos decorrentes das próprias escolhas.

A contemporaneidade acrescentou elementos que não podem ser ignorados. Gravidezes não planejadas, infecções sexualmente transmissíveis, violência sexual, coerção, abuso psicológico e exposição indevida da intimidade são realidades concretas. A educação sexual responsável, nesse sentido, não constitui concessão à libertinagem. Ao contrário: informação adequada, prevenção e respeito podem contribuir para escolhas mais conscientes e responsáveis.

Quanto ao celibato, Allan Kardec é igualmente claro. A questão não é simplesmente estar solteiro ou casado. O celibato, por si só, não constitui condição automática de superioridade espiritual. Pode ser meritório quando resulta de uma renúncia consciente em favor do bem, do serviço ao próximo ou de uma missão superior. Porém, quando nasce do egoísmo, do medo, da fuga ou da incapacidade de assumir responsabilidades afetivas, não possui, necessariamente, qualquer valor espiritual especial.

Assim, casamento e celibato não devem ser transformados em instrumentos de julgamento moral. Há pessoas casadas que vivem profundamente solitárias e há pessoas solteiras que realizam extraordinário trabalho de amor. Há uniões conjugais que são verdadeiros santuários de crescimento espiritual e outras que se convertem em espaços de violência e sofrimento. Há celibatários dedicados ao bem coletivo e há aqueles que apenas se refugiam na solidão para não enfrentar suas próprias dificuldades.

O critério espírita, portanto, não é o estado civil. É a qualidade moral da vida.

A grande questão sexual da humanidade não será resolvida pela repressão, assim como não será solucionada pela libertinagem. A repressão pode produzir culpa e hipocrisia; a permissividade sem responsabilidade pode produzir vazio, exploração e sofrimento. O caminho espírita está entre esses dois extremos: nem repressão irracional, nem liberdade irresponsável; nem condenação do corpo, nem escravidão aos impulsos. Educação, equilíbrio, respeito e responsabilidade.

O verdadeiro desafio é transformar a energia do desejo em força de construção. O indivíduo que aprende a amar não deixa de sentir; aprende a governar o que sente. Não elimina o desejo; educa-o. Não despreza o corpo; dignifica-o. Não transforma o sexo em pecado; tampouco o transforma em ídolo.

O amor, finalmente, é muito maior do que o sexo. A sexualidade pode ser uma de suas expressões, mas jamais sua medida definitiva. Amar é reconhecer a liberdade do outro, respeitar sua dignidade, assumir as consequências e compreender que ninguém possui ninguém.

Em última análise, sexo, casamento e celibato são experiências humanas que adquirem valor espiritual conforme o propósito com que são vivenciadas. O casamento pode ser uma escola de amor; o celibato pode ser uma escolha de serviço; a sexualidade pode ser uma expressão legítima de afeto e compromisso. Mas nada disso se sustenta sem consciência.

O Espiritismo nos convida, acima de tudo, à responsabilidade perante nós mesmos e perante os outros. A sexualidade, quando integrada ao amor, à dignidade e ao respeito, deixa de ser simples impulso para tornar-se oportunidade de crescimento. Quando subordinada ao egoísmo, à posse e à exploração, converte-se em fonte de desequilíbrio.

A verdadeira educação sexual, sob a ótica espírita, é também educação da alma. E educar a alma significa aprender, gradualmente, a transformar desejo em afeto, impulso em responsabilidade, posse em liberdade e atração em amor.


Referências Bibliográficas:

BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde sexual e reprodutiva. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026. Disponível em: Ministério da Saúde – Saúde Sexual e Reprodutiva. Acesso em: 23 jul. 2026.

BRASIL. Ministério da Saúde. Contracepção. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026. Disponível em: Ministério da Saúde – Contracepção. Acesso em: 23 jul. 2026.

IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Estatísticas do Registro Civil 2024. Rio de Janeiro: IBGE, 2025. Disponível em: IBGE – Estatísticas do Registro Civil. Acesso em: 23 jul. 2026.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, ed. consultada.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, ed. consultada.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Sexual health. Geneva: WHO, 2026. Disponível em: World Health Organization – Sexual Health. Acesso em: 23 jul. 2026.

XAVIER, Francisco Cândido. No mundo maior. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1999.

XAVIER, Francisco Cândido. Vida e sexo. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1999.

XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo. Evolução em dois mundos. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2002.

22 julho 2026

O bem e o mal à luz do Espiritismo



 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Antes de examinarmos o bem e o mal sob a perspectiva espírita, convém compreender que, em sentido filosófico, o mal pode ser entendido como privação, imperfeição ou aquilo que produz dano e se opõe à virtude, à justiça e à dignidade humana. O bem, por sua vez, relaciona-se às ações e atitudes dotadas de valor moral, orientadas para a dignidade, a justiça e o aperfeiçoamento do ser.

O Espiritismo rejeita, contudo, qualquer concepção maniqueísta que atribua ao bem e ao mal forças absolutas, eternamente antagônicas. Para a Doutrina Espírita, Deus é soberanamente justo e bom, e o mal não constitui um princípio eterno ou uma potência capaz de rivalizar com o Criador.

O mal resulta do uso imperfeito do livre-arbítrio e da ignorância espiritual, enquanto o bem expressa o progresso da inteligência e o despertar da consciência. Como ensina Kardec, o ser humano possui os meios de distinguir o bem do mal, pois Deus lhe concedeu a razão para discerni-los (KARDEC, 2019).

A questão do mal inquieta a humanidade desde a Antiguidade. No século XX, Hannah Arendt, ao acompanhar o julgamento de Adolf Eichmann, analisou como crimes de proporções monstruosas podem ser praticados dentro de estruturas burocráticas por indivíduos que abdicam da reflexão crítica e se submetem à lógica da obediência. Seu conceito de “banalidade do mal” não significa que o mal seja insignificante, mas que sua prática pode ser normalizada quando a consciência deixa de pensar, julgar e assumir responsabilidade.

Sob a ótica espírita, entretanto, o mal jamais triunfará definitivamente. Admitir a vitória final do mal seria negar a soberania divina e o princípio da evolução espiritual. Deus não criou seres destinados eternamente à perversidade. Todos os Espíritos caminham para a perfeição, ainda que por diferentes caminhos e em ritmos distintos. O mal é, portanto, uma condição transitória, vinculada à ignorância e ao atraso moral.

André Luiz, em Ação e Reação, apresenta a existência como processo educativo no qual nossas escolhas produzem consequências e exigem reajustes. O sofrimento, nesse contexto, não é castigo arbitrário, mas oportunidade de aprendizado e reparação. O bem não nos imuniza contra as dificuldades da existência, mas nos oferece recursos íntimos para enfrentá-las sem acrescentar novas culpas ao patrimônio espiritual.

Paulo de Tarso expressou dramaticamente essa luta interior: “Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço” (ROMANOS, 7:19). A passagem revela o conflito entre o ideal moral já reconhecido pela consciência e os hábitos inferiores ainda arraigados. A reforma moral exige, por isso, vigilância, disciplina e perseverança.

Também não devemos atribuir exclusivamente aos Espíritos inferiores a responsabilidade por nossas quedas. A influência espiritual negativa encontra campo favorável nas próprias imperfeições humanas. O pensamento, a palavra e a ação constituem escolhas pelas quais somos responsáveis. A obsessão pode existir, mas não elimina o livre-arbítrio nem substitui a responsabilidade moral do indivíduo.

Vivemos, atualmente, uma época marcada por extraordinários avanços tecnológicos e, paradoxalmente, por profundas crises de convivência, polarização, solidão e banalização da violência. A tecnologia ampliou a comunicação, mas não necessariamente aprofundou a fraternidade. A informação multiplicou-se, enquanto a reflexão nem sempre a acompanhou.

É precisamente nesse cenário que a mensagem espírita adquire especial relevância. O progresso material, desacompanhado do progresso moral, pode ampliar os recursos humanos sem necessariamente aprimorar o homem. A verdadeira civilização não se mede apenas pela ciência, pela riqueza ou pela sofisticação tecnológica, mas também pela capacidade de promover justiça, solidariedade e respeito à dignidade humana.

O combate ao mal começa, portanto, dentro de nós. O Evangelho não propõe uma guerra contra as pessoas, mas uma transformação de consciências. O verdadeiro “bom combate” é aquele em que vencemos o egoísmo, o orgulho, a indiferença e a crueldade que ainda sobrevivem em nosso mundo íntimo.

Joanna de Ângelis recorda que o aparente triunfo do mal não deve nos induzir ao desânimo. A sombra não possui existência própria: é ausência de luz. Da mesma forma, o mal não representa o destino definitivo do Espírito. A evolução é a marcha inevitável para Deus.

Por isso, diante da banalização do mal, nossa resposta não pode ser a omissão, o ódio ou o desespero. Deve ser o bem consciente, lúcido e perseverante. Fazer o bem é mais do que praticar atos generosos: é educar sentimentos, corrigir pensamentos, assumir responsabilidades e transformar hábitos. O progresso espiritual começa quando deixamos de perguntar apenas por que o mal existe e passamos a indagar, diante de cada circunstância: o que posso fazer, aqui e agora, para que o bem prevaleça?

 

 

Referências Bibliográficas:


ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

FRANCO, Divaldo Pereira. Momentos enriquecedores. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 1994.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. Obras póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 2006.

XAVIER, Francisco Cândido. Ação e reação. Pelo Espírito André Luiz. Brasília: FEB, 2019.

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Romanos 7:19; 2 Timóteo 4:7.