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  • 26 de jan. de 2026

    PREEXISTÊNCIA É CAUSA EFICIENTE DA GENIALIDADE PRECOCE

    Jorge Hessen

    Casos como o de Laurent Simons e de outros jovens prodígios da ciência contemporânea reacendem um debate recorrente: de onde procedem talentos intelectuais tão desproporcionais à idade cronológica?

    Embora a biologia e a neurociência ofereçam explicações importantes, elas se revelam insuficientes diante de inteligências que, ainda na infância, ultrapassam padrões acadêmicos normalmente construídos ao longo de décadas.

    Na história humana temos exemplos de genialidades precoces  como Miguel Ângelo, que aos doze anos já era um magistral artista; Balzac, aos oito, já compunha pequenas comedias; Wagner, aos 6, já havia lido a história de MozartCarlyle aprendeu a ler aos 4; Alexandre Dumas, aos 4, lia a História Natural de Buffon.

    Walter Scott aprendeu a ler entre 3 e 4 anos. Voltaire; educado por um padre; aprendeu a ler aos 3. Antes dos 12 versejava com admirável fluência; Goethe; aos 7 compunha versos em latim e; antes dos 9; fazia um poema; parte em latim; parte em grego e parte em alemão; Hermógenes; aos 15 ensinava retórica ao imperador Marco Aurélio; Victor Hugo; aos 13 ganhava um prêmio nos jogos florais de Toulouse; Stuart Mill, aos 8 já conhecia o grego perfeitamente e aos 10 aprendeu o latim.

    No século XIX, numerosos pensadores renderam-se à reencarnação: Dupont de Nemours, Charles Bonnet, Lessing, Constant Savy, Pierre Leroux, Fourier, Jean Reynaud. A doutrina das vidas sucessivas foi vulgarizada para o grande público por autores como Balzac, Théophile Gautier, George Sand e Victor Hugo. Pesquisadores como Ian Stevenson, Brian L. Weiss, H. N. Banerjee, Raymond A. Moody Jr., Edite Fiore e outros trouxeram resultados notáveis sobre a tese reencarnacionista.

    Grande parte das tentativas de estudar precocidade intelectual, sem levar em conta a pré-existência do Espírito, esbarra em resultados nada satisfatórios ou em dificuldades insuperáveis, em face da necessidade de se considerar essa hipótese. Caso contrário, entra-se em um beco sem saída e o progresso da ciência nessa área permanecerá na inércia

    O Espiritismo aborda essa questão sem recorrer ao milagre nem ao acaso. Fundamenta-se na lei do progresso do Espírito, segundo a qual o ser pensante não reinicia sua trajetória do “zero” a cada encarnação, mas prossegue um processo contínuo de aprendizado.

     Allan Kardec afirma que o Espírito progride através de múltiplas existências corporais, acumulando experiências e aquisições intelectuais e morais (KARDEC, 2005).

    À luz desse princípio, a precocidade intelectual não constitui exceção às leis naturais, mas sua confirmação. A inteligência precoce pode ser compreendida como a exteriorização de conhecimentos anteriormente adquiridos, que o Espírito reencontra com facilidade quando dispõe de um organismo físico adequado. O cérebro, nesse contexto, funciona como instrumento de manifestação, e não como origem do saber.

    Kardec é explícito ao tratar do fenômeno do gênio, afastando a ideia de privilégio arbitrário. Para o Codificador, a genialidade representa faculdades conquistadas anteriormente, revelando progresso já realizado pelo Espírito (KARDEC, 2008). Assim, o que parece desigualdade injusta revela-se consequência lógica da lei de causa e efeito aplicada ao desenvolvimento espiritual.

    Léon Denis aprofunda essa reflexão ao afirmar que as grandes inteligências da Humanidade são Espíritos antigos, que atravessaram longos ciclos de experiência, esforço e sofrimento. Para ele, o gênio não surge de uma única existência, mas resulta de um passado espiritual rico em aprendizados sucessivos (DENIS, 2010).

    Entretanto, o pensamento espírita é cuidadoso ao distinguir progresso intelectual de progresso moral. Denis adverte que o desenvolvimento da inteligência não implica, necessariamente, elevação do caráter, podendo coexistir com desequilíbrios emocionais, orgulho ou fragilidades éticas (DENIS, 2011). A genialidade, portanto, não é sinônimo de superioridade espiritual.

    Essa advertência é reforçada por Emmanuel, ao lembrar que a inteligência é instrumento neutro, cuja direção depende dos valores que a orientam. Sem o amparo da moral, o intelecto pode converter-se em fator de desequilíbrio individual e coletivo (EMMANUEL, 2013).

    Não surpreende, assim, que muitos gênios precoces enfrentem provas complexas no campo afetivo, social ou psicológico. A precocidade intelectual, longe de representar apenas privilégio, pode constituir compromisso espiritual exigente, no qual o Espírito é chamado a harmonizar conhecimento, humildade e responsabilidade moral.

    O Espiritismo, portanto, não vê nos gênios mirins uma negação da justiça divina, mas sua expressão mais coerente. A pluralidade das existências explica as desigualdades aparentes sem recorrer à arbitrariedade: cada Espírito colhe, no tempo oportuno, os frutos do próprio esforço acumulado.

    Conclui-se que a genialidade precoce pode oferecer suporte robusto à reencarnação em sentido científico e ajusta-se a ela com notável coerência filosófica e moral. Diante desses fenômenos, a Doutrina Espírita reafirma seu eixo central, a preexistência da alma.

     

    Referências  bibliográficas:

    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 86. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005.

    KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 52. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2008.

    DENIS, Léon. Depois da Morte. Tradução de Carlos Imbassahy. 26. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2010.

    DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Tradução de Homero Dias de Carvalho. 28. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2011.

    EMMANUEL. Pensamento e Vida. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 25. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2013.

    25 de jan. de 2026

    CENTRO ESPÍRITA NÃO É CLÍNICA MÉDICA PARA ESPETÁCULOS DE CURA FÍSICA

     


    Jorge Hessen

    Brasília - DF

     

    Com certeza absoluta um Centro Espírita não se estabelece para curar corpos físicos, embora possa eventualmente auxiliar indiretamente na saúde orgânica. Mas a sua finalidade essencial é a cura da alma, isto é, o esclarecimento da consciência; a educação do sentimento; a transformação e reorganização moral do Espírito imortal.

    Quando a Casa Espírita é reduzida a um “pronto-socorro de curas físicas”, perde sua função libertadora da consciência humana e se converte em clínica de espetacularização de cirurgia de emergência (sempre inócua para a alma) e buscada apenas quando a doença física incomoda o enfermo da alma. No Brasil existe até uma estranhíssima e pretensa “cidade espírita”  que oferece essas práticas “milagrosas”  de “cura física” (ou cura tudo?).

    A busca pelo alívio do sofrimento físico sempre acompanhou a história religiosa da humanidade. No movimento espírita, entretanto, tal busca frequentemente assume contornos  místicos equivocados, quando o Centro Espírita é confundido com clínica de cura orgânica, espaço de promessas terapêuticas ou solução imediata para dores do corpo.

    Allan Kardec jamais apresentou o Espiritismo como sistema místico de curas físicas. Ao contrário, definiu-o como doutrina filosófica de consequências morais, destinada ao progresso do Espírito imortal. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, é categórico: “O verdadeiro espírita reconhece-se pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações.” A cura do corpo, portanto, não constitui critério de saúde espiritual. Para Kardec, sem reforma íntima não há libertação, apenas alívio transitório (1).

    O centro espírita, nessa perspectiva, é escola para despertamento da consciência lúcida, e não dispensário de milagrosas cirurgias do além. A propósito, veio-nos à mente o depoimento de Inácio Bittencourt que admite: “Em minha última romagem no campo físico, mobilizando os poucos préstimos de minha boa-vontade, devotei-me ao serviço da cura mediúnica; no entanto, desencarnado agora, observo que a turba de doentes, que na Terra me feria a visão, aqui continua da mesma sorte, desarvorada e sofredora.” (2)

    Essa constatação aponta uma realidade dramática no além-túmulo: “curaram-se” corpos, mas não consciências. A dor que não educa o Espírito apenas muda de plano, prosseguindo no mundo espiritual sob outras formas. O texto de Inácio denuncia, com sobriedade, a ineficácia de práticas de curas físicas desvinculadas da responsabilidade moral.

    André Luiz, amplia essa reflexão ao descrever, em Nosso Lar, vastas regiões espirituais habitadas por Espíritos profundamente enfermos, muitos deles frequentadores assíduos de templos religiosos na Terra (3).

    A doença no além  não é do corpo, mas do remorso não dissolvido; da culpa não reparada; do apego aos vícios morais e da ignorância espiritual e doutrinária persistente.

    Em Missionários da Luz, ainda André Luiz  reforça que a assistência espiritual verdadeira exige educação da alma e que o passe, isolado de esforço íntimo, tem efeito limitado (4). grifei

    Emmanuel aprofunda o tema ao reinterpretar a dor não como punição, mas como instrumento pedagógico da Lei Divina. Em O Consolador, responde de forma direta: “A dor é uma bênção que esclarece.” (5)

    Quando a dor física é suprimida sem que o Espírito compreenda suas causas morais, perde-se uma oportunidade valiosa de crescimento. Não estamos aqui desaprovando o eventual socorro físico, mas alertando que socorrer não é isentar  o doente da responsabilidade espiritual.

    Percebemos  o risco da distorção assistencialista, pois quando o centro espírita se converte exclusivamente em espaço de filas por passes, promessas implícitas de “cura”, dependência emocional do atendimento espiritual, ele corre o risco de alimentar um misticismo milagreiro infantilizado, onde o doente espera ser curado, mas não se dispõe a se transformar moralmentePor essas e outras,  o Codificador já advertia contra esse desvio ao afirmar que o Espiritismo não veio suprimir o esforço pessoal, mas sim esclarecer o dever moral (6).

    Do exposto reafirmamos que o Centro Espírita não existe para curar corpos físicos, embora possa contribuir para o equilíbrio orgânico. Sua missão essencial é curar a alma, educar o Espírito e promover a libertação interior.

    Toda cura que não alcance o despertamento da consciência lúcida é provisória,  e toda dor que educa o Espírito é libertadora.

    Nosso artigo é uma reflexão sobre a maturidade doutrinária, a fim de evitarmos os espetáculos da cura e investirmos mais nos instrumentos pedagógicos para a necessária transformação moral.

     

    Referências bibliográficas:

    1.    KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Cap. XVII, item 4.

    2.    XAVIER, Francisco Cândido; Espíritos diversos. Vozes do Grande Além. Rio de Janeiro: FEB

    3.    XAVIER, Francisco Cândido; ANDRÉ LUIZ. Nosso Lar. Rio de Janeiro: FEB, cap. 1–3.

    4.    XAVIER, Francisco Cândido; ANDRÉ LUIZ. Missionários da Luz. Rio de Janeiro: FEB, cap. 4.

    5.    XAVIER, Francisco Cândido; EMMANUEL. O Consolador. Rio de Janeiro: FEB, questão 100.

    6.    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte terceira, leis morais.

    24 de jan. de 2026

    ​QUANDO A REVOLUÇÃO IGNORA O ESPÍRITO, A LIBERDADE É SEPULTADA




     

    Jorge Hessen

    Brasília – DF

     

    A cansativa cantilena materialista travestida de “justiça social” é um lixo para a humanidade. Por isso, propomos aqui  uma profunda reflexão kardeciana, indicando que movimentos de mudança radical (revoluções) que focam apenas em estruturas materiais, políticas ou econômicas, negligenciando a dimensão espiritual, moral ou humana (o "Espírito"), resultam em tirania e por consequência  no colapso da liberdade individual.

    Há um erro recorrente — e perigosamente confortável — em certos segmentos “espíritas(?!)” contemporâneos: o de tentar conciliar o inconciliável. Em nome de uma “sensibilidade social legítima”, alguns decrépitos passaram a flertar com o marxismo como se ele fosse uma extensão ética do Espiritismo. Não é. Nunca foi. E não pode ser, sem violentar os alicerces da Doutrina Espírita.

    O marxismo não apenas ignora o Espírito — também o nega como realidade ontológica. Sua concepção do homem é estritamente material. E nessa roda quadrada a consciência não é causa, é efeito; a moral não é transcendência, é superestrutura; o sofrimento não é drama espiritual, é subproduto econômico; a história não é educação da alma, é guerra permanente entre classes. Nesse modelo esdrúxulo, o ser humano não é Espírito em aprendizado, mas um robozinho na engrenagem histórica.

    E qual uma roda redonda o Espiritismo parte do ponto exatamente oposto: o Espírito é o princípio inteligente do universo; a matéria é instrumento, a economia é circunstância; a política é expressão temporária do nível moral dos povos; portanto, reduzir o destino humano a relações de produção é, sob a ótica espírita, uma forma míope de visão filosófica.

    O marxismo promete redenção por decreto. Acredita que, mudando a estrutura, muda-se o homem. A experiência histórica mostra o contrário: muda-se o regime, perpetua-se o ego. Cai a burguesia, sobe a burocracia. Derruba-se um opressor, institucionaliza-se outro. A tirania muda de nome, mas não de natureza.

    O Espiritismo afirma que não existe sistema capaz de salvar uma humanidade moralmente doente. Nenhuma engenharia social cura orgulho, vaidade, ódio, sede de poder e violência. Não há revolução econômica que substitua o esforço constante que o Espírito realiza para evoluir moralmente. Não há estatização que substitua a educação do caráter. Não há partido político que substitua a consciência.

    Quando Marx chama a religião de “ópio do povo”, ele revela não apenas sua crítica social, mas sua incompreensão radical da dimensão espiritual do ser. Para Kardec, a ignorância das leis espirituais é que constitui o verdadeiro ópio. É pura ilusão se acreditar que se pode construir um mundo justo com pessoas injustas.

    Mas a questão é que o mais grave não é a cegueira de Marx — fruto de sua prepotência, de sua formação e de sua filosofia caolha. O mais bizarro é o erro de “espíritas(?!)” que, conhecendo a imortalidade da alma, a pluralidade das existências e a lei de causa e efeito, ainda assim tentam importar modelos materialistas como se fossem compatíveis com a Doutrina. Reafirmo que a roda quadrada não move veículo.

    Ceder para a militância vermelhona não é diálogo, mas uma concessão doutrinária intolerável; não é atualização, mas destroçamento doutrinário. Ceder para o marxismo jamais seria caridade intelectual, mas assombrosa confusão conceitual.

    A nossa abençoada Doutrina dos Espíritos combate a miséria, mas recusa veementemente a famigerada luta de classes. Nós espíritas defendemos a justiça social e não toleramos opressões, mas não canonizamos ideologias e nunca trocaríamos o Evangelho por manifestos indigestos.

    O Espiritismo não certifica paraísos coletivos construídos à base de violência. Ele propõe algo mais complexo, mais pausado e mais profundo: a construção do homem novo. Sem isso, toda revolução é apenas a troca de ditadores.

    Entre a ditadura do capital e a ditadura do Estado, o Espiritismo aponta um terceiro eixo: a soberania da consciência esclarecida. Até porque onde ela falta, qualquer sistema — de direita ou de esquerda — degenera.

    O marxismo quer mudar o mundo sem mudar o Espírito. O Espiritismo propõe  mudar o Espírito para, então, transformar o mundo. Misturar Kardec com Marx não é síntese. É aberração.

    E tenho dito!!

     

    Referências bibliográficas :

    MARX, Karl. Contribuição à crítica da filosofia do direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2010.

    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 86. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013.

    KARDEC, Allan. A Gênese. 52. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2012.

    EMMANUEL (Espírito). O Consolador. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 28. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2016.

    DENIS, Léon. Depois da Morte. Rio de Janeiro: FEB, diversas edições.

     

    23 de jan. de 2026

    “AUTOGRATIFICAÇÃO SEXUAL”, AUTODOMÍNIO E EQUILÍBRIO ESPIRITUAL NUMA ABORDAGEM CONSCIENTE


     

    Jorge Hessen

    Brasília - DF

     

    A sexualidade em si mesma permanece como um dos temas mais sensíveis — e frequentemente mal compreendidos — no movimento espírita. Entre heranças de moral religiosa repressiva e leituras modernas excessivamente permissivas, muitos espíritas sinceros encontram dificuldade em adotar uma postura verdadeiramente coerente com a filosofia moral da Codificação.

    O  tema onanismo, em particular, costuma ser cercado por silêncios constrangedores, culpas injustificadas ou banalizações acríticas. Proponho uma abordagem serena, doutrinariamente fundamentada e espiritualmente responsável, à luz dos ensinamentos de Allan Kardec e dos desdobramentos ético-filosóficos apresentados por alguns Benfeitores.

    Vejamos, a Doutrina Espírita não demoniza o corpo nem sacraliza os instintos, mas os compreende como instrumentos da evolução do Espírito. Kardec jamais classificou práticas sexuais específicas como “impuras” em si mesmas. O critério espírita é claro: “o valor moral dos atos reside na intenção e nas consequências que produzem sobre o próprio Espírito” (1).

    A sexualidade é força natural, poderosa e inevitável. Como toda energia, pode ser educada, orientada e sublimada, ou, quando mal administrada, tornar-se fator de desequilíbrio mento espiritual.

    Nesse contexto, a autogratificação sexual não é tema central da moral espírita, nem define, por si só, o grau evolutivo do indivíduo. Nesse sentido, a contribuição de André Luiz é essencial para compreender o tema sem fantasias punitivas. Em suas obras, o enfoque não é o ato isolado, mas o campo mental que o sustenta.

    Em Nos Domínios da Mediunidade, ele esclarece que “a mente cria formas, hábitos e sintonias, e que a repetição de estímulos sexuais associados a imagens inferiores pode gerar fixações psíquicas e desgaste do campo vital, sobretudo quando há compulsão ou automatismo” (2). Todavia, André Luiz não condena a sexualidade nem cria interditos absolutos. O alerta que faz recai sobre: a viciação mental, a perda do autodomínio, a dependência emocional ou energética.

    Recorrendo ao Espírito Emmanuel, com seu estilo ético e pedagógico, ele nos diz que “a evolução do Espírito não se dá pela negação do desejo, mas pela sua educação” (3). Assim, o problema moral não está na função fisiológica, mas na escravidão psicológica. Quando a prática sexual — solitária ou não — passa a dominar a vontade, substituir afetos, gerar culpa recorrente ou impedir o crescimento espiritual, ela se transforma em obstáculo evolutivo.

    Por outro lado, o Mentor de Chico Xavier critica implicitamente a repressão e os excessos de culpa, lembrando que a repressão neurótica fragiliza o caráter; o moralismo externo não gera virtude, até porque  a transformação moral exige lucidez, não medo, pois a  consciência reta nasce do equilíbrio entre disciplina e compreensão de si mesmo.

    Recorro ao sábio Léon Denis, que oferece a chave filosófica mais profunda para o tema. Em O Problema do Ser, do Destino e da Dor, ele ensina que “o progresso espiritual ocorre quando o Espírito se torna senhor de si, e não escravo de impulsos ou convenções” (4).

    As paixões para Denis não são más em si, porém , tornam-se nocivas quando governam o indivíduo. Considerando que a virtude nasce do autogoverno consciente e aplicando esse princípio à autogratificação sexual, compreende-se que o ato ocasional não define inferioridade moral, mas o vício indica desequilíbrio interior. Mas ressalta que a liberdade espiritual cresce com o autodomínio, não com proibições artificiais, posto que o Espírito evolui quando tem a liberdade de escolher, não quando apenas obedece temerosamente.

    A rigor, um dos pontos mais negligenciados no tema é que a culpa exagerada costuma gerar mais prejuízos espirituais do que o comportamento em si. O Codificador lembra que  “Deus não julga por códigos externos, mas pelo esforço sincero no bem” (5).  Em verdade, a autocondenação compulsiva perturba o campo mental,  fragiliza o perispírito e obviamente favorece estados de obsessão intensa.

    Em síntese, compreendo que  esse não é tema central da moral espírita, porém quero destacar que o Espiritismo não propõe vigilância neurótica, mas autoconhecimento lúcidoPosso, pois, assegurar com serenidade que o onanismo não é um desvio moral; logo, não define o valor do Espírito. Contudo, também sei que pode tornar-se problemática quando compulsiva, degradante ou alienante, mas o critério será sempre o equilíbrio, a intenção e os efeitos íntimos.

    Do exposto, refletimos que a questão espiritual fundamental não é: “Isso é permitido?”, mas sim: “Isso me fortalece espiritualmente ou me aprisiona?”. Desta forma, essa é a ética da liberdade responsável ensinada pela Doutrina dos Espíritos.

     

    Referências bibliográficas:

    1. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 86. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013. Questões 629, 711–712.
    2. XAVIER, Francisco Cândido (André Luiz). Nos Domínios da Mediunidade. 44. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2012. cap. XX.
    3. XAVIER, Francisco Cândido (Emmanuel). Vida e Sexo. 29. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2011.
    4. DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. 27. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2011. cap. XXIII.
    5. KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. 59. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2011. Primeira Parte, cap. III.

     

     

    22 de jan. de 2026

    A VISÃO DO “SOCIALISMO” SEGUNDO LÉON DENIS

     


    Jorge Hessen

    Brasília-DF

    A relação entre Espiritismo e questões sociais sempre foi motivo de debates intensos no movimento espírita. Em meio a desigualdades econômicas, tensões políticas e disputas ideológicas, surge a pergunta: seria o Espiritismo compatível com o socialismo?

    Para responder a essa questão de forma equilibrada e fiel à Doutrina Espírita, é forçoso recorrer ao pensamento de Léon Denis, um de seus mais lúcidos continuadores. Ele não se afastou da realidade social de seu tempo. Ao contrário, enfrentou com coragem intelectual os dilemas provocados pelo capitalismo industrial e pelo avanço do socialismo materialista, oferecendo uma leitura doutrinária profunda da chamada “questão social”.

    Denis reconhece a injustiça social, a exploração do trabalhador e a concentração abusiva de riquezas, mas afirma que tais males têm origem mais profunda: o egoísmo humano. Para ele, nenhuma reforma social será eficaz se ignorar a transformação moral do indivíduo. Leis, sistemas políticos e modelos econômicos podem atenuar abusos, mas não regeneram consciências. O Espiritismo ensina que o progresso verdadeiro começa no íntimo do ser e se projeta naturalmente no campo social.

    Em sua obra Socialismo e Espiritismo, Léon Denis faz uma distinção clara entre duas concepções de socialismo.

    O socialismo materialista, predominante em seu tempo e atualmente, nega a existência da alma, rejeita a reencarnação e fundamenta-se na luta de classes. Para Denis, essa visão conduz inevitavelmente ao conflito permanente, pois substitui a fraternidade pelo antagonismo e a responsabilidade moral pela coerção coletiva.

    Já um socialismo de inspiração espiritual, voltado à solidariedade, à justiça e à cooperação, poderia ser aceitável desde que não anulasse o livre-arbítrio nem a lei de causa e efeito. Denis alerta, contudo, que mesmo esse modelo se torna perigoso quando atribui à coletividade um poder redentor que pertence à consciência individual.

    Léon Denis é categórico ao afirmar que o Espiritismo não se identifica com partidos ou ideologias. A Doutrina Espírita não é de direita nem de esquerda, pois sua referência não está nos sistemas humanos, mas na Lei Divina.

    Isso não significa neutralidade moral diante da injustiça. O Espiritismo condena privilégios injustos, exploração econômica e indiferença social. Contudo, também rejeita soluções violentas, autoritárias ou dogmáticas, ainda que apresentadas sob o discurso da igualdade.

    O critério espírita não é ideológico, mas ético: toda proposta deve ser avaliada à luz da fraternidade, da responsabilidade individual e do respeito à liberdade espiritual.


    Embora Léon Denis não tenha conhecido o esquerdismo contemporâneo, seus princípios permitem uma reflexão atual. Grande parte das correntes modernas de esquerda adota um discurso fortemente materialista, reduzindo o ser humano a fatores econômicos, sociais ou identitários.

    À luz do Espiritismo, essa visão é inconciliável. O homem não é produto exclusivo do meio; é Espírito imortal, responsável por suas escolhas ao longo de múltiplas existências. Negar essa realidade conduz a um determinismo que enfraquece a noção de responsabilidade moral.

    Além disso, o moralismo ideológico, a intolerância ao pensamento divergente e a crença de que os fins justificam os meios são duramente criticados por Denis, que sempre combateu qualquer forma de dogmatismo, seja religioso, seja político.

    Para Léon Denis, a verdadeira revolução é espiritual. A justiça social duradoura não nasce da imposição externa, mas da transformação íntima dos indivíduos. A caridade, a fraternidade e a solidariedade são conquistas da consciência, não decretos do Estado.

    Isso não implica passividade diante do sofrimento alheio. Ao contrário, o Espiritismo conclama à ação no bem, à assistência aos necessitados e ao combate às injustiças, mas sempre orientado pelo amor, pela razão e pela elevação moral.

    Portanto, o pensamento de Léon Denis oferece ao movimento espírita um caminho seguro diante das tensões políticas contemporâneas. Ele reconhece a legitimidade da busca por justiça social, mas rejeita soluções baseadas no materialismo, no coletivismo absoluto ou na violência ideológica.

    O Espiritismo é profundamente social, mas sua força transformadora reside na reforma íntima do ser humano. Sem essa base espiritual, qualquer projeto político corre o risco de apenas substituir antigas opressões por novas formas de tirania.

    Cabe, portanto, ao espírita consciente atuar no mundo com responsabilidade social, sem submeter a Doutrina a rótulos ideológicos, lembrando sempre que o progresso da humanidade começa no progresso moral de cada Espírito.

    Os “PhD de Kardec”, autoproclamados guardiões da “pureza doutrinária” e a falácia do Espiritismo restrito à “Codificação”



    Jorge Hessen

    Brasília

     

    A ideia de que apenas o que se encontra literalmente na Codificação pode ser considerado espírita revela uma leitura reducionista, dogmática e antimetodológica da Doutrina Espírita. Trata-se, paradoxalmente, do mesmo tipo de postura que o Espiritismo nasceu para combater ao se apresentar como ciência filosófico-moral fundada na razão, na observação e no progresso.

    É necessário esclarecer, desde o início, um ponto fundamental: a Codificação é a base do Espiritismo, não o limite do conhecimento espírita. Kardec jamais concebeu sua obra como um sistema fechado, acabado ou imune ao avanço das ideias humanas. Ao contrário, ele a definiu explicitamente como uma doutrina progressiva, aberta ao desenvolvimento das ciências e da filosofia.

    Na Introdução da Gênese, Kardec é categórico ao afirmar que o Espiritismo “marchará sempre com o progresso” e que, se a ciência demonstrar algo novo e verdadeiro, a Doutrina não terá dificuldade em assimilá-lo (1). Tal afirmação desmonta, por si só, qualquer tentativa de transformar a Codificação em um cânone estático, semelhante aos textos sagrados das religiões dogmáticas.

    A Codificação, portanto, funciona como alicerce doutrinário, não como cárcere intelectual. É a estrutura que sustenta o edifício, não o teto que impede sua ampliação. Confundir esses papéis é comprometer o próprio método kardequiano, que se apoia no exame crítico, na comparação dos ensinos e no uso permanente da razão.

    Além disso, é preciso recordar que o chamado “corpus kardequiano” não se limita às cinco obras fundamentais. Allan Kardec escreveu, organizou e publicou, ao longo de doze anos, dezenas de artigos, estudos e análises na Revista Espírita, que ele próprio definia como o laboratório experimental da Doutrina Espírita (2). Nela, conceitos são testados, hipóteses são revistas, comunicações são analisadas e princípios são aplicados à realidade social, científica e moral do século XIX.

    Esses escritos não contradizem a Codificação; ao contrário, a ampliam, esclarecem e contextualizam. Negar sua legitimidade é negar o método do próprio Codificador. Trata-se de um paradoxo frequente: invoca-se Kardec enquanto se ignora Kardec.

    Nesse contexto, o conceito de “obras subsidiárias” não apenas é legítimo, como é coerente com a história e a metodologia espíritas. Desde que respeitem os princípios fundamentais — imortalidade da alma, comunicabilidade dos Espíritos, pluralidade das existências, progresso moral e supremacia do ensino ético de Jesus —, tais obras contribuem para o amadurecimento do pensamento espírita.

    Autores como Léon Denis, Gabriel Delanne, Camille Flammarion e Ernesto Bozzano, entre outros, desempenharam papel essencial na consolidação e no aprofundamento da Doutrina, especialmente em seus aspectos filosóficos e científicos (3). Em período posterior, produções mediúnicas e estudos sérios também se inserem nesse campo, desde que submetidos ao crivo da razão, do controle universal do ensino dos Espíritos e da coerência moral.

    O problema surge quando alguns adeptos — verdadeiros “PhD de Kardec”, autoproclamados guardiões da ortodoxia — confundem fidelidade doutrinária com imobilismo intelectual. Transformam Allan Kardec em ídolo infalível e a Codificação em texto sagrado, exatamente o que ele jamais desejou (4).

    O verdadeiro espírita, conforme o próprio Kardec ensina, analisa, compara, raciocina e questiona. Não aceita ideias por autoridade, mas por coerência lógica e elevação moral. O critério espírita não é a origem do texto, do médium ou do autor, mas sua consonância com os princípios fundamentais, sua racionalidade e sua finalidade moral.

    Portanto, nem tudo o que está fora da Codificação é “lixo doutrinário”, assim como nem tudo o que se autodenomina espírita o é de fato. O Espiritismo não se define por fronteiras editoriais, mas por método, princípios e finalidade ética.

    Reduzi-lo a um compêndio fechado não é defendê-lo — é empobrecê-lo.

    E temos dito!

    Referências bibliográficas:

    1      KARDEC, Allan. A Gênese. Introdução, item I. Paris: Didier, 1868.

    2      KARDEC, Allan. Revista Espírita. Janeiro de 1858. Considerações preliminares.

    3      DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Paris: Librairie Philanthropique, 1903; BOZZANO, Ernesto. Fenômenos Psíquicos.

    4      KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Introdução, item VIII: “Fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão face a face em todas as épocas da humanidade.”

     

    20 de jan. de 2026

    A EXPLORAÇÃO DO LUTO E AS “FAKE NEWS” DO ALÉM

     


    Jorge Hessen

    Brasília-DF

     

    O crescimento do movimento espírita brasileiro, especialmente a partir da segunda metade do século XX, trouxe consigo não apenas a difusão da Doutrina Espírita, mas também a ampliação de práticas que se afastam de seus fundamentos científicos, filosóficos e morais. Entre essas distorções, destaca-se a exploração sistemática da dor do luto por indivíduos que se apresentam como médiuns psicógrafos, promovendo supostos “contatos com o além” em ambientes públicos, em eventos pagos e nas redes sociais.

    Essas práticas, longe de representarem o Espiritismo codificado por Allan Kardec, configuram uma verdadeira indústria da ilusão, na qual o sofrimento humano é convertido em capital simbólico egolátrico e egocêntrico.

    Desde a Codificação, Allan Kardec advertiu de forma clara sobre os riscos do uso leviano da mediunidade. No Livro dos Médiuns, o codificador afirma que: “A mediunidade não é uma arte, nem um talento; não pode, portanto, tornar-se uma profissão.” (KARDEC, 2013, p. 321).

    A mediunidade, segundo Kardec, é instrumento de serviço moral, jamais meio de exploração psíquica ou promoção pessoal. A psicografia, quando legítima, submete-se a rigorosos princípios: simplicidade, discrição, ausência de espetacularização e abertura à análise crítica. Qualquer prática que se afaste desses parâmetros contraria frontalmente a metodologia espírita.

    No contexto atual, observa-se a utilização da psicografia como instrumento privilegiado de manipulação emocional. Os falsos médiuns dirigem-se, majoritariamente, a pessoas em estado de sofrimento psíquico profundo, especialmente familiares enlutados.

    A fraude é potencializada pelo uso intensivo das redes sociais digitais, que oferecem um vasto acervo de informações pessoais sobre falecidos e seus familiares: datas, nomes, fotografias, preferências, locais de sepultamento e rituais fúnebres. Esses dados tornam-se a base para a elaboração de cartas genéricas, emocionalmente apelativas e recheadas de elementos verificáveis.

    A presença recorrente de dados burocráticos — como números de telefone, documentos pessoais ou endereçosconstitui forte indício de fraude, pois tais elementos não fazem parte do padrão histórico das psicografias reconhecidas como autênticas.

    Em muitos casos, tais práticas configuram não apenas desvio doutrinário, mas também possível ilícito civil e penal, sobretudo quando associadas ao estelionato emocional.

    Embora existam manifestações isoladas de repúdio e apoio a médiuns sérios, observa-se a ausência de posicionamento institucional firme por parte de entidades de grande visibilidade. Tal omissão pode ser interpretada como conivência indireta, especialmente quando interesses editoriais e agendas midiáticas se sobrepõem ao compromisso doutrinário.

    A exportação dessas práticas para outros países agrava ainda mais o problema, pois compromete o trabalho sério de núcleos espíritas comprometidos com a fidelidade à Codificação.

    É indispensável ressaltar que nem todos os médiuns psicógrafos atuam de má-fé. Existem trabalhadores sérios, discretos e moralmente comprometidos, que jamais exploram financeiramente sua faculdade e que aceitam submeter suas práticas à análise ética e doutrinária.

    A distinção entre o médium honesto e o charlatão não se faz pela popularidade ou pelo impacto emocional causado, mas pelo histórico moral, pelo desapego material e pela fidelidade à Codificação Espírita.

    A indústria das falsas cartas do além representa uma das mais graves distorções contemporâneas do Espiritismo. Ao explorar o luto, descaracterizar a mediunidade e promover espetáculos emocionais públicos, tais práticas traem os fundamentos kardecianos e ferem profundamente a ética espírita.

    Até quando sobreviveremos a tudo isso?

     

    Referências bibliográficas:

    KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 76. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013.

    19 de jan. de 2026

    O Espiritismo desmonta o edifício do dogmatismo


     

     

    Jorge Hessen

    Brasília-DF

     É um equívoco recorrente afirmar que o Espiritismo tenha criado uma nova moral. Essa ideia, além de imprecisa, revela desconhecimento da própria obra de Allan Kardec. A Doutrina Espírita não inventa valores éticos: ela desmonta o edifício do sectarismo dogmático que, ao longo dos séculos, obscureceu a simplicidade da moral ensinada por Jesus.

    Kardec é categórico ao afirmar que a moral do Cristo é a expressão mais pura da lei natural (1). Se assim for, não pode ser propriedade de igrejas, nem instrumento de controle moral, tampouco código de submissão. O Espiritismo rompe com a lógica do medo, da culpa e da obediência cega, ao afirmar que nenhuma fé é legítima se não puder enfrentar a razão (2).

    A promessa do Consolador não foi a de uma nova religião, mas a de uma Revelação libertadora. O Espiritismo cumpre esse papel ao retirar o Evangelho do púlpito da autoridade e devolvê-lo ao foro íntimo da consciência.

    Seguir Jesus, à luz do Espiritismo, não é repetir fórmulas religiosas, mas assumir a responsabilidade integral pelos próprios atos. Por isso, Kardec define o verdadeiro espírita não por sua adesão institucional, mas por sua transformação moral (3). Todo o resto é discurso.

    O Espiritismo nos convida a compreender que a moral ensinada por Jesus nunca precisou ser reinventada, apenas redescoberta. Longe de criar novos princípios éticos, a Doutrina Espírita esclarece o Evangelho, ajudando-nos a compreendê-lo à luz da razão e da experiência espiritual.

    O Codificador ensina que a moral do Cristo é a expressão mais elevada da lei da vida, acessível a todos os Espíritos, em qualquer tempo ou lugar. Ao explicá-la sem dogmas ou ameaças, o Espiritismo nos ajuda a vivenciar o Evangelho com liberdade e consciência.

    A fé proposta pela Doutrina Espírita não se apoia na temeridade, mas na compreensão. Por isso, Kardec afirma que a verdadeira fé é aquela que pode caminhar lado a lado com a razão. Essa perspectiva nos fortalece na prática do bem, não por obrigação, mas por convicção íntima.

    Ser espírita, portanto, é um exercício diário de coerência entre o que se crê e o que se vive. Reconhece-se o verdadeiro espírita, lembra Kardec, pela transformação moral e pelos esforços sinceros de melhoria. É nesse caminho simples e profundo que a moral de Jesus se torna viva em nós.

     

    Referências  bibliográficas:

    1. KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Trad. J. Herculano Pires. 131. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2019, cap. I, item 5, p. 33.
    2. KARDEC, Allan. A Gênese. Trad. J. Herculano Pires. 53. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2018, cap. I, item 39, p. 54.
    3. KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Trad. J. Herculano Pires. 131. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2019, cap. XVII, item 4, p. 255.

    17 de jan. de 2026

    “Espiritismo Progressista” e filosofia "politiqueira espiritualizada”.: Limites Doutrinários e Riscos de Descaracterização



    Jorge Hessen

    Brasília - DF

    O envolvimento do movimento espírita com pautas políticas contemporâneas tem gerado debates esdrúxulos, especialmente no campo do chamado espiritismo progressista. Embora supostamente motivado por preocupações “sociais e humanitárias”, esse engajamento levanta uma questão central: até que ponto a militância político-partidária é compatível com a identidade doutrinária do Espiritismo?

    A Doutrina Espírita estabelece o livre-arbítrio como fundamento da evolução moral. Kardec é explícito ao afirmar que o progresso do espírito depende de suas próprias escolhas, ainda que o meio exerça influência relativa: “O homem é sempre o árbitro de sua própria sorte; pode abreviar ou prolongar seus sofrimentos pela maneira por que procede.” (1)

    Quando leituras coletivistas transferem o eixo da evolução espiritual para as estruturas sociais, corre-se o risco de diluir a responsabilidade moral individual, aproximando-se de um determinismo incompatível com o Espiritismo, que afirma a soberania do espírito sobre a matéria.

    Alguns setores progressistas defendem a revisão de trechos de O Livro dos Espíritos considerados “datados”, a fim de adequá-los a sensibilidades morais contemporâneas. Tal proposta, porém, acarreta uma grave contradição doutrinária. Kardec define o Espiritismo como uma ciência de observação, não como um sistema moldável a conveniências ideológicas: “Uma fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade.” (2)

    Subordinar a Codificação a agendas temporais converte a doutrina de critério racional em produto ideológico, esvaziando seu caráter científico-filosófico-moral.

    Ao denunciar a instrumentalização religiosa por setores conservadores, o segmento do espiritismo progressista acaba por repetir o mesmo equívoco, utilizando espaços doutrinários para panfletagem político-partidária.

    Kardec adverte contra qualquer forma de autoridade imposta ou dogmatismo: “O Espiritismo não impõe crença alguma; convida ao exame.” (3)

    O Movimento Espírita deve permanecer como espaço de esclarecimento moral e espiritual, não de propaganda ideológica, sob pena de ruptura com o princípio do livre exame.

    Obviamente, a busca por justiça social é compatível com a ética espírita; contudo, o Espiritismo reconhece a Terra como um mundo de provas e expiações, onde o progresso é gradual. Pretender instaurar uma harmonia plena no plano material imediato ignora a pedagogia espiritual da experiência humana.

    Como esclarece Kardec: “O mal é necessário ao progresso; é por ele que o homem adquire a experiência.” (4)

    A absolutização de projetos políticos avermelhados demais gerará frustração espiritual e intolerância moral, em desacordo com a visão espírita da evolução.

    O Espiritismo pode — e deve — inspirar atitudes éticas na vida social, mas não pode se confundir com militância político-partidária sem perder sua identidade.

    Quando a reforma das estruturas substitui a reforma íntima, e a imortalidade da alma é eclipsada por diagnósticos materialistas, a doutrina se reduz a filosofia politiqueira “espiritualizada”.

    Preservar a identidade espírita exige fidelidade ao método kardeciano, ao livre-arbítrio e à finalidade maior da Doutrina: a transformação moral do espírito imortal.

     

     

    Referências bibliográficas:

    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 76. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

    KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 132. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2020.

    KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 51. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2018.

    Notas

    1. KARDEC, O Livro dos Espíritos, questão 258.
    2. KARDEC, O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XIX, item 7.
    3. KARDEC, Obras Póstumas, “Constituição do Espiritismo”.
    4. KARDEC, O Livro dos Espíritos, questão 132.

    16 de jan. de 2026

    Egocentrismos ao sabor dos idólatras de oradores, médiuns ou dirigentes



    Jorge Hessen

    Brasília – DF

     

    O Espiritismo, desde sua Codificação, estrutura-se sobre bases inegociáveis: o livre exame, a impessoalidade do ensino dos Espíritos e a primazia da razão aliada à moral evangélica. Qualquer prática que contrarie esses princípios, ainda que travestida de zelo religioso ou entusiasmo doutrinário, constitui grave distorção do ideal espírita.

    Entre tais desvios, destaca-se a idolatria de oradores, médiuns ou dirigentes, fenômeno antigo, mas que se intensifica no contexto contemporâneo de exposição pública, celebrização e espetacularização da tribuna espírita em que as palestras doutrinárias assumem um caráter de entretenimento ou show, priorizando-se a oratória performática (imitadores de Divaldo) e o “carisma” do palestrante em detrimento do conteúdo educativo, simples e consolador proposto por Allan Kardec.

    Allan Kardec combateu com rigor qualquer tentativa de personalização da Doutrina e advertiu que o Espiritismo não pertence a indivíduos, mas à coletividade dos Espíritos superiores, submetida ao controle universal do ensino e ao crivo da razão humana (1).

    No Livro dos Médiuns, Kardec é categórico ao afirmar que o médium é apenas um instrumento, sujeito a falhas morais e intelectuais, razão pela qual não deve jamais ser objeto de confiança cega ou veneração (2). A exaltação da figura mediúnica, segundo o Codificador, cria terreno fértil para a mistificação espiritual e para o abandono do método crítico que sustenta a Doutrina.

    Em Obras Póstumas, Kardec reafirma que o Espiritismo sobreviveria independentemente de nomes ou personalidades, justamente por se apoiar em princípios racionais e universais (3). Assim, qualquer forma de idolatria humana representa ruptura direta com o pensamento kardeciano.

    O Espírito Emmanuel aprofunda essa reflexão ao abordar o problema sob o prisma moral. Para ele, o personalismo é uma das expressões mais sutis da vaidade espiritual, tanto no médium quanto naqueles que o exaltam. Em O Consolador, Emmanuel adverte que o personalismo sempre se constitui em obstáculo à verdadeira vivência do Evangelho (4).

    Quando a figura do trabalhador espírita passa a ocupar lugar central, eclipsando o conteúdo moral da mensagem, estabelece-se perigosa inversão de valores. Emmanuel alerta ainda que espíritos inferiores se aproveitam da admiração desmedida, estimulando o orgulho e a autossuficiência, portas clássicas para processos obsessivos silenciosos.

    André Luiz, em suas obras psicográficas, oferece esclarecimentos valiosos sobre as consequências espirituais da idolatria. Em Nos Domínios da Mediunidade, descrevem-se médiuns sinceros que, ao se deixarem envolver pelo aplauso e pela exaltação pública, gradualmente se afastam dos benfeitores espirituais, passando a sintonizar com entidades interessadas em manter ilusões de grandeza (5).

    Em Missionários da Luz, André Luiz enfatiza que o médium é responsável pela atmosfera mental que cria ao seu redor, sendo o culto à personalidade fator de desequilíbrio grave para a tarefa mediúnica (6). O êxito aparente, quando desvinculado da humildade e do estudo sério, não é sinal de aprovação espiritual.

    À luz desses ensinamentos, torna-se evidente que a idolatria de oradores e médiuns — sobretudo em ambientes de marketing religioso, grandes eventos e ausência de crítica doutrinária — representa sério risco à identidade espírita.

    O Espiritismo não foi concebido para formar ídolos, mas consciências esclarecidas. Onde não há espaço para questionamento respeitoso e análise doutrinária, não há fidelidade a Kardec.

    Em suma,  ninguém é maior que a Doutrina, nem mais importante que o Evangelho vivido. O verdadeiro trabalhador espírita distingue-se pela discrição, pela coerência moral e pela fidelidade doutrinária, jamais pela notoriedade.

    Zelar contra a idolatria não é perseguição pessoal, mas dever doutrinário. Preservar o Espiritismo de personalismos é preservar sua essência racional, moral e libertadora.

     

    Referências bibliográficas:

    1.      KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. Ano de 1861. Tradução de Júlio Abreu Filho. 4. ed. São Paulo: IDE, 2004, p. 321–323.

    2.      Idem, Allan. O Livro dos Médiuns. Trad. Guillon Ribeiro. 76. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013, itens 230, 303.

    3.      Idem, Allan. Obras Póstumas. Trad. Guillon Ribeiro. 45. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2010, p. 35–37.

    4.      EMMANUEL (Esp.). O Consolador. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 29. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2011, questão 383.

    5.      ANDRÉ LUIZ (Esp.). Nos Domínios da Mediunidade. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 30. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2014, cap. 16.

    6.      ANDRÉ LUIZ (Esp.). Missionários da Luz. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 44. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013, cap. 3.