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  • 11 março 2026

    ​O dogmatismo kardequiano sob o despotismo dos PhDs da “lógica”


     



    Jorge Hessen

    Brasília -DF

    Temos observado em certas “lideranças” do movimento espírita brasileiro, mormente os “doutores em lógica”, a afirmação esdrúxula  de que “tudo o que não está nas obras da Codificação não é Espiritismo.” Essa frase soa, à primeira vista, como defesa da “pureza” doutrinária. Contudo, analisada com mais cuidado, revela algo inquietante: uma forma coercitiva de dogmatismo incompatível com o próprio método espírita.

    É evidente que as obras fundamentais de Allan Kardec constituem a base filosófica e metodológica do Espiritismo. Nelas encontramos os princípios estruturais da doutrina e negar essa centralidade seria ignorar a própria identidade do Espiritismo.

    O problema surge quando essa base é transformada em fronteira absoluta, como se o conhecimento espírita tivesse morrido e sido definitivamente encerrado em 1869, com a partida do Codificador para o além..

    Essa postura contradiz diretamente o pensamento do Mestre de Lyon. Em A Gênese, o codificador afirma que o Espiritismo “marchando com o progresso, jamais será ultrapassado”, pois, se novas descobertas demonstrarem erro em algum ponto, ele se modificará nesse ponto. Essa afirmação expressa a própria natureza progressiva da doutrina.

    Além disso, grande parte das reflexões kardecianas não se limita aos chamados cinco livros da Codificação, mas também se encontra na Revista Espírita, publicada mensalmente entre 1858 e 1869. Ali Kardec analisou fenômenos, apresentou comunicações espirituais, discutiu hipóteses e examinou questões filosóficas que ampliam significativamente a compreensão do pensamento espírita.

    Se adotássemos o critério de que apenas a Codificação define o Espiritismo, teríamos de ignorar boa parte do material estudado e debatido pelo próprio Kardec — o que seria, no mínimo, paradoxal.

    O Espiritismo nasceu como doutrina de investigação, baseada na observação dos fatos, no exame racional e no princípio da universalidade do ensino dos Espíritos. Transformá-lo em um sistema ortodoxo fechado entre os “deuses da lógica” equivale a negar o método que lhe deu origem.

    O resultado desse “kardequilogismo dogmático” é peculiar: em nome da fidelidade a Kardec, acaba-se abandonando justamente o que havia de mais essencial em sua obra — o espírito crítico, o método comparativo e a abertura ao progresso do conhecimento.

    Respeitar a Codificação não significa aprisionar o Espiritismo no século XIX. Significa compreender seus fundamentos e, a partir deles, continuar investigando, refletindo e dialogando com o progresso intelectual e espiritual da humanidade.

    Em outras palavras, ser fiel a Kardec não é ecoar Kardec de forma robotizada. É ajuizar e refletir com Kardec.

    09 março 2026

    ​Viajar demais pode ser fuga da alma. Para onde ir?

    Jorge Hessen

    Brasília -DF

     

    Sob o ponto de vista psicológico, certos comportamentos repetitivos de viagens constantes podem, em muitos casos, funcionar como mecanismos de fuga emocional. Nesses contextos, o movimento contínuo não decorre apenas de interesse cultural ou lazer, mas pode representar uma tentativa subconsciente de evitar conflitos internos, frustrações afetivas, tensões familiares ou insatisfações existenciais.

    Quando alguém sente necessidade permanente de “estar viajando para outro lugar”, pode ocorrer um processo de deslocamento simbólico: muda-se o cenário externo sem que os problemas internos sejam efetivamente enfrentados. Assim, a viagem deixa de ser uma escolha livre e passa a assumir a função psicológica de anestesiar angústias ou adiar enfrentamentos das experiências desafiadoras.

    Esse fenômeno é relativamente conhecido nas diversas abordagens da psicologia contemporânea. Em algumas circunstâncias, as viagens constantes funcionam como estratégia de regulação emocional: a pessoa busca novidade, estímulos e sensações de liberdade para compensar estados internos de vazio, ansiedade ou insatisfação. Não significa necessariamente um “transtorno” psíquico, mas pode indicar inseguranças de lidar com aspectos da própria vida.

    Viajar é, sem dúvida, uma experiência atraente. Conhecer novos lugares, culturas e paisagens pode ampliar horizontes e favorecer o autoconhecimento. Entretanto, quando as viagens constantes se transformam em “necessidade” quase compulsiva, convém refletir se estaríamos diante de um simples gosto por viagens ou de uma tentativa inconsciente de fugir de nós mesmos?

    A Doutrina Espírita convida o ser humano a analisar sempre as motivações íntimas de seus atos. No Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, na questão 922, os Espíritos ensinam que a felicidade possível na Terra não depende da multiplicação de prazeres ou distrações, mas da posse do necessário e, sobretudo, de algo mais profundo: a consciência tranquila e a fé no futuro. Isso significa que nenhuma soma de experiências exteriores consegue preencher o vazio de um coração inquieto.

    A sociedade contemporânea estimula a ideia de viagens permanentes: viajar sempre, mudar sempre, experimentar sempre. Porém, essa agitação constante pode esconder um problema espiritual antigo: a dificuldade de permanecer consigo mesmo. Quando o indivíduo sente necessidade contínua de viajar e deslocar-se para outras regiões, pode estar tentando silenciar uma inquietação interior que não deseja enfrentar em sua própria consciência..

    Léon Denis, em O Problema do Ser, do Destino e da Dor, observa que o ser humano frequentemente procura no exterior aquilo que apenas o mundo interior pode oferecer. Para ele, muitas distrações da vida moderna funcionam como uma espécie de anestesia da consciência. O homem se cerca de estímulos, ruídos e novidades para evitar o encontro com suas próprias questões morais.

    O espírito Emmanuel ensina, em páginas de Fonte Viva, que o coração vazio de valores espirituais procura compensações incessantes nas coisas do mundo. Assim, multiplicam-se distrações, atividades e viagens, mas o sentimento de vazio permanece, pois sua causa é interior.

    Nossas reflexões não significam condenar as viagens. Viajar pode ser saudável, educativo e espiritualmente atraente. O problema surge quando as viagens deixam de ser escolha consciente e passam a ser patológicas por necessidade psicológica de fuga de si mesmas.

    Em termos espirituais, a verdadeira viagem não é geográfica, mas sim para dentro de si mesmo. Podemos atravessar continentes e ainda assim permanecer distantes de nós mesmos. Por outro lado, aquele que cultiva serenidade interior pode viver em qualquer lugar e, ainda assim, sentir-se em paz.

    A Doutrina Espírita recorda que o progresso real do Espírito não depende da quantidade de lugares visitados, mas da transformação íntima realizada ao longo da existência. Afinal, por mais que o homem se desloque pelo mundo, haverá sempre um lugar do qual ele jamais conseguirá escapar: a própria consciência.

    Obviamente a questão não está nas viagens em si, mas na função psicológica que elas assumem. Quando realizadas de forma moderada, consciente e equilibrada, as viagens podem ser fontes de crescimento humano. Contudo, quando se transformam em necessidade compulsiva de fuga, tornam-se gatilhos para tentativa de fuga dos conflitos de si mesmos.

    08 março 2026

    Falsas “Cartas do além” devem ser combatidas no limite da razoabilidade.

     



    Jorge Hessen

    Brasília -DF

    A questão dos “seguidores fanáticos de falsos médiuns de cartas consoladoras” é delicada e gravíssima, porque envolve ao mesmo tempo dor emocional, manipulação psicológica, fraude espiritual e plausíveis ilícitos penais.

    Estamos convencidos de que para lidar com essa realidade, é necessário atuar imperiosamente em duas frentes, uma jurídica e outra doutrinária espírita, sem perdermos o equilíbrio, mas também sem conivência com a criminosa  fraude.

    Temos certeza de que em nosso País a atuação de falsos médiuns pode e deve se enquadrar em diversos dispositivos legais, especialmente quando há obtenção de vantagem, exploração da dor (estelionato do luto) ou assédio judicial de críticos.

    Quando o “médium” obtém dinheiro, doações ou benefícios mediante fraude, usando supostas comunicações com mortos e sempre desviando pessoas em erro, mediante ardis, a fim de obter vantagem ilícita. Como as famosas cartas “consoladoras” falsas, obtidas por pesquisa em redes sociais ou informações públicas, com finalidade de projeção egocêntrica, isso caracteriza-se como fraude emocional, portanto, incide no art. 171 do Código Penal (estelionato).

    Embora a mediunidade em si não seja crime, explorar a crença alheia com intenção de projeção egocêntrica é criminoso, especialmente quando o “médium” dissimula poderes “metafísicos” que comprovadamente  não possui incide no art. 283 do Código Penal (Charlatanismo).

    Juridicamente falando, quando seguidores fanáticos de falsos “médiuns”  passam a atacar pesquisadores, jornalistas ou espíritas críticos, esses podem recorrer à justiça com base no art. 138 (calúnia), art. 139 (difamação), (art. 147 ameaça). A Constituição brasileira garante liberdade religiosa, mas com obviedade não protege fraude, violência moral ou perseguição.

    O infausto fenômeno das falsas cartas “consoladoras” cria um ambiente socialmente perigoso porquanto familiares enlutados tornam-se vulneráveis, transformando o médium em figura messiânica e daí seus seguidores passam a agir como se estivessem defendendo uma “causa sagrada”.

    A tragédia moral e a consequência dos falsos “médiuns” não é apenas a fraude, mas são a transformação do luto em mercado, da fé em espetáculo e da dor em instrumento de poder irrestrito (como deuses). Isso é exatamente o que Kardec receava quando escreveu que “O espiritismo será corrompido não pelos seus inimigos, mas pelos que o desfigurarem em suas hostes.”

    Ademais, quando surgem seguidores violentos defendendo fraudes, fica claro que o problema não é apenas mediúnico, é moral, psicológico, jurídico e social. Mas a Doutrina Espírita não depende de cartas “consoladoras”, nem de médiuns celebridades.

    Para lidar corretamente com tal situação no campo jurídico devemos denunciar a fraude quando houver indícios de  prova, a fim de  proteger as vítimas e garantir liberdade religiosa sem permitir o crime para responsabilizar quem lucra com a dor alheia

    Doutrinariamente devemos estudar Kardec seriamente para não idolatrar médiuns, rejeitar espetacularização da mediunidade, acolher enlutados sem exploração. Para isso  urge ser firmes sem intolerância e denunciar sem fanatismo, sempre advogando a legitimidade mediúnica sem perseguição, até porque a fraude deve ser combatida  no limite da razoabilidade.

    Kardec nunca, jamais e em tempo algum negou cidades no mundo espiritual


     


     

    Jorge Hessen

    Brasília -DF

     

    Há no movimento espírita tupiniquim uma afirmação enganadora: a de que Allan Kardec jamais teria afirmado a existência de cidades, habitações ou estruturas organizadas no plano espiritual.

    Essa ideia, repetida muitas vezes (por “sabichões” da “lógica”) sem maior critério na análise das fontes, não resiste (e não resiste mesmo!!!) a uma simples leitura das obras do próprio codificador.

    O fato histórico demonstra que Kardec registrou diversas descrições de sociedades espirituais organizadas, incluindo habitações, centros de reunião e até verdadeiras cidades.

    Vejamos na edição de agosto de 1858 da Revista Espírita: Kardec publica o estudo intitulado “Habitações em Júpiter”, baseado em comunicações mediúnicas analisadas por ele. Nesse texto aparece a descrição da cidade espiritual chamada Julnius.

    O relato não deixa margem para interpretações minimalistas e pueris dos soberbos da “lógica acadêmica”. O texto descreve literalmente ruas e caminhos organizados, praças públicas, pórticos e pontes, canais, edificações coletivas.

    Há um trecho claríssimo (no superlativo mesmo​!), vejamos:“Tem suas ruas, seus caminhos traçados para o serviço interno; tem suas praças públicas, seus pórticos e suas pontes lançadas sobre os canais.”

    E  a  descrição prossegue com um detalhe ainda mais intensíssimo: “A cidade inteligente, a verdadeira Julnius, não deve ser procurada no solo. Ela está no ar” (no ar????....).  E completa: “Veríeis os céus escurecidos por nuvens de casas que chegam de todos os pontos do horizonte.

    Não se trata de metáfora vaga. O texto fala explicitamente de uma cidade espiritual organizada, com moradias e estruturas coletivas.

    No mesmo estudo, Kardec registra que há  habitações e vida social entre os Espíritos, portanto,  vivem em grupos sociais estruturados. E também afirma: “Possuem habitações comuns e famílias, grupos harmoniosos de Espíritos simpáticos.” E vai mais além, (muito “além”) “existem edifícios destinados a reuniões públicas, festas e cerimônias.”

    Destarte, como vimos o texto consigna elementos característicos de qualquer sociedade organizada tais como habitações, vida familiar, espaços coletivos, locais de reunião e celebração

    Portanto, mais de um ano após a Codificação , a literatura espírita registrava formas de organização social no mundo espiritual.

    Como atualmente a reação cética também existia. Curiosamente, Kardec expõe que algumas pessoas ridicularizaram essas descrições e traz à baila comentários irônicos como:

    “Casas de Espíritos em Júpiter!... Que gozação!”

    O ceticismo já existia no século XIX. A diferença é que Kardec não reagiu com dogmatismo nem com negação. Como pesquisador, ele fez o que sempre fez: publicou, analisou e deixou a questão aberta ao exame crítico.

    A confusão atual nasce principalmente de reducionismos como confundir prudência metodológica de Kardec com negação e imaginar que tudo o que não está detalhado no Livro dos Espíritos teria sido rejeitado pelo codificador.

    Porém, a vasta literatura kardeciana é mais abrangente do que os 5 livros da codificação, pois  há todo o material de pesquisa publicado mensalmente por quase 12 anos perfazendo  135 edições  da Revista Espírita (que raros espíritas leem), onde o Codificador registrou inúmeros estudos sobre a organização da vida espiritual. Nos 12 anos da R.E. aparecem referências a sociedades espirituais, agrupamentos de Espíritos por afinidade, habitações espirituais, centros de reunião, comunidades organizadas. Como se deduz nada disso, indica um “vácuo espiritual” onde os Espíritos vagariam sem estrutura social.

    A grande questão talvez seja  terminológica. É verdade que a expressão “colônia espiritual” não aparece na obra de Kardec. Essa terminologia se popularizou no século XX, especialmente após a publicação de Nosso Lar, psicografado por Chico Xavier e atribuído ao espírito André Luiz.

    Contudo, a ausência da expressão não significa ausência do conceito. O que Kardec descreve são sociedades espirituais organizadas com habitações e espaços coletivos — exatamente os elementos que mais tarde seriam chamados de “colônias espirituais”.

    Do ponto de vista histórico e documental, a conclusão é clara: Kardec nunca negou a existência de estruturas organizadas no plano espiritual, muitíssimo pelo contrário. . 

    06 março 2026

    Socialistas Utópicos e as Ideias que Antecederam o Espiritismo


     Jorge Hessen
    Brasília -DF

     

    Antes da publicação de O Livro dos Espíritos, em 1857, algumas ideias que mais tarde seriam sistematizadas por Allan Kardec já circulavam no ambiente intelectual francês do início do século XIX. Entre os pensadores que contribuíram para esse clima espiritualista destacam-se três autores ligados ao chamado socialismo utópico: Jean Reynaud, Pierre Leroux e Charles Fourier. Embora não tenham sido espíritas, eles formularam reflexões filosóficas que apresentam notáveis afinidades com alguns princípios posteriormente consolidados pelo Espiritismo.

    Esses pensadores viveram em uma época marcada por intensas transformações sociais e intelectuais na França. Após a Revolução Francesa, muitos filósofos procuraram reconstruir uma visão espiritual do mundo capaz de conciliar razão, progresso e moralidade. Nesse contexto, surgiram especulações sobre a imortalidade da alma, o aperfeiçoamento moral do ser humano e até mesmo a possibilidade de múltiplas existências.

    Entre eles, Jean Reynaud talvez seja o que mais se aproxima das ideias que depois apareceriam no Espiritismo. Em sua obra Terre et Ciel (1854), o filósofo apresentou a teoria da “palingenesia”, defendendo que a alma progride através de sucessivas existências. Reynaud via a reencarnação como um mecanismo divino de aperfeiçoamento moral e rejeitava a ideia de condenações eternas, sustentando que a justiça divina se manifesta por meio do progresso contínuo do espírito.

    Pierre Leroux, por sua vez, também desenvolveu uma concepção espiritualista do destino humano. Para ele, a humanidade evolui por meio de um processo de solidariedade e de perfeitação moral. Porém, Leroux defendia uma forma estranha de metempsicose progressiva, na qual o espírito se aperfeiçoa ao longo de diversas existências. Embora suas formulações fossem mais filosóficas do que sistemáticas, apontavam para uma visão dinâmica da vida espiritual, semelhante àquela que posteriormente seria organizada pela doutrina espírita.

    Já Charles Fourier ficou conhecido principalmente por suas propostas de reorganização social baseadas nas chamadas falanges comunitárias. Contudo, sua obra também apresenta uma curiosa cosmologia espiritual. Fourier admitia a existência de vida em outros planetas e defendia a ideia de um universo em constante progresso. Ainda que não tenha formulado claramente uma teoria da reencarnação, sua visão da pluralidade dos mundos e da evolução moral da humanidade aproxima-se de conceitos que seriam mais tarde desenvolvidos pelo Espiritismo.

    Apesar dessas afinidades, é importante destacar uma diferença fundamental. Reynaud, Leroux e Fourier chegaram a essas ideias por meio da reflexão filosófica e da especulação intelectual. Já o Espiritismo, segundo Kardec, fundamenta-se no estudo das comunicações mediúnicas, analisadas de forma comparada e submetidas a um método de observação. Assim, a doutrina espírita não se apresenta como simples continuidade dessas filosofias, mas como uma sistematização que buscou reunir ensinamentos espirituais sob critérios de racionalidade e universalidade.

    Dessa forma, pode-se afirmar que esses socialistas utópicos não foram espíritas propriamente ditos, mas contribuíram para formar um ambiente intelectual favorável ao surgimento do Espiritismo. Suas reflexões sobre a imortalidade da alma, o progresso moral e a pluralidade das existências demonstram que certas intuições espirituais já estavam presentes no pensamento europeu antes da codificação kardeciana. Nesse sentido, eles podem ser vistos como precursores filosóficos de ideias que Allan Kardec organizaria posteriormente em um corpo doutrinário coerente e sistemático.


    05 março 2026

    O essencial, a consciência e a fé no futuro como bases da felicidade

     


     

    Jorge Hessen

    Brasília -DF

     

    O Livro dos Espíritos  não é um manual de prosperidade material, mas um roteiro de lucidez moral. Na questão 922, refletindo sobre a felicidade na Terra, os Espíritos dizem que ela é relativa à posição de cada um.  Sob o ponto de vista material  consiste na posse do necessário e  moralmente, na consciência tranquila e na fé no futuro.

    Vivemos, porém, como se a felicidade fosse um produto premium — sempre além do essencial, sempre dependente do próximo degrau social.

    O Espiritismo explica que  o necessário basta. O excesso, quando se torna finalidade, escraviza. A Doutrina não canoniza a pobreza, mas denuncia a fascinação do supérfluo. A paz nasce quando o espírito se emancipa da tirania do “mais”.

    A resposta 922 acima é pedagógica: a felicidade material é relativa. Cada qual, conforme suas circunstâncias, pode experimentar contentamento quando dispõe do indispensável à vida digna. O desapego ao que excede o essencial não é ascetismo sombrio, é lucidez moral. Quem reduz necessidades amplia serenidade.

    Se o necessário sustenta o corpo, a consciência desperta sustenta a alma. Não há travesseiro mais macio que a integridade moral. A fé no futuro transcendente confere sentido às lutas presentes. A esperança espírita não é fuga; é plano de imortalidade. Quem compreende a continuidade da vida após a morte física trabalha com maior lucidez hoje.

    A questão 927 da mesma obra  complementa a 922 ao afirmar que a infelicidade real é a falta do necessário à vida e à saúde. O restante são dores comparativas, infladas pelo orgulho e pelos apetites grosseiros. Quando a paixão governa, a frustração vira regra. Quando o espírito governa, a simplicidade vira refúgio.

    Quantas angústias não nascem da comparação social? O orgulho exige aplausos tanto quanto o egoísmo exige privilégios e a vaidade exige vitrine. Tais requisições são fontes de inquietação. O espírito desapegado, ao contrário, descobre que a paz é um estado interior, não uma vitrine exterior.

    Num tempo de consumo identitário e ansiedade de comportamento, a lição espírita é contracultural, pois que felicidade não é ter muito, é precisar de pouco, portanto não é ostentar, mas é estar em paz e  não vencer os outros, mas é vencer a si mesmo. O essencial material garante a dignidade enquanto que o essencial moral garante a alegria.

    Que as casas espíritas e nossas consciências  retomem essa regra. Menos competição e mais cooperação, destarte   menos acúmulo e mais ação. Menos inquietação pelo aplauso e mais lealdade ao dever.

    A felicidade terrestre, afinal, é possível  quando entendemos que ela começa no suficiente e floresce na consciência.

    01 março 2026

    ​Jesus , O Espírito da Verdade e a autoridade espiritual da Codificação



     

    Jorge Hessen

    Brasília -DF

    Uma das questões mais delicadas e frequentemente debatidas no estudo da Codificação Espírita é a identidade do Espírito da Verdade. Muitos espíritas, dentre os quais me incluo, compreendemos, com coerência e respeito, que essa autoridade espiritual representa o próprio Cristo, dirigindo a Terceira Revelação prometida à humanidade. Essa interpretação é profundamente lógica com o conjunto da Doutrina, mas não ignoro que  exige análise equilibrada, fiel ao método prudente de Allan Kardec.

    Em O Livro dos Espíritos, Kardec afirma claramente que o Espiritismo não foi obra de um único Espírito, mas resultado do ensino coletivo de uma falange de Espíritos superiores. Esse princípio é fundamental, pois preserva o caráter universal da revelação. Sei que a verdade espírita não repousa na autoridade isolada de um nome, mas na concordância universal dos ensinos, recebidos por diversos médiuns, em diferentes lugares e circunstâncias.

    Contudo, entre essa plêiade espiritual, destaca-se a figura central do Espírito da Verdade, que assina mensagens fundamentais, especialmente em O Evangelho segundo o Espiritismo, onde proclama o princípio essencial da Doutrina: “Espíritas! amai-vos, este o primeiro ensinamento; instruí-vos, este o segundo.” Essa síntese contém o núcleo do Espiritismo: evolução moral pelo amor e evolução intelectual pelo conhecimento.

    Em Obras Póstumas, o próprio Kardec relata que seu guia espiritual lhe declarou: “Para ti, me chamarei A Verdade.” Esse Espírito não apenas transmitiu ensinamentos, mas dirigiu e supervisionou a missão do Codificador, revelando tratar-se de uma autoridade espiritual de ordem excepcional.

    Tenho ciência de que Kardec jamais afirmou explicitamente que o Espírito da Verdade fosse Jesus. Essa prudência não foi omissão, mas fidelidade ao método doutrinário. No Livro dos Médiuns, ele esclarece que os Espíritos superiores se reconhecem pela elevação de seus ensinos e não por seus nomes. O Espiritismo não se fundamenta em argumentos de autoridade pessoal, mas na razão, na universalidade e na coerência moral.

    Por outro lado, a própria Codificação apresenta o Cristo como o modelo moral supremo da humanidade e o guia espiritual do planeta, conforme ensina  Kardec em A Gênese. O Espiritismo, por sua vez, declara-se o Consolador prometido, destinado a restaurar e esclarecer os ensinamentos do Cristo.

    Diante disso, é perfeitamente coerente compreender que a revelação espírita tenha ocorrido sob sua direção superior. Isso não implica necessariamente que o Cristo tenha sido o único comunicante direto, mas indica, com forte lógica doutrinária, que sua autoridade espiritual preside a missão da Codificação.

    O mais importante, porém, não é a identidade nominal do mensageiro, mas a natureza da mensagem. O Espiritismo não veio para criar um culto novo, mas para restaurar a verdade eterna: a imortalidade da alma, a justiça divina, a evolução espiritual e a supremacia da lei de amor.

    O Espírito da Verdade representa essa autoridade moral superior que orientou a Terceira Revelação. Sob sua direção, Kardec realizou a obra monumental da Codificação, não como médium passivo, mas como missionário lúcido, criterioso e fiel ao princípio da fé raciocinada.

    Assim, reconheço que mais importante do que saber o nome exato do Espírito da Verdade é reconhecer o caráter elevado de sua missão: conduzir a humanidade à maturidade espiritual, cumprindo, no tempo assinalado, a promessa do Consolador que haveria de restabelecer todas as coisas. 

    28 fevereiro 2026

    A Doutrina dos Espíritos é libertária, mas não é relativista.


     

    Jorge Hessen

    Brasília -DF

     


    A Doutrina dos Espíritos é uma programação divina essencialmente libertária porque não se impõe pela força, não se sustenta no medo e não se legitima pela autoridade humana.

    A Terceira Revelação não estabelece dogmas e não impõe condenações eternas. Sua proposta é a da liberdade com responsabilidade, fundada na lei natural e na consciência.

    No entanto, é um equívoco supor que, por não condenar, a Doutrina dos Espíritos  aceite indistintamente todos os comportamentos. Inobstante não nos condenar, avalia nossos atos à luz das leis morais que regem a evolução do Espírito. Obviamente não há anátema e nem punição arbitrária, mas há efeito natural de nossas escolhas.

    Somos livres para agir, mas colhemos inevitavelmente os resultados de nossas escolhas. Essa é a base da lei de causa e efeito. A Doutrina dos Espíritos  não ameaça com a inócua advertência “Você será condenado”, mas esclarece  “Você experimentará as consequências naquilo que fizer”.

    Essa distinção é fundamental porque as religiões literalistas e dogmáticas frequentemente operam pela lógica da proibição e da condenação externa. Mas a Doutrina dos Espíritos , ao contrário, opera pela lógica da compreensão e da responsabilidade consciencial. Jamais proíbe, contudo, esclarece até por que não há espaço para ameaças inúteis só para a educação proativa, em face disso, a Doutrina não subjuga,  todavia  desperta e  emancipa a consciência.

    Contudo, essa emancipação não é permissividade moral, pois não legitima o erro, mas o explica como uma conquista para o aprendizado em face da ignorância espiritual. Com isso não justifica o mal mas o interpreta como expressão transitória de Espíritos ainda ignorantes. Nessa direção não preconiza absolvição automática, mas demonstra que a reparação do erro  é parte natural do processo evolutivo.

    Por isso, a Doutrina dos Espíritos  é libertária, mas não é relativista. Pois reconhece a liberdade do Espírito, porém afirma a existência de leis morais universais. A verdadeira autoridade da Doutrina dos Espíritos  não é institucional, mas é o Código Moral de Leis  inscrito na consciência do ser humano.

    Somos livres para sabotar essa lei, mas somos escravos de suas consequências educativas. E essa é a grande revolução moral proposta pela Doutrina dos Espíritos, ou seja, substituir o medo da condenação pelo entendimento da responsabilidade e suprir a obediência cega pela adesão consciente, para efetivamente transmutar a submissão exterior em mudança interior.

    A Doutrina dos Espíritos  não quer e nem precisa de “fiéis” submissos, mas convida ao despertamento da consciência. Portanto , a Terceira Revelação  não constrange, não ameaça, não condena, somente  educa e consola.

    Em face disso, a Doutrina dos Espíritos não aceita tudo abertamente, até porque a verdade não é construída pela vontade humana e, principalmente, não condena ninguém por defender o princípio de que todo Espírito é destinado à pura e eterna felicidade (perfeição relativa).

    23 fevereiro 2026

    A Reunião Pública Espírita Não É Sacramento


     

    Jorge Hessen

    Brasília -DF

    Há um equívoco silencioso se consolidando em diversas casas espíritas que é a transformação da reunião pública em ato quase sacramental. Criou-se, em certos ambientes, a ideia de que assistir à palestra semanal é uma espécie de obrigação espiritual, como se a simples presença física garantisse proteção, mérito ou elevação moral.

    Isso nunca foi , não é jamais será Espiritismo. Até porque Allan Kardec jamais instituiu rito, liturgia ou sacramento. A Doutrina Espírita não nasceu como sistema de práticas devocionais, mas como corpo de princípios fundamentados na razão, na observação e na moral do Evangelho.

    Na sua literatura Kardec é intenso ao assegurar que as reuniões espíritas devem ter finalidade instrutiva e moral e jamais cerimoniais.

    A palestra pública é, essencialmente, uma aula de esclarecimento, de consolação e de orientação moral, nada além disso. E nada aquém disso.

    Quando se passa a atribuir à reunião pública um valor místico — como se “não faltar” fosse sinal de fidelidade espiritual —, inicia-se uma distorção perigosa. O Espiritismo não opera por presença em auditório. Age por mudança interior. Obviamente frequentar palestras pode ser útil. Mas ouvir palestra não é o mesmo que assimilar. Comparecer à reunião pública não é o mesmo que transformar-se moralmente. A casa espírita não é templo de salvação coletiva; é escola de responsabilidade individual.

    O centro espírita é oficina de aprendizado, não santuário de rituais. Quando alguém afirma que “é preciso estar na reunião para manter a proteção espiritual”, revela — ainda que sem perceber — uma mentalidade mágica que a Doutrina combate desde a sua origem. O Espiritismo não ensina amuletos coletivos nem blindagens litúrgicas. Ensina sintonia moral.

    Proteção espiritual não se conquista por presença física, mas por elevação de pensamentos, por prática do bem, por vigilância íntima. Transformar a palestra em obrigação é aproximar o Espiritismo daquilo que ele não é: religião de rito.

    Não desconheço que uma reunião pública pode abrir portas de despertamento consciencial. Pode acolher os aflitos e iniciar os novatos. Tanto quanto pode consolar o coração ferido. Mas seu valor está na mensagem assimilada — não no número de cadeira ocupada.

    Centros espiritas “lotados” não são sinônimo de êxito doutrinário

     


     

    Jorge Hessen

    Brasilia-DF

     

    Há uma distorção preocupante infiltrada no movimento espírita contemporâneo que é  a idolatria dos números. Para confrades imaturos , centro espírita “forte” é centro “lotado”. Auditório cheio virou critério de sucesso doutrinário. Fotos com plateia numerosa tornaram-se troféus silenciosos. E, pouco a pouco, a lógica do mercado foi sendo importada para dentro da casa que deveria ser templo de renovação moral.

    Essa mentalidade não é espírita. É vazia e mundana.

    Recordemos que após a pandemia, diversas instituições perceberam redução na frequência presencial. Alguns interpretaram isso como “decadência”. Outros, como sinal de “fraqueza administrativa”. Poucos se perguntaram se, na verdade, o momento não estaria convidando a um retorno à essência.

    Allan Kardec jamais ensinou que quantidade é critério de verdade. A literatura kardeciana adverte que reuniões numerosas, movidas por curiosidade ou entusiasmo superficial, tendem à dispersão e à insegurança, enquanto pequenos grupos sérios produzem resultados sólidos e moralmente consistentes.

    O Evangelho desmonta definitivamente o fetiche da multidão. Jesus Cristo não condicionou Sua presença a auditórios lotados. Declarou: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, aí estarei”. A força espiritual nasce da sintonia, não da estatística.

    Mas a cultura da visibilidade contaminou o ambiente espírita. Palestrantes transformados em celebridades. Seguidores confundidos com evolução moral. Convites disputados como selos de prestígio. Métricas digitais servindo como suposto termômetro de autoridade espiritual.

    Isso não é crescimento. É vaidade institucionalizada.

    O centro espírita não foi concebido para competir por público, disputar relevância ou produzir notoriedade. Foi estruturado como escola de almas, hospital de consciências, oficina de aprimoramento íntimo.

    Chico Xavier nunca precisou de estratégias de engajamento para cumprir sua tarefa. Muitas vezes Léon Denis lembrava que o progresso humano é obra silenciosa da consciência que se eleva, não da massa que aplaude.

    Quando a preocupação principal passa a ser “quantos vieram?”, algo essencial já se perdeu. A pergunta correta deveria ser: “Quantos saíram moralmente melhores?

    Uma casa espírita não se mede por cadeiras ocupadas, mas por consciências despertadas.

    Não se avalia pelo volume do público, mas pela profundidade do estudo.

    Não se legitima por seguidores, mas por fidelidade doutrinária.

    Se preservam o estudo sério, a caridade desinteressada, o equilíbrio moral e a simplicidade evangélica, ela está viva — ainda que com poucos.

    Talvez o esvaziamento físico seja um convite à depuração espiritual. Talvez estejamos sendo chamados a abandonar a ilusão da vitrine e retornar à essência do trabalho silencioso.

    Porque, no fundo, o perigo não é o salão vazio.

    É o ego cheio.

    A Doutrina Espírita não foi revelada para formar plateias impressionadas, mas para formar caracteres transformados.

    Quem ainda mede o êxito espiritual por estatísticas precisa urgentemente revisar seus conhecimentos doutrinários.

    21 fevereiro 2026

    Refletindo a neoplasia maligna do “materialismo histórico” (comunismo)


     



    Jorge Hessen

    Brasília -DF

    Como professor de História, compreendo o regime comunista como uma “metástase do organismo social” e apresento como base os resultados concretos observados nesse regime do século passado, que foi responsável por assassinatos em massa, repressão e fomes induzidas, resultando em milhões de mortes. Os casos mais clássicos e desgraçados incluem a União Soviética (expurgos, Gulag), República Popular da China (Grande Salto Adiante, Revolução Cultural) e o Camboja (Khmer Vermelho).

    Minha interpretação apoia-se, dentre outras inúmeras fontes , nos estudos contidos na obra “O Livro Negro do Comunismo”, que atribui ao  regime  comunista  um número superior a 100 milhões de homicídios, decorrentes de execuções, trabalhos forçados, perseguições políticas e fomes associadas a assombradoras políticas estatais.

    Tal tumor (maligno) comunista caracteriza-se por partido único, censura, repressão religiosa e campos de trabalho forçados, configurando sistemas autoritários violentíssimos. Além disso, o planejamento centralizado e a supressão da propriedade privada produziram fome pela escassez, ineficiência econômica e estagnação generalizada.

    A  experiência acumulada ao longo de cerca de um século de neoplasia ideológica (maligna) evidencia um padrão recorrente de crises humanitárias e restrição das liberdades individuais, por essa razão sustento a concepção do comunismo histórico como uma tragédia inigualável na humanidade.

    Por outro lado e na condição de espírita, concebo que o progresso legítimo e o aperfeiçoamento social nascem do trabalho digno aliado ao sentimento cristão. Assim, o Espiritismo não se vincula a nenhuma ideologia partidária (muitíssimo menos comunista). Seu compromisso é com a lei de progresso moral.

    Como ensinam os Espíritos, “fora da caridade não há salvação”. A transformação social depende da regeneração do indivíduo. Sem transformação íntima de cada cidadão, qualquer sistema degenera, mas com elevação moral, toda estrutura social se harmoniza.

    As instituições realmente são reflexos do estado moral coletivo. Somente a educação do sentimento, iluminada pelo Evangelho, poderá assegurar justiça social verdadeira e duradoura e o Espiritismo é por excelência o legítimo instrumento de transformação social.

     

    16 fevereiro 2026

    ​“Médiuns” enganadores que exploram famílias enlutadas


     


    Jorge Hessen

    Brasília-DF

     

    O Espiritismo não pode prescindir do critério, da razão e do exame rigoroso dos fenômenos. O Livro dos Médiuns afirma que o primeiro dever do médium sincero é a humildade e que a faculdade mediúnica não constitui privilégio, mas instrumento de serviço.

    A mediunidade autêntica é concessão divina com finalidade moral. Não foi dada para alimentar vaidades nem para criar dependências psicológicas. É recurso de consolo, esclarecimento e caridade. Quando o fenômeno se transforma em show, quando o médium passa a ser o centro das atenções, quando há promessa de resultados garantidos, algo já se deslocou do eixo doutrinário honesto.

    O charlatão (falso médium) revela-se por sinais claros: apego à fama, marketing religioso, personalismo excessivo, ostentação de “poderes”, promessas de cartas “consoladoras”, previsões categóricas e infalíveis. Mais grave ainda é a incoerência moral — o discurso aparentemente “dúlcido” e “elevado” contrastando com atitudes levianas, intimidatórias, manipuladoras ou autoritárias.

    É extremamente  dolorosa  a atuação desses falsos médiuns indigestos que exploram famílias enlutadas por meio de “cartas consoladoras” sempre genéricas e comprovadamente fabricadas (via Internet). Valem-se de informações colhidas em redes sociais para compor mensagens aparentemente personalizadas, utilizando dados públicos para simular autenticidade espiritual. Trata-se de fraude moral gravíssima, porque sequestra e instrumentaliza o sofrimento alheio.

    A melhor defesa contra a mistificação mediúnica é o conhecimento doutrinário. O estudo protege. A fé raciocinada impede que a emoção, especialmente no momento do luto, seja capturada por vis exploradores da credulidade.

    Isso não significa adotar postura persecutória ou cética sistemática. O Espiritismo não ensina desconfiança neurótica, mas discernimento sereno. O verdadeiro médium não se ofende quando é pesquisado; ao contrário, compreende que a análise criteriosa preserva a pureza do trabalho.

    Outro ponto essencial é observar os frutos. A comunicação espiritual séria produz paz, esclarecimento e fortalecimento moral. O falso intercâmbio do além produz dependência, medo, fanatismo e centralização na figura do médium histrião.

    A preservação da fé espírita exige coragem para reconhecer desvios. Não se protege a Doutrina silenciando diante de abusos. A conivência é forma de cumplicidade. O Espiritismo, sendo doutrina de luz, não teme a transparência.

    Identificar um médium charlatão, portanto, não é um gesto de intolerância — é um ato de responsabilidade. É zelar para que a mediunidade permaneça o que deve ser: abençoado instrumento de caridade, jamais ferramenta de exploração malacafentaÉ defender a dor das famílias enlutadas contra a enganação. É honrar o legado de Kardec e dos Benfeitores espirituais, mantendo viva a fé lúcida, ética e moralmente lógica.



    O Espiritismo não é um espetáculo. É proposta de reforma íntima

     


    Jorge Hessen

    Brasília -DF

    Vivemos a era da vitrine digital. Curtidas, seguidores e visualizações passaram a funcionar como selo de relevância. No entanto, quando essa lógica invade o movimento espírita, cria-se uma distorção preocupante: confundir popularidade com autoridade moral; alcance virtual com elevação espiritual.

    O Espiritismo jamais estabeleceu como critério de valor doutrinário a fama ou a projeção pública. Ao contrário, a Doutrina enfatiza o conteúdo, a coerência e, sobretudo, a transformação moral. Portanto, é pela transformação moral e pelos esforços que se emprega para domar suas más inclinações que se reconhece o verdadeiro espírita.

    O equívoco de base no movimento espírita brasileiro está em importar critérios do mercado para o campo espiritual. Cria-se uma espécie de “hierarquia informal” onde o número de inscritos em redes sociais se torna métrica de autoridade doutrinária. Como se quanto mais famoso, mais evoluído fosse o palestrante. Essa lógica, porém, é estranha ao espírito da Doutrina.

    A mediunidade e a oratória espírita são tarefas de serviço, não instrumentos de autopromoção. Chico Xavier, talvez o maior exemplo contemporâneo de projeção pública dentro do Espiritismo, jamais buscou visibilidade. A fama lhe foi consequência do trabalho, não objetivo. Viveu com simplicidade, recusou privilégios e nunca se colocou como celebridade espiritual.

    Quando eventos passam a priorizar “nomes que dão público”, corremos o risco de transformar o púlpito espírita em teatro ou circo. E o palco ou picadeiro exige performance; já a tribuna espírita exige compromisso moral. São coisas distintas. O primeiro busca aplauso; a segunda busca consciência.

    Isso não significa que ter muitos seguidores seja, por si, algo negativo. A internet é instrumento valioso de divulgação. O problema surge quando o critério de escolha deixa de ser a fidelidade doutrinária e passa a ser a capacidade de atrair público. A popularidade pode acompanhar o mérito — mas não o substitui.

    O Espiritismo não é um espetáculo. É proposta de reforma íntima. Não é carreira, é compromisso. Não é marketing, é testemunho.

    Talvez estejamos diante de um chamado à maturidade do movimento: valorizar mais o conteúdo do que a embalagem; mais a coerência do que a performance; mais a vivência silenciosa do que o brilho momentâneo.

     

    14 fevereiro 2026

    Um adultério não transforma automaticamente o infiel em autor “indireto” de duplo infanticídio



    Jorge Hessen

    Brasília -DF

     

    "Quem de vocês estiver sem pecado, que seja o primeiro a atirar uma pedra" foi dito por Jesus conforme narra João 8:7 para salvar uma mulher acusada de adultério pelos fariseus. Ao confrontar os acusadores com suas próprias falhas, Jesus promoveu a misericórdia sobre o julgamento, levando-os a desistir do apedrejamento.A tragédia recente ocorrida em Itumbiara expõe não apenas a violência de um pai que assassinou os próprios filhos e, em seguida, suicidou-se, mas também uma segunda violência, igualmente cruel: o tribunal implacável das redes sociais. A esposa, flagrada em adultério, foi imediatamente convertida em ré moral coletiva. Contudo, à luz da razão espírita, é preciso separar emoção de justiça, indignação de responsabilidade.

    Não se trata aqui de romantizar o fato, porém, o adultério não é crime no Brasil desde 2005. Embora não seja crime, temos ciência de que a traição quebra deveres de respeito e fidelidade previstos no Código Civil, permitindo ao cônjuge traído buscar reparação por danos morais na justiça, especialmente quando envolve exposição pública ou sofrimento psicológico intenso. 

     A infidelidade é grave falha moral que fere compromissos assumidos e produz dores reais. No Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec recorda que a Lei de Amor e Fidelidade integra o progresso moral da humanidade. Toda quebra de dever gera consequências espirituais (1). Entretanto, consequência não é sinônimo de culpa por crimes alheios.

    O Espiritismo é categórico quanto à responsabilidade individual. No Livro dos Espíritos (questões 843-845), aprendemos que o homem é livre para agir e responsável pelo que faz (2). O homicídio jamais pode ser transferido a terceiros como se fosse resultado mecânico de uma provocação. O assassinato foi decisão do pai. A escolha extrema partiu de sua consciência, ainda que sob violento desequilíbrio emocional. Nenhuma traição conjugal transforma automaticamente alguém em autor indireto de duplo infanticídio.

    A paixão desgovernada é tema recorrente na literatura espírita. Léon Denis ensina que as paixões são forças neutras que, mal dirigidas, convertem-se em abismos. Ciúme, orgulho ferido, sentimento de posse — quando não educados — degeneram em violência (3). O crime, portanto, revela um Espírito incapaz de dominar seus impulsos naquele instante. Isso não elimina sua responsabilidade consciencial, apenas explica o mecanismo íntimo da queda.

    Enquanto isso, a sociedade digital (rede social) aponta o dedo. A mãe, que também perdeu dois filhos, sofre o luto dilacerante acrescido do opróbrio público. Emmanuel adverte que a caridade começa na indulgência para com as imperfeições alheias (4). Julgar com severidade pode satisfazer o instinto de condenação, mas não edifica ninguém. E André Luiz alerta que pensamentos de ódio e revolta criam campos mentais perturbadores, ampliando a dor coletiva (5).

    Há, ainda, uma distorção perigosa: equiparar iniquidades morais a crimes hediondos. A Lei Divina é justa e proporcional. O adultério terá suas consequências na consciência de quem o praticou. O homicídio responderá diante das Leis eternas com gravidade infinitamente maior. Confundir essas esferas é inverter a balança da justiça.

    Podemos refletir aqui três conjunturas, primeiro reconhecer a falta sem negar a responsabilidade individual, segundo amparar as vítimas sem criar bodes expiatórios e terceiro compreender que tragédias humanas são sempre resultado de múltiplos fatores espirituais, jamais de uma única causa simplista.

    Não sabemos quais débitos reencarnatórios estavam em curso naquela família. O Espiritismo nos ensina que os laços familiares são, muitas vezes, reencontros de Espíritos com histórias pretéritas complexas. Contudo, o desconhecimento desses vínculos não autoriza a sociedade a produzir sentenças morais definitivas.

    O Espiritismo não absolve erros, mas também não legitima linchamentos. Ele nos convida à responsabilidade pessoal e à compaixão coletiva. Diante da dor, o espírita cristão verdadeiro não grita condenações — ora, silencia e ampara.

    Talvez o maior aprendizado dessa inominável tragédia não esteja em descobrir culpados secundários, mas em perceber o quanto ainda precisamos educar nossas próprias paixões e nossa própria ira vingativa como se fosse justiça. Porque se o crime foi consumado por uma mão, a crueldade pode ser multiplicada por milhares de vozes iradas.

     

    Referências Bibliográficas:

    1          KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB, 2013.

    2          KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 2019.

    3          DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Rio de Janeiro: FEB, 2008.

    4          XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Fonte Viva. Brasília: FEB, 2010.

    5          XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito André Luiz. Nos Domínios da Mediunidade. Brasília: FEB, 2013.