25 maio 2026

A reencarnação e o fascínio pelas inumadas “glórias” pretéritas

 



Jorge Hessen

Brasília -DF

Sabemos de alguns confrades convencidos de terem sido reis, generais, sacerdotes famosos, artistas célebres ou figuras de destaque na História. Em um peculiar desfile de coroas imaginárias, espadas simbólicas e títulos honoríficos, sempre alimentados pela vaidade espiritual.

Tal comportamento revela grave incompreensão da finalidade educativa da reencarnação. A Doutrina Espírita jamais estimulou a curiosidade fútil acerca de vidas passadas, mas sim o aproveitamento consciente da existência atual para a transformação moral do Espírito. O problema não está propriamente na possibilidade de alguém ter ocupado posição relevante em outra encarnação, mas no uso psicológico e moral que se faz dessa hipótese.

Muitos desses confrades perdem precioso tempo em comparações estéreis, buscando sinais externos que confirmem antigas grandezas. Investigam traços físicos, afinidades culturais, simpatias históricas ou vagas impressões emocionais, tentando encaixar-se em personagens famosos. Enquanto isso, negligenciam a questão essencial: quem são hoje perante a consciência, perante a vida e perante Deus?

O Espiritismo ensina que o esquecimento temporário do passado constitui bênção providencial. Allan Kardec esclarece que o véu lançado sobre as existências anteriores protege o Espírito contra o orgulho, o remorso excessivo e os desequilíbrios emocionais (KARDEC, 2019). Quando a espiritualidade superior permite que certas recordações aflorem, isso ocorre em circunstâncias excepcionais e com finalidade reeducativa, jamais para alimentar fantasias narcisistas.

Há, inclusive, um aspecto frequentemente ignorado por esses entusiastas das sepultadas glórias antigas: se determinados Espíritos outrora prestigiosos retornaram anonimamente à Terra, é porque fracassaram moralmente diante das responsabilidades recebidas. Muitas figuras célebres caíram justamente pelo orgulho, pela ambição desmedida, pela sede de poder ou pelo abuso das oportunidades que a Providência lhes concedera.

Nessa perspectiva, eventual confirmação de identidade histórica não constitui medalha espiritual, mas advertência grave da consciência. Trata-se de convocação à reparação urgente. O Espírito verdadeiramente lúcido não se envaidece pelo que foi; preocupa-se profundamente com aquilo que ainda não conseguiu ser.

O Codificador advertia que “o verdadeiro espírita reconhece-se pela transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações” (KARDEC, 2018, p. 350). A frase desmonta inúmeras fantasias espiritualistas contemporâneas. Não importa ter sido príncipe, guerreiro ou sacerdote em séculos remotos; importa vencer hoje o egoísmo, a intolerância, a vaidade e a indiferença moral.

Também Emmanuel frequentemente destacou, por intermédio de Chico Xavier, que posições elevadas no mundo costumam representar provas muito mais perigosas do que privilégios espirituais. Nas altas esferas sociais enxameiam tentações difíceis: corrupção moral, fascinação do poder, culto da personalidade, vaidade intelectual, traições, abusos e graves responsabilidades perante multidões.

Isso não significa desprezo pela arte, pela cultura, pela liderança ou pelas atividades humanas de relevo social. A civilização necessita de educadores, artistas, cientistas, administradores e governantes. Todos são aprendizes da vida. Contudo, a grandeza legítima nunca se mede pelo brilho exterior das posições ocupadas, mas pela capacidade de servir com humildade e consciência reta.

Infelizmente, parte do movimento espírita contemporâneo vem sendo contaminada por uma espécie de aristocracia invisível das existências passadas. Alguns parecem desejar distinção espiritual por antigos nomes que supostamente carregaram, quando deveriam buscar autenticidade moral no presente. A vaidade muda apenas de roupa: antes ostentava títulos terrenos; agora exibe pretensas genealogias espirituais.

A verdadeira evolução não necessita de anúncios históricos. Espíritos superiores raramente falam de si mesmos. Quanto mais elevados, mais discretos. A luz genuína não grita. Irradia.

Enquanto muitos procuram saber “quem foram”, esquecem-se da pergunta decisiva: “quem estão se tornando?”. Eis o ponto central. O passado pode até oferecer lições; entretanto, a reencarnação não foi concedida para alimentar nostalgias de grandeza, mas para construir consciência, humildade e renovação interior.

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 132. ed. Brasília: FEB, 2018.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 93. ed. Brasília: FEB, 2019.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Religião dos Espíritos. Brasília: FEB, 2016.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Fonte Viva. Brasília: FEB, 2017.

A verdadeira resistência espírita cristã não é feita de gritos nem de desordem

 



 

Jorge Hessen

Brasília -DF

Há momentos da história em que a sociedade experimenta uma sensação coletiva de inquietação moral. Instituições que deveriam inspirar confiança passam a ser vistas com desconfiança; decisões públicas despertam perplexidade; cidadãos sentem receio de expressar opiniões; e o debate democrático, em vez de promover entendimento, converte-se frequentemente em hostilidade, patrulhamento ideológico e intolerância.

Muitos brasileiros têm relatado um sentimento de medo diante do ambiente político e jurídico atual. Seria ingenuidade ignorar essa percepção social. Em diversos setores da população existe a impressão de que a liberdade de pensamento encontra-se pressionada, que determinadas vozes são silenciadas e que o contraditório vem sendo enfraquecido.

Há quem utilize expressões como “mordaça” ou “tirania” para descrever esse cenário. Ainda que tais termos carreguem forte carga emocional, revelam uma angústia legítima que não pode ser simplesmente ridicularizada ou descartada.

Sob a ótica espírita, entretanto, toda análise da realidade deve ser acompanhada de discernimento, equilíbrio e responsabilidade moral. A denúncia ética não deve degenerar em ódio. A crítica às instituições é importante, sem converter em incentivo ao caos. A indignação diante dos abusos não propõe a desumanização daqueles que pensam diferente.

O Espiritismo ensina que as instituições humanas refletem o nível moral médio da sociedade que as constitui. Quando há deterioração ética nos poderes públicos, nos meios de comunicação, nas lideranças religiosas ou na própria convivência social, isso revela antes de tudo uma enfermidade espiritual coletiva. Não existem estruturas perfeitas administradas por Espíritos imperfeitos. A crise das instituições é, em grande parte, a crise moral do próprio homem.

Allan Kardec advertia que o verdadeiro progresso não é apenas intelectual ou tecnológico, mas sobretudo moral. Uma sociedade pode possuir tribunais sofisticados, parlamentos modernos e enorme aparato jurídico, mas ainda assim adoecer espiritualmente se faltar justiça equilibrada, respeito às liberdades fundamentais e compromisso sincero com a verdade.

É importante compreender também que o medo social constitui poderoso instrumento de degradação coletiva. Povos amedrontados tornam-se emocionalmente vulneráveis. O medo paralisa consciências, empobrece o diálogo e cria ambientes onde muitos passam a preferir o silêncio à livre manifestação de pensamento. O Espírito cristão, porém, não se orienta pelo medo, mas pela consciência reta.

Isso não significa estimular rebeldia irresponsável nem fomentar rupturas institucionais. O caminho espírita jamais será o da violência moral ou material. Jesus não convocou multidões para destruir Roma, embora vivesse sob um sistema frequentemente injusto. Ele transformou consciências. Seu método foi a verdade sem ódio, a firmeza sem brutalidade, a coragem sem fanatismo.

O copo está cheio. Qual será a gota d'água? Precisamos sim defender princípios de liberdade sem perder a serenidade. É possível denunciar abusos sem cair em extremismos. É urgente apontar desequilíbrios sem transformar perseguidores em inimigos absolutos. Pois é possível lutar pela liberdade sem promover maior convulsão social.

Quando a sociedade adoece de polarização ideológica, muitos passam a enxergar apenas dois grupos: “os totalmente bons” e “os totalmente maus”. Essa simplificação emocional é perigosa. O pensamento espírita rejeita idolatrias políticas e também demonizações coletivas. Nenhuma instituição humana está imune a erros, excessos ou desvios; contudo, nenhuma regeneração social nascerá da destruição do respeito mútuo.

Vivemos tempos em que muitos cidadãos sentem receio de falar, escrever ou opinar. Essa sensação precisa ser debatida com maturidade democrática e lucidez espiritual. A liberdade responsável de consciência e expressão é patrimônio essencial da civilização. Quando pessoas passam a esconder convicções por temor de perseguições sociais, profissionais ou jurídicas, isso merece com certeza profunda reflexão nacional.

Mas o espírita sincero não se entrega ao desespero histórico. A História humana sempre atravessou ciclos de sombra e renovação. Crises institucionais passam; ditadores e ditaduras desaparecem; sistemas políticos se transformam; contudo, a lei divina permanece conduzindo a humanidade, lentamente, ao progresso moral.

Cabe-nos, portanto, agir com consciência elevada, sem fanatismo ,  sem submissão cega,  sem culto a salvadores da pátria,  sem ódio político, sem covardia moral. A verdadeira resistência espírita cristã não é feita de gritos histéricos nem de violência verbal incessante. Ela nasce da fidelidade à verdade, da coragem pacífica, da honestidade intelectual e da recusa em aderir à mentira, venha ela de onde vier.

Mais do que nunca, o Brasil necessita de cidadãos espiritualmente amadurecidos, capazes de discordar sem destruir, denunciar sem odiar e defender a liberdade sem abandonar a fraternidade. Porque toda vez que o homem perde a capacidade de dialogar com respeito, a sociedade inteira começa a adoecer moralmente e a convulsão social se instala de vez.

23 maio 2026

A intolerância político-ideológico e a falência do afeto humano


Jorge Hessen

Brasília-DF

 

Vivemos tempos de exaustão moral. A política, a economia instável e a crescente polarização ideológica têm produzido no Brasil um fenômeno perturbador: o enfraquecimento dos vínculos humanos mais elementares. Pais , filhos, irmãos ,tios , primos etc. deixam de conversar. “Amigos” espiritas de décadas se afastam “fraternalmente” de forma irracional. E, lamentavelmente, no movimento espírita surgem divisões absurdas por preferências político-ideológicas.

É espantoso observar criaturas que frequentam tribunas espíritas, estudam o Evangelho e discursam sobre fraternidade, mas não conseguem tolerar alguém que pense diferente no campo político. Alguns passaram a acreditar que o “progressista” é moralmente inferior ou que o “conservador” é intelectualmente desprezível. Outros agem como se determinada ideologia fosse certificado de virtude espiritual. Tudo isso representa um lamentável estado irracional  de primarismo emocional.

A divergência de ideias sempre existirá. Ela faz parte da experiência humana. O problema não está em pensar diferente. O problema está em transformar divergência em ódio, opinião em idolatria e política em religião.

Há pessoas que já não analisam fatos, mas veneram narrativas. Não dialogam: atacam. Não refletem: reagem. Tornaram-se militantes de estimação de líderes (salvadores da pátria) humanos imperfeitos, como se fossem messias infalíveis. Isso é profundamente perigoso para a saúde mental e espiritual.

O Espírito imortal não pode reduzir sua existência eterna às paixões transitórias de um partido político. Amanhã os governos mudam, os sistemas econômicos se alteram, os discursos envelhecem, mas as consequências morais da intolerância permanecerão gravadas na consciência.

No campo espírita, a situação torna-se ainda mais grave. O Espiritismo não nasceu para fabricar facções ideológicas. Allan Kardec jamais propôs uma doutrina sectária, partidária ou intolerante. Pelo contrário, ensinou que “fora da caridade não há salvação” e não “fora da minha ideologia não há salvação”.

É profundamente incoerente alguém afirmar-se cristão e ao mesmo tempo cultivar desprezo sistemático por quem pensa diferente. Jesus conviveu com publicanos, pescadores, doutores da lei, zelotes e romanos sem estimular guerras ideológicas entre eles. O Cristo jamais ensinou a destruição afetiva em nome de opiniões políticas.

Muitos alegam estar “defendendo a verdade”. Entretanto, frequentemente defendem apenas o próprio ego inflamado. A vaidade ideológica produz cegueira moral. O fanático político perde a capacidade de ouvir, ponderar e respeitar. E quando o respeito desaparece, a barbárie emocional começa.

Precisamos reaprender algo básico: amizade não exige uniformidade mental. Amor não depende de alinhamento ideológico. Fraternidade não significa concordância absoluta.

Uma sociedade madura é aquela que consegue conviver civilizadamente com opiniões divergentes. O contrário disso é regressão psicológica coletiva.

No ambiente espírita, especialmente, urge restaurar o equilíbrio e o bom senso. O centro espírita não pode transformar-se em trincheira política, palco de militância ou laboratório de hostilidade ideológica. Nossa tarefa essencial continua sendo a transformação moral do ser humano.

Quem pensa diferente de nós não se transforma automaticamente em inimigo. Pode apenas estar enxergando a realidade por outro ângulo, com outras experiências e outras referências culturais. Demonizar pessoas por suas convicções políticas revela mais sobre nossa imaturidade do que sobre os erros alheios.

A Humanidade já sofreu demais por causa dos fanatismos religiosos, raciais e ideológicos. Não acrescentemos mais um capítulo de intolerância à história humana.

O Brasil necessita urgentemente de menos ódio e mais lucidez. Menos idolatria política e mais equilíbrio emocional. Menos radicalismo e mais humanidade.

Porque, no final das contas, nenhuma ideologia valerá o preço da destruição dos afetos.

 


 

O culto à personalidade e a vã procura de Emmanuel “reencarnado”, até quando, Senhor?



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

É com certa perplexidade que observamos certos segmentos do movimento espírita “tupiniquim” do Brasil envolvidos numa espécie de “caça mística” para descobrir onde estaria reencarnado o Espírito Emmanuel. Daí, surgem especulações pueris, suposições fantasiosas e verdadeiras campanhas de exaltação em torno de “ungidos” e/ou confrades apontados e, sem qualquer critério sério, como sendo o antigo mentor espiritual de Francisco Cândido Xavier.

É um fenômeno lamentável. Em vez de estudo sério, vemos adivinhação. Em vez de reflexão doutrinária constatamos  idolatria e o pior, em vez de Evangelho, percebemos o abominável personalismo.

O mais grave é perceber que, tão logo alguém é cogitado como “suposta reencarnação de Emmanuel”, inicia-se um processo de “endeusamento”. Muitos passam a tratar tal pessoa como missionária excepcional, portadora de autoridade espiritual automática, quase um “oráculo vivo”. Esquecem-se de que o Espiritismo jamais autorizou culto a médiuns, líderes religiosos ou Espíritos comunicantes.

Allan Kardec advertiu inúmeras vezes contra os perigos da fascinação e do misticismo. Em O Livro dos Médiuns, mostrou que o verdadeiro espírita deve submeter tudo ao crivo da razão e do bom senso. O Espiritismo nasceu para libertar consciências, não para fabricar ídolos religiosos ou de qualquer espécie.

A Doutrina Espírita não foi edificada sobre nomes, celebridades espirituais ou mitologias personalistas. Seu fundamento repousa nas leis morais universais, na transformação moral e no aperfeiçoamento do ser. Quando o movimento espírita troca o estudo sério pela veneração de indivíduos, aproxima-se perigosamente das práticas sectárias que o próprio Espiritismo combateu desde o século XIX.

É impressionante como muitos ignoram a própria lógica reencarnatória. Se Emmanuel tivesse retornado à Terra — hipótese sobre a qual não há confirmação confiável —, seria razoável imaginar que desejasse anonimato, trabalho humilde e discrição. Espíritos verdadeiramente superiores fogem da glorificação humana. Jamais estimulam fanatismos em torno de si.

Essa obsessão em descobrir “quem foi quem” revela imaturidade espiritual. Há pessoas mais preocupadas em rastrear antigas identidades espirituais do que em corrigir as próprias imperfeições morais. Querem saber onde está Emmanuel, mas não sabem onde está o Evangelho dentro de si mesmos.

O movimento espírita brasileiro, infelizmente, ainda carrega fortes traços messiânicos e emocionalistas. Muitos preferem a fantasia consoladora ao estudo metódico da Codificação. Criam “mitologias espíritas”, alimentam rumores e transformam conjecturas em dogmas emocionais. Isso enfraquece a credibilidade doutrinária e produz um ambiente propício ao misticismo leviano.

O Espiritismo sério não necessita dessas novelas espirituais. A Doutrina já possui um patrimônio filosófico e moral imenso, construído sobre racionalidade, universalidade e responsabilidade ética. Léon Denis ensinava que o Espiritismo deve iluminar consciências e não estimular superstições emocionais.

É preciso dizer claramente: ninguém se torna autoridade moral porque supostamente teria sido Emmanuel, André Luiz ou qualquer outro Espírito conhecido. O valor espiritual de alguém se mede pelas virtudes demonstradas, não pelas narrativas fantasiosas construídas em torno de seu passado espiritual.

Enquanto parte do movimento espírita continuar vivendo de celebridades mediúnicas, disputas de vaidade e culto à personalidade, permanecerá distante do espírito crítico e libertador da Codificação.

Até quando?

Até quando o Espiritismo brasileiro trocará o estudo pela idolatria?

Até quando alguns transformarão médiuns e Espíritos em figuras de veneração quase religiosa?

Até quando a emoção desgovernada sufocará a razão kardeciana?

O verdadeiro espírita não procura “reencarnações de ídolos dos além”. Procura transformar a si mesmo.

 

Referências Bibliográficas:

O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2023.

O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2022.

Depois da Morte. Rio de Janeiro: FEB, 2019.

 

22 maio 2026

Maria de Magdala: a “ressurreição” do espírito

 



Jorge Hessen

Brasília -DF


A trajetória de Maria de Magdala permanece como uma das mais comoventes narrativas do cristianismo. Mais do que personagem histórica, ela simboliza a capacidade humana de renovação moral diante do amor de Jesus. Entre a opulência de Magdala e o serviço aos hansenianos”, sua vida representa a vitória do espírito sobre as ilusões transitórias da matéria.

Natural de Magdala, antiga cidade situada às margens do Mar da Galileia, Maria tornou-se conhecida pela fortuna, beleza e influência social. A tradição cristã, ao longo dos séculos, associou sua imagem à de uma mulher “pecadora”. Entretanto, muitos estudiosos observam que os Evangelhos não afirmam explicitamente que ela fosse prostituta. O que se sabe com segurança é que sofria intensamente e que foi profundamente transformada pelo encontro com Jesus.

Segundo o Evangelho de Lucas, Maria aproximou-se do Mestre durante um banquete na casa de Simão. Em gesto de extrema humildade, ungiu-lhe os pés com perfume, regando-os com lágrimas e enxugando-os com os cabelos. Diante da indignação dos presentes, Jesus proclamou: “Os seus muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou” (Lc 7:47).

Para Allan Kardec, o verdadeiro milagre do Evangelho não reside apenas nos fenômenos físicos, mas na transformação moral do ser humano. No Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec ensina que “fora da caridade não há salvação”, princípio perfeitamente exemplificado pela mudança interior de Madalena.

Léon Denis recorda que o sofrimento pode converter-se em instrumento de ascensão espiritual quando aceito como oportunidade de renovação. Maria Madalena transformou a dor íntima em dedicação ao próximo, tornando-se exemplo de amor redentor.

A tradição espiritualista relata que, após a crucificação, Madalena permaneceu ao pé da cruz ao lado de Maria de Nazaré e de João Evangelista, demonstrando fidelidade incomum num momento em que muitos discípulos haviam fugido. Mais tarde, foi ela a primeira a encontrar o Cristo “ressuscitado” junto ao sepulcro vazio. O Evangelho de João descreve o instante sublime em que Jesus a chama pelo nome: “Maria!”. Ao reconhecê-lo, exclama emocionada: “Raboni!” (Jo 20:16).

Comentando essa passagem, Chico Xavier, pela psicografia de Emmanuel, afirma que ninguém realizou “tanta violência contra si mesmo” para seguir Jesus quanto Madalena. Emmanuel destaca que o Cristo apareceu primeiro a ela porque sua transformação moral representava uma das mais belas vitórias do amor divino.

Também André Luiz ensina que a verdadeira renovação ocorre nas profundezas da consciência, quando o espírito abandona as paixões inferiores e desperta para o serviço ao bem. Maria de Magdala personifica essa “ressurreição da alma”.

Na visão humanista de Bezerra de Menezes, Jesus jamais marginalizou os caídos; ao contrário, ofereceu-lhes novas possibilidades de reerguimento. Madalena foi uma dessas almas acolhidas pela misericórdia do Cristo.

Após os acontecimentos da ressurreição, antigas tradições relatam que Maria passou a auxiliar enfermos e leprosos, dedicando os últimos anos de vida ao consolo dos sofredores. Sua existência deixa de representar apenas redenção individual para tornar-se testemunho permanente de benevolência, indulgência , perdão e de amor ao próximo.

Divaldo Pereira Franco frequentemente recorda que Madalena simboliza a esperança para todos aqueles que desejam recomeçar. Nenhuma queda é definitiva quando o espírito decide caminhar em direção à luz.

A chamada “ressurreição” de Madalena foi mais profunda do que a do corpo de Lázaro. Lázaro voltou temporariamente à existência física; Madalena ressurgiu para a vida espiritual autêntica. Sua transformação continua sendo um dos maiores testemunhos da força regeneradora do amor de Jesus.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2008.

KARDEC, Allan. A Gênese. Rio de Janeiro: FEB, 2007.

DENIS, Léon. Depois da Morte. Rio de Janeiro: FEB, 2010.

XAVIER, Francisco Cândido. Caminho, Verdade e Vida. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 2013.

XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: FEB, 2012.

FRANCO, Divaldo Pereira. Momentos de Saúde e de Consciência. Salvador: LEAL, 2007.

PASTORINO, Carlos Torres. Sabedoria do Evangelho. Rio de Janeiro: Sabedoria, 1964.

A dor é nossa amiga e age como cinzel divino para nossa evolução



 

 

Jorge Hessen

Brasília -DF

A humanidade foge da dor desde os tempos mais antigos. Busca-se o prazer, o conforto, a estabilidade e a ausência de dor como se isso representasse a verdadeira felicidade. Entretanto, a experiência humana demonstra exatamente o contrário: são as grandes dores que frequentemente transformam as criaturas, despertam consciências e renovam destinos.

À luz da Doutrina Espírita, a dor não é punição arbitrária de Deus. Ela possui finalidade educativa. Allan Kardec ensina que Deus, sendo soberanamente justo e bom, não cria dores inúteis. Toda aflição possui causa, objetivo e valor moral. Em muitos casos, a dor é o instrumento através do qual o espírito corrige excessos, aprende limites e reconstrói a própria caminhada.

O espírito André Luiz apresenta interessante classificação da dor. Existe a “dor-evolução”, aquela inerente ao crescimento. O ferro suporta o golpe do malho para adquirir utilidade; a semente precisa romper-se na terra para produzir frutos; a criança enfrenta desconfortos físicos e emocionais enquanto desenvolve os próprios órgãos e amadurece a consciência. Em toda a natureza, crescer exige transformação, e transformação quase sempre envolve dor.

Sem desafios, o ser humano permaneceria acomodado. A facilidade excessiva costuma alimentar o egoísmo, a ilusão de poder e a superficialidade espiritual. Quantos somente despertam para valores nobres depois de atravessarem perdas, enfermidades ou crises profundas? Muitas vezes, é no silêncio das lágrimas que a criatura reencontra Deus.

Há também a chamada “dor-expiação”, vinculada aos desequilíbrios criados pelo próprio espírito. Não como castigo eterno, mas como consequência educativa da Lei Divina. Cada ação produz reflexos inevitáveis. O orgulho gera solidão; a violência produz dor; os abusos morais criam prisões íntimas. A reencarnação surge, então, como oportunidade misericordiosa de reajuste e aprendizado.

Entretanto, uma das reflexões mais profundas apresentadas por André Luiz refere-se à “dor-auxílio”. Certas enfermidades longas e dolorosas podem funcionar como proteção espiritual. Muitas criaturas, dominadas por paixões destrutivas, seriam capazes de mergulhar em crimes, abusos e desequilíbrios ainda maiores se não fossem detidas por limitações físicas ou provas dolorosas.

O enfarte, a trombose, o câncer, as limitações neurológicas e até determinadas fragilidades da velhice podem representar, em algumas circunstâncias, mecanismos de misericórdia divina. Enquanto o corpo enfraquece, a alma é convidada à reflexão, à humildade e ao preparo para o retorno à vida espiritual. Aquilo que parece tragédia aos olhos humanos pode constituir socorro providencial perante as leis da eternidade.

Léon Denis afirmava que “a dor é a escola das almas”. Já Emmanuel esclarece que a dor funciona como um cinzel divino lapidando imperfeições do espírito. Não significa exaltar a dor nem buscar deliberadamente. O espiritismo recomenda tratamento médico, amparo psicológico, oração e solidariedade. Toda dor pode e deve ser aliviada sempre que possível. Porém, também precisa ser compreendida em sua dimensão espiritual.

A sociedade moderna transformou o prazer imediato em meta absoluta. Qualquer dor é vista como fracasso. Contudo, a existência terrestre é transitória, enquanto a alma é imortal. Sob essa perspectiva, muitas dores atuais representam investimentos divinos na construção de um ser humano melhor no futuro.

A dor, quando revoltada, pode endurecer o coração. Mas, quando compreendida com maturidade espiritual, converte-se em instrumento de iluminação, despertando compaixão, equilíbrio e sabedoria. Em muitos momentos da vida, aquilo que mais feriu foi exatamente o que mais ensinou.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 2019.

DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Brasília: FEB, 2017.

XAVIER, Francisco Cândido. Ação e Reação. Pelo Espírito André Luiz. Brasília: FEB, 2018

21 maio 2026

Assistencialismo ou “repasses” de coisas como cajado psicológico?




 Jorge Hessen

Brasília DF

 

Insisto no tema por observar “fazedores” de coisas para os vulneráveis econômicos sem esforço de mudança de caráter. Há quem transforme o ato de dar, de oferecer algo a quem tem menos, numa espécie de encosto interno — uma verdadeira muleta psicológica para se sustentar diante de si mesmo.

Para essas pessoas, a doação não nasce de um impulso genuíno de auxiliar, mas sim da necessidade de preencher vazios, aliviar culpas ou construir uma imagem proeminente de si mesmas.

E há uma razão profunda para isso: quem é amargo consigo mesmo, que carrega ressentimentos, insatisfação e dureza com a própria existência, não é capaz de viver um conforto íntimo e verdadeiro ao doar.

Por mais que entreguem bens transitórios, alimentos ou recursos, o gesto permanece frio, desprovido daquela ligação humana que torna o auxílio algo significativo. A amargura que habita dentro deles não deixa espaço para a generosidade sincera; a doação se torna apenas um ato mecânico, uma forma de tentar compensar o que lhes falta por dentro, sem nunca conseguir sentir a paz ou a satisfação que vem de um coração realmente disposto a compartilhar.

No fundo, a verdadeira solidariedade só floresce quando a pessoa está em paz consigo mesma. Quem não consegue ser gentil com o próprio ser também não consegue dar algo que tenha valor real ao próximo — pois o que se doa reflete sempre o que se tem dentro de si.

Há ainda um sinal bastante sutil: aqueles excessivamente vinculados à “fazeção de coisas” costumam revelar pouca tolerância diante das imperfeições alheias, exatamente o contrário da visão kardeciana de caridade, que exige indulgência e benevolência. Assim, o ativismo pode tanto servir de mecanismo de fuga quanto de valiosa escola evolutiva — tudo dependerá do grau de consciência e maturidade espiritual de quem realiza a ação.

Sempre digo que o ponto essencial não está simplesmente em “fazer” ou “deixar de fazer”, mas na intenção e na consciência com que se age no assistencialismo. Quando a ação produz humildade, ela se converte em instrumento de educação do espírito. Contudo, quando alimenta a prepotência , acaba apenas fortalecendo a sombra do ego.

Da mesma forma, evitar conflitos íntimos pode representar mera fuga da realidade interior; porém, se a experiência assistencialista  amplia a capacidade de compreender, servir e amar, então estamos diante da verdadeira caridade.

 

 

20 maio 2026

A bebida alcoólica e a ilusão do enganoso “só um gole”







Jorge Hessen

Brasília -DF

O vinho é escarnecedor e a bebida forte alvoroçadora; todo aquele que por eles é vencido não é sábio.” — Provérbios 20:1.

A ingestão de bebidas alcoólicas constitui um dos mais graves problemas médico-sociais da atualidade. Embora socialmente glamourizado, o álcool continua destruindo famílias, adoecendo jovens, incentivando a violência e comprometendo bilhões de consciências.

A propaganda sedutora da indústria alcoólica, especialmente difundida pela televisão e pelas redes sociais, transforma o vício em símbolo de status, diversão e aceitação social, anestesiando a percepção moral sobre seus efeitos devastadores.

No Evangelho, encontramos clara advertência quanto aos excessos. Sobre João Batista, registra Lucas: “não beberá vinho nem bebida forte” (Lc 1:15). A orientação evangélica aponta para a vigilância e o equilíbrio, jamais para a exaltação dos prazeres intoxicantes.

Sob a ótica espírita, o alcoolismo não é apenas enfermidade física ou psicológica: é também processo de grave comprometimento espiritual. Divaldo Pereira Franco, pela psicografia de Victor Hugo, afirma que a obsessão através do alcoolismo é muito mais ampla do que aparenta, tornando o indivíduo instrumento de forças perturbadoras. O vício corrói lentamente à vontade, enfraquece os mecanismos de defesa moral e abre campo às influências espirituais inferiores.

Entretanto, ainda há quem tente justificar “pequenas concessões” com argumentos frágeis: “todo mundo bebe”, “socialmente não faz mal”, “uma taça faz bem ao coração”. Tal retórica permissiva apenas mascara uma tragédia coletiva. O primeiro gole raramente permanece sozinho. Quase toda dependência começou um dia sob o pretexto inocente do “só hoje” ou “só um pouquinho”.

Joanna de Ângelis adverte que não devemos nos comprometer com o hábito da bebida sob qualquer pretexto festivo ou social. Pequenas permissividades constroem grandes escravidões. Uma gota de veneno pode bastar para desencadear consequências irreversíveis.

O quadro torna-se ainda mais alarmante entre adolescentes. Especialistas apontam que o álcool funciona frequentemente como porta de entrada para drogas mais destrutivas. O estímulo familiar e cultural ao consumo precoce tem reduzido drasticamente a idade de iniciação alcoólica. Jovens de 12 ou 13 anos já apresentam padrões de abuso outrora observados apenas em adultos. A banalização da bebida cria uma geração emocionalmente fragilizada, vulnerável à violência, aos acidentes e às dependências químicas severas.

No Brasil, o alcoolismo permanece como grave questão de saúde pública. Hospitais, clínicas psiquiátricas, delegacias e cemitérios testemunham diariamente os efeitos da embriaguez. Violência doméstica, acidentes de trânsito, homicídios, suicídios e desestruturação familiar possuem frequentemente o álcool como agente silencioso.

Infelizmente, alguns adeptos espíritas adotam perigosa incoerência: defendem a disciplina moral no discurso, mas relativizam os próprios hábitos. Criam um “espiritismo de conveniência”, no qual os princípios doutrinários servem para os outros, jamais para si mesmos. Esquecem que nem tudo o que é comum na sociedade é moralmente saudável.

A verdadeira liberdade não consiste em fazer tudo o que se deseja, mas em possuir domínio sobre si mesmo. Allan Kardec recorda, em O Evangelho segundo o Espiritismo, ensinamento ditado por Hahnemann: “o homem não permanece vicioso senão porque quer permanecer vicioso”. A renovação moral exige disciplina, vigilância e coragem para romper hábitos nocivos.

Num mundo marcado pelo culto aos excessos, resistir ao alcoolismo é ato de lucidez espiritual. Quem preserva a própria consciência dos entorpecentes protege não apenas o corpo, mas também a dignidade da alma.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan Kardec. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2000.

FRANCO, Divaldo Pereira Franco. Calvário de Libertação. Pelo Espírito Victor Hugo. Salvador: Alvorada, 1979.

FRANCO, Divaldo Pereira Franco. Estudos Espíritas. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Rio de Janeiro: FEB, 1983.

BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Provérbios 20:1; Lucas 1:15.

JORNAL MUNDO ESPÍRITA. Editorial. Federação Espírita do Paraná, jul. 2002.

REVISTA ÉPOCA. Consumo precoce de álcool preocupa especialistas. Rio de Janeiro, 29 jul. 2002.

Lacração? Kardec não é porta-voz de agendas ideológicas pessoais






Jorge Hessen

Brasília -DF

 Com a polarização política, o termo Lacração foi apropriado por grupos “conservadores”. Hoje, é amplamente utilizado de forma pejorativa, principalmente nas redes sociais e na crítica cultural, para deslegitimar obras de arte, filmes ou discursos focados em diversidade, acusando-os de impor agendas políticas de forma forçada.

Trazendo o tema para as hostes espiritas e apropriando-nos do termo, percebemos com certa frequência os chamados “lacradores” da interpretação espírita, que tentam aprisionar o pensamento de Allan Kardec em categorias ideológicas estreitas, como “conservador”, “liberal”, “progressista”, “reacionário” ou quaisquer outros rótulos humanos e transitórios. Entretanto, a obra kardequiana ultrapassa essas reduções simplistas.

O pensamento de Kardec é profundamente racional, mas igualmente moral e amoroso. Ele jamais construiu um sistema de fanatismo político, nem um mecanismo de dominação ideológica. Seu compromisso foi com a verdade, com a lógica, com a observação dos fatos e, sobretudo, com a transformação moral do ser humano.

Quando Kardec defende a prudência, a disciplina moral e a responsabilidade espiritual, alguns o chamam de conservador. Quando combate privilégios, preconceitos, castas e desigualdades, outros o classificam como liberal ou progressista. Todavia, Kardec não pertence a nenhuma trincheira humana. Seu pensamento é supraideológico, porque se fundamenta nas leis espirituais, que transcendem as paixões políticas e culturais de cada época.

A Doutrina Espírita não foi criada para servir de plataforma de militância emocional, nem para satisfazer vaidades intelectuais ou disputas de poder dentro do movimento espírita. O Espiritismo é, antes de tudo, um convite à renovação íntima, à fraternidade e à emancipação da consciência.

O problema dos “lacradores” modernos é que frequentemente substituem o estudo sério pela teatralização das opiniões. Em vez de investigarem profundamente O Livro dos Espíritos, O Evangelho segundo o Espiritismo ou A Gênese, preferem adaptar a Doutrina às modas culturais do momento, tentando fazer de Kardec um porta-voz das próprias agendas pessoais.

Entretanto, Kardec foi um homem de equilíbrio admirável. Defendia a liberdade de consciência, mas repudiava os excessos da intolerância. Incentivava o progresso, mas advertia contra os perigos do orgulho intelectual. Exaltava a razão, mas nunca divorciada do amor e da humildade.

O verdadeiro espírita não deve cair nem no dogmatismo endurecido nem no emocionalismo superficial. O Espiritismo pede reflexão madura, estudo contínuo e caridade real. Reduzir Kardec a um “rótulo ideológico” é reduzir a universalidade da Doutrina Espírita.

Como ensinava Allan Kardec, “fora da caridade não há salvação”. Essa máxima não é de direita nem de esquerda; não é conservadora nem progressista. É uma lei espiritual destinada à evolução de toda a humanidade.