22 julho 2026

"Arraiá" no centro espírita?


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há algo profundamente contraditório no Movimento Espírita brasileiro contemporâneo. Enquanto alguns dirigentes afirmam defender a pureza doutrinária, a fidelidade a Allan Kardec e a necessidade de preservar a identidade do Espiritismo, multiplicam-se, em certas instituições, práticas que nada tem a ver com a finalidade essencial da Doutrina.

Chegam os meses de junho e julho e, em determinados centros espíritas, surgem bandeirinhas, barracas, comidas típicas, músicas, quadrilhas, brincadeiras e os tradicionais "arraiais". Em alguns casos, a casa espírita parece transformar-se, por algumas horas, em uma réplica das quermesses religiosas que fazem parte da cultura brasileira.

E então cabe perguntar, sem rodeios:

O que exatamente estamos fazendo?

Não se trata de arguir a cultura popular. Ninguém precisa ser contra as festas juninas ou julinas realizadas por famílias, escolas, clubes e associações comunitárias. A cultura brasileira merece respeito. O problema começa quando uma instituição que se apresenta como espírita passa a incorporar, como atividade institucional, práticas que não decorrem da Doutrina Espírita.

É preciso ter coragem para fazer essa distinção. Centro espírita não é clube recreativo. Não é quermesse religiosa. Não é associação folclórica. Não é espaço destinado a reproduzir tradições confessionais.  Sua finalidade é outra.

A casa espírita deve ser uma oficina de almas, um núcleo de estudo, de educação espiritual, de renovação moral e de serviço ao próximo. É o lugar onde o indivíduo busca compreender a si mesmo, a vida, a imortalidade da alma, a reencarnação, a lei de causa e efeito e a responsabilidade diante da própria existência.

Quando o centro espírita passa a organizar eventos que reproduzem tradições estranhas à sua identidade doutrinária, corre o risco de contribuir para aquilo que Allan Kardec sempre procurou evitar: a confusão entre o Espiritismo e as manifestações religiosas tradicionais.

O argumento de que "é apenas uma confraternização" não encerra a questão. A forma também educa.

Uma criança que frequenta a evangelização e, posteriormente, participa de um arraial promovido pelo próprio centro pode perfeitamente concluir que aquela festa faz parte da identidade espírita. O visitante que chega pela primeira vez poderá imaginar que encontrou apenas mais uma expressão religiosa tradicional, com suas festas e costumes próprios.

E assim, pouco a pouco, o Espiritismo vai perdendo sua fisionomia. Primeiro, introduz-se uma prática "inofensiva". Depois, outra. Em seguida, alguém argumenta que "sempre foi assim". Finalmente, aquilo que nunca pertenceu à Doutrina passa a ser defendido como tradição institucional.

É assim que nascem os sincretismos. A história das religiões demonstra que a descaracterização raramente acontece de uma vez. Ela ocorre gradualmente, pela soma de pequenas concessões.

Hoje é o arraial. Amanhã, outra prática. Depois, outra. E, quando percebemos, temos uma instituição que conserva o nome "espírita", mas cuja dinâmica interna já se encontra distante da simplicidade e da racionalidade propostas por Kardec.

Outro argumento recorrente é a necessidade de arrecadar recursos.

Mas precisamos perguntar: até onde uma instituição espírita deve ir para arrecadar dinheiro? Se a necessidade financeira justificar qualquer atividade, amanhã estaremos legitimando toda sorte de iniciativas em nome da manutenção da casa. E, nesse caso, a finalidade passa a justificar os meios. Não deveria ser assim.

A Doutrina Espírita ensina a caridade, a solidariedade e o desprendimento. Uma instituição que necessita de recursos pode promover campanhas, bazares, almoços beneficentes, feiras de livros, ações solidárias e inúmeras outras atividades compatíveis com sua finalidade. Não há necessidade de reproduzir festas de natureza religiosa ou folclórica para manter uma casa espírita.

É preciso também reconhecer que o problema não está na bandeirinha, na canjica ou no milho cozido. O problema é a perda gradual do senso de identidade.

Não se trata de transformar a casa espírita em um ambiente sisudo, triste ou sem alegria. Muito pelo contrário. A alegria cristã é legítima. A fraternidade é indispensável. A convivência é saudável. Mas uma coisa é confraternizar entre irmãos. Outra, muito diferente, é importar para dentro da instituição espírita uma estrutura festiva que não possui fundamento na Codificação e que pode ser facilmente confundida com práticas de outras tradições religiosas.

Allan Kardec não fundou uma religião de cerimônias, festas e rituais. O Espiritismo não precisa de símbolos externos para existir. Não necessita de procissões, imagens, altares, velas, incensos, sacramentos ou festas religiosas.

Sua força está na verdade que esclarece e na caridade que transforma.

Por isso, a questão merece ser enfrentada com seriedade pelos dirigentes espíritas:

Queremos um Movimento Espírita fiel a Kardec ou um movimento cada vez mais adaptado aos costumes do ambiente religioso brasileiro?

Porque, se tudo pode ser introduzido em uma casa espírita em nome da tradição, da confraternização ou da arrecadação, então precisamos admitir que a expressão "fidelidade doutrinária" está se tornando apenas retórica.

O Espiritismo não precisa de arraiais para atrair pessoas. Não precisa de quermesses para sobreviver. Não precisa copiar tradições religiosas para ser acolhedor. Não precisa de espetáculos para ser amado. Precisa, isto sim, de espíritas conscientes, estudiosos, honestos e comprometidos com a transformação moral.

É hora de perguntar: até quando permitiremos que a identidade espírita seja lentamente diluída em nome de uma falsa necessidade de agradar a todos?

O Movimento Espírita brasileiro precisa recuperar a coragem de dizer "não" ao que não lhe pertence.

Não por intolerância. Não por sectarismo. Não por fanatismo. Mas por coerência.

Quem escolhe chamar sua instituição de espírita assume uma responsabilidade histórica: preservar, estudar e divulgar a Doutrina que Allan Kardec codificou.

A casa espírita pode ser alegre sem ser festiva no sentido mundano. Pode ser acolhedora sem ser sincrética. Pode ser fraterna sem reproduzir tradições alheias. Pode arrecadar recursos sem transformar sua identidade em moeda de troca.

O Espiritismo não precisa de arraiais. Precisa de consciência.  Precisa de estudo sério. Precisa de trabalhadores comprometidos. Precisa de médiuns responsáveis. Precisa de caridade legítima. Precisa de Evangelho vivido.

E, sobretudo, precisa de espíritas que compreendam que fidelidade doutrinária não é um detalhe secundário: é o compromisso mínimo de quem se propõe a representar o Espiritismo perante a sociedade.

Porque, quando uma casa espírita começa a parecer mais preocupada em reproduzir as tradições do mundo do que em viver os princípios da Doutrina, talvez seja o momento de fazer a pergunta que ninguém deveria temer:

Ainda estamos preservando a Doutrina dos Espíritos ou apenas conservando a fachada "espírita"?

 

21 julho 2026

A terceira revelação: A verdade que ilumina a fé

 


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A humanidade não recebeu a verdade de uma só vez. A Lei Divina, eterna e imutável, foi sendo apresentada aos homens de acordo com sua capacidade de compreendê-la. Moisés estabeleceu a ideia de um Deus único e impôs, dentro das circunstâncias históricas de seu tempo, leis capazes de disciplinar um povo ainda submetido ao politeísmo e à violência. Jesus, entretanto, elevou a compreensão humana ao patamar do amor, da fraternidade e da misericórdia. O Espiritismo, por sua vez, surge como a Terceira Revelação, não para substituir o Cristo, mas para explicar, desenvolver e demonstrar racionalmente os fundamentos de sua mensagem.

Há, contudo, uma diferença essencial. Moisés personificou a primeira revelação; Jesus é o guia e modelo da humanidade. A Terceira Revelação não possui um único revelador humano. Allan Kardec não é o autor da Doutrina Espírita, mas seu codificador. Sua grandeza está precisamente em ter submetido os ensinamentos dos Espíritos ao crivo da razão, da lógica e da universalidade, organizando-os em um corpo doutrinário coerente. O Espiritismo é, portanto, uma doutrina de origem espiritual e elaboração humana criteriosa, cuja autoridade não repousa no prestígio pessoal de indivíduos, mas na consistência de seus princípios e na concordância universal dos ensinamentos.

A revelação espírita apresenta-se como progressiva e racional. Por isso, não teme o avanço da ciência nem transforma opiniões particulares em dogmas. Kardec foi categórico ao afirmar que, se a Ciência demonstrar que o Espiritismo está errado em determinado ponto, a Doutrina deverá modificar-se nesse ponto. Essa postura é incompatível com o fanatismo e demonstra que a fé espírita não exige renúncia à inteligência. Ao contrário: convida o ser humano a pensar, investigar e compreender.

Se o ensinamento mosaico destacou a justiça e o Cristo revelou o amor, o Espiritismo oferece a chave racional para compreender a justiça e o amor divinos. A reencarnação, a lei de causa e efeito, a imortalidade da alma e a pluralidade das existências explicam, sob nova perspectiva, as aparentes desigualdades da vida e demonstram que ninguém está abandonado ao acaso. A existência corporal deixa de ser um episódio isolado e passa a integrar o longo processo educativo pelo qual o Espírito conquista, gradualmente, sua própria evolução.

A mediunidade, por sua vez, não nasceu com o Espiritismo. Sempre esteve presente na história religiosa da humanidade. A contribuição da Doutrina Espírita foi estudá-la de maneira sistemática, retirando-a do domínio do mistério e submetendo seus fenômenos à observação e ao discernimento. Contudo, mediunidade sem responsabilidade moral é apenas fenômeno; mediunidade sem estudo pode transformar-se em superstição; e mediunidade utilizada para fins comerciais contradiz frontalmente os fundamentos espíritas.

A Terceira Revelação, portanto, não autoriza o culto a personalidades, a criação de novos sacerdócios, a institucionalização de práticas estranhas à Codificação ou a transformação do Espiritismo em espetáculo religioso. O centro da Doutrina é o conhecimento das leis divinas e a renovação moral do indivíduo. Tudo o que se afasta desse objetivo deve ser examinado com rigor.

O Espiritismo não veio para abolir o Evangelho, mas para torná-lo mais compreensível à consciência contemporânea. Jesus continua sendo o eixo moral da Doutrina, enquanto Allan Kardec permanece o Codificador responsável pela estruturação do conhecimento espírita. Confundir esses papéis é erro doutrinário; diminuir qualquer um deles é desconhecer a própria lógica da revelação.

A grandeza da Terceira Revelação está, finalmente, em unir aquilo que durante séculos muitos consideraram incompatível: fé e razão, espiritualidade e conhecimento, Evangelho e investigação. Ela nos ensina que acreditar não basta. É necessário compreender; compreender não basta. É necessário transformar-se.

A verdadeira finalidade do Espiritismo não é produzir admiradores de Kardec, médiuns famosos ou oradores celebrizados. É formar consciências livres, responsáveis e moralmente renovadas. A revelação somente cumpre sua finalidade quando o conhecimento da imortalidade se converte em responsabilidade, quando a certeza da reencarnação produz perseverança e quando a compreensão da justiça divina desperta, no coração humano, o compromisso efetivo com o bem.

A Terceira Revelação é, assim, um chamado à maturidade espiritual. Não nos convida a temer, nem a crer cegamente, mas a compreender para amar melhor e a amar para servir. Sua mensagem permanece atual porque aponta para uma verdade essencial: somos Espíritos imortais, responsáveis por nossa própria evolução, e a maior prova de que compreendemos a verdade espiritual será sempre a transformação concreta de nossa própria conduta.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. A gênese: os milagres e as predições segundo o espiritismo. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

KARDEC, Allan. Obras póstumas. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

XAVIER, Francisco Cândido. Nos domínios da mediunidade. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

XAVIER, Francisco Cândido. Evolução em dois mundos. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

18 julho 2026

Deus, a consciência e o desafio da fé racional


 

 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Todos trazemos, na intimidade da consciência, uma dimensão profunda que nenhuma conquista material consegue preencher inteiramente. Há no ser humano uma sede de transcendência, uma busca de sentido e uma inquietação diante da existência que, ao longo da História, encontrou diferentes respostas filosóficas, religiosas e científicas. Para o Espiritismo, essa realidade não decorre de uma necessidade psicológica inventada pelas religiões, mas da própria natureza espiritual do ser humano.

Podemos ignorar Deus, negar Sua existência ou simplesmente viver como se Ele não existisse. O Criador, entretanto, não deixa de existir por causa da nossa descrença. O livre-arbítrio permite ao Espírito escolher seus caminhos, mas não modifica as leis universais. Deus não se impõe pela violência nem pela coerção; respeita o desenvolvimento gradual de cada consciência. Como ensina Allan Kardec, a liberdade é uma característica fundamental do Espírito, embora toda escolha produza consequências correspondentes às leis divinas.

Ao longo dos séculos, grandes pensadores questionaram a religião e a ideia de Deus. Karl Marx interpretou a religião como fenômeno social relacionado às condições históricas e materiais; Sigmund Freud procurou compreender a experiência religiosa a partir da psicologia; Friedrich Nietzsche formulou a célebre declaração sobre a "morte de Deus", expressão que, em seu contexto filosófico, representava uma profunda crise dos valores tradicionais do Ocidente. Esses pensadores exerceram enorme influência e devem ser estudados com seriedade, mas suas críticas dirigiam-se, em grande medida, às formas históricas da religião, às instituições e às concepções de divindade predominantes em seu tempo.

É importante, portanto, distinguir Deus das imagens humanas que construímos sobre Ele. Muitas vezes, a criatura atribui ao Criador sentimentos e comportamentos próprios da imperfeição humana: ira, vingança, favoritismo e desejo de punição. Um Deus antropomórfico, que distribui castigos e recompensas segundo critérios humanos, realmente pode parecer incompatível com a razão e com a justiça. O problema, contudo, talvez esteja menos na ideia de Deus do que na concepção que fazemos dEle.

O Espiritismo propõe uma compreensão diferente. Em "O Livro dos Espíritos", Kardec pergunta: "Que é Deus?" A resposta dos Espíritos é direta e profunda: "Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas." (KARDEC, 2013, questão 1). Não se trata, portanto, de conceber Deus como uma figura humana ampliada, localizada em algum ponto do espaço, mas como a Inteligência Suprema e a Causa Primária da realidade.

Essa concepção modifica profundamente a relação entre criatura e Criador. O indivíduo não precisa temer a Deus como quem teme um soberano arbitrário. Deve, antes, compreendê-Lo como expressão absoluta de justiça, bondade e sabedoria. O temor servil cede lugar ao respeito consciente; a submissão cega dá lugar à compreensão; e a fé deixa de ser uma aceitação passiva para transformar-se em confiança racional e progressiva.

Allan Kardec afirma que "fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da Humanidade" (KARDEC, 2013, cap. XIX). Essa afirmação permanece atual. A fé espírita não exige a renúncia ao pensamento crítico. Ao contrário, convida-nos a examinar, questionar e compreender. Por isso, o Espiritismo rejeita tanto o materialismo dogmático quanto a credulidade irrefletida.

A ciência moderna ampliou extraordinariamente os horizontes do conhecimento. Investigamos o universo em escalas inimagináveis, penetramos na estrutura da matéria, deciframos mecanismos genéticos e observamos fenômenos cósmicos que desafiam nossa capacidade de compreensão. Entretanto, quanto mais avançamos, mais percebemos a complexidade da realidade e os limites do conhecimento humano. A ciência explica mecanismos e relações observáveis; a questão do sentido último da existência permanece aberta ao debate filosófico e metafísico.

Por essa razão, não é prudente afirmar que a ciência "provou" Deus, assim como também não é cientificamente legítimo afirmar que a ciência "provou" Sua inexistência. A questão de Deus ultrapassa o domínio da experimentação laboratorial convencional. O próprio Espiritismo reconhece essa distinção ao sustentar que ciência e religião devem caminhar de modo complementar, cada qual respeitando o campo específico de investigação que lhe compete.

Ao tratar das provas da existência de Deus, Kardec apresenta uma reflexão de extraordinária atualidade: "Não há efeito sem causa. Todo efeito inteligente deve ter uma causa inteligente." (KARDEC, 2013, questão 4). A argumentação espírita parte, assim, da observação da ordem, da inteligência e da harmonia presentes na natureza para propor uma reflexão sobre sua causa primeira.

Essa perspectiva não elimina o mistério. Ao contrário, amplia-o. Quanto mais o ser humano conhece, mais reconhece a imensidão daquilo que ainda ignora. A humildade intelectual é, portanto, uma virtude indispensável tanto ao cientista quanto ao religioso.

Também devemos ter cautela com narrativas populares que afirmam que determinada pessoa desafiou Deus e, posteriormente, sofreu uma tragédia ou morreu. Histórias envolvendo personalidades como John Lennon, Tancredo Neves, Marilyn Monroe ou supostas declarações atribuídas a construtores do Titanic circulam há décadas, mas muitas não possuem comprovação documental confiável. Além disso, utilizar tragédias pessoais como suposta "punição divina" é incompatível com a compreensão espírita da justiça e da lei de causa e efeito. O sofrimento de alguém não autoriza ninguém a concluir que Deus esteja aplicando uma vingança.

A Doutrina Espírita ensina que Deus não age movido por caprichos ou represálias. A lei divina é educativa e se fundamenta na justiça e na misericórdia. A existência humana é uma etapa da trajetória do Espírito imortal, e os acontecimentos da vida não podem ser interpretados de maneira simplista, como se cada sofrimento fosse uma punição direta e imediata por alguma atitude anterior.

É justamente nesse ponto que a concepção espírita de Deus se distancia das imagens religiosas construídas pelo medo. O Deus apresentado pela Doutrina Espírita não é um déspota celeste à espera de oportunidades para castigar. É o Pai infinitamente justo e bom, cuja lei conduz todos os Espíritos ao progresso. A justiça divina não exclui a misericórdia; a misericórdia não elimina a responsabilidade; e a responsabilidade não significa condenação eterna.

A história do pensamento humano demonstra que a questão de Deus jamais desapareceu. Do pensamento de Sócrates e Platão às reflexões de Plotino; das especulações filosóficas de Fichte, Schelling e Hegel às inquietações de grandes cientistas, a humanidade continua perguntando sobre a origem, o sentido e o destino da existência.

Albert Einstein, frequentemente associado a reflexões sobre Deus e o universo, também teve suas declarações sobre religião e espiritualidade interpretadas de diferentes maneiras.

A verdadeira questão, entretanto, permanece: podemos viver sem pensar em Deus? Certamente podemos organizar a vida sem uma crença religiosa. Podemos até negar Sua existência. O que não podemos é ignorar as grandes perguntas que acompanham a humanidade desde seus primórdios: de onde viemos? Para onde vamos? Qual o sentido da existência? Por que existe algo em vez de nada? O que fundamenta a consciência e a dimensão moral do ser humano?

O Espiritismo não pretende encerrar essas perguntas com respostas simplistas. Ao contrário, propõe uma investigação racional sobre a existência de Deus, a imortalidade da alma, a pluralidade das existências e a lei de causa e efeito. Sua proposta é substituir o medo pela compreensão e a superstição pela reflexão.

A fé, nesse contexto, não representa fuga da realidade. É uma forma de ampliar a compreensão da realidade. Não é preciso fechar os olhos para acreditar; é necessário abri-los ainda mais. A verdadeira fé não teme a ciência, não teme a filosofia e não teme a razão, porque sabe que toda verdade, quando realmente compreendida, converge para a harmonia.

Deus não precisa ser defendido por ameaças, tragédias atribuídas a castigos ou histórias sem comprovação. A ideia de Deus deve ser apresentada pela razão, pela observação da natureza, pela consciência moral e, sobretudo, pelos frutos que produz na transformação do ser humano.

Para nós, espíritas, Deus é a Inteligência Suprema, a Causa Primária de todas as coisas. Sua presença não depende da nossa aceitação ou rejeição. Podemos fechar as portas da consciência à ideia de Deus, mas não podemos expulsar o Criador da realidade. Podemos negar Sua existência, mas continuaremos submetidos às leis universais que regem a vida.

Talvez a grande questão não seja saber se Deus existe para nós. A questão mais profunda é saber se nós estamos dispostos a viver de acordo com as leis de amor, justiça e caridade que reconhecemos como divinas.

Porque, se Deus é a Suprema Inteligência e a infinita Bondade, então conhecê-Lo não significa apenas acreditar em Sua existência. Significa aprender a pensar, sentir e agir de modo cada vez mais compatível com as leis que sustentam a vida.

Eis o verdadeiro desafio da fé: não convencer Deus de que acreditamos n’Ele, mas demonstrar, pela transformação de nós mesmos, que começamos a compreender o que significa viver sob Sua lei.

 

Referências Bibliográficas:

BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2011.

KARDEC, Allan. A gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

KARDEC, Allan. Obras póstumas. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Sobre religião. Lisboa: Edições 70, 1975.

NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

PLOTINO. Enéadas. São Paulo: Paulus, 2000.

FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

JUNG, Carl Gustav. Psicologia e religião. Petrópolis: Vozes, 2011.

Fidelidade doutrinária, um compromisso inegociável


 

Jorge Hessen

Brasília-DF


Toda convicção religiosa merece respeito. O Espiritismo jamais se opôs ao direito de cada consciência de buscar Deus segundo sua compreensão. Contudo, quem abraça conscientemente a Doutrina Espírita assume, por dever moral, o compromisso de preservar-lhe a identidade. Como adverte Emmanuel: "Toda convicção religiosa é respeitável; entretanto, se procuramos a Doutrina Espírita, não podemos negar-lhe fidelidade." (XAVIER, 2003).

Essa fidelidade não representa dogmatismo nem exclusivismo sectário. Ao contrário, significa respeito à integridade da Codificação elaborada por Allan Kardec, que submeteu os ensinos dos Espíritos ao rigor da observação, da comparação e do controle universal. O Espiritismo distingue-se justamente por conciliar fé e razão, permitindo o livre exame e recusando a crença cega. Emmanuel recorda que somente a Doutrina Espírita possibilita ao homem "o livre exame, com o sentimento livre de compressões dogmáticas, para que a fé contemple a razão, face a face" (XAVIER, 2003).

Enquanto muitas tradições religiosas ainda sustentam concepções de punições eternas, privilégios espirituais ou salvação por meio de ritos exteriores, o Espiritismo esclarece que cada criatura é autora do próprio destino. A lei divina é imparcial e cada Espírito colherá, inevitavelmente, os frutos de suas escolhas, conforme ensinam O Livro dos Espíritos e O Evangelho segundo o Espiritismo. Não existem favorecimentos perante a Justiça Divina; existe responsabilidade moral.

Por essa razão, a Codificação Kardeciana constitui a chave segura para a interpretação racional do Evangelho de Jesus. Kardec não fundou uma nova religião baseada em dogmas, mas organizou um corpo doutrinário coerente, aberto ao progresso, sem jamais admitir que opiniões pessoais ou modismos substituíssem seus princípios fundamentais.

Infelizmente, observa-se, em alguns setores do movimento espírita, a tentativa de incorporar práticas esotéricas, misticismos, terapias sem fundamento doutrinário, sincretismos religiosos e experiências estranhas aos princípios kardequianos. Sob o pretexto da fraternidade ou da modernização, pretende-se transformar o Espiritismo numa síntese indiscriminada de crenças. Entretanto, Emmanuel adverte contra esse "lisonjeiro ecletismo", recomendando que preservemos "a pureza e a simplicidade" da Doutrina, evitando colaborar "nos vícios da ignorância e nos crimes do pensamento" (XAVIER, 2003).

A verdadeira tolerância jamais pode converter-se em silêncio diante da descaracterização doutrinária. Respeitar pessoas não significa legitimar ideias incompatíveis com a Codificação. Defender a identidade do Espiritismo não constitui intolerância; constitui responsabilidade para com o patrimônio espiritual legado por Allan Kardec.

Naturalmente, essa vigilância deve ser exercida sem agressividade, sem personalismos e sem fanatismo. O próprio Espiritismo rejeita qualquer forma de autoritarismo intelectual. A defesa da pureza doutrinária deve caminhar lado a lado com a humildade, o diálogo fraterno e a caridade. Não se trata de combater pessoas, mas de esclarecer conceitos.

Também seria incoerente exigir fidelidade doutrinária sem empenho pela própria renovação moral. Não basta conhecer Kardec; é indispensável viver Kardec. Não basta denunciar enxertias doutrinárias; é necessário ressignificar as próprias imperfeições. A reforma moral permanece sendo o maior testemunho da autenticidade espírita.

Em uma de suas mais conhecidas exortações, Emmanuel sintetiza esse compromisso afirmando:

"Espírita deve ser o nosso caráter, ainda mesmo nos sintamos em reajuste depois da queda. Espírita deve ser a nossa conduta, ainda que estejamos em duras experiências. Espírita deve ser o nome do nosso nome. Espírita deve ser o claro adjetivo de nossa instituição, ainda mesmo que, por isso, nos faltem as passageiras subvenções e honrarias terrestres." (XAVIER, 2003).

Essa advertência permanece extremamente atual. Em tempos de relativização dos princípios, de espetacularização da mediunidade e de crescente influência de filosofias estranhas à Codificação, torna-se indispensável recordar que a identidade espírita não pode ser negociada.

Concluindo, Emmanuel oferece uma das mais profundas definições do compromisso espírita:

"Doutrina Espírita quer dizer Doutrina do Cristo. E a Doutrina do Cristo é a doutrina do aperfeiçoamento moral em todos os mundos. Guarda-a, pois, na existência, como sendo a tua responsabilidade mais alta, porque dia virá em que serás naturalmente convidado a prestar-lhe contas." (XAVIER, 2003).

Ser fiel ao Espiritismo, portanto, não significa cristalizar a Doutrina nem impedir o progresso do conhecimento. Significa preservar seus fundamentos, conforme estabelecidos por Allan Kardec, para que o Consolador Prometido continue cumprindo sua missão de esclarecer as inteligências, consolar os corações e promover a transformação moral da humanidade.


Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 130. ed. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Brasília: FEB, 2019.

XAVIER, Francisco Cândido. Religião dos Espíritos. Pelo Espírito Emmanuel. 22. ed. Brasília: FEB, 2023.

17 julho 2026

A França e a cultura da morte: quando o Estado passa a decidir sobre o fim da existência física


Jorge Hessen

Brasília-DF

A recente aprovação, pelo Parlamento francês, da lei que autoriza a chamada "ajuda para morrer", ainda sujeita ao controle do Conselho Constitucional, representa um dos acontecimentos bioéticos mais impactantes do século XXI. Apresentada como conquista da autonomia individual e da compaixão diante do sofrimento, a medida autoriza, sob critérios legais, que pacientes acometidos por enfermidades graves e incuráveis obtenham assistência médica para antecipar deliberadamente a própria morte.

A França passa, assim, a integrar o grupo de nações que flexibilizaram a proteção jurídica da vida humana, ao lado da Bélgica, dos Países Baixos, do Canadá, da Suíça e de outros países que adotaram modalidades de eutanásia ou suicídio assistido. Trata-se de uma mudança de enorme alcance moral, cujas consequências transcendem o direito e alcançam a Medicina, a Filosofia, a Teologia e a própria concepção de dignidade humana.

Os defensores da nova legislação sustentam que ninguém deve ser obrigado a suportar dores insuportáveis e que a autonomia da pessoa deve prevalecer sobre qualquer outra consideração. O argumento emociona, mas não resolve a questão essencial: pode uma sociedade transformar a eliminação da vida em instrumento terapêutico?

A experiência internacional recomenda prudência. Na Bélgica, onde a eutanásia foi legalizada em 2002 para situações extremamente restritas, sucessivas alterações ampliaram significativamente sua aplicação. Em 2014, passou-se a admitir o procedimento também para menores de idade em circunstâncias específicas. Os relatórios oficiais da Comissão Federal de Controle e Avaliação da Eutanásia revelam crescimento contínuo do número de casos, demonstrando aquilo que muitos bioeticistas denominam de slippery slope — o "efeito da ladeira escorregadia", pelo qual exceções inicialmente rigorosas tornam-se, gradativamente, práticas cada vez mais abrangentes.

Não por acaso, durante a tramitação da lei francesa, importantes associações de pessoas com deficiência, entidades médicas e organizações religiosas advertiram para o risco de que indivíduos vulneráveis, idosos, deprimidos ou socialmente isolados passem a enxergar a morte como solução socialmente aceitável para seus sofrimentos.

Sob a ótica da ética médica, permanece atual o compromisso assumido desde Hipócrates: o médico existe para cuidar, aliviar, consolar e preservar a vida, jamais para provocar deliberadamente a morte de seu paciente. A Associação Médica Mundial, em sua Declaração sobre a Eutanásia (Madri, 1987), classificou essa prática como eticamente incompatível com a missão da Medicina, entendimento que continua alimentando intenso debate bioético internacional.

No Brasil, a Constituição Federal consagra a inviolabilidade do direito à vida (art. 5º, caput), enquanto o Código Penal não autoriza a eutanásia. A dignidade da pessoa humana não se confunde com o direito de eliminar a própria existência ou a de terceiros.

Para o Espiritismo, entretanto, a discussão alcança profundidade muito maior. A existência corporal não constitui mero fenômeno biológico, mas etapa indispensável do processo evolutivo do Espírito imortal. Ensina Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos (questão 920), que "a vida na Terra foi dada como prova ou expiação", cabendo ao homem utilizar todos os recursos legítimos para aliviar seus sofrimentos, sem abreviar deliberadamente o tempo da experiência reencarnatória.

A enfermidade, por mais dolorosa que seja, nem sempre representa castigo. Muitas vezes constitui valioso instrumento de reajuste espiritual, aprendizado, reparação e crescimento moral. Emmanuel recorda que "a dor é o buril que aperfeiçoa a alma", enquanto André Luiz demonstra, em diversas obras, que a desencarnação possui momento próprio, relacionado às necessidades evolutivas do Espírito e às leis soberanas da Providência Divina.

Sob essa perspectiva, a eutanásia — ainda que legitimada pelo Estado — não modifica as leis espirituais. A interrupção voluntária da existência física não elimina as causas profundas do sofrimento; apenas transfere para além do túmulo problemas cuja solução exige transformação íntima e perseverança. A vida prossegue, e a consciência permanece responsável pelos próprios atos.

Isso não significa defender o prolongamento artificial e desumano da agonia. A Doutrina Espírita não apoia a distanásia, isto é, o emprego de meios extraordinários e desproporcionais para retardar inevitavelmente a morte. Ao contrário, harmoniza-se com os princípios dos cuidados paliativos e da ortotanásia, que respeitam o curso natural da existência, aliviam a dor e preservam a dignidade do enfermo sem provocar deliberadamente sua morte.

A verdadeira compaixão não consiste em eliminar quem sofre, mas em eliminar, tanto quanto possível, o sofrimento. Uma civilização autenticamente humanista será reconhecida não pelo número de leis que autorizam a morte, mas pela capacidade de cuidar dos enfermos, acolher os idosos, fortalecer as famílias, investir em cuidados paliativos, oferecer assistência psicológica e espiritual e lembrar que toda existência possui valor, mesmo nos momentos de maior fragilidade.

Quando o Estado passa a admitir que algumas vidas podem ser encerradas por decisão humana, inaugura-se uma perigosa mudança de paradigma: a vida deixa de ser um bem inviolável para tornar-se um direito disponível. Para o cristão e, particularmente, para o espírita, essa inversão jamais poderá ser aceita. A vida pertence a Deus; ao homem compete administrá-la com responsabilidade, amor e confiança na Justiça Divina, jamais antecipar-lhe o termo. A verdadeira misericórdia não mata: ampara, consola, serve e espera, porque sabe que nenhuma dor é inútil quando vivida sob a luz da imortalidade da alma.

Referências Bibliográficas:

ASSOCIAÇÃO MÉDICA MUNDIAL. Declaração sobre Eutanásia. Madri, 1987.

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.

BRASIL. Decreto-Lei n.º 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 1940.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Brasília: FEB, 2019. Questão 920.

XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília: FEB, diversas edições.

XAVIER, Francisco Cândido. Obreiros da Vida Eterna. Pelo Espírito André Luiz. Brasília: FEB, diversas edições.

BELGIQUE. Commission fédérale de contrôle et d'évaluation de l'euthanasie. Rapports aux Chambres législatives. Bruxelas, diversos anos.

 

16 julho 2026

A tribuna espírita, o exemplo e a responsabilidade na preservação da família


  


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A tribuna espírita não é palco de prestígio pessoal, mas espaço de serviço ao Cristo, destinado à divulgação da Doutrina Espírita e à edificação moral. Por isso, expositores e dirigentes são chamados não apenas a conhecer os princípios doutrinários, mas a esforçar-se por vivê-los.

No movimento espírita, por vezes, palestrantes ou dirigentes que enfrentaram sérios insucessos familiares são convidados para abordar temas como casamento, educação dos filhos ou harmonia no lar. Essa realidade não deve ser analisada com espírito de condenação, pois todos somos Espíritos imperfeitos em aprendizado. Contudo, merece reflexão sob a ótica da coerência moral.

Allan Kardec jamais exigiu perfeição dos trabalhadores da seara espírita. Em O Evangelho segundo o Espiritismo (cap. XVII), ensina que o verdadeiro espírita se distingue pelo esforço constante em vencer suas más inclinações e promover sua transformação moral. A autoridade espiritual não nasce da impecabilidade, mas da coerência entre a palavra e a conduta.

Existe diferença entre quem enfrentou fracassos familiares, reconheceu seus equívocos, aprendeu com eles e busca reconstruir a própria vida, e quem negligencia deliberadamente os deveres do lar enquanto pretende ensinar aos outros princípios que não procura vivenciar.

A família constitui a primeira escola do Espírito reencarnado. No Livro dos Espíritos (questões 773 a 775), Kardec demonstra que os laços familiares são instrumentos da Lei Divina para o progresso moral. Emmanuel, por sua vez, define o lar como a primeira oficina de redenção da alma.

O expositor espírita não precisa apresentar-se como modelo acabado, mas deve testemunhar sincero empenho em viver aquilo que recomenda. Jesus ensinava porque sua vida confirmava suas palavras, e os primeiros cristãos convenceram muito mais pelo testemunho do que pela eloquência.

Isso não significa excluir dos trabalhos doutrinários aqueles que passaram por separações ou dificuldades conjugais. Muitas circunstâncias — violência, abandono ou incompatibilidades profundas — podem conduzir ao rompimento de um casamento sem culpa exclusiva de uma das partes. A Doutrina Espírita recomenda sempre equilíbrio, misericórdia e prudência.

Entretanto, ao escolher expositores para temas relacionados à família, parece sensato que as instituições espíritas considerem também o testemunho existencial de quem ocupará a tribuna. Não se trata de exigir perfeição, mas de reconhecer o valor pedagógico do exemplo.

Paulo de Tarso recomendava que o cristão fosse "modelo dos fiéis na palavra, no procedimento, no amor, na fé e na pureza" (1Tm 4:12). Emmanuel sintetiza esse princípio ao afirmar que "a palavra convence, mas o exemplo arrasta". A verdadeira liderança espírita fundamenta-se na credibilidade construída pela vida.

O movimento espírita deve evitar dois extremos: exigir perfeição absoluta dos trabalhadores ou desprezar completamente a importância do testemunho moral. O caminho espírita é o equilíbrio, em que humildade, responsabilidade e esforço de renovação legitimam a palavra.

Ao abordar casamento, educação dos filhos e convivência familiar, convém que os dirigentes escolham, com discernimento, aqueles que possam oferecer não apenas conhecimento doutrinário, mas também um testemunho compatível com a mensagem transmitida. Antes da eloquência, vem o exemplo; antes do brilho intelectual, a vivência do Evangelho. Como ensinou Kardec, o verdadeiro espírita distingue-se por sua transformação moral

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB.

XAVIER, Francisco Cândido. Fonte Viva. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB.

BÍBLIA. Bíblia 1 Timóteo 4:12.

15 julho 2026

Eutanásia: a falsa compaixão diante da inviolabilidade da vida



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A recente morte da psicóloga colombiana Catalina Giraldo, após longa batalha judicial para obter autorização para a eutanásia, reacendeu um debate que desafia consciências, sistemas jurídicos e convicções religiosas. Diagnosticada com transtornos psiquiátricos graves e submetida a inúmeros tratamentos, ela afirmou desejar uma "morte digna", entendendo que a interrupção deliberada da própria existência seria um ato de liberdade e de amor para consigo mesma e para sua família. Sua história comove qualquer coração sensível. Todavia, emoção não pode substituir princípios éticos permanentes.

Sob a ótica espírita, a vida humana não constitui patrimônio exclusivo do indivíduo. Ela pertence a Deus, Criador e sustentador da existência. O Espírito reencarna para aprender, reparar equívocos pretéritos e desenvolver virtudes. Por isso, ninguém recebeu autorização moral para abreviar voluntariamente o próprio roteiro reencarnatório, ainda que motivado pelo sofrimento extremo.

Em O Livro dos Espíritos, questão 953, Allan Kardec registra que o suicídio voluntário representa infração à Lei Divina, pois interrompe provas e expiações cujo verdadeiro alcance escapa à compreensão humana. A dor jamais é um castigo arbitrário; constitui, frequentemente, instrumento educativo da evolução espiritual. Antecipar a morte não elimina os conflitos da consciência, apenas transfere para outras esferas dimensionais  problemas que permanecerão exigindo solução.

A Doutrina Espírita distingue claramente dois deveres éticos: combater o sofrimento e preservar a vida. A medicina possui o dever de utilizar todos os recursos legítimos para aliviar a dor física, psíquica e espiritual. Cuidados paliativos, suporte psicológico, assistência psiquiátrica, acolhimento familiar e amparo espiritual expressam a verdadeira compaixão. Diferente disso é provocar deliberadamente a morte, transformando o médico — tradicional defensor da vida — em homicida legalizado.

Esse entendimento converge, em larga medida, com os princípios clássicos da bioética. O princípio da beneficência determina agir em favor do paciente; o da não maleficência exige evitar causar dano intencional; a justiça impõe proteção igual à vida de todos; e a autonomia, embora fundamental, não possui caráter absoluto. Nenhum direito individual autoriza a eliminação da própria vida quando estão em jogo valores humanos universais.

A própria Declaração da Associação Médica Mundial sobre Eutanásia e Suicídio Assistido reafirma que a eutanásia constitui prática eticamente incompatível com a missão médica, ainda que respeite a necessidade de aliviar o sofrimento dos pacientes terminais por meio dos cuidados paliativos. Essa posição recorda que a medicina existe para cuidar, consolar e proteger, jamais para provocar a morte.

No caso colombiano, causa inquietação a ampliação progressiva dos critérios legais para a eutanásia. Inicialmente restrita a enfermidades terminais, sua aplicação passou a alcançar pessoas acometidas por intenso sofrimento psicológico. Trata-se de mudança civilizatória profunda. Quando uma sociedade começa a considerar a morte uma resposta terapêutica para o sofrimento psíquico, abre-se um perigoso precedente cultural, no qual o desespero passa a ser legitimado em vez de ressignificado.

Léon Denis advertia que a dor é uma das mais poderosas alavancas do progresso moral. Em O Problema do Ser, do Destino e da Dor, demonstra que as provas da existência terrestre jamais são inúteis; elas fortalecem a vontade, purificam sentimentos e ampliam a compreensão espiritual. Eliminar a experiência dolorosa mediante a supressão da vida significa interromper um processo educativo cujos benefícios somente a eternidade permite compreender.

André Luiz, por sua vez, descreve em Nosso Lar e em Evolução em Dois Mundos que o desligamento prematuro do corpo físico não extingue automaticamente os sofrimentos da mente. O Espírito conserva consigo seus estados íntimos, suas angústias e seus conflitos psicológicos, agora sem o esquecimento temporário proporcionado pela reencarnação. A morte voluntariamente antecipada não representa libertação, mas continuidade das dificuldades em outro plano da vida.

Isso não significa condenar moralmente quem, esmagado pela enfermidade, pede para morrer. O Espiritismo jamais julga consciências. A responsabilidade moral somente Deus pode avaliar, considerando circunstâncias que escapam completamente ao julgamento humano. O Centro Espírita deve acolher sem condenar, consolar sem recriminar e fortalecer sem prometer soluções simplistas.

Entretanto, acolher não significa concordar. A Doutrina Espírita proclama, com absoluta firmeza, que a vida permanece inviolável desde a concepção até o desenlace natural. A verdadeira morte digna não consiste em provocar o fim da existência, mas em cercar o enfermo de amor, cuidados, presença familiar, assistência espiritual e esperança. Civilização autêntica não é aquela que aperfeiçoa os mecanismos para matar com menos sofrimento, mas aquela que multiplica os recursos para viver com mais dignidade.

 

Referências Bibliográficas:

ASSOCIAÇÃO MÉDICA MUNDIAL. Declaração sobre Eutanásia. Ferney-Voltaire: World Medical Association, 2019.

BEAUCHAMP, Tom L.; CHILDRESS, James F. Princípios de Ética Biomédica. 7. ed. Porto Alegre: AMGH, 2013.

DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. 35. ed. Rio de Janeiro: CELD, 2018.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. 93. ed. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 132. ed. Brasília: FEB, 2019.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito André Luiz. Nosso Lar. 61. ed. Brasília: FEB, 2019.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito André Luiz. Evolução em Dois Mundos. Brasília: FEB, 2019.

BBC NEWS BRASIL. Reportagem sobre o caso de Catalina Giraldo, utilizada como texto-base fornecido pelo usuário. 

Álcool: o primeiro gole e a escravidão invisível — reflexões à luz da ciência e do Espiritismo



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

"O vinho é escarnecedor, e a bebida forte, alvoroçadora; todo aquele que por eles é vencido não é sábio." (Provérbios 20:1)

A preocupação com os efeitos do álcool acompanha a humanidade há milênios. Muito antes da Medicina comprovar os prejuízos fisiológicos e psicológicos decorrentes do consumo abusivo de bebidas alcoólicas, a sabedoria bíblica já advertia quanto ao seu poder de ilusão e degradação moral. O Evangelho registra igualmente que João Batista "não beberá vinho nem bebida forte" (Lc 1:15), evidenciando um ideal de disciplina e sobriedade compatível com sua elevada missão espiritual.

Passados mais de dois mil anos, o alcoolismo permanece entre os maiores desafios da saúde pública mundial. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o uso nocivo do álcool está associado a mais de 3 milhões de mortes anuais, correspondendo a cerca de 5% de todos os óbitos no planeta, além de contribuir para mais de duzentas enfermidades, acidentes de trânsito, violência doméstica, suicídios e diversas formas de incapacidade física e mental.

No Brasil, a situação igualmente preocupa. Pesquisas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD) revelam que milhões de brasileiros fazem uso abusivo de bebidas alcoólicas, iniciando frequentemente o consumo ainda na adolescência. O álcool permanece como a substância psicoativa de maior consumo no país, apesar dos amplos conhecimentos científicos acerca de seus efeitos deletérios.

Boa parte dessa realidade decorre da forte influência cultural e mercadológica. A publicidade sofisticada associa o consumo de bebidas ao sucesso, à felicidade, ao esporte, à juventude e ao convívio social, ocultando deliberadamente os elevados custos humanos e sociais da dependência química. O primeiro gole raramente é apresentado como o início de um processo que pode culminar na perda da liberdade psicológica, familiar e espiritual.

Sob a ótica espírita, o problema adquire dimensões ainda mais profundas. O Espírito Victor Hugo, pela psicografia de Divaldo Pereira Franco, observa que a recuperação do alcoolista exige não apenas tratamento médico, mas intenso esforço moral e espiritual, uma vez que a dependência frequentemente se entrelaça com processos obsessivos, favorecidos pela intoxicação contínua do organismo e pelo rebaixamento vibratório do indivíduo.

A Doutrina Espírita ensina que o perispírito reflete diretamente os estados mentais do ser humano. Toda substância tóxica ingerida de maneira habitual repercute não apenas no corpo físico, mas também nos delicados mecanismos psíquicos, dificultando o autocontrole, a lucidez e a sintonia com os Benfeitores Espirituais.

Joanna de Ângelis adverte com notável sabedoria: "A pretexto de comemorações, festas ou decisões, não nos comprometamos com o hábito da bebida."

Seu ensinamento permanece extremamente atual. Os grandes vícios quase nunca começam por excessos. Iniciam-se, quase sempre, pelo famoso "apenas hoje", pelo "somente um gole", pelo "comigo não acontecerá". O oceano, lembra a benfeitora, é formado por pequenas gotas.

Infelizmente, ainda existem pessoas que procuram justificar o consumo de bebidas alcoólicas mediante argumentos frágeis: "todo mundo bebe"; "uma taça faz bem ao coração"; "apenas socialmente"; "eu tenho controle". Tais racionalizações ignoram que a dependência química normalmente se instala de forma gradual e silenciosa.

Sob o ponto de vista científico, inclusive, antigos estudos que sugeriam benefícios cardiovasculares do consumo moderado foram amplamente reavaliados. Pesquisas mais recentes publicadas em periódicos internacionais indicam que não existe nível de consumo completamente isento de riscos para diversas doenças, especialmente alguns tipos de câncer, doenças hepáticas e transtornos neurológicos.

No meio espírita, essa reflexão torna-se ainda mais necessária. A coerência doutrinária exige que o conhecimento adquirido seja convertido em prática cotidiana. Não basta reconhecer os prejuízos do álcool em palestras ou estudos se, nas confraternizações sociais, prevalece o comportamento oposto. Como oportunamente advertiu o jornal Mundo Espírita, existe o risco de se construir uma "doutrina de conveniência", distinta daquela efetivamente vivida.

A prevenção continua sendo o caminho mais seguro. A família desempenha papel decisivo na formação dos hábitos dos filhos. Estudos mostram que quanto mais precoce ocorre o primeiro contato com bebidas alcoólicas, maior é a probabilidade de desenvolvimento de dependência na vida adulta. A banalização do álcool no ambiente doméstico reduz a percepção de risco entre adolescentes e favorece comportamentos futuros de abuso.

À luz do Espiritismo, a verdadeira liberdade consiste no domínio de si mesmo. O homem verdadeiramente livre não é aquele que pode beber quando deseja, mas aquele que é capaz de dizer "não" às próprias inclinações inferiores.

A disciplina dos pensamentos, dos sentimentos e dos hábitos constitui uma das expressões mais importantes da reforma íntima. Como ensina Samuel Hahnemann em O Evangelho segundo o Espiritismo, "o homem não permanece vicioso senão porque quer permanecer vicioso; aquele que deseja corrigir-se sempre o pode". A lei do progresso jamais condena; convida continuamente ao esforço de renovação moral.

Muito além de uma questão de saúde, o alcoolismo representa um desafio ético, psicológico e espiritual. A verdadeira prevenção começa pela educação da consciência e pelo cultivo permanente do equilíbrio, da vigilância e da responsabilidade perante a própria vida.

 

 

Referências Bibliográficas:

BÍBLIA. Português. Bíblia. Tradução de João Ferreira de Almeida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2017.

FRANCO, Divaldo Pereira. Calvário de Libertação. Pelo Espírito Victor Hugo. Salvador: LEAL, várias edições.

FRANCO, Divaldo Pereira. Estudos Espíritas. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Brasília: FEB, várias edições.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 2. ed. Brasília: FEB, 2019.

FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (FIOCRUZ). III Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2023.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Global Status Report on Alcohol and Health and Treatment of Substance Use Disorders 2024. Genebra: WHO, 2024.

BRASIL. Ministério da Saúde. Vigitel Brasil 2023: Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE HEPATOLOGIA. Consumo de álcool e doenças hepáticas: recomendações atuais. São Paulo, 2023