05 outubro 2026

Conservadores e “vermelhos” e o palácio de rancores


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

Acompanhamos a polarização digital invadindo a intimidade e a divergência, deixando de ser debate e passando a ser instrumento de destruição. Estamos sob o guante de uma máquina extraordinariamente eficiente para transformar divergências em conflitos. As redes digitais, alimentadas pela lógica do engajamento, converteram a indignação em mercadoria e a polarização em espetáculo.

O mecanismo é perversamente simples: quanto maior a reação emocional, maior a circulação do conteúdo. E nada mobiliza mais rapidamente do que a raiva. Assim, opiniões são comprimidas em rótulos, argumentos substituídos por slogans e adversários transformados em inimigos.

É a vitória da simplificação sobre o pensamento.

O fenômeno seria apenas lamentável se permanecesse no espaço político. O problema é que atravessou a porta de nossas casas. Já não ameaça somente o debate público; ameaça amizades, casamentos, relações familiares e antigas fraternidades.

Pessoas que durante décadas conviveram com uma “amizade” respeitosa passam a se hostilizar por causa de opiniões políticas ou da defesa de “político de estimação”. A divergência, que deveria ser natural numa sociedade livre, converte-se em suspeita moral. Quem pensa diferente já não é simplesmente alguém que pensa diferente: passa a ser tratado como alguém que precisa ser combatido.

Eis o perigo! Não precisamos concordar uns com os outros. Precisamos, isto sim, recuperar a capacidade civilizatória de discordar sem maldizer.

O Espiritismo oferece uma preciosa advertência contra essa irracionalidade intoxicante coletiva. Kardec consagrou o livre exame, a liberdade de consciência e o uso da razão. O Evangelho, por sua vez, não autoriza a transformação do semelhante em inimigo. A verdade não precisa da violência verbal para prevalecer.

Também não basta dizer: “Só Jesus na causa”. A fé não pode servir de anestésico para nossa responsabilidade. Orar é necessário; pensar, igualmente. Confiar em Deus não significa entregar nossa consciência ao algoritmo, nem permitir que uma tela determine quem devemos amar ou odiar.

Precisamos recuperar o domínio sobre nossas próprias emoções. Antes de compartilhar uma mensagem incendiária, convém perguntar: ela esclarece ou apenas provoca? Antes de romper uma amizade, talvez seja prudente lembrar que nenhuma eleição, nenhum partido e nenhuma disputa ideológica merecem destruir décadas de convivência.

A política passa. As plataformas mudam. Os governos terminam. Os algoritmos são substituídos. Mas uma palavra impensada pode produzir uma ferida que atravessa anos.

Não entreguemos às redes sociais aquilo que há de mais valioso em nossa existência: a amizade fraterna.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB, 2019.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 2019.

SANTAELLA, Lucia. A pós-verdade é verdadeira ou falsa? Barueri: Estação das Letras e Cores, 2018

04 outubro 2026

Presídio sem reeducação é fábrica de reincidente





Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há doze anos, escrevemos sobre a história de um casal que vivia em condições miseráveis nas proximidades do Complexo Penitenciário da “Papuda” . O episódio expunha, além do drama pessoal dos envolvidos, uma ferida muito mais profunda: o fracasso histórico do sistema penitenciário brasileiro em transformar a privação de liberdade em oportunidade de reconstrução humana.

De lá para cá, pouco mudou na essência do problema. Mudaram os governos, multiplicaram-se as leis, anunciaram-se programas e promessas, mas o cárcere continua sendo, em larga medida, território de superlotação, violência, insalubridade, ociosidade e domínio de organizações criminosas.

Não se trata de romantizar criminosos. Quem viola a lei deve responder pelos próprios atos. Responsabilidade individual é princípio elementar de justiça. O que não podemos admitir é que a pena ultrapasse seus limites legais e se converta em degradação humana.

O próprio Supremo Tribunal Federal reconheceu, na ADPF 347, a existência de um “estado de coisas inconstitucional” no sistema penitenciário brasileiro, diante da violação estrutural de direitos fundamentais. A questão deixou, portanto, de ser apenas denúncia de organizações civis, religiosos ou estudiosos: tornou-se uma questão institucional do Estado brasileiro.

Dados recentes da Secretaria Nacional de Políticas Penais continuam revelando uma população prisional gigantesca. O problema, porém, não se resume ao número de encarcerados. Uma prisão que não educa, não profissionaliza, não disciplina e não prepara para o retorno à sociedade pode acabar fortalecendo exatamente aquilo que deveria combater: a criminalidade.

A Lei de Execução Penal é clara ao estabelecer que a execução da pena deve proporcionar condições para a integração social do condenado. Trabalho, educação, assistência à saúde, assistência social, jurídica e religiosa não são luxos penitenciários. São instrumentos previstos para que a pena cumpra uma finalidade civilizatória.

O Plano Pena Justa, desenvolvido pelo CNJ e pelo Ministério da Justiça, representa importante tentativa de enfrentar estruturalmente esse cenário. Entretanto, nenhum plano governamental será suficiente se não houver vontade política permanente, fiscalização, recursos adequados e compromisso efetivo com a ressocialização.

E aqui entra a contribuição espírita. Allan Kardec, ao abordar a caridade para com os criminosos, rejeita a lógica da exclusão definitiva. O criminoso não deixa de ser criatura de Deus por haver cometido um crime. Ele deve responder perante a Justiça, reparar quanto possível o mal praticado e enfrentar as consequências de seus atos. Mas não deve ser considerado irremediavelmente perdido.

Jesus foi ainda mais incisivo: “Estava preso e não me visitastes” (Mateus 25:43). A advertência evangélica não significa complacência com o delito. Significa que a sociedade não pode perder a capacidade de enxergar humanidade naquele que errou.

Durante décadas, participei de visitas e atividades de assistência na Papuda, levando estudo, mensagens espíritas, livros, diálogo, auxílio material e estímulo à reconstrução moral. Aprendi, nesse contato, que ninguém se recupera sendo tratado permanentemente como lixo humano.

É preciso romper com dois extremos igualmente perigosos: a ingenuidade que minimiza o crime e a crueldade que transforma o criminoso em inimigo irrecuperável.

A sociedade tem direito à segurança. A vítima tem direito à justiça. O criminoso tem o dever de responder pelo que fez. E o Estado tem o dever de não transformar a prisão em escola de reincidência.

Uma política penitenciária verdadeiramente civilizada precisa conjugar firmeza, disciplina, trabalho, educação, assistência e recuperação moral.

Porque punir é atribuição da Justiça. Regenerar é uma responsabilidade social. Desumanizar jamais será solução.

 

Referências Bibliográficas:

BRASIL. Lei nº 7.210/1984 (Lei de Execução Penal);

CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Plano Pena Justa;

 SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. ADPF 347;

SENAPPEN. Relatório de Informações Penais;

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XI;

 BÍBLIA. Mateus 25:31-46

 

02 outubro 2026

A toga não pode se transformar em poder sem freio





Jorge Hessen

Brasília -DF

Quando o Judiciário abandona a prudência institucional e ingressa no terreno da militância ideológica, a liberdade fica sob ameaça.

Há uma questão que precisa ser enfrentada sem medo, sem partidarismo e sem qualquer compromisso com interesses de grupos: até onde pode avançar o Poder Judiciário sem transformar sua legítima função constitucional em protagonismo político?

A pergunta não é contra juízes. Não é contra tribunais. Não é contra a Justiça. É, precisamente, em defesa da Justiça. Em uma República, nenhum Poder deveria converter-se em instância absoluta. Executivo, Legislativo e Judiciário existem dentro de uma arquitetura constitucional concebida para impedir a concentração de poder.

A Constituição brasileira estabelece a independência e a harmonia entre os Poderes. E o próprio Supremo Tribunal Federal reconhece, em sua jurisprudência, que a separação dos Poderes constitui limite à atuação jurisdicional.

O problema começa quando a toga deixa de ser percebida como símbolo da Justiça imparcial e passa a ser identificada, pela sociedade, com militância política, ativismo ideológico ou protagonismo institucional.

Não afirmamos que todo ativismo judicial seja ilegítimo. Há situações em que o Judiciário é chamado a proteger direitos fundamentais diante de omissões estatais. O próprio STF sustenta essa possibilidade.  O ponto delicado está em outro lugar: quando a interpretação judicial começa a substituir, de maneira recorrente, o espaço próprio da deliberação política e legislativa. Aí reside o MAIS EXTREMO perigo.

Quando o cidadão percebe que determinadas questões fundamentais da vida nacional já não são decididas predominantemente por seus representantes eleitos, mas por decisões judiciais de enorme alcance político, instala-se uma inquietação democrática que não pode ser simplesmente desprezada.

É nesse momento que a expressão “ditadura da toga”, embora seja uma metáfora política severa e não uma classificação jurídica, passa a traduzir um temor social: o de que a autoridade judicial, originalmente concebida para proteger a liberdade, possa tornar-se ela própria uma fonte de restrição excessiva dessa liberdade.

Como espíritas, aqui encontramos uma extraordinária convergência com o pensamento de Allan Kardec. No Livro dos Espíritos, ao tratar da liberdade de consciência, Kardec registra que ninguém tem o direito de constranger a consciência alheia. A liberdade de pensamento é apresentada como uma dimensão fundamental da existência humana. (KARDEC, 2013, q. 833-837).

O Espiritismo, portanto, não combina com o pensamento único, nem com dogmatismos e muito menos com autoridade que se pretenda infalível.

A fé espírita, ensinou Kardec, deve ser raciocinada. O homem não é convidado a abdicar da razão diante da autoridade; ao contrário, é estimulado ao livre exame. Isso vale também para a vida civil.

Nenhuma toga deveria tornar-se sagrada. Nenhum magistrado deveria ser colocado acima da crítica. Nenhuma instituição republicana deveria exigir reverência incompatível com a democracia.

Autoridade é responsabilidade. Kardec, em O Evangelho segundo o Espiritismo, lembra que a autoridade é uma delegação de que seu detentor terá de prestar contas. (KARDEC, 2004, cap. XVIII, item 9). Eis a questão central.

A última trincheira da cidadania não pode transformar-se em trincheira contra a cidadania.

O Judiciário deve proteger a Constituição; não substituir a soberania popular. Deve assegurar direitos; não criar uma espécie de tutela permanente sobre a sociedade. Deve controlar abusos; não tornar-se imune ao controle institucional, à crítica pública e aos mecanismos republicanos de responsabilização.

Quando qualquer Poder passa a acreditar que sua interpretação é suficiente para encerrar o debate nacional, a democracia começa a perder oxigênio. O perigo não está na toga. Está no poder sem freios.

Por isso, nós, cidadãos, precisamos permanecer atentos. Não para atacar a Justiça, mas para defendê-la de qualquer forma de personalismo, partidarização ou militância ideológica.

A liberdade não sobrevive quando se entrega a uma autoridade absoluta — seja ela política, econômica, religiosa ou judicial.

O verdadeiro Estado Democrático de Direito exige algo muito mais difícil: autoridade com limites, liberdade com responsabilidade e poderes reciprocamente controlados.

Kardec nos ensinou o livre exame. A República nos oferece a separação dos Poderes. A consciência nos impõe responsabilidade. Quando essas três forças caminham juntas, a sociedade permanece livre. Quando uma delas pretende dominar as demais, a liberdade começa a adoecer.

E é justamente para impedir essa enfermidade institucional que a cidadania precisa permanecer vigilante. Não se combate uma eventual hipertrofia da toga destruindo a Justiça. Combate-se devolvendo à Justiça sua grandeza: a imparcialidade, a prudência, a legalidade e o respeito aos limites constitucionais.

Porque a Justiça somente permanece Justiça quando também aceita ser submetida à lei.

 

Referências  Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, 2004.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República.

SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. A Constituição e o Supremo. Brasília, DF: STF

 

TDAH - compreender o cérebro, educar o espírito






Jorge Hessen

Brasília -DF

 

 

O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) merece ser tratado com seriedade, tanto pela família quanto pela escola e pelas instituições religiosas. Não se trata simplesmente de uma criança mal-educada, preguiçosa, desobediente ou “sem limites”. O TDAH é uma condição do neurodesenvolvimento, caracterizada por um padrão persistente de desatenção e/ou hiperatividade-impulsividade suficientemente intenso para provocar prejuízos acadêmicos, profissionais, sociais ou familiares. O Ministério da Saúde possui um protocolo específico para o diagnóstico e o acompanhamento da condição.

Quais são os sintomas? Na desatenção, a pessoa pode apresentar dificuldade para manter o foco, não acompanhar instruções até o fim, deixar tarefas incompletas, ter problemas de organização, perder objetos, esquecer compromissos e distrair-se facilmente. Na hiperatividade, pode demonstrar inquietação corporal, dificuldade para permanecer sentada ou quieta, necessidade constante de movimento e fala excessiva. Na impulsividade, pode interromper os outros, responder antes que a pergunta termine, ter dificuldade para esperar sua vez ou agir sem avaliar adequadamente as consequências.

Todavia, uma criança distraída, agitada ou impulsiva não deve ser automaticamente diagnosticada como portadora de TDAH. O diagnóstico é clínico e exige avaliação especializada. Os sintomas precisam constituir um padrão persistente, aparecer em diferentes contextos e produzir prejuízo significativo; também devem ser considerados o desenvolvimento, o ambiente familiar e escolar e outras possíveis condições que possam explicar os comportamentos.

Aqui se abre uma importante reflexão espírita.  A Doutrina Espírita ensina-nos a compreender o ser humano em sua integralidade. Somos Espíritos imortais, mas estamos temporariamente vinculados a um organismo físico, através do qual nos manifestamos no mundo material. Portanto, reconhecer uma condição neurobiológica não significa negar a dimensão espiritual do indivíduo. Ao contrário: significa respeitar o instrumento corporal mediante o qual o Espírito se expressa.

Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, apresenta a encarnação como oportunidade de desenvolvimento e progresso. Isso, porém, não autoriza afirmar que determinada pessoa tenha TDAH por causa de supostas faltas cometidas em existências anteriores. Não há fundamento kardeciano para transformar o diagnóstico em castigo espiritual.

André Luiz, ao examinar as relações entre mente, cérebro e manifestação espiritual, oferece elementos para uma compreensão integrada do ser humano. Emmanuel, por sua vez, valoriza o esforço, a disciplina, o trabalho e a educação. Joanna de Ângelis amplia a reflexão psicológica em torno do autoconhecimento e da educação emocional. Manoel Philomeno de Miranda contribui para a compreensão dos processos obsessivos, mas isso não significa que devamos atribuir automaticamente ao TDAH uma causa espiritual ou obsessiva.

A postura espírita madura, portanto, não é escolher entre ciência e espiritualidade. É saber colocá-las em seus respectivos campos.

Se há necessidade de avaliação neurológica, psiquiátrica ou psicológica, devemos buscá-la. Se houver indicação terapêutica, devemos respeitá-la. Se a criança necessita de rotina, acompanhamento pedagógico, orientação familiar e estratégias específicas de organização, devemos oferecê-los. A oração, o passe, a evangelização e o acolhimento fraterno podem constituir recursos espirituais de amparo, mas não substituem o tratamento profissional.

Também precisamos abandonar a antiga prática de humilhar o indivíduo dizendo-lhe que precisa simplesmente “prestar atenção”, “ter força de vontade” ou “tomar vergonha”. Quem enfrenta TDAH não precisa de condenação; precisa de compreensão, orientação e tratamento adequado.

À família espírita cabe uma tarefa ainda mais elevada: não transformar sofrimento em culpa, nem diagnóstico em identidade permanente.

A criança com TDAH continua sendo um espírito em desenvolvimento. Possui dificuldades, mas também talentos, afetividade, inteligência, criatividade e possibilidades de crescimento. Nosso dever é ajudá-la a desenvolver aquilo que possui, e não a fazer sentir-se inferior por aquilo que momentaneamente não consegue realizar.

A verdadeira caridade começa quando deixamos de perguntar: “Por que ele não consegue ser como os outros?” e passamos a perguntar: “O que podemos fazer para ajudá-lo a tornar-se, plenamente, aquilo que ele pode ser?”

Essa é uma maneira mais humana, científica e verdadeiramente espírita de compreender o TDAH.

 

 

Referências Bibliográficas:

BRASIL. Ministério da Saúde. Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade – TDAH: Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas. Brasília, DF: Ministério da Saúde. Serviços e Informações do Brasil

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira.

FRANCO, Divaldo Pereira. O homem integral. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL.

FRANCO, Divaldo Pereira. Tormentos da obsessão. Pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda. Salvador: LEAL.

XAVIER, Francisco Cândido. Nos domínios da mediunidade. Pelo Espírito André Luiz. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira.

XAVIER, Francisco Cândido. Pensamento e vida. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Clinical descriptions and diagnostic requirements for ICD-11 mental, behavioural and neurodevelopmental disorders. Geneva: WHO, 2024

 

01 outubro 2026

Entre o corpo e o espírito, uma reflexão espírita sobre identidade






Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Há experiências humanas que exigem do Espiritismo menos respostas prontas e mais discernimento. Uma delas ocorre quando uma pessoa nasce biologicamente homem ou mulher e, ao longo da existência, não consegue identificar-se com o sexo corporal, chegando a considerar tratamentos hormonais ou outras intervenções para adequar o corpo à maneira como se percebe.

Como interpretar essa situação à luz da Doutrina Espírita?

Considerando antes de tudo que  obviamente Kardec não tratou do tema . A moderna concepção de identidade de gênero é posterior ao período em que Allan Kardec codificou o Espiritismo. Entretanto, encontramos no Livro dos Espíritos princípios importantes para a reflexão. Nas questões 200 a 202, os Espíritos esclarecem que o sexo está relacionado à organização física e que o mesmo Espírito pode encarnar como homem ou mulher em diferentes existências. O Espírito, portanto, não se confunde com o organismo que temporariamente utiliza (KARDEC, 2019).

Essa compreensão impede que reduzamos a pessoa à anatomia. Somos Espíritos imortais submetidos, durante a encarnação, às experiências proporcionadas pelo corpo, pela família, pela cultura e pelas circunstâncias existenciais.

Também não devemos afirmar que uma pessoa que vive essa experiência esteja necessariamente pagando por erros de vidas passadas, cumprindo determinada expiação ou escolhendo previamente essa condição. Sem conhecimento seguro, uma afirmação semelhante seria mera especulação. A Doutrina Espírita recomenda investigação, prudência e livre exame.

Outro princípio fundamental é o livre-arbítrio. Kardec ensina que a liberdade de pensar acompanha a liberdade de agir e que a lei divina está inscrita na consciência (KARDEC, 2019, q. 621, 843). Todavia, liberdade não significa ausência de consequências. Toda escolha envolve responsabilidade.

Por isso, uma pessoa adulta, lúcida e devidamente informada pode decidir sobre o próprio corpo, inclusive recorrer a tratamentos médicos. O fato de uma intervenção ser artificial não a torna automaticamente uma transgressão das leis divinas. A medicina modifica continuamente o organismo humano para tratar enfermidades, restaurar funções e aliviar sofrimentos.

A questão espírita fundamental não é simplesmente saber se o corpo pode ser modificado, mas com que consciência, intenção, conhecimento e responsabilidade essa decisão é tomada.

Emmanuel enfatiza a responsabilidade moral e a renovação íntima; André Luiz apresenta, em suas obras, a profunda interação entre corpo, mente e Espírito; Joanna de Ângelis dedica especial atenção ao autoconhecimento, à educação emocional e ao equilíbrio interior; e Manoel Philomeno de Miranda examina conflitos espirituais e processos obsessivos sob a perspectiva da responsabilidade e da necessidade de auxílio. Contudo, nenhum desses autores deve ser apresentado como formulador de uma doutrina específica sobre identidade de gênero. Fidelidade doutrinária também significa não fazer os Espíritos dizerem o que não disseram.

Para as famílias, essa compreensão é decisiva. Pais, avós e irmãos podem ter dúvidas, receios e até discordâncias. Mas a divergência jamais deveria transformar-se em rejeição, humilhação ou abandono. Acolher não significa necessariamente concordar; significa não deixar de amar.

A família espírita pode orientar, estudar, dialogar, buscar acompanhamento médico e psicológico qualificado e ajudar a pessoa a avaliar serenamente as consequências de suas decisões. Não lhe cabe substituir sua consciência.

A Doutrina Espírita oferece, assim, uma postura equilibrada: nem condenação automática, nem aprovação irrefletida; nem preconceito, nem imprudência — mas liberdade, responsabilidade, discernimento e caridade.

O corpo é instrumento da experiência reencarnatória; a consciência é o santuário da lei divina; o livre-arbítrio pertence ao Espírito; e a caridade constitui a mais elevada expressão da lei moral.

Talvez, diante de alguém que não se reconhece no próprio corpo, a pergunta mais espírita não seja: “Como fazê-lo pensar como nós?”, mas: “Como ajudá-lo a atravessar essa experiência reencarnatória com mais consciência, responsabilidade, dignidade e amor?”

Porque antes de enxergarmos a anatomia que diferencia, precisamos reconhecer o Espírito imortal que nos iguala.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília, DF: FEB, 2019.

EMMANUEL (Espírito). O Consolador. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. Brasília, DF: FEB, 2019.

ANDRÉ LUIZ (Espírito). Evolução em dois mundos. Psicografado por Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira. Brasília, DF: FEB, 2013.

ÂNGELIS, Joanna de (Espírito). O homem integral. Psicografado por Divaldo Pereira Franco. Salvador: LEAL, 1990.

MIRANDA, Manoel Philomeno de (Espírito). Nos bastidores da obsessão. Psicografado por Divaldo Pereira Franco. Salvador: LEAL, 2013

 

30 setembro 2026

Epilepsia: entre o cérebro, a consciência e o cuidado espiritual


 



Jorge Hessen

Brasília -DF

 

A doutrina espírita não autoriza substituir a medicina pela crença — nem transformar toda crise convulsiva em obsessão ou mediunidade.

A epilepsia acompanha a história da humanidade. Na Antiguidade, convulsões eram frequentemente atribuídas à ação de deuses, demônios ou forças sobrenaturais. Hipócrates representou uma ruptura importante ao sustentar que a chamada “doença sagrada” tinha relação com o cérebro e não com uma intervenção divina. Séculos depois, a medicina avançaria progressivamente na compreensão de suas múltiplas causas.

Hoje sabemos que a epilepsia é uma doença cerebral crônica, caracterizada por predisposição persistente à ocorrência de crises epilépticas. A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 50 milhões de pessoas convivam com a enfermidade no mundo e calcula que aproximadamente 70% poderiam viver sem crises mediante diagnóstico e tratamento adequados.

A medicina contemporânea dispõe de medicamentos antiepilépticos, procedimentos cirúrgicos, neuroestimulação e outras estratégias terapêuticas. A própria International League Against Epilepsy atualizou, em 2025, a classificação das crises, incorporando avanços no conhecimento neurológico e na prática clínica.

Diante disso, uma advertência espírita se torna indispensável: crise epiléptica não deve ser automaticamente confundida com obsessão, possessão ou mediunidade ostensiva. Tampouco uma pessoa com epilepsia deve ser encaminhada a desenvolvimento mediúnico como se sua enfermidade fosse, por si mesma, manifestação mediúnica.

Esse cuidado não diminui a contribuição do Espiritismo. Ao contrário. A Doutrina nos ensina a considerar o ser humano em sua integralidade, sem desprezar nenhuma dimensão da existência. Podemos compreender o homem como Espírito reencarnado, portador de um organismo submetido às leis biológicas, psicológicas e espirituais. Entretanto, uma interpretação espiritual não deve ser apresentada como diagnóstico médico.

Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, ao tratar dos chamados “convulsionários”, aborda fenômenos específicos de seu tempo e menciona a influência do magnetismo e dos Espíritos. Isso não equivale a afirmar que toda convulsão neurológica seja causada por entidades desencarnadas.

Há, ainda, importante material na literatura espírita posterior. Em Nos Domínios da Mediunidade, André Luiz descreve o caso de Pedro, apresentado no contexto de possessão e epilepsia essencial, associando a crise à atuação de um desencarnado. Esse relato pertence ao campo da literatura espiritualista e deve ser compreendido dentro de seu respectivo referencial doutrinário, não utilizado como substituto da investigação neurológica.

Podemos, portanto, admitir como possibilidade doutrinária que existam situações em que processos obsessivos interfiram no equilíbrio psíquico e, segundo determinadas interpretações espíritas, repercutam sobre o organismo. Mas isso é diferente de afirmar que a ciência médica tenha demonstrado que a epilepsia seja causada por obsessão espiritual.  Essa distinção é fundamental.

O passe, a prece, o acolhimento fraterno e a assistência espiritual podem constituir recursos de amparo moral e emocional. Jamais, porém, devem servir de pretexto para abandonar medicamentos, consultas, exames ou tratamentos prescritos por profissionais habilitados. A própria terapêutica espírita perde sua legitimidade quando se converte em concorrente da medicina (inobstante esta ainda seja muito materialista).

Também precisamos combater outro equívoco: atribuir ao doente culpa moral por sua enfermidade. A existência de causas espirituais, quando admitida dentro da concepção reencarnacionista, não significa que devamos acusar o enfermo de estar exclusivamente “pagando” determinada falta. Tal interpretação pode acrescentar sofrimento, culpa e estigma a quem já enfrenta uma condição neurológica.

A postura espírita responsável deve ser outra: acolher sem rotular, orar sem substituir o tratamento, estudar sem dogmatizar e respeitar a ciência sem abdicar da dimensão espiritual da existência.

A epilepsia não é prova de inferioridade moral, não é certificado de mediunidade e não deve ser transformada em espetáculo religioso. O enfermo precisa, antes de tudo, de respeito, diagnóstico adequado, tratamento competente e solidariedade.

Se a espiritualidade puder contribuir, que o faça pela via do amor, da prece, do equilíbrio e da renovação íntima — nunca pela negação da realidade orgânica.

O verdadeiro compromisso espírita não é escolher entre ciência e espiritualidade. É aprender a colocá-las em seus devidos lugares, sem fanatismo, sem credulidade e sem abandono da razão.

 

Referências Bibliográficas:

  • WORLD HEALTH ORGANIZATION. Epilepsy. Geneva: WHO, 2024. Organização Mundial da Saúde
  • INTERNATIONAL LEAGUE AGAINST EPILEPSY. Updated classification of epileptic seizures: Position paper of the International League Against Epilepsy. Epilepsia, 2025. Liga Internacional Contra a Epilepsia
  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte segunda, cap. IX, questões 481–483. Nepe Brasil
  • XAVIER, Francisco Cândido. Nos Domínios da Mediunidade. Pelo Espírito André Luiz. Cap. 9 — “Possessão”

29 setembro 2026

A "neurotech" será o novo desafio à ciência e ao Espiritismo?



 





Jorge Hessen

Brasília -DF



 

A revolução tecnológica poderá não estar apenas na inteligência artificial, mas na crescente convergência entre cérebro, matéria viva e máquinas — um território que desafia a ciência e convida o Espiritismo a uma reflexão ainda mais profunda.

Durante décadas, a humanidade imaginou que o futuro dos computadores dependeria exclusivamente de máquinas cada vez mais velozes. Agora surge uma fronteira surpreendente: utilizar células nervosas vivas como parte de sistemas computacionais e estabelecer comunicação direta entre cérebro e dispositivos eletrônicos.

A Cortical Labs, por exemplo, desenvolve sistemas de computação biológica nos quais neurônios cultivados em laboratório interagem com circuitos eletrônicos. Paralelamente, as interfaces cérebro-computador avançam rapidamente. Em 2026, a China autorizou para uso comercial um dispositivo invasivo destinado a auxiliar pessoas com tetraplegia a recuperar movimentos de preensão mediante uma luva robótica controlada por sinais cerebrais.

Não estamos, portanto, diante de mera ficção científica. Estamos ingressando numa época em que a fronteira entre organismo e máquina se torna progressivamente mais permeável.

Mas justamente aqui começa a pergunta que interessa ao Espiritismo: o cérebro é a consciência ou é o instrumento através do qual a consciência se manifesta?

A Doutrina Espírita não precisa temer essa investigação. Ao contrário. Allan Kardec sustentou que a ciência deve descobrir as leis da Natureza e advertiu que o Espiritismo não poderia permanecer estacionário diante do progresso. Em A Gênese, afirmou que, se uma nova verdade fosse demonstrada, a Doutrina deveria aceitá-la e modificar-se nesse ponto.

Essa postura continua extraordinariamente atual.

A neurotecnologia poderá ampliar capacidades motoras, tratar enfermidades, restaurar comunicação e produzir formas inéditas de interação homem-máquina. Poderá também criar dilemas éticos gigantescos: privacidade mental, autonomia, manipulação neural, propriedade dos dados cerebrais e limites da intervenção sobre a intimidade psíquica.

Para nós, espíritas, existe ainda uma questão mais profunda. Um cérebro artificialmente estimulado, um conjunto de neurônios cultivados ou uma máquina capaz de reproduzir determinados padrões neurais constitui, por si só, uma consciência?

A ciência pode investigar neurônios, sinapses, impulsos elétricos e circuitos cerebrais. Isso não significa que já tenha solucionado o problema filosófico da consciência, muito menos demonstrado que o Espírito seja simplesmente um produto da matéria.

Kardec distinguia o princípio espiritual da organização corporal e reconhecia que a ciência material possui um campo próprio de investigação. A Gênese observa que o conhecimento completo do ser humano exige considerar tanto a dimensão material quanto a espiritual.

Por isso, não devemos combater a neurociência em nome da fé, nem transformar qualquer avanço tecnológico em suposta confirmação do Espiritismo. O verdadeiro espírito científico exige prudência diante daquilo que ainda não sabemos.

A grande revolução talvez não seja descobrir máquinas que imitem o cérebro, mas compreender finalmente aquilo que faz do ser humano muito mais do que uma máquina biológica.

Se a inteligência artificial pretende reproduzir capacidades cognitivas, a neurotecnologia poderá tentar conectar diretamente cérebro e máquina. O Espiritismo acrescenta uma pergunta que permanece aberta: quem é o ser que pensa, escolhe, ama, sofre e utiliza o cérebro como instrumento de manifestação?

Talvez seja justamente nessa fronteira — entre cérebro, consciência e Espírito — que ciência e filosofia serão convocadas a conversar com maior seriedade.

O progresso tecnológico será extraordinário. Mas seu verdadeiro valor dependerá de uma conquista ainda maior: usar o poder adquirido sobre a matéria sem perder o domínio moral sobre nós mesmos.

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB, 2013.

FIELDHOUSE, Rachel; YOU, Xiaoying. China approves brain chip to treat paralysis — a world first. Nature, 16 de março de 2026.

NATURE BIOTECHNOLOGY. China approves brain chip to overcome paralysis. Nature Biotechnology, v. 44, p. 497, 2026.

TERINI, Ricardo Andrade. Allan Kardec e o progresso da ciência. Horizonte, Belo Horizonte, v. 22, n. 67, 2024.

 


O “Apocalipse” não é destino: é responsabilidade




Jorge Hessen
Brasília -DF

Entre o negacionismo e o catastrofismo, resta-nos a razão: a Terra não precisa de profetas do fim, mas de consciências capazes de reconstruí-la.

A velha metáfora da borboleta que bate as asas em Tóquio e pode, por uma complexa cadeia de acontecimentos, contribuir para uma chuva em Nova York tornou-se célebre graças a Stephen Hawking. A imagem não autoriza fantasias místicas: evidencia apenas a extraordinária interdependência dos sistemas naturais.

É justamente aí que o debate contemporâneo deveria começar. Não precisamos de profetas para anunciar o fim do mundo. Temos conhecimento suficiente para compreender que a ação humana interfere profundamente no ambiente. Mudanças climáticas, desmatamento, ocupação irregular do solo, impermeabilização das cidades, poluição e a ausência de planejamento ampliam as vulnerabilidades e podem transformar fenômenos naturais em tragédias humanas.

O erro está em atribuir tudo à natureza — ou, no extremo oposto, tudo a uma suposta punição divina.

O Espiritismo não recomenda nenhum desses atalhos. Allan Kardec, ao examinar os fenômenos naturais, pergunta se as perturbações dos elementos são sempre independentes da vontade dos Espíritos. A resposta é cautelosa: há fenômenos que têm relação com a existência humana, mas muitos visam simplesmente ao restabelecimento do equilíbrio das forças naturais. (O Livro dos Espíritos, questão 536).

Isso deveria bastar para desautorizar a indústria espiritual do medo.

Terremotos, furacões, enchentes, secas e erupções vulcânicas não podem ser convertidos em instrumentos de terror religioso. Tampouco devemos utilizar cada calamidade para fabricar calendários do “fim dos tempos”, para selecionar culpados ou para anunciar castigos coletivos. A tragédia já é suficientemente dolorosa sem que sobre ela acrescentemos superstição.

O mundo contemporâneo, entretanto, oferece razões concretas para preocupação. O IPCC demonstra que a influência humana sobre o clima é inequívoca e que determinados extremos climáticos sofreram alterações em frequência e intensidade. A ONU registra que 2015–2025 constituiu o período de onze anos mais quente já observado. O problema, portanto, não está em imaginar o apocalipse, mas em reconhecer responsabilidades objetivas.

Há ainda uma dimensão moral. Uma sociedade que desperdiça recursos, destrói florestas, contamina águas e transforma o consumo em finalidade existencial não pode esperar indefinidamente que a natureza suporte sua imprudência.

A resposta espírita não é o pânico. É a responsabilidade.

Também não devemos confundir esperança com acomodação. Jesus advertiu: “No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (João 16:33). O ensinamento não promete uma existência sem dores. Ensina-nos a atravessá-las com coragem, lucidez e confiança.

A Terra não necessita de uma hecatombe para ingressar numa nova etapa. A transformação começa muito antes: quando mudamos nossos valores, nossas escolhas e nossa relação conosco e com o semelhante e com o planeta.

O verdadeiro “fim do mundo” que precisamos desejar é o fim do mundo velho em nós: o egoísmo, o orgulho, a indiferença e a irresponsabilidade.

Não esperemos que a próxima catástrofe nos ensine aquilo que a razão já deveria ter aprendido.

A natureza não precisa de profetas do apocalipse. Precisa de seres humanos responsáveis.

 

Referências Bibliográficas:

HAWKING, Stephen W. O universo numa casca de noz. São Paulo: Mandarim, 2002.

IPCC. Climate Change 2021: The Physical Science Basis. Cambridge: Cambridge University Press, 2021.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Brasília: FEB, 2019. Questão 536.

NAÇÕES UNIDAS. The Sustainable Development Goals Report 2026: Goal 13 — Climate action. New York: United Nations, 2026.

BÍBLIA João, 16:33