29 março 2026

Silêncio febiano e as cartas “mediúnicas da carochinha": um alerta ao movimento espírita brasileiro

 

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Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Quando a omissão fala mais alto que a “orientação”, abre-se espaço para a fraude, a exploração das cartas “consoladoras”  e o descrédito do próprio Espiritismo.

O crescimento alarmante das chamadas “cartas consoladoras” de origem duvidosa no movimento espírita brasileiro não é um fenômeno isolado nem ingênuo. Trata-se de um processo contínuo de usurpação da mediunidade, que encontra terreno fértil justamente onde deveria haver vigilância, orientação e firmeza doutrinária.

A despeito de órgãos da grande imprensa terem denunciado o fato, é impossível ignorar um fator insultuoso: o silêncio "ensurdecedor" da FEB, que é a instituição de maior representatividade nacional. Sua ausência de posicionamento claro, público e pedagógico diante dessas práticas tem produzido um efeito colateral gravíssimo — a legitimação indireta do estelionato do luto.

A mediunidade é faculdade séria, que exige estudo, disciplina moral e, sobretudo, compromisso com a verdade. Não se trata de espetáculo, tampouco de comércio emocional. Quando supostas comunicações espirituais passam a depender de inscrições prévias, coleta de dados pessoais ou exposição em ambientes previamente organizados, estamos diante de um indício evidente de fraude “mediúnica”.

A omissão institucional, nesse contexto, não é neutra. Ela se torna funcional ao erro. Ao não esclarecer, não advertir e não educar, permite que o público menos esclarecido (leigo mesmo!) — muitas vezes fragilizado pelo luto — seja conduzido à ilusão. E pior: estimula, ainda que indiretamente, a proliferação de falsos médiuns que se aproveitam desumanamente da dor alheia.

O dano não se restringe às vítimas diretas. A médio e longo prazo, compromete-se a credibilidade do próprio movimento espírita brasileiro. A Doutrina, que se fundamenta na razão, na ética e no controle universal dos ensinos dos Espíritos, passa a ser confundida com práticas sensacionalistas e emocionalmente manipuladoras.

É preciso dizer com todas as letras: consolar não é enganar. A verdadeira consolação espírita nasce do esclarecimento, da compreensão das leis divinas e da certeza da imortalidade da alma — jamais de mensagens fabricadas através de informações das redes sociais e bancos de dados virtuais.

Diante disso, espera-se mais do que silêncio. Espera-se responsabilidade doutrinária. Espera-se que a FEB assuma seu papel “educativo”, orientando com clareza, denunciando desvios e promovendo o estudo sério da mediunidade, conforme os parâmetros da Codificação.

Sem isso, com o “lavar as mãos" da FEB eximindo-se de responsabilidade, culpas ou consequências sobre tal situação, fingindo não ter envolvimento e desinteressando-se do resultado, continuará a vigorar essa perigosa inversão: enquanto os fraudadores agem com ousadia, os responsáveis pelo “esclarecimento” permanecem pusilanimemente em silêncio.

E, no Espiritismo, omitir-se diante das atuais fraudes de “cartas consoladoras da carochinha” não é apenas um crime lesa-Deus— é, em certa medida, colaborar com o recrudescimento e ampliação delas.

28 março 2026

Eutanásia na Espanha uma alternativa irrefletida perante a agonia da dor







 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

À luz da Doutrina Espírita, a  dor — mesmo a mais profunda — não autoriza a interrupção voluntária da vida, que é patrimônio sagrado da alma imortal.

A atual notícia envolvendo uma jovem na Espanha, que decidiu pela eutanásia após vivenciar graves agressões no campo da sexualidade, reacende um debate doloroso e necessário: até que ponto a dor humana pode justificar a antecipação deliberada da morte?

A comoção é compreensível. A violência, sobretudo a de natureza íntima e psicológica, fere a alma em profundidade. Contudo, à luz da Doutrina Espírita não podemos confundir compaixão com anuência a práticas que ferem as leis divinas.

Para o Espiritismo, a vida não pertence ao indivíduo em caráter absoluto. Trata-se de uma concessão de Deus, instrumento de aprendizado e redenção. No Livro dos Espíritos, aprendemos que o homem não tem o direito de dispor da própria vida, pois apenas o Criador conhece o momento adequado do retorno ao plano espiritual.

A eutanásia, ainda que motivada por dor extrema, configura uma forma de abreviar uma prova ou expiação. E toda prova interrompida retorna, inevitavelmente, em momento futuro, muitas vezes em condições ainda mais desafiadoras.

Não enxergamos o sofrimento como castigo arbitrário, mas como mecanismo educativo da alma. As dores morais — como as decorrentes de abusos e violências — são, sem dúvida, das mais dilacerantes. Porém, longe de justificar o abandono da existência, elas clamam por acolhimento, amparo e reconstrução interior.

Emmanuel ensina que “a dor é o buril que aperfeiçoa a alma”. Isso não significa aceitar passivamente o sofrimento, mas enfrentá-lo com coragem, buscando auxílio espiritual, psicológico e fraterno.

A eutanásia apresenta-se, muitas vezes, como um gesto de “misericórdia”. No entanto, do ponto de vista espírita, trata-se de uma ilusão perigosa. A morte do corpo não extingue a dor da alma. Pelo contrário: o Espírito, ao despertar na vida além túmulo, leva consigo as mesmas angústias, agravadas pela consciência de ter interrompido a própria jornada.

Casos de suicídio e a eutanásia  são amplamente estudados na literatura espírita, como nas obras de André Luiz, que descrevem estados de sofrimento intenso no plano espiritual decorrentes da fuga das provas terrenas.

Se há algo que precisa ser denunciado com veemência, não é apenas a eutanásia em si, mas as circunstâncias que levaram a jovem espanhola a ato tão extremo. A violência sexual, a omissão social, o abandono emocional,  esses sim são os verdadeiros crimes que exigem combate firme.

A resposta espírita não é o julgamento da vítima, mas a defesa intransigente da vida e o incentivo à reconstrução. É dever da sociedade oferecer suporte, justiça e acolhimento, para que nenhuma alma se sinta empurrada ao desespero.

Diante de tragédias humanas como essa na Espanha, o Espiritismo nos convida à reflexão profunda, sem perder a ternura. A dor merece respeito, mas a vida exige defesa. Até porque a eutanásia não é libertação, é adiamento. Não é solução, é interrupção indevida de um processo sagrado.

Que possamos, seja como sociedade e como espíritas, reafirmar os valores da vida, da esperança e da justiça, lembrando sempre que nenhuma noite é eterna para aquele que confia nas leis sábias e misericordiosas de Deus.

Num mundo ferido pela violência e pela desesperança, cabe ao pensamento espírita erguer a bandeira da vida com lucidez e compaixão, jamais cedendo à tentação de soluções fáceis para dores complexas. A verdadeira caridade começa por preservar a existência e amparar o Espírito em sua jornada de redenção.

Nosso erro não é derrota mas conquista para o aprendizado

 


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

À luz da Doutrina Espírita, os nossos reveses não configuram fracasso, mas oportunidades providenciais de aperfeiçoamento moral. Nossa existência observada apenas pelos critérios imediatistas do mundo costuma ser dividida entre vitórias e derrotas. A lógica terrestre, quase sempre subordinada aos interesses materiais, considera êxito aquilo que satisfaz as ambições pessoais e denomina fracasso tudo o que contraria desejos, expectativas ou projetos do ego.

Entretanto, a análise espírita, fundada na imortalidade da alma e na pluralidade das existências, oferece interpretação substancialmente diversa. Não há derrota em sentido absoluto em nossa vida. O que se convencionou chamar de fracasso nada mais representa que experiência de aprendizado, muitas vezes necessária ao reajuste dos nossos valores íntimos e ao desenvolvimento das virtudes ainda incipientes.

Allan Kardec demonstra, ao examinar as vicissitudes da vida, que as provas e expiações se inserem em contexto de justiça e misericórdia, no qual cada acontecimento possui função pedagógica. Sob essa perspectiva, os embaraços da jornada não se destinam a humilhar o ser, mas a despertá-lo para a realidade espiritual.

Vejamos que quando uma porta se fecha para nós, pode evitar comprometimento mais grave e ao experimentarmos uma “perda” afetiva, somos convidados ao desapego. São diversas situações desafiadoras tais como um insucesso profissional que nos convida a humildar o orgulho, seja uma enfermidade moral ou física que nos impulsiona à  restauração da disciplina interior. Em todos esses casos, podemos superficialmente identificar derrota, porém a razão kardeciana reconhece conquista, aprendizado e ensejo de progresso.

O erro mais grave não está no revés experimentado, mas na recusa em extrair dele a lição correspondente. A verdadeira derrota seria a cristalização do orgulho, da revolta ou da rebeldia diante das advertências da vida.

À medida que compreendemos nossa condição de Espíritos imortais, passamos a perceber que os acontecimentos dolorosos não representam interrupção do destino, mas recursos de aprimoramento sabiamente administrados pela Providência Divina.

Nenhum sofrimento é estéril quando acolhido com discernimento, fé raciocinada e disposição sincera de renovação. Em face disso, importa reafirmar que os nossos aparentes fracassos não constituem mapas de derrota, mas roteiros de aprendizado.

A vida, sob a regência das leis divinas, não nos impõe quedas inúteis; oferece-nos, antes, lições necessárias para que nos elevemos, nos corrijamos e prossigamos em direção à plenitude.

Em tempos de ansiedade, imediatismo e culto ao sucesso exterior, a mensagem espírita permanece atual: onde o mundo vê derrota, a consciência esclarecida identifica oportunidade de crescimento sempre.

Falsas cartas consoladoras e o Projeto de Lei 1341/23


A proposta em tramitação na Câmara dos Deputados, o Projeto de Lei 1341/23, reacende um debate necessário, urgente e, para o movimento espírita sério, inadiável: o combate ao charlatanismo travestido de religiosidade.

Sob a justificativa apresentada pelo deputado Capitão Augusto, o projeto busca tipificar penalmente práticas que exploram a fé alheia por meio de falsas manifestações espirituais , curas inexistentes e supostos dons mediúnicos utilizados como instrumento de ganho financeiro (direta ou indiretamente). Trata-se de uma iniciativa que, à luz da ética espírita, encontra respaldo não apenas jurídico, mas sobretudo moral.

O Espiritismo sempre foi categórico ao afirmar que a mediunidade é uma faculdade natural e que seu exercício deve ser honrado. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec é incisivo ao condenar qualquer forma de exploração emocional e  financeira (direta ou indiretamente) das faculdades mediúnicas. A mediunidade, quando autêntica, é serviço, é caridade, é renúncia — jamais de falsidade.

Dessa forma, práticas como ofertas de “cartas consoladoras” formatadas através de informações contidas nas redes sociais, supostamente psicografadas por entes desencarnados, representam um desprezível  crime lesa-Deus e grave deturpação doutrinária quando associadas a interesses pessoais (egocentrismo) e materiais. Mais do que um desvio ético, trata-se de uma agressão à dor humana. Explorando o luto, tais práticas ferem profundamente aqueles que buscam consolo legítimo para suas perdas.

As cartas “consoladoras” fajutas são fétidas chagas morais. A tradição espírita sempre tratou a comunicação com os Espíritos com respeito, critério e responsabilidade. Médiuns como Chico Xavier sempre submeteram suas produções das cartas consoladoras autênticas  ao crivo da razão, da moral evangélica e do controle universal dos ensinos dos Espíritos.

Por outro lado, a proliferação de falsos médiuns, que produzem cartas consoladoras de mentirinha com  mensagens genéricas, emocionalmente manipuladoras e, muitas vezes, claramente fraudulentas, configura não apenas um problema religioso, mas um potencial crime — sobretudo quando há vantagem egocêntrica e financeira envolvida.

Obras de pensadores como Léon Denis e Emmanuel já alertavam para os perigos dos falsos profetas e da mediunidade desvirtuada. A mistificação é um dos maiores inimigos da doutrina, pois mina sua base moral e compromete sua finalidade educativa.

As penas previstas são reclusão, multa e agravantes em casos de vulnerabilidade compatíveis com a gravidade dos danos causados. Não se trata apenas de prejuízo financeiro, mas de sofrimento moral, perda de confiança e, em muitos casos, agravamento de quadros emocionais delicados.

Do ponto de vista espírita, a responsabilidade é ainda maior: aquele que engana em nome da falsíssima mediunidade compromete-se não apenas perante a justiça dos homens, mas diante das leis divinas.

O momento exige coragem moral. O Espiritismo não pode se omitir diante da banalização de suas práticas. A mediunidade séria não se confunde com espetáculo, nem com comércio, nem com exploração da dor pelo estelionato do luto.

Se o Projeto de Lei 1341/23 for adiante, irá contribuir para separar o joio do trigo e terá prestado relevante serviço à sociedade e também ao próprio movimento espírita, que precisa, mais do que nunca, reafirmar seus compromissos com a verdade, a ética e a caridade desinteressada.

Porquanto a fé espírita consola, porém, o charlatanismo das falsas cartas consoladoras  assassina esperanças e onde há ferida moral, a justiça  humana precisa atuar até porque a justiça divina atuará inevitavelmente.

 

27 março 2026

Espiritismo e tatuagens – urge coerência , sobriedade e o respeito pelo corpo

 


Jorge Hessen

Brasília-DF

 

A discussão sobre tatuagens , piercings e similares  à luz do Espiritismo e do Cristianismo exige reflexão séria, sem concessões à superficialidade cultural contemporânea. O corpo físico não é mero objeto de uso arbitrário, mas instrumento sagrado confiado ao Espírito para sua evolução moral.

Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, ensina que o corpo é um empréstimo divino, devendo ser preservado com responsabilidade. Ao tratar da lei de conservação, Kardec adverte que abusos contra o corpo configuram infrações à lei natural (KARDEC, 2004).

Nesse sentido, a prática de tatuagens , que implica dor voluntária, agressão cutânea e marcação permanente , levanta questionamentos quanto à real necessidade e finalidade moral desse ato.

Sob a ótica espírita-cristã, o corpo é “templo do Espírito”. A banalização de intervenções corporais meramente estéticas ou identitárias pode refletir excessivo apego à matéria, em detrimento dos valores espirituais. Léon Denis adverte que o Espírito deve libertar-se das ilusões materiais, elevando-se pelo aperfeiçoamento íntimo, e não pela exterioridade (DENIS, 1987).

Benfeitores espirituais amplamente respeitados no movimento espírita reforçam essa compreensão. Emmanuel ensina que o corpo físico é oficina de redenção, não devendo ser submetido a práticas que expressem vaidade ou desrespeito (XAVIER, 2003). Na mesma linha, o Espírito “André Luiz” descreve o corpo como organização sutil e complexa, cuja harmonia pode ser afetada por agressões deliberadas (LUIZ, 2010).

A tradição espírita brasileira, representada por figuras como Bezerra de Menezes, Ivone Pereira, Eurípedes Barsanulfo, Cairbar Schutel, Batuira, Jésus Gonçalves,  sempre enfatizou o respeito ao corpo como dever moral. Embora não haja proibição formal e explícita nas obras básicas, o princípio da prudência recomenda evitar práticas desnecessárias que possam comprometer o equilíbrio físico e espiritual.

No cenário contemporâneo, Divaldo Franco diversas vezes se manifestou de forma crítica quanto à banalização do corpo, alertando que excessos nesse campo podem refletir conflitos íntimos e desconexão com valores espirituais mais elevados (FRANCO, 2015).

É importante destacar que o Espiritismo não estabelece dogmas exteriores, mas orientações baseadas na razão e na responsabilidade moral. Ainda assim, à luz dos ensinamentos mencionados, tatuagens e piercings podem ser compreendidos como práticas inadequadas quando motivadas por vaidade, modismo ou impulsividade — fatores que não contribuem para o progresso espiritual.

Além disso, sob o prisma perispiritual, a literatura espírita sugere que marcas profundas no corpo físico podem repercutir no perispírito, especialmente quando associadas a intenções negativas ou desequilíbrios emocionais. Tal perspectiva reforça a necessidade de cautela.

Portanto, embora a decisão final pertença ao livre-arbítrio individual, a coerência com os princípios cristãos e espíritas convida à sobriedade, ao respeito pelo corpo e à valorização do que é essencial: o aprimoramento moral do Espírito. Em um mundo marcado pelo culto à aparência, a verdadeira evolução exige disciplina, consciência e fidelidade aos valores essenciais.


Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB, 2004.

DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Rio de Janeiro: FEB, 1987.

XAVIER, Francisco Cândido; EMMANUEL. O Consolador. Rio de Janeiro: FEB, 2003.

LUIZ, André (Espírito); XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Rio de Janeiro: FEB, 2010.

FRANCO, Divaldo Pereira. Momentos de Saúde e Consciência. Salvador: LEAL, 2015.

25 março 2026

O Jornal e a TV Globo ante a abjeta exploração do luto


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

Há reportagens tanto no jornal O Globo quanto nas investigações jornalísticas exibidas no programa Fantástico, da TV Globo, que reacenderam um tema delicado para o movimento espírita: a proliferação de supostas cartas consoladoras , acompanhadas de denúncias de fraude, exploração emocional e estelionato do luto contra pessoas fragilizadas pela dor da perda.

A Rede Globo demonstra casos em que médiuns utilizavam dados de redes sociais para construir mensagens aparentemente convincentes, mas sem autenticidade espiritual.

Diante desse cenário, torna-se necessário um posicionamento firme, doutrinário e ético, para que a prática espírita não seja confundida com charlatanismo nem utilizada como instrumento de exploração do sofrimento humano.

Na codificação a mediunidade nunca foi apresentada como espetáculo público nem como atividade “circense”. Ao contrário, a literatura espírita adverte que a faculdade mediúnica deve ser exercida com humildade, estudo e finalidade moral.

Quando cartas ditas consoladoras  são produzidas após coleta de dados da Internet, cria-se apenas uma simulação emocional, capaz de impressionar quem sofre, mas sem qualquer garantia de origem espiritual. Kardec advertiu que a mediunidade seria frequentemente alvo de mistificações, seja por engano sincero, seja por presunção, seja por interesse pessoal.

Por isso, o critério espírita sempre foi claro, pois a mediunidade não é para espetacularização  e a comunicação espiritual não se encomenda; ademais, o fenômeno legítimo não se submete ao sensacionalismo.

A dor da “perda” do ente querido torna as pessoas particularmente vulneráveis. Quem promete comunicação garantida com entes falecidos assume enorme responsabilidade moral, pois lida com sentimentos profundos, esperança e sofrimento.

No campo jurídico, a posição brasileira tem sido cautelosa. O Superior Tribunal de Justiça já manifestou entendimento de que cartas psicografadas não possuem valor probatório, por não apresentarem confiabilidade verificável.

Essa postura não julga a fé religiosa, mas preserva a segurança jurídica e evita que decisões judiciais se baseiem em elementos impossíveis de comprovação.

Casos amplamente divulgados pela imprensa reforçam a necessidade de prudência. Em reportagens investigativas, realmente foram identificadas situações em que supostos médiuns pesquisavam perfis em redes sociais para inserir nomes, datas, placas de carro, CFPs  e fatos nas cartas mistificadas, criando a impressão de comunicação real.

As reportagens do Grupo Globo citadas não devem ser vistas como ataque ao Espiritismo, mas como alerta necessário. Se há fraude, ela deve ser denunciada. Se há exploração do luto, deve ser combatida. Se há charlatanismo, deve ser repudiado.

Defender a doutrina significa impedir que impostores usem o nome da doutrina para legitimar práticas impiedosas de falsas cartas consoladoras.

O espiritismo sério não teme investigação, porque se apoia na razão, na moral e na responsabilidade. A comunicação espiritual, quando ocorre, não se submete ao espetáculo de circo, não se produz sob encomenda e jamais deve servir para explorar a dor humana.

 

22 março 2026

O Espiritismo e a democracia real

Jorge Hessen

Brasília -DF


Atualmente  em nome da liberdade, da ordem ou da Constituição brasileira, têm-se sacrificado direitos, silenciado vozes discordantes e estabelecido uma forma de controle que, embora se apresente aparentemente como necessária, culmina por limitar a própria dignidade da cidadania  brasileira.

Quando qualquer autoridade — seja política, administrativa ou judicial — ultrapassa os limites naturais de sua competência, cria-se um desequilíbrio perigoso. A segurança jurídica enfraquece, a confiança nas instituições diminui e o cidadão passa a sentir que já não vive sob regras claras, mas sob interpretações variáveis conforme interesses ideológicos ou circunstâncias.

O Brasil atravessa um período de grave tensão institucional, no qual decisões do Supremo Tribunal Federal têm sido interpretadas por grande parte da sociedade como excessivas e incompatíveis com o espírito da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

Embora o país permaneça “formalmente” dentro de um regime constitucional, cresce, em diversos setores, a percepção de restrição de liberdades, de judicialização da política e de enfraquecimento do equilíbrio entre os poderes, o que gera preocupações legítimas quanto à soberania, à segurança jurídica e ao “futuro” da alquebrada democracia brasileira.

A Constituição de 1988 foi concebida sob o ideal de separação e harmonia entre Executivo, Legislativo e Judiciário, princípio inspirado na teoria clássica da divisão dos poderes que baseia-se na separação tripartite de Montesquieu, consagrada pela Constituição Federal de 1988

Tal estrutura visa impedir a concentração excessiva de autoridade em um único órgão do Estado, garantindo que cada poder exerça suas funções dentro de limites definidos.

Quando decisões judiciais passam a ocupar espaço predominante no debate político, surge o fenômeno conhecido como judicialização, que, embora previsto em um Estado de Direito, tem gerado tensões em face da percepção da substituição da vontade popular expressa pelo Legislativo.

Nos últimos  anos, parte da sociedade tem interpretado determinadas decisões do STF como expansivas , inovadoras ou extrapolantes em relação ao texto constitucional, especialmente em temas sensíveis envolvendo liberdade de expressão, atuação das redes sociais, investigações de autoridades e conflitos entre poderes. Para juristas “AVERMELHADOS”, trata-se do exercício “legítimo” da função de guardião da Constituição; para a maioria sensata, já está ocorrendo o ativismo judicial, em que o STF tem assumido papel mais amplo do que o tradicionalmente previsto.

Esse cenário tem produzido um ambiente de polarização institucional, no qual a confiança nas instituições tem sido afetada. A democracia constitucional depende não apenas da existência formal das leis, mas também da percepção coletiva de que elas são aplicadas com equilíbrio, previsibilidade e respeito aos limites de cada poder.

Quando essa confiança se fragiliza, surgem debates intensos sobre legitimidade, competência e alcance das decisões judiciais. É verdade que o Brasil continua sendo uma república constitucional, com eleições , liberdade de organização política e funcionamento formal das instituições. Entretanto, a coexistência entre legalidade formal e sensação social de instabilidade jurídica não é comum em democracias contemporâneas consolidadas.

Diante desse quadro, o desafio central consiste em preservar o Estado de Direito, fortalecer a harmonia entre os poderes e garantir que a Constituição de 1988 continue sendo interpretada como instrumento de equilíbrio, e não de concentração cavalar de poder.

O debate público, quando realizado com responsabilidade, respeito às instituições e compromisso com a verdade jurídica, é parte essencial desse processo e constitui um dos pilares da própria democracia real e não a de faz de conta.

O combate à decadência moral não se faz com violência nem com intolerância, mas com lucidez, coragem intelectual e fidelidade aos princípios espirituais. É necessário reafirmar a existência de Deus, a imortalidade da alma e a responsabilidade de cada indivíduo por seus atos. Sem esses fundamentos, qualquer sistema — seja político, econômico ou cultural — corre o risco de transformar-se em instrumento de dominação, e não de libertação.

 A relação entre o Espiritismo e a democracia é profunda, pois ambos se fundamentam em princípios como liberdade de consciência, responsabilidade individual, igualdade essencial entre os seres humanos e progresso moral da sociedade. A doutrina codificada por Allan Kardec não propõe um sistema político específico, mas apresenta valores éticos que se harmonizam de forma natural com o ideal democrático.

O Espiritismo nasceu sob o signo da liberdade. A democracia, por sua vez, baseia-se na liberdade de opinião, de expressão e de escolha. Assim, o espírita coerente deve defender o direito de todos pensarem diferente, pois o progresso espiritual depende da experiência e do livre-arbítrio. Essa visão elimina justificativas para sistemas políticos baseados em castas, tiranias ou na dominação de grupos.

O Espiritismo não aceita a ideia de fatalismo social. Cada indivíduo é responsável por seus atos, e a coletividade reflete o nível moral de seus membros. Por isso, a democracia não pode funcionar sem cidadãos conscientes.

O espírita é chamado a agir com ética, honestidade e respeito às leis, lembrando que toda ação gera consequências, segundo a lei de causa e efeito.

Chico Xavier ensinava que a transformação do mundo começa na transformação moral de cada pessoa. Sem renovação íntima, nenhum sistema político consegue produzir justiça verdadeira.

É importante destacar que o Espiritismo não é partido, não é ideologia e não é instrumento de poder.

Ele não pertence à direita, nem à esquerda, nem a qualquer projeto de dominação. A função da doutrina é iluminar consciências, não controlar governos.

O Espiritismo alerta que leis humanas, por si sós, não garantem justiça. Sem valores morais, a democracia pode degenerar em corrupção, manipulação, populismo ou tirania disfarçada.

A verdadeira liberdade exige responsabilidade, e a verdadeira igualdade exige fraternidade. Por isso, a contribuição espírita para a sociedade não é impor regras, mas formar consciências mais maduras, capazes de construir uma civilização mais justa.

Espiritismo e democracia se aproximam porque ambos valorizam: liberdade de consciência , igualdade entre os seres humanos ,responsabilidade individual ,progresso moral da humanidade  e respeito à dignidade da pessoa. Porquanto, sem moral , a democracia se perde; sem liberdade, o espírito não evolui; sem fraternidade, a sociedade se desintegra.

O Espiritismo, portanto, não é um sistema político, mas uma filosofia espiritual que oferece bases éticas para que qualquer democracia seja mais humana, mais justa e mais duradoura.

 

 


21 março 2026

Perdoar não é esquecer mas impede que o "passado" destrua o presente e o "futuro"

 


Jorge Hessen

Brasília -DF

A frase “perdoar, mas ninguém esquece” expressa uma compreensão mais profunda e madura sobre o perdão, distinguindo-o da simples amnésia emocional. Durante muito tempo, difundiu-se a ideia ingênua de que perdoar seria apagar completamente a lembrança da ofensa, como se a mente humana pudesse eliminar voluntariamente registros dolorosos. Entretanto, tanto a psicologia contemporânea quanto a Doutrina Espírita ensinam que o perdão verdadeiro não consiste em esquecer, mas em libertar-se do ressentimento associado ao fato vivido.

No campo psicológico, o perdão é compreendido como um processo de reorganização emocional. A memória permanece, porque faz parte da estrutura psíquica do indivíduo, mas a carga afetiva negativa pode ser transformada. A lembrança deixa de ser uma ferida aberta e passa a ser apenas uma cicatriz. A cicatriz recorda o ocorrido, porém já não provoca a mesma dor. Assim, perdoar não significa negar o passado, mas retirar dele o poder de continuar ferindo o presente.

A Doutrina Espírita apresenta entendimento semelhante, porém mais profundo, ao tratar o perdão como conquista moral do Espírito em evolução. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, instrui que o verdadeiro perdão é aquele que não guarda rancor nem desejo de vingança, mas isso não implica esquecer o fato ocorrido. O esquecimento absoluto não depende da vontade, pois a memória é patrimônio da alma imortal. O que se exige do homem é dominar as paixões e substituir o ressentimento pela compreensão. Portanto,  perdoar os inimigos é sinal de superioridade moral, porque demonstra que o Espírito já não se deixa escravizar pelo orgulho e pelo ódio.

Também Léon Denis, em O Problema do Ser, do Destino e da Dor, explica que o sofrimento moral, quando não superado, prende o indivíduo a vibrações inferiores, retardando seu progresso espiritual. O perdão, nesse contexto, é libertação íntima. Não se trata de absolver o erro alheio, mas de impedir que o mal recebido continue produzindo novos males dentro de nós. Guardar rancor é prolongar indefinidamente a agressão sofrida.

Nas obras literárias de  Emmanuel, encontra-se a orientação de que o perdão é disciplina da alma. Mas  esquecer completamente as ofensas seria incompatível com a própria experiência evolutiva, pois a memória também serve de aprendizado. O importante é lembrar sem revolta, transformando a recordação em lição, e não em motivo de amargura.

Sob esse ponto de vista, a frase “perdoar, mas ninguém esquece” não é sinal de fraqueza, e sim de maturidade. O esquecimento profundo pode até ocorrer com o tempo, por mecanismos naturais da mente, mas não é condição para o perdão. O que realmente importa é cessar o vínculo emocional negativo que mantém o indivíduo preso ao passado.

Perdoar não significa negar a injustiça, nem aceitar o erro, nem manter convivência obrigatória com quem feriu. Perdoar é escolher não carregar o peso do ressentimento. É um ato de autocuidado, de equilíbrio psicológico e de elevação espiritual. Quem não perdoa conserva a ferida aberta; quem perdoa permite que ela cicatrize. A cicatriz permanece na memória, mas já não domina o coração.

Portanto, à luz da psicologia e do Espiritismo, perdoar é lembrar sem dor, é libertar-se sem negar a experiência, é seguir adiante sem carregar correntes invisíveis. O perdão não apaga o passado, mas impede que o passado destrua o futuro.


Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 2019.

DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. Brasília: FEB, 2018.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Fonte viva. Brasília: FEB, 2016.

20 março 2026

​“Meu corpo, minhas regras?” O aborto provocado é crime ante o Código Moral de Lei


 



A questão do aborto, à luz da Doutrina Espírita, não admite interpretações relativistas quando analisada sob o prisma dos princípios fundamentais codificados por Allan Kardec.

O Espiritismo afirma, de forma categórica, que a vida começa na concepção, momento em que o Espírito inicia o processo de ligação ao corpo físico, dando início a uma experiência reencarnatória previamente planejada no mundo espiritual.

No Livro dos Espíritos, questão 344, ensina-se que a união da alma ao corpo começa na concepção, razão pela qual a interrupção voluntária da gestação constitui grave infração às leis divinas, por impedir a realização de uma existência necessária ao progresso do Espírito.

A Doutrina Espírita não trata o aborto como simples questão de escolha individual, mas como tema profundamente vinculado à Lei de Causa e Efeito. Conforme explica Léon Denis, em O Problema do Ser, do Destino e da Dor, a existência corporal é oportunidade concedida pela Justiça Divina para reparação e aprendizado. Impedir essa oportunidade, deliberadamente, significa criar débitos morais que inevitavelmente exigirão reajuste futuro, pois ninguém frustra impunemente as leis que regem a evolução do Espírito.

Na  literatura  de André Luiz, encontram-se descrições detalhadas do processo reencarnatório, demonstrando que o retorno à vida física envolve planejamento cuidadoso, assistência espiritual e compromissos assumidos antes do nascimento. Em tais relatos, a interrupção da gestação aparece como fator de profundo sofrimento, não apenas para o Espírito impedido de renascer, mas também para os envolvidos, que mais tarde enfrentarão consequências morais e psicológicas decorrentes do ato.

De modo igualmente rigoroso, o Espírito Manoel Philomeno de Miranda descreve o aborto provocado como prática que gera graves perturbações espirituais, favorecendo processos obsessivos e estados de sofrimento prolongado, tanto no plano físico quanto no espiritual. Tais narrativas não têm caráter de ameaça, mas de advertência moral, mostrando que toda violação da lei natural produz efeitos inevitáveis.

Também o Espírito Emmanuel ensina que a maternidade e a paternidade são compromissos espirituais assumidos antes da reencarnação, não sendo fruto do acaso. Em diversas mensagens, ressalta que o filho que chega ao lar é, muitas vezes, instrumento de reconciliação, resgate ou aprendizado, e que rejeitá-lo deliberadamente significa recusar oportunidade valiosa de crescimento moral.

As instruções do Espírito Bezerra de Menezes seguem a mesma linha, afirmando que a defesa da vida desde a concepção constitui dever moral inalienável, devendo o espírita agir com firmeza doutrinária, mas sem fanatismo, oferecendo esclarecimento, amparo e orientação, jamais condenação cruel.

Importa destacar que o Espiritismo admite exceção apenas em casos extremos, quando a vida da mãe está em risco, conforme questão 359 do Livro dos Espíritos. Fora disso, a interrupção voluntária da gravidez é considerada violação da Lei Divina, por impedir a realização de um programa reencarnatório necessário ao progresso do Espírito.

Assim, a posição espírita contrária ao aborto não se baseia em imposição religiosa, mas em princípios racionais como a imortalidade da alma, a reencarnação, a lei de causa e efeito e a finalidade educativa da existência. À luz desses fundamentos, o aborto provocado configura grave responsabilidade moral, cujas consequências acompanham o Espírito até que o equilíbrio seja restabelecido pela dor da reparação e pelo aprendizado.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB.

DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Rio de Janeiro: FEB.

XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: FEB.

FRANCO, Divaldo Pereira. Nos Bastidores da Obsessão. Pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda. Salvador: LEAL.

XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB.

MENEZES, Bezerra de. Mensagens espirituais diversas. Rio de Janeiro: FEB.

Pornografia e desequilíbrio moral numa breve reflexão espírita

 

Jorge Hessen

Brasília -DF

O dicionário define pornografia como representação que fere o pudor e os bons costumes. A sexualidade, entretanto, acompanha a humanidade desde tempos longínquos. Registros arqueológicos mostram imagens de nudez e de conjunção carnal desde a pré-história, muitas vezes com significado ritualístico ou simbólico. Na atualidade, porém, a pornografia perdeu qualquer conotação espiritual e transformou-se em poderosa indústria voltada à exploração do instinto, amplamente difundida pela internet, pelo cinema e pelas redes sociais.

A Doutrina Espírita ensina que os instintos são necessários à conservação da vida, mas devem ser disciplinados pela razão. Conforme adverte Allan Kardec, o abuso das paixões aproxima o homem da animalidade e o afasta de sua destinação espiritual (KARDEC, 2013). O sexo, quando reduzido a objeto de excitação contínua, perde sua função elevada e passa a gerar perturbações morais e emocionais.

Estudos modernos indicam que o consumo compulsivo de pornografia pode produzir dependência psíquica, dificultando relacionamentos afetivos equilibrados. A visão espírita confirma tal realidade ao afirmar que o pensamento cria estados vibratórios que influenciam o comportamento. Segundo Léon Denis, a mente é campo de forças que atrai entidades em sintonia com nossos desejos; pensamentos inferiores aproximam Espíritos igualmente inferiores, fortalecendo tendências viciosas (DENIS, 2012).

A literatura mediúnica reforça esse ensinamento. O espírito Emmanuel, pela mediunidade de Chico Xavier, ensina que o pensamento é energia viva, capaz de criar hábitos e determinar destinos. A invigilância mental abre campo para influências perturbadoras, enquanto a disciplina interior favorece o equilíbrio (EMMANUEL, 2006). O abuso das excitações sensoriais, portanto, não é apenas problema social, mas também espiritual.

O educador espírita Eurípedes Barsanulfo destacava que a formação moral começa no lar. Pais que não vigiam a própria conduta dificilmente conseguirão orientar os filhos. A exposição precoce de crianças e adolescentes a conteúdos erotizados compromete o desenvolvimento emocional e favorece vícios difíceis de corrigir.

Sob a ótica espiritual, a pornografia pode favorecer processos obsessivos. Espíritos ainda presos às sensações materiais encontram sintonia em pensamentos lascivos, estimulando imagens e desejos que se repetem, formando verdadeiro circuito de dependência. A libertação exige vigilância, educação moral e cultivo de ideias elevadas.

A sociedade contemporânea vive a banalização da sexualidade, convertida em espetáculo permanente. A arte e os meios de comunicação frequentemente substituem valores estéticos pela exploração do corpo, e a pornografia tornou-se mercado altamente lucrativo, muitas vezes associado à exploração humana. Diante desse quadro, a omissão representa grave responsabilidade.

Emmanuel ensina que o pensamento gera atitudes, hábitos e destinos (EMMANUEL, 2006). Se a mente se fixa em imagens degradantes, cria desequilíbrio; se se eleva, constrói harmonia. O Evangelho de Jesus permanece como roteiro seguro, convidando ao domínio das paixões e ao respeito ao próximo.

A liberdade não dispensa responsabilidade. A Doutrina Espírita recorda que a felicidade verdadeira nasce do equilíbrio entre instinto e consciência, entre desejo e dever. Educar a sexualidade, sem repressão e sem libertinagem, é caminho necessário para o progresso moral do indivíduo e da sociedade.


Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 2019.

DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Brasília: FEB, 2012.

XAVIER, Francisco Cândido; EMMANUEL. Pensamento e Vida. Brasília: FEB, 2006.

XAVIER, Francisco Cândido; EMMANUEL. Vida e Sexo. Brasília: FEB, 2010.

BARSANULFO, Eurípedes. Lições de Moral Cristã. Uberaba: edições diversas.

 

18 março 2026

Perversas cartas “consoladoras” e a necessidade de responsabilidade à luz da legislação brasileira

 👉👉   link 👉👉          TRES MÃES ENLUTADAS E ENGANADAS  

Acesse o link ☝☝acima e veja os DEPOIMENTOS DAS MÃES


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

No Brasil há um fenômeno perturbador: mães enlutadas, devastadas pela perda de filhos, sendo iludidas por supostas comunicações mediúnicas produzidas por pessoa que se apresenta  como “intermediária” do além, mas que, na realidade, utiliza informações obtidas em redes sociais e bancos de dados digitais para simular mensagens espirituais.

 Trata-se de prática moralmente repugnante e juridicamente questionável, que pode ser compreendida como verdadeiro estelionato do luto, pois explora o sofrimento extremo para obtenção de fama, prestígio ou vantagens materiais.

É verdade que a Constituição Federal brasileira assegura a liberdade religiosa (art. 5º, VI), garantindo o livre exercício dos cultos e das crenças. Mas tal garantia não pode ser confundida com autorização para fraude. A própria ordem constitucional estabelece que ninguém está acima da lei e que a liberdade termina quando começa o direito do outro, especialmente quando há dano moral, exploração da vulnerabilidade e obtenção de vantagem indevida.

No campo penal, diversas condutas relacionadas a falsas práticas mediúnicas podem ser enquadradas no Código Penal brasileiro, especialmente no art. 171, que define o crime de estelionato como obter vantagem ilícita mediante fraude. Dependendo do caso, também podem ser considerados os crimes de charlatanismo (art. 283), quando alguém promete resultados extraordinários por meios supostamente sobrenaturais com finalidade de lucro ou engano.

Quando a fraude envolve uso de dados pessoais retirados de redes sociais para simular comunicações espirituais, pode-se cogitar ainda responsabilidade civil por dano moral e violação da boa-fé objetiva.

Do ponto de vista doutrinário, tais práticas são frontalmente incompatíveis com o Espiritismo codificado por Allan Kardec. Em O Livro dos Médiuns, Kardec advertiu repetidas vezes contra a mistificação e contra o uso leviano da mediunidade. Para o Codificador, a mediunidade é faculdade séria, que exige estudo, moralidade e desinteresse material. Ele afirma que as comunicações devem ser analisadas com rigor e que a credulidade cega favorece a ação de mistificadores, encarnados e desencarnados.

Kardec ensina que a primeira garantia contra o engano é o controle racional das comunicações, recomendando que nenhuma mensagem seja aceita sem exame criterioso. O Codificador também alertou que os Espíritos superiores não se prestam a espetáculos, nem a satisfazer curiosidades pessoais, muito menos a alimentar vaidades ou interesses financeiros. Quando alguém transforma a dor de famílias em instrumento de projeção pessoal, está em evidente desacordo com os princípios espíritas mais elementares.

Além do aspecto doutrinário, existe uma dimensão ética profunda. O luto é um estado de extrema fragilidade emocional. A pessoa que perdeu um filho encontra-se em condição psicológica vulnerável, muitas vezes disposta a acreditar em qualquer promessa de reencontro ou mensagem consoladora. Aproveitar-se dessa situação para produzir falsas comunicações constitui grave violação da dignidade humana, podendo gerar danos psíquicos ainda maiores do que a própria perda.

Por essa razão, cresce no meio jurídico a discussão sobre a necessidade de tipificação mais clara de condutas que envolvam exploração do sofrimento, fraude emocional e manipulação da fé. Embora o ordenamento jurídico já permita punição em casos comprovados de estelionato, a dificuldade probatória em situações que envolvem religião e mediunidade frequentemente impede a responsabilização dos culpados. A liberdade religiosa não pode servir de escudo para práticas fraudulentas, assim como a dor alheia não pode ser transformada em instrumento de notoriedade.

O Espiritismo sério jamais autorizou espetacularização da mediunidade, nem comércio de mensagens, nem exploração do sofrimento humano. Ao contrário, a obra kardeciana insiste na necessidade de prudência, estudo e responsabilidade moral. Defender a verdade doutrinária, denunciar abusos e exigir respeito à lei não é intolerância religiosa; é dever ético de todo espírita consciente e de todo cidadão comprometido com a dignidade humana.

Se o Estado deve proteger a liberdade de crença, deve também proteger os vulneráveis contra a fraude. Quando a mediunidade é usada para consolar com sinceridade, cumpre função nobre. Quando é usada para enganar mães enlutadas, transforma-se em instrumento de violência moral. E violência moral, em qualquer sociedade que se pretenda justa, não pode permanecer impune.

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Rio de Janeiro: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2013.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

BRASIL. Código Penal Brasileiro. Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940.