31 março 2026

As “Fake News” do além através das “coqueluches do momento” - as “cartas consoladoras ”

 

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Jorge Hessen

Brasilia-DF

 

Entre a cruz e a espada ou entre a fé racional e a exploração da dor é o desafio para que o movimento espírita brasileiro aja com firmeza contra o charlatanismo mediúnico.

O fenômeno das chamadas “cartas consoladoras” quando autêntico, espontâneo e moralmente elevado  encontra respaldo doutrinário. Contudo, o que se observa em diversos contextos contemporâneos do movimento espírita brasileiro é a banalização desse recurso mediúnico, transformado em excrescente espetáculo emocional, marcado por promessas antecipadas, obrigatoriedade de inscrições prévias e forte apelo sensacionalista.

Essa prática, além de ferir os princípios doutrinários, pode configurar grave violação ética e até ilegalidade, sobretudo quando há indícios de obtenção prévia de informações por meio de redes sociais, cadastros ou investigações superficiais da vida alheia , prática conhecida como cold reading ou fraude mediúnica.

A Doutrina Espírita é clara ao afirmar que a mediunidade séria não se submete à vontade humana, tampouco pode ser marcada com hora, data e destinatário previamente definido. Até porque os Espíritos não estão às ordens de ninguém.
Quando médiuns passam a anunciar previamente a entrega de cartas consoladoras  a pessoas inscritas, há uma inversão completa do princípio básico da espontaneidade mediúnica. Tal prática não apenas compromete a credibilidade do fenômeno, como sacramenta manipulações e fraudes.

Escrevi recentemente que a exploração da dor alheia mediante promessas de comunicação com entes desencarnados pode configurar crime, à luz da legislação brasileira como o Art. 171 do Código Penal (Estelionato) Art. 283 do Código Penal (Charlatanismo). Art. 284 quando há promessa de intervenção espiritual com fins “materiais”.

Se houver algum tipo de cobrança direta ou indireta, ou mesmo captação de público visando “grana”, a situação se agrava ainda mais. O Projeto de Lei 1341/23, em tramitação na Câmara dos Deputados, busca também ampliar o combate a essas práticas.

Tenho insistido em que a ausência deliberada de posicionamento firme de entidades representativas como a Federação Espírita Brasileira contribui para a proliferação dessas práticas. O silêncio institucional, longe de ser neutro, atua como permissivo tácito.

O movimento espírita, que deveria ser guardião da seriedade doutrinária, acaba permitindo que a mediunidade seja transformada em palco de exibição egoica  onde o médium se promove, o público se emociona, e a verdade doutrinária é arremessada no lixão da imoralidade.

É imperioso que se estabeleçam medidas concretas do tipo proibição de práticas espetacularizadas
Através de eventos públicos com promessa de cartas consoladoras.

Os órgãos federativos estaduais  poderiam instituir conselhos para avaliar denúncias e orientar os centros através da criação de comissões de ética mediúnica.

E todos os casos suspeitos devem ser levados ao conhecimento público e, se necessário, às autoridades competentes.

Devemos valorizar a mediunidade discreta e moralizada como exemplificado por Chico Xavier, cuja postura era de humildade, espontaneidade e ausência de autopromoção.

Permitir que práticas fraudulentas prosperem é comprometer a própria missão do Espiritismo, que é esclarecer, consolar e elevar — jamais iludir. Até mesmo porque se o Espiritismo deseja manter sua credibilidade como doutrina séria, científica e moral, precisa urgentemente enfrentar, com coragem e lucidez, os desvios que o ameaçam por dentro. Não se trata de perseguir pessoas, mas de proteger princípios. Onde há espetáculo, não há elevação. Onde há fraude, não há Espiritismo.

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 2013.

BRASIL. Código Penal Brasileiro. Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940.

FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA. Diretrizes doutrinárias e orientações institucionais. Brasília: FEB, diversas edições.


30 março 2026

​O “esvaziamento” do movimento espírita brasileiro reproduz a preguiça moral dos seus “líderes”

 

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Jorge Hessen

Brasília -DF

Refletiremos aqui um ponto sensível e recorrente dentro do próprio movimento espírita: a distância entre a grandeza dos princípios da Doutrina e a sua limitada difusão mundial após mais de um século e meio.

Antes de qualquer diagnóstico mais apressado, convém lembrar que o Espiritismo nunca se propôs a uma expansão baseada em proselitismo ou imposição cultural. Ao contrário, sua proposta sempre foi de crescimento orgânico, pela adesão consciente, racional e moral. Isso, por si só, já explica em parte sua menor visibilidade global quando comparada a religiões historicamente institucionalizadas.

Óbvio que isso não encerra a questão. O Espiritismo não oferece concessões fáceis. Ele exige transformação moral, estudo contínuo, disciplina moral e senso crítico. Diferente de sistemas religiosos que prometem salvação imediata ou recompensas externas (prosperidade), ele responsabiliza o indivíduo por sua própria evolução. Isso naturalmente amortiza sua popularização em massa, sobretudo em culturas marcadas pelo utilitarismo religioso.

O Brasil tornou-se o principal polo espírita do mundo por uma conjunção histórica, cultural e mediúnica ,com figuras como Bezerra de Menezes, Chico Xavier , Ivone Pereira e Divaldo Franco. No entanto, em muitos países, especialmente de tradição anglo-saxônica, o Espiritismo foi diluído no espiritualismo genérico ou rejeitado por barreiras culturais, linguísticas e religiosas.

No Brasil há evidentes fragilidades internas do movimento espírita. Há gravíssimos problemas reais, mormente com a falsa mediunidade. O Livro dos Médiuns já alertava com rigor contra mistificações, fascinação e fraudes. Quando esses critérios são ignorados, abre-se espaço para práticas duvidosas (as famigeradíssimas cartas consoladoras).

Isso sem nos referirmos aos exacerbados personalismos e à vaidade em que  “lideranças” se colocam acima da Doutrina, criando verdadeiros “feudos espirituais”.  Tudo isso por falta de estudo criterioso de Kardec onde muitos centros  e grupos espiritas abandonam o caráter filosófico e científico, reduzindo o Espiritismo a práticas assistencialistas ou místicas.

Já escrevi sobre a afonia ou “mutismo engessado” da FEB que  frequentemente adota posturas de neutralidade diante de desvios graves, o que apostilo como lesiva omissão.

Tal omissão febiana diante das chamadas “falsas mediunidades” e, em especial, as “cartas consoladoras” fajutas causa danos profundos. Não apenas ferem a ética, mas também desacreditam a Doutrina perante a opinião pública.

Sei que  fraudes existem em qualquer campo humano, seja religioso, científico ou político, e não invalidam o princípio, mas revelam a imperfeição ou má-fé dos seus intérpretes.

Não subestimo que  160 anos, do ponto de vista histórico e espiritual, é muito pouco tempo para consagração global do Espiritismo. O cristianismo primitivo, por exemplo, levou séculos para se estruturar e ainda assim sofreu (e sofre) profundas distorções.

O Espiritismo está ainda em sua fase inicial de assimilação, enfrentando resistências naturais de uma humanidade ainda fortemente materialista. Nesse sentido a “fragilidade” é do Espiritismo ou dos homens? Essa é a questão central.

A Doutrina, em si, apresenta uma estrutura lógica, ética e filosófica robusta. A fragilidade reside menos nela e mais na incapacidade humana de vivê-la plenamente, na tendência à deturpação, na dificuldade de alinhar prática e teoria.

Em outras palavras: não é a luz da Terceira Revelação que é fraca, mas os olhos humanos  que ainda não se habituaram a ela.

Óbvio que o Espiritismo não fracassou, embora  ainda não tenha sido plenamente realizado. Sua expansão não depende apenas de “divulgação”, mas de coerência moral, seriedade doutrinária e fidelidade aos princípios da Codificação.

Se há fraudes (falsas cartas consoladoras), lideranças medrosas e levianas e desvios, isso não denuncia a falência da Doutrina, mas evidencia a urgência de revisão das  suas bases , especialmente ao rigor metodológico do Livro dos Espíritos e ao equilíbrio do Evangelho segundo o Espiritismo.

Creio que  o verdadeiro crescimento do Espiritismo não se mede em números ou popularidade, mas na profundidade com que desperta e transforma consciências. E isso, por natureza, é  um projeto mais lento, silencioso e muito mais exigente.


29 março 2026

Silêncio febiano e as cartas “mediúnicas da carochinha": um alerta ao movimento espírita brasileiro

 

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Jorge Hessen

Brasília -DF

 

Quando a omissão fala mais alto que a “orientação”, abre-se espaço para a fraude, a exploração das cartas “consoladoras”  e o descrédito do próprio Espiritismo.

O crescimento alarmante das chamadas “cartas consoladoras” de origem duvidosa no movimento espírita brasileiro não é um fenômeno isolado nem ingênuo. Trata-se de um processo contínuo de usurpação da mediunidade, que encontra terreno fértil justamente onde deveria haver vigilância, orientação e firmeza doutrinária.

A despeito de órgãos da grande imprensa terem denunciado o fato, é impossível ignorar um fator insultuoso: o silêncio "ensurdecedor" da FEB, que é a instituição de maior representatividade nacional. Sua ausência de posicionamento claro, público e pedagógico diante dessas práticas tem produzido um efeito colateral gravíssimo — a legitimação indireta do estelionato do luto.

A mediunidade é faculdade séria, que exige estudo, disciplina moral e, sobretudo, compromisso com a verdade. Não se trata de espetáculo, tampouco de comércio emocional. Quando supostas comunicações espirituais passam a depender de inscrições prévias, coleta de dados pessoais ou exposição em ambientes previamente organizados, estamos diante de um indício evidente de fraude “mediúnica”.

A omissão institucional, nesse contexto, não é neutra. Ela se torna funcional ao erro. Ao não esclarecer, não advertir e não educar, permite que o público menos esclarecido (leigo mesmo!) — muitas vezes fragilizado pelo luto — seja conduzido à ilusão. E pior: estimula, ainda que indiretamente, a proliferação de falsos médiuns que se aproveitam desumanamente da dor alheia.

O dano não se restringe às vítimas diretas. A médio e longo prazo, compromete-se a credibilidade do próprio movimento espírita brasileiro. A Doutrina, que se fundamenta na razão, na ética e no controle universal dos ensinos dos Espíritos, passa a ser confundida com práticas sensacionalistas e emocionalmente manipuladoras.

É preciso dizer com todas as letras: consolar não é enganar. A verdadeira consolação espírita nasce do esclarecimento, da compreensão das leis divinas e da certeza da imortalidade da alma — jamais de mensagens fabricadas através de informações das redes sociais e bancos de dados virtuais.

Diante disso, espera-se mais do que silêncio. Espera-se responsabilidade doutrinária. Espera-se que a FEB assuma seu papel “educativo”, orientando com clareza, denunciando desvios e promovendo o estudo sério da mediunidade, conforme os parâmetros da Codificação.

Sem isso, com o “lavar as mãos" da FEB eximindo-se de responsabilidade, culpas ou consequências sobre tal situação, fingindo não ter envolvimento e desinteressando-se do resultado, continuará a vigorar essa perigosa inversão: enquanto os fraudadores agem com ousadia, os responsáveis pelo “esclarecimento” permanecem pusilanimemente em silêncio.

E, no Espiritismo, omitir-se diante das atuais fraudes de “cartas consoladoras da carochinha” não é apenas um crime lesa-Deus— é, em certa medida, colaborar com o recrudescimento e ampliação delas.

28 março 2026

Eutanásia na Espanha uma alternativa irrefletida perante a agonia da dor







 

Jorge Hessen

Brasília -DF

 

À luz da Doutrina Espírita, a  dor — mesmo a mais profunda — não autoriza a interrupção voluntária da vida, que é patrimônio sagrado da alma imortal.

A atual notícia envolvendo uma jovem na Espanha, que decidiu pela eutanásia após vivenciar graves agressões no campo da sexualidade, reacende um debate doloroso e necessário: até que ponto a dor humana pode justificar a antecipação deliberada da morte?

A comoção é compreensível. A violência, sobretudo a de natureza íntima e psicológica, fere a alma em profundidade. Contudo, à luz da Doutrina Espírita não podemos confundir compaixão com anuência a práticas que ferem as leis divinas.

Para o Espiritismo, a vida não pertence ao indivíduo em caráter absoluto. Trata-se de uma concessão de Deus, instrumento de aprendizado e redenção. No Livro dos Espíritos, aprendemos que o homem não tem o direito de dispor da própria vida, pois apenas o Criador conhece o momento adequado do retorno ao plano espiritual.

A eutanásia, ainda que motivada por dor extrema, configura uma forma de abreviar uma prova ou expiação. E toda prova interrompida retorna, inevitavelmente, em momento futuro, muitas vezes em condições ainda mais desafiadoras.

Não enxergamos o sofrimento como castigo arbitrário, mas como mecanismo educativo da alma. As dores morais — como as decorrentes de abusos e violências — são, sem dúvida, das mais dilacerantes. Porém, longe de justificar o abandono da existência, elas clamam por acolhimento, amparo e reconstrução interior.

Emmanuel ensina que “a dor é o buril que aperfeiçoa a alma”. Isso não significa aceitar passivamente o sofrimento, mas enfrentá-lo com coragem, buscando auxílio espiritual, psicológico e fraterno.

A eutanásia apresenta-se, muitas vezes, como um gesto de “misericórdia”. No entanto, do ponto de vista espírita, trata-se de uma ilusão perigosa. A morte do corpo não extingue a dor da alma. Pelo contrário: o Espírito, ao despertar na vida além túmulo, leva consigo as mesmas angústias, agravadas pela consciência de ter interrompido a própria jornada.

Casos de suicídio e a eutanásia  são amplamente estudados na literatura espírita, como nas obras de André Luiz, que descrevem estados de sofrimento intenso no plano espiritual decorrentes da fuga das provas terrenas.

Se há algo que precisa ser denunciado com veemência, não é apenas a eutanásia em si, mas as circunstâncias que levaram a jovem espanhola a ato tão extremo. A violência sexual, a omissão social, o abandono emocional,  esses sim são os verdadeiros crimes que exigem combate firme.

A resposta espírita não é o julgamento da vítima, mas a defesa intransigente da vida e o incentivo à reconstrução. É dever da sociedade oferecer suporte, justiça e acolhimento, para que nenhuma alma se sinta empurrada ao desespero.

Diante de tragédias humanas como essa na Espanha, o Espiritismo nos convida à reflexão profunda, sem perder a ternura. A dor merece respeito, mas a vida exige defesa. Até porque a eutanásia não é libertação, é adiamento. Não é solução, é interrupção indevida de um processo sagrado.

Que possamos, seja como sociedade e como espíritas, reafirmar os valores da vida, da esperança e da justiça, lembrando sempre que nenhuma noite é eterna para aquele que confia nas leis sábias e misericordiosas de Deus.

Num mundo ferido pela violência e pela desesperança, cabe ao pensamento espírita erguer a bandeira da vida com lucidez e compaixão, jamais cedendo à tentação de soluções fáceis para dores complexas. A verdadeira caridade começa por preservar a existência e amparar o Espírito em sua jornada de redenção.

Nosso erro não é derrota mas conquista para o aprendizado

 


Jorge Hessen

Brasília -DF

 

À luz da Doutrina Espírita, os nossos reveses não configuram fracasso, mas oportunidades providenciais de aperfeiçoamento moral. Nossa existência observada apenas pelos critérios imediatistas do mundo costuma ser dividida entre vitórias e derrotas. A lógica terrestre, quase sempre subordinada aos interesses materiais, considera êxito aquilo que satisfaz as ambições pessoais e denomina fracasso tudo o que contraria desejos, expectativas ou projetos do ego.

Entretanto, a análise espírita, fundada na imortalidade da alma e na pluralidade das existências, oferece interpretação substancialmente diversa. Não há derrota em sentido absoluto em nossa vida. O que se convencionou chamar de fracasso nada mais representa que experiência de aprendizado, muitas vezes necessária ao reajuste dos nossos valores íntimos e ao desenvolvimento das virtudes ainda incipientes.

Allan Kardec demonstra, ao examinar as vicissitudes da vida, que as provas e expiações se inserem em contexto de justiça e misericórdia, no qual cada acontecimento possui função pedagógica. Sob essa perspectiva, os embaraços da jornada não se destinam a humilhar o ser, mas a despertá-lo para a realidade espiritual.

Vejamos que quando uma porta se fecha para nós, pode evitar comprometimento mais grave e ao experimentarmos uma “perda” afetiva, somos convidados ao desapego. São diversas situações desafiadoras tais como um insucesso profissional que nos convida a humildar o orgulho, seja uma enfermidade moral ou física que nos impulsiona à  restauração da disciplina interior. Em todos esses casos, podemos superficialmente identificar derrota, porém a razão kardeciana reconhece conquista, aprendizado e ensejo de progresso.

O erro mais grave não está no revés experimentado, mas na recusa em extrair dele a lição correspondente. A verdadeira derrota seria a cristalização do orgulho, da revolta ou da rebeldia diante das advertências da vida.

À medida que compreendemos nossa condição de Espíritos imortais, passamos a perceber que os acontecimentos dolorosos não representam interrupção do destino, mas recursos de aprimoramento sabiamente administrados pela Providência Divina.

Nenhum sofrimento é estéril quando acolhido com discernimento, fé raciocinada e disposição sincera de renovação. Em face disso, importa reafirmar que os nossos aparentes fracassos não constituem mapas de derrota, mas roteiros de aprendizado.

A vida, sob a regência das leis divinas, não nos impõe quedas inúteis; oferece-nos, antes, lições necessárias para que nos elevemos, nos corrijamos e prossigamos em direção à plenitude.

Em tempos de ansiedade, imediatismo e culto ao sucesso exterior, a mensagem espírita permanece atual: onde o mundo vê derrota, a consciência esclarecida identifica oportunidade de crescimento sempre.

Falsas cartas consoladoras e o Projeto de Lei 1341/23


A proposta em tramitação na Câmara dos Deputados, o Projeto de Lei 1341/23, reacende um debate necessário, urgente e, para o movimento espírita sério, inadiável: o combate ao charlatanismo travestido de religiosidade.

Sob a justificativa apresentada pelo deputado Capitão Augusto, o projeto busca tipificar penalmente práticas que exploram a fé alheia por meio de falsas manifestações espirituais , curas inexistentes e supostos dons mediúnicos utilizados como instrumento de ganho financeiro (direta ou indiretamente). Trata-se de uma iniciativa que, à luz da ética espírita, encontra respaldo não apenas jurídico, mas sobretudo moral.

O Espiritismo sempre foi categórico ao afirmar que a mediunidade é uma faculdade natural e que seu exercício deve ser honrado. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec é incisivo ao condenar qualquer forma de exploração emocional e  financeira (direta ou indiretamente) das faculdades mediúnicas. A mediunidade, quando autêntica, é serviço, é caridade, é renúncia — jamais de falsidade.

Dessa forma, práticas como ofertas de “cartas consoladoras” formatadas através de informações contidas nas redes sociais, supostamente psicografadas por entes desencarnados, representam um desprezível  crime lesa-Deus e grave deturpação doutrinária quando associadas a interesses pessoais (egocentrismo) e materiais. Mais do que um desvio ético, trata-se de uma agressão à dor humana. Explorando o luto, tais práticas ferem profundamente aqueles que buscam consolo legítimo para suas perdas.

As cartas “consoladoras” fajutas são fétidas chagas morais. A tradição espírita sempre tratou a comunicação com os Espíritos com respeito, critério e responsabilidade. Médiuns como Chico Xavier sempre submeteram suas produções das cartas consoladoras autênticas  ao crivo da razão, da moral evangélica e do controle universal dos ensinos dos Espíritos.

Por outro lado, a proliferação de falsos médiuns, que produzem cartas consoladoras de mentirinha com  mensagens genéricas, emocionalmente manipuladoras e, muitas vezes, claramente fraudulentas, configura não apenas um problema religioso, mas um potencial crime — sobretudo quando há vantagem egocêntrica e financeira envolvida.

Obras de pensadores como Léon Denis e Emmanuel já alertavam para os perigos dos falsos profetas e da mediunidade desvirtuada. A mistificação é um dos maiores inimigos da doutrina, pois mina sua base moral e compromete sua finalidade educativa.

As penas previstas são reclusão, multa e agravantes em casos de vulnerabilidade compatíveis com a gravidade dos danos causados. Não se trata apenas de prejuízo financeiro, mas de sofrimento moral, perda de confiança e, em muitos casos, agravamento de quadros emocionais delicados.

Do ponto de vista espírita, a responsabilidade é ainda maior: aquele que engana em nome da falsíssima mediunidade compromete-se não apenas perante a justiça dos homens, mas diante das leis divinas.

O momento exige coragem moral. O Espiritismo não pode se omitir diante da banalização de suas práticas. A mediunidade séria não se confunde com espetáculo, nem com comércio, nem com exploração da dor pelo estelionato do luto.

Se o Projeto de Lei 1341/23 for adiante, irá contribuir para separar o joio do trigo e terá prestado relevante serviço à sociedade e também ao próprio movimento espírita, que precisa, mais do que nunca, reafirmar seus compromissos com a verdade, a ética e a caridade desinteressada.

Porquanto a fé espírita consola, porém, o charlatanismo das falsas cartas consoladoras  assassina esperanças e onde há ferida moral, a justiça  humana precisa atuar até porque a justiça divina atuará inevitavelmente.

 

27 março 2026

Espiritismo e tatuagens – urge coerência , sobriedade e o respeito pelo corpo

 


Jorge Hessen

Brasília-DF

 

A discussão sobre tatuagens , piercings e similares  à luz do Espiritismo e do Cristianismo exige reflexão séria, sem concessões à superficialidade cultural contemporânea. O corpo físico não é mero objeto de uso arbitrário, mas instrumento sagrado confiado ao Espírito para sua evolução moral.

Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, ensina que o corpo é um empréstimo divino, devendo ser preservado com responsabilidade. Ao tratar da lei de conservação, Kardec adverte que abusos contra o corpo configuram infrações à lei natural (KARDEC, 2004).

Nesse sentido, a prática de tatuagens , que implica dor voluntária, agressão cutânea e marcação permanente , levanta questionamentos quanto à real necessidade e finalidade moral desse ato.

Sob a ótica espírita-cristã, o corpo é “templo do Espírito”. A banalização de intervenções corporais meramente estéticas ou identitárias pode refletir excessivo apego à matéria, em detrimento dos valores espirituais. Léon Denis adverte que o Espírito deve libertar-se das ilusões materiais, elevando-se pelo aperfeiçoamento íntimo, e não pela exterioridade (DENIS, 1987).

Benfeitores espirituais amplamente respeitados no movimento espírita reforçam essa compreensão. Emmanuel ensina que o corpo físico é oficina de redenção, não devendo ser submetido a práticas que expressem vaidade ou desrespeito (XAVIER, 2003). Na mesma linha, o Espírito “André Luiz” descreve o corpo como organização sutil e complexa, cuja harmonia pode ser afetada por agressões deliberadas (LUIZ, 2010).

A tradição espírita brasileira, representada por figuras como Bezerra de Menezes, Ivone Pereira, Eurípedes Barsanulfo, Cairbar Schutel, Batuira, Jésus Gonçalves,  sempre enfatizou o respeito ao corpo como dever moral. Embora não haja proibição formal e explícita nas obras básicas, o princípio da prudência recomenda evitar práticas desnecessárias que possam comprometer o equilíbrio físico e espiritual.

No cenário contemporâneo, Divaldo Franco diversas vezes se manifestou de forma crítica quanto à banalização do corpo, alertando que excessos nesse campo podem refletir conflitos íntimos e desconexão com valores espirituais mais elevados (FRANCO, 2015).

É importante destacar que o Espiritismo não estabelece dogmas exteriores, mas orientações baseadas na razão e na responsabilidade moral. Ainda assim, à luz dos ensinamentos mencionados, tatuagens e piercings podem ser compreendidos como práticas inadequadas quando motivadas por vaidade, modismo ou impulsividade — fatores que não contribuem para o progresso espiritual.

Além disso, sob o prisma perispiritual, a literatura espírita sugere que marcas profundas no corpo físico podem repercutir no perispírito, especialmente quando associadas a intenções negativas ou desequilíbrios emocionais. Tal perspectiva reforça a necessidade de cautela.

Portanto, embora a decisão final pertença ao livre-arbítrio individual, a coerência com os princípios cristãos e espíritas convida à sobriedade, ao respeito pelo corpo e à valorização do que é essencial: o aprimoramento moral do Espírito. Em um mundo marcado pelo culto à aparência, a verdadeira evolução exige disciplina, consciência e fidelidade aos valores essenciais.


Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB, 2004.

DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Rio de Janeiro: FEB, 1987.

XAVIER, Francisco Cândido; EMMANUEL. O Consolador. Rio de Janeiro: FEB, 2003.

LUIZ, André (Espírito); XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Rio de Janeiro: FEB, 2010.

FRANCO, Divaldo Pereira. Momentos de Saúde e Consciência. Salvador: LEAL, 2015.

25 março 2026

O Jornal e a TV Globo ante a abjeta exploração do luto


 

Jorge Hessen

Brasília -DF

Há reportagens tanto no jornal O Globo quanto nas investigações jornalísticas exibidas no programa Fantástico, da TV Globo, que reacenderam um tema delicado para o movimento espírita: a proliferação de supostas cartas consoladoras , acompanhadas de denúncias de fraude, exploração emocional e estelionato do luto contra pessoas fragilizadas pela dor da perda.

A Rede Globo demonstra casos em que médiuns utilizavam dados de redes sociais para construir mensagens aparentemente convincentes, mas sem autenticidade espiritual.

Diante desse cenário, torna-se necessário um posicionamento firme, doutrinário e ético, para que a prática espírita não seja confundida com charlatanismo nem utilizada como instrumento de exploração do sofrimento humano.

Na codificação a mediunidade nunca foi apresentada como espetáculo público nem como atividade “circense”. Ao contrário, a literatura espírita adverte que a faculdade mediúnica deve ser exercida com humildade, estudo e finalidade moral.

Quando cartas ditas consoladoras  são produzidas após coleta de dados da Internet, cria-se apenas uma simulação emocional, capaz de impressionar quem sofre, mas sem qualquer garantia de origem espiritual. Kardec advertiu que a mediunidade seria frequentemente alvo de mistificações, seja por engano sincero, seja por presunção, seja por interesse pessoal.

Por isso, o critério espírita sempre foi claro, pois a mediunidade não é para espetacularização  e a comunicação espiritual não se encomenda; ademais, o fenômeno legítimo não se submete ao sensacionalismo.

A dor da “perda” do ente querido torna as pessoas particularmente vulneráveis. Quem promete comunicação garantida com entes falecidos assume enorme responsabilidade moral, pois lida com sentimentos profundos, esperança e sofrimento.

No campo jurídico, a posição brasileira tem sido cautelosa. O Superior Tribunal de Justiça já manifestou entendimento de que cartas psicografadas não possuem valor probatório, por não apresentarem confiabilidade verificável.

Essa postura não julga a fé religiosa, mas preserva a segurança jurídica e evita que decisões judiciais se baseiem em elementos impossíveis de comprovação.

Casos amplamente divulgados pela imprensa reforçam a necessidade de prudência. Em reportagens investigativas, realmente foram identificadas situações em que supostos médiuns pesquisavam perfis em redes sociais para inserir nomes, datas, placas de carro, CFPs  e fatos nas cartas mistificadas, criando a impressão de comunicação real.

As reportagens do Grupo Globo citadas não devem ser vistas como ataque ao Espiritismo, mas como alerta necessário. Se há fraude, ela deve ser denunciada. Se há exploração do luto, deve ser combatida. Se há charlatanismo, deve ser repudiado.

Defender a doutrina significa impedir que impostores usem o nome da doutrina para legitimar práticas impiedosas de falsas cartas consoladoras.

O espiritismo sério não teme investigação, porque se apoia na razão, na moral e na responsabilidade. A comunicação espiritual, quando ocorre, não se submete ao espetáculo de circo, não se produz sob encomenda e jamais deve servir para explorar a dor humana.

 

22 março 2026

O Espiritismo e a democracia real

Jorge Hessen

Brasília -DF


Atualmente  em nome da liberdade, da ordem ou da Constituição brasileira, têm-se sacrificado direitos, silenciado vozes discordantes e estabelecido uma forma de controle que, embora se apresente aparentemente como necessária, culmina por limitar a própria dignidade da cidadania  brasileira.

Quando qualquer autoridade — seja política, administrativa ou judicial — ultrapassa os limites naturais de sua competência, cria-se um desequilíbrio perigoso. A segurança jurídica enfraquece, a confiança nas instituições diminui e o cidadão passa a sentir que já não vive sob regras claras, mas sob interpretações variáveis conforme interesses ideológicos ou circunstâncias.

O Brasil atravessa um período de grave tensão institucional, no qual decisões do Supremo Tribunal Federal têm sido interpretadas por grande parte da sociedade como excessivas e incompatíveis com o espírito da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

Embora o país permaneça “formalmente” dentro de um regime constitucional, cresce, em diversos setores, a percepção de restrição de liberdades, de judicialização da política e de enfraquecimento do equilíbrio entre os poderes, o que gera preocupações legítimas quanto à soberania, à segurança jurídica e ao “futuro” da alquebrada democracia brasileira.

A Constituição de 1988 foi concebida sob o ideal de separação e harmonia entre Executivo, Legislativo e Judiciário, princípio inspirado na teoria clássica da divisão dos poderes que baseia-se na separação tripartite de Montesquieu, consagrada pela Constituição Federal de 1988

Tal estrutura visa impedir a concentração excessiva de autoridade em um único órgão do Estado, garantindo que cada poder exerça suas funções dentro de limites definidos.

Quando decisões judiciais passam a ocupar espaço predominante no debate político, surge o fenômeno conhecido como judicialização, que, embora previsto em um Estado de Direito, tem gerado tensões em face da percepção da substituição da vontade popular expressa pelo Legislativo.

Nos últimos  anos, parte da sociedade tem interpretado determinadas decisões do STF como expansivas , inovadoras ou extrapolantes em relação ao texto constitucional, especialmente em temas sensíveis envolvendo liberdade de expressão, atuação das redes sociais, investigações de autoridades e conflitos entre poderes. Para juristas “AVERMELHADOS”, trata-se do exercício “legítimo” da função de guardião da Constituição; para a maioria sensata, já está ocorrendo o ativismo judicial, em que o STF tem assumido papel mais amplo do que o tradicionalmente previsto.

Esse cenário tem produzido um ambiente de polarização institucional, no qual a confiança nas instituições tem sido afetada. A democracia constitucional depende não apenas da existência formal das leis, mas também da percepção coletiva de que elas são aplicadas com equilíbrio, previsibilidade e respeito aos limites de cada poder.

Quando essa confiança se fragiliza, surgem debates intensos sobre legitimidade, competência e alcance das decisões judiciais. É verdade que o Brasil continua sendo uma república constitucional, com eleições , liberdade de organização política e funcionamento formal das instituições. Entretanto, a coexistência entre legalidade formal e sensação social de instabilidade jurídica não é comum em democracias contemporâneas consolidadas.

Diante desse quadro, o desafio central consiste em preservar o Estado de Direito, fortalecer a harmonia entre os poderes e garantir que a Constituição de 1988 continue sendo interpretada como instrumento de equilíbrio, e não de concentração cavalar de poder.

O debate público, quando realizado com responsabilidade, respeito às instituições e compromisso com a verdade jurídica, é parte essencial desse processo e constitui um dos pilares da própria democracia real e não a de faz de conta.

O combate à decadência moral não se faz com violência nem com intolerância, mas com lucidez, coragem intelectual e fidelidade aos princípios espirituais. É necessário reafirmar a existência de Deus, a imortalidade da alma e a responsabilidade de cada indivíduo por seus atos. Sem esses fundamentos, qualquer sistema — seja político, econômico ou cultural — corre o risco de transformar-se em instrumento de dominação, e não de libertação.

 A relação entre o Espiritismo e a democracia é profunda, pois ambos se fundamentam em princípios como liberdade de consciência, responsabilidade individual, igualdade essencial entre os seres humanos e progresso moral da sociedade. A doutrina codificada por Allan Kardec não propõe um sistema político específico, mas apresenta valores éticos que se harmonizam de forma natural com o ideal democrático.

O Espiritismo nasceu sob o signo da liberdade. A democracia, por sua vez, baseia-se na liberdade de opinião, de expressão e de escolha. Assim, o espírita coerente deve defender o direito de todos pensarem diferente, pois o progresso espiritual depende da experiência e do livre-arbítrio. Essa visão elimina justificativas para sistemas políticos baseados em castas, tiranias ou na dominação de grupos.

O Espiritismo não aceita a ideia de fatalismo social. Cada indivíduo é responsável por seus atos, e a coletividade reflete o nível moral de seus membros. Por isso, a democracia não pode funcionar sem cidadãos conscientes.

O espírita é chamado a agir com ética, honestidade e respeito às leis, lembrando que toda ação gera consequências, segundo a lei de causa e efeito.

Chico Xavier ensinava que a transformação do mundo começa na transformação moral de cada pessoa. Sem renovação íntima, nenhum sistema político consegue produzir justiça verdadeira.

É importante destacar que o Espiritismo não é partido, não é ideologia e não é instrumento de poder.

Ele não pertence à direita, nem à esquerda, nem a qualquer projeto de dominação. A função da doutrina é iluminar consciências, não controlar governos.

O Espiritismo alerta que leis humanas, por si sós, não garantem justiça. Sem valores morais, a democracia pode degenerar em corrupção, manipulação, populismo ou tirania disfarçada.

A verdadeira liberdade exige responsabilidade, e a verdadeira igualdade exige fraternidade. Por isso, a contribuição espírita para a sociedade não é impor regras, mas formar consciências mais maduras, capazes de construir uma civilização mais justa.

Espiritismo e democracia se aproximam porque ambos valorizam: liberdade de consciência , igualdade entre os seres humanos ,responsabilidade individual ,progresso moral da humanidade  e respeito à dignidade da pessoa. Porquanto, sem moral , a democracia se perde; sem liberdade, o espírito não evolui; sem fraternidade, a sociedade se desintegra.

O Espiritismo, portanto, não é um sistema político, mas uma filosofia espiritual que oferece bases éticas para que qualquer democracia seja mais humana, mais justa e mais duradoura.

 

 


21 março 2026

Perdoar não é esquecer mas impede que o "passado" destrua o presente e o "futuro"

 


Jorge Hessen

Brasília -DF

A frase “perdoar, mas ninguém esquece” expressa uma compreensão mais profunda e madura sobre o perdão, distinguindo-o da simples amnésia emocional. Durante muito tempo, difundiu-se a ideia ingênua de que perdoar seria apagar completamente a lembrança da ofensa, como se a mente humana pudesse eliminar voluntariamente registros dolorosos. Entretanto, tanto a psicologia contemporânea quanto a Doutrina Espírita ensinam que o perdão verdadeiro não consiste em esquecer, mas em libertar-se do ressentimento associado ao fato vivido.

No campo psicológico, o perdão é compreendido como um processo de reorganização emocional. A memória permanece, porque faz parte da estrutura psíquica do indivíduo, mas a carga afetiva negativa pode ser transformada. A lembrança deixa de ser uma ferida aberta e passa a ser apenas uma cicatriz. A cicatriz recorda o ocorrido, porém já não provoca a mesma dor. Assim, perdoar não significa negar o passado, mas retirar dele o poder de continuar ferindo o presente.

A Doutrina Espírita apresenta entendimento semelhante, porém mais profundo, ao tratar o perdão como conquista moral do Espírito em evolução. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, instrui que o verdadeiro perdão é aquele que não guarda rancor nem desejo de vingança, mas isso não implica esquecer o fato ocorrido. O esquecimento absoluto não depende da vontade, pois a memória é patrimônio da alma imortal. O que se exige do homem é dominar as paixões e substituir o ressentimento pela compreensão. Portanto,  perdoar os inimigos é sinal de superioridade moral, porque demonstra que o Espírito já não se deixa escravizar pelo orgulho e pelo ódio.

Também Léon Denis, em O Problema do Ser, do Destino e da Dor, explica que o sofrimento moral, quando não superado, prende o indivíduo a vibrações inferiores, retardando seu progresso espiritual. O perdão, nesse contexto, é libertação íntima. Não se trata de absolver o erro alheio, mas de impedir que o mal recebido continue produzindo novos males dentro de nós. Guardar rancor é prolongar indefinidamente a agressão sofrida.

Nas obras literárias de  Emmanuel, encontra-se a orientação de que o perdão é disciplina da alma. Mas  esquecer completamente as ofensas seria incompatível com a própria experiência evolutiva, pois a memória também serve de aprendizado. O importante é lembrar sem revolta, transformando a recordação em lição, e não em motivo de amargura.

Sob esse ponto de vista, a frase “perdoar, mas ninguém esquece” não é sinal de fraqueza, e sim de maturidade. O esquecimento profundo pode até ocorrer com o tempo, por mecanismos naturais da mente, mas não é condição para o perdão. O que realmente importa é cessar o vínculo emocional negativo que mantém o indivíduo preso ao passado.

Perdoar não significa negar a injustiça, nem aceitar o erro, nem manter convivência obrigatória com quem feriu. Perdoar é escolher não carregar o peso do ressentimento. É um ato de autocuidado, de equilíbrio psicológico e de elevação espiritual. Quem não perdoa conserva a ferida aberta; quem perdoa permite que ela cicatrize. A cicatriz permanece na memória, mas já não domina o coração.

Portanto, à luz da psicologia e do Espiritismo, perdoar é lembrar sem dor, é libertar-se sem negar a experiência, é seguir adiante sem carregar correntes invisíveis. O perdão não apaga o passado, mas impede que o passado destrua o futuro.


Referências Bibliográficas:

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 2019.

DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. Brasília: FEB, 2018.

XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Fonte viva. Brasília: FEB, 2016.