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  • 14 de jan. de 2026

    As estruturas federativas espíritas no Brasil - diante de um movimento doutrinário capenga



    Jorge Hessen

    Brasília

     As dinâmicas federativas no movimento espírita brasileiro, especialmente aquelas intensificadas e reformuladas na era da internet, revelam-se progressivamente antiquadas, ineficazes e supérfluas.

    Há muitos anos temos lembrado que tais  estruturas, concebidas em um contexto histórico de desunião,  escassez de informação e limites de comunicação, perderam sua função original diante do amplo acesso contemporâneo às fontes primárias ou secundárias da Doutrina Espírita.

    Portanto, à luz da Codificação Kardeciana, impõe-se uma análise crítica quanto à necessidade e legitimidade doutrinária dessas instâncias “hierárquicas”. Aliás,  Kardec foi explícito ao rejeitar qualquer modelo hierárquico ou centralizador no Espiritismo. Vejamos: em Obras Póstumas, ao tratar do projeto de organização do movimento espírita, afirma: “O Espiritismo não tem nem chefes, nem hierarquia; não impõe crenças, não cria cargos nem confere títulos.” (1)

    Sabemos de casa “espírita” que pratica a denunciada e traidora mediunidade psicográfica com dados plagiados nas redes sociais — as chamadas “Cartas Consoladoras” que costumo chamar de Cartas Desoladoras —  que, para obter a consagração geral do movimento Espírita , se apoia na aprovação de suposto “diretor” da FEB.

    Que autoridade moral e doutrinária tem um diretor da FEB ou de qualquer federativa para chancelar “prática mediúnica”?

    Tal declaração invalida, em sua essência, qualquer pretensão de organismos federativos que se coloquem como instâncias superiores de coordenação, orientação, supervisão ou validação doutrinária.

    A Doutrina Espírita não se estrutura sobre relações de poder, mas sobre a autoridade moral do argumento racional. Na Revista Espírita, Kardec reforça que o Espiritismo não deve assumir feições institucionais hegemônicas: Até porque “o Espiritismo não deve constituir uma autoridade; ele deve ser uma convicção.” (2)

    A convicção, segundo o método kardeciano, nasce do estudo, da observação e da razão crítica — não da adesão a resoluções administrativas, diretrizes federativas ou consensos decorrentes de debates artificiais. Qualquer tentativa de uniformização doutrinária por meio institucional contradiz o caráter essencialmente livre e progressivo do Espiritismo.

    No Livro dos Médiuns, Kardec estabelece um dos princípios centrais da epistemologia espírita: “A fé espírita deve apoiar-se na razão, e não na autoridade.” (3)

    Esse enunciado exclui, de modo categórico, a legitimidade de intermediários institucionais que se proponham a substituir o estudo direto das obras fundamentais por interpretações “oficiais” ou discursos autorizados. O espírita não é discípulo de homens ou de instituições, mas da razão esclarecida pelo ensino dos Espíritos.

    Ainda no mesmo capítulo do Livro dos Médiuns, Kardec adverte contra qualquer noção de infalibilidade pessoal ou coletiva: “Não há, no Espiritismo, nenhum homem cuja opinião seja soberana.” (4)

    Portanto, quando federações ou conselhos passam a agir como árbitros do que é ou não “doutrinariamente aceitável”, abandonam o terreno do Espiritismo e ingressam no campo da ortodoxia religiosa, modelo expressamente rejeitado por Kardec.

    O Codificador anteviu os perigos da cristalização institucional da Doutrina ao alertar: “Se o Espiritismo tivesse de se apoiar em homens, em instituições ou em formas fixas, estaria perdido.” (5)

    Reenfatizamos que, na era digital, em que o acesso às obras originais é imediato e o intercâmbio de ideias ocorre sem mediação, as estruturas federativas não apenas se tornam desnecessárias, como também frequentemente empobrecem o debate, sacralizam palestrantes e médiuns, engessam o pensamento crítico e afastam o Espiritismo de seu caráter científico-moral e filosófico.

    Portanto, à luz da Codificação Espírita, conclui-se que o Espiritismo não necessita de federações para existir, sobreviver ou progredir. Seu verdadeiro fundamento reside no livre exame, na fidelidade às obras básicas e na responsabilidade moral da consciência individual.

    Estruturas administrativas herdadas de um cenário de desuniões, portanto, num contexto histórico sobrepujado, não apenas carecem de respaldo doutrinário, como podem representar obstáculos ao progresso intelectual e moral do movimento espírita, presentemente bastante capenga.


    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

    1          KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 44. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2019, p. 356.

    2          IDEM, Allan. Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos. Abril de 1866. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 3. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2018, p. 123.

    3          IDEM, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 81. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2020, Introdução, item II, p. 19.

    4          IDEM, Allan. O Livro dos Médiuns. Cap. XX, item 230. Tradução de Guillon Ribeiro. 81. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2020, p. 286.

    5          IDEM, Allan. Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos. Dezembro de 1863. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 3. ed. Rio de Janeiro: FEB


     

    A DOR ALHEIA E O JULGAMENTO MORAL À BASE DA IGNÓBIL HIPOCRISIA

     


    Jorge Hessen

    Brasília

     

    O exemplo da compatriota Isabel Veloso suplanta a narrativa simplificada do heroísmo diante da desencarnação. À luz da Doutrina dos Espíritos, sua vivência evidencia um equívoco ético recorrente: a transformação do sofrimento alheio em objeto de julgamento moral e exposição pública.

    Muitos apontaram-na como impostora.

    A respeito da dor de Isabel, o Espiritismo ensina que provas e expiações constituem experiências estritamente individuais, vinculadas ao processo íntimo de progresso do Espírito, não sendo passíveis de avaliação externa.

    O Codificador adverte que “não compete a ninguém julgar os desígnios de Deus, nem apreciar o valor das provas que Ele impõe”(1), afastando qualquer pretensão humana de interpretar a dor do outro.

    Nesse sentido, a vigilância moral exercida sobre a doença da Isabel revela-se incompatível com a ética espírita. Kardec é categórico ao afirmar que “a indulgência jamais se ocupa dos maus atos de outrem, a menos que seja para prestar um serviço; nunca os divulga, antes os atenua, se possível” (2). Exigir silêncio, resignação proativa ou estoicismo moral de quem sofre significa desconhecer tanto a psicologia humana quanto os princípios doutrinários.

    Obviamente o sofrimento não suspende a condição humana, nem converte a dor em obrigação de santidade. O próprio Kardec esclarece que o Espiritismo não idealiza criaturas moralmente perfeitas, mas reconhece Espíritos em processo evolutivo, “lutando ainda contra as próprias imperfeições” (3). Confundir resignação com anulação da individualidade constitui erro conceitual grave, pois “a verdadeira virtude não está na aparência; ela é sempre simples, modesta e dissimulada” (4).

    Assim, mais do que um testemunho de resistência física, a trajetória de Isabel Veloso configura uma advertência moral relevante: o dever espírita diante do sofrimento alheio não é interpretar, corrigir ou julgar, mas exercer a caridade autêntica, definida por Kardec como “benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições alheias, perdão das ofensas” (5).

    Que os críticos arrependidos morosos ponderem mais de agora em diante.

     

    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

    1          KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de J. Herculano Pires. 132. ed. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2019. cap. V, item 3, p. 99.

    2          Idem, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de J. Herculano Pires. 132. ed. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2019. cap. X, item 16, p. 170.

    3          Idem, Allan. Obras Póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 48. ed. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2020. Primeira Parte, cap. I, p. 21.

    4          Idem, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de J. Herculano Pires. 132. ed. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2019. cap. XVII, item 8, p. 262.

    13 de jan. de 2026

    Entrada franca? Que nada! A industrialização dos Congressos Espíritas no Brasil


     

    Jorge Hessen

    Brasíllia-DF

     

    A despeito dos métodos aplicados no Censo do IBGE, com certeza, o Espiritismo tem crescido e alcançado cada vez mais pessoas pelas vias virtuais. No entanto, algumas práticas atuais merecem reflexão à luz da lógica kardeciana. Entre elas, destacam-se os exuberantes e grandes eventos realizados para multidões, muitas vezes organizados como verdadeiros espetáculos e com cobrança de ingressos elevados, em nome do Espiritismo.

    O Espiritismo é uma doutrina de caráter racional, filosófico e moral, baseada no estudo, na observação e no uso da sensatez. Ele não se apoia em emoções coletivas nem em encenações [no púlpito] para convencer. Ao contrário, convida cada pessoa a refletir, analisar e formar sua própria convicção (1). Grifei

    Há décadas venho ​denunciando os congressões “espíritas” pagos.

    Em eventos gigantescos, é comum que a emoção se sobreponha ao entendimento. A linguagem precisa ser simplificada, o tempo é curto e o aprofundamento se perde. O resultado pode ser um impacto momentâneo, mas sem aprendizado duradouro. A Doutrina Espírita, porém, ensina que o verdadeiro conhecimento se constrói com estudo contínuo e reflexão, não com oba-oba do entusiasmo passageiro.

    Outro ponto inquietante é a cobrança de ingressos. Embora existam custos para organizar atividades (não desconhecemos esse fato), o Espiritismo ensina que sua divulgação deve ser feita com desinteresse material. Quando a lógica do evento passa a depender de bilheteria, público e benesse material, surge o risco de adaptar a mensagem para agradar, em vez de esclarecer (2).

    Também merece atenção a valorização excessiva de determinados ídolos quase santificados. O Espiritismo não incentiva o culto a palestrantes, médiuns ou quaisquer outros líderes. Kardec alerta que as ideias devem estar acima das pessoas, pois nenhum ser humano é dono da verdade ou autoridade absoluta em assuntos espirituais (3).

    A divulgação do Espiritismo não está ligada à quantidade de pessoas reunidas, mas à qualidade do entendimento alcançado. Pequenos grupos dedicados ao estudo sério e à vivência moral contribuem mais para a doutrina do que grandes plateias tocadas apenas pela emoção do momento.

    Dessa forma, é importante lembrar que o Espiritismo não foi criado para ser palco de espetacularização de oradores ungidos nem produto comercial. Sua proposta é simples e profunda: esclarecer consciências, promover o progresso moral e estimular o pensamento livre e responsável.

    Reflitamos sobre isso

     

    Referências bibliográficas:

    1 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Introdução, item VIII.

    2 Idem, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Cap. XXVI, item 7.

    3 Idem , Allan. O Livro dos Médiuns. Segunda Parte, cap. XXIII, itens 303–307.

    12 de jan. de 2026

    A Doutrina dos Espíritos e a imposição ideológica do “politicamente correto”


     


    Jorge Hessen

    Brasília-DF

     

    Resumo

    Meditamos aqui a relação entre o Espiritismo e o bizarro fenômeno contemporâneo denominado “politicamente correto”, especialmente quando este assume características de coerção moral, censura intelectual e limitação do livre exame.

    Fundamentamos nas obras de Allan Kardec — com destaque para O Livro dos Médiuns e Obras Póstumas — e no pensamento de Léon Denis, nosso estudo demonstra que a Doutrina Espírita possui fundamentos epistemológicos e morais incompatíveis com qualquer forma de imposição ideológica (mormente vermelha)que suprima a liberdade de consciência.

    Conclui-se que, no Espiritismo, a humildade e a caridade não se confundem com conivência, nem a tolerância com relativismo moral, sendo a verdade subordinada exclusivamente à razão e à lei natural (de Deus).

    Palavras-chave: Espiritismo; liberdade de consciência; politicamente correto; crítica doutrinária; lei natural.

     

    1 Introdução

    O Espiritismo constitui-se como uma doutrina de caráter científico, filosófico e moral, cuja base metodológica repousa sobre o livre exame, a observação dos fatos e o uso da razão crítica. Desde sua origem, a proposta doutrinária rejeita o dogmatismo, a autoridade imposta e a aceitação irrefletida de ideias, ainda que socialmente predominadoras.

    No cenário contemporâneo, observa-se a difusão de discursos agrupados sob a expressão “politicamente correto”, os quais, em determinadas circunstâncias, ultrapassam a legítima preocupação com o respeito humano e passam a operar como mecanismos de censura simbólica, intimidação moral e restrição ao debate racional.

    Diante desse contexto, a presente reflexão propõe analisar a compatibilidade — ou incompatibilidade — desse fenômeno com os princípios doutrinários da Doutrina dos Espíritos.

     

    2 O livre exame como fundamento doutrinário

    A liberdade de pensamento constitui um dos pilares centrais da Doutrina Espírita. Em O Livro dos Médiuns, Kardec estabelece um princípio epistemológico rigoroso ao afirmar que a aceitação de ideias deve ser sempre subordinada à análise crítica: “É preferível rejeitar dez verdades a admitir uma única falsidade.” (KARDEC, 2013, p. 303).

    Tal orientação demonstra que, no Espiritismo, a verdade não é definida pela adesão coletiva, mas pela coerência racional e moral. Sistemas de pensamento que desencorajam o questionamento ou punem o dissenso, ainda que sob aparência de virtude, colocam-se em oposição direta ao método estabelecido por Allan Kardec.

    O Codificador adverte, ainda, quanto aos perigos do entusiasmo acrítico: “O entusiasmo cego é mais perigoso do que a incredulidade.” (KARDEC, 2013, p. 374).

    Essa advertência aplica-se de modo preciso a contextos ideológicos nos quais determinadas narrativas são aceitas sem exame, sob pena de reprovação moral ou exclusão social.

     

    3 Caridade, tolerância e distinção entre pessoas e ideias

    Um equívoco recorrente nos debates contemporâneos consiste em confundir caridade com renúncia ao discernimento moral. A Doutrina dos Espíritos, entretanto, distingue claramente a indulgência para com as pessoas da necessária firmeza diante do erro. Observemos, em O Livro dos Espíritos, Kardec afirma: “A indulgência jamais deve ir até à conivência com o mal.” (KARDEC, 2011, p. 444).

    Essa distinção é reafirmada no Livro dos Médiuns, ao se esclarecer que a tolerância não implica aceitação irrestrita de ideias: “A tolerância não consiste em aceitar o erro, mas em não empregar a violência para combatê-lo.” (KARDEC, 2013, p. 289).

    Desse modo, o Espiritismo rejeita tanto a agressividade quanto o silêncio imposto. O respeito ao indivíduo não exige a abdicação da verdade, nem a suspensão do juízo crítico.

     

    4 O falso moralismo e a coerção das ideias

    Em Obras Póstumas, Kardec apresenta uma análise profunda dos mecanismos pelos quais ideias falsas se mantêm no espaço social não por mérito racional, mas por intimidação: “As ideias falsas se sustentam menos pela força do raciocínio do que pelo temor que inspiram.” (KARDEC, 2010, p. 118).

    Esse fenômeno caracteriza ambientes nos quais o medo da censura substitui o debate honesto.

    Kardec complementa: “Toda doutrina que proíbe o exame proclama-se, por esse fato mesmo, suspeita.” (KARDEC, 2010, p. 121).

    Quando o “politicamente correto” assume caráter absoluto, transforma-se em instrumento de coerção moral, incompatível com o progresso intelectual e espiritual defendido pela Doutrina Espírita.

     

    5 Léon Denis e a supremacia da consciência

    Léon Denis, reconhecido como continuador fiel do pensamento de Allan Kardec, reforça a primazia da consciência individual sobre a aprovação coletiva.

    Em Depois da Morte, declara: “As multidões não são critério da verdade; quase sempre perseguiram aqueles que a possuíam.” (DENIS, 2005, p. 47).

    Denis alerta ainda para os efeitos morais da supressão da liberdade de consciência: “Quando a liberdade de consciência desaparece, a hipocrisia se instala em seu lugar.” (DENIS, 2008, p. 392).

    Essas reflexões evidenciam que, no Espiritismo, a verdade moral não se subordina às convenções sociais transitórias, mas à lei natural inscrita na consciência humana.

     

    6 Consenso doutrinário espírita

    A análise das obras fundamentais permite identificar um consenso doutrinário claro:

    a) a liberdade de pensamento é princípio essencial do Espiritismo;

    b) nenhuma ideia está isenta de exame crítico;

    c) a caridade não legitima o erro;

    d) o respeito às pessoas não implica aceitação automática de ideias;

    e) a verdade moral prevalece sobre modismos ideológicos.

    Tal consenso afasta o Espiritismo tanto do autoritarismo quanto do relativismo moral.

     

    7 Conclusão

    A abençoada Doutrina dos Espíritos não se alinha ao “politicamente correto” quando este assume feições de censura, coerção ou relativização da verdade. Sua fidelidade é à razão, à consciência e à lei moral. Conforme afirma Kardec: “Marchando com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrarem estar em erro acerca de um ponto, ele se modificará.” (KARDEC, 2009, p. 39).

    Conclui-se, portanto, que a postura espírita diante das pressões ideológicas contemporâneas (avermelhadas) deve ser de discernimento, liberdade e responsabilidade moral, ainda que isso implique enfrentar consensos artificiais e resistências sociais.

     

     

    Referências bibliográficas:

    KARDEC, Allan. A gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. 52. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2009.

    ________, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 92. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2011.

    ________, Allan. O livro dos médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 80. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013.

    ________, Allan. Obras póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 46. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2010.

    DENIS, Léon. Depois da morte. 27. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005.

    ________, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. 29. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2008.

    11 de jan. de 2026

    Os ardis “mediúnicos”, numa análise legítima e o uso indevido da justiça humana


     


     Jorge Hessen

    Brasília-DF

     

    Não é raro que falsos médiuns, ao serem checadas suas supostas “psicografias” por análises sérias, ao receberem apreciações doutrinárias ou investigações documentadas, passem a recorrer aos aparatos da justiça humana não com o objetivo de reparar injustiças contra si, mas para silenciar o debate, intimidar estudiosos e preservar práticas ardilosas.

    Tal procedimento, embora juridicamente plausível em certos contextos, é doutrinariamente incompatível com a legítima proposta do Espiritismo. Até porque Allan Kardec jamais defendeu uma fé cega, nem concedeu imunidade moral àqueles que, sob o rótulo da mediunidade, exploram a credulidade alheia.

    Observemos que no item 230 de O Livro dos Médiuns, Kardec é claro ao afirmar que a observação e a análise profunda são condições essenciais para distinguir o verdadeiro do falso: “O exame severo é, portanto, indispensável; não se pode repetir demasiado que o Espiritismo não admite a fé cega.” (1)

    De tal modo, admoestar racionalmente, apontar incoerências, analisar fatos e denunciar indícios de fraude não constituem intolerância religiosa, mas sim fidelidade ao método espírita.

    No item 303, Kardec alerta que a tolerância mal compreendida abre espaço para mistificações deliberadas, vejamos: “Há pessoas que veem espíritos por toda parte, ou acreditam ver; outras aceitam sem exame tudo o que lhes dizem os Espíritos, e é essa credulidade excessiva que os Espíritos levianos exploram.” (2)

    Quando essa exploração é consciente, reiterada e associada à conveniência pessoal, ao prestígio ou ao poder, já não se trata de claudicação franca, mas de fraude moralmente caracterizada.

    Nos itens 311 a 317, Kardec trata diretamente dos falsos médiuns e da necessidade de combatê-los com firmeza. No item 311, ele afirma sem ambiguidades: “O pior inimigo do Espiritismo não é o cético, é o falso espírita.” (3) E no item 317, sua posição torna-se ainda mais incisiva: “Os médiuns que abusam, consciente ou inconscientemente, de suas faculdades, fazem mais mal à causa do Espiritismo do que todos os seus adversários.”(4) grifei

    Kardec não recomenda complacência, silêncio ou acobertamento. Longe disso, sustenta que denunciar a fraude é um dever moral, sob pena de comprometer a própria credibilidade da Doutrina.

    Obviamente, quando indivíduos suspeitos de práticas fraudulentas recorrem aos tribunais humanos para calar críticas técnicas e doutrinárias, ocorre uma inversão ética: a suposta liberdade religiosa é transformada em escudo para a impostura, e o direito de ação passa a ser usado como forma de intimidação.

    Do ponto de vista espírita, isso não elimina a responsabilidade moral do agente mal-intencionado. Kardec lembra que o julgamento humano é falível, mas a Lei de Justiça Divina é inexorável, pois se funda na consciência e na Lei de causa e efeito.

    Portanto, apontar fraudes mediúnicas não é perseguição, não é intolerância e não é ataque à religião. É, inversamente, um ato de fidelidade ao Espiritismo sério, científico e moralizado que Allan Kardec legou à humanidade.

    Silenciar diante do engano deliberado é colaborar com ele. E usar a justiça para perpetuar a fraude pode proteger o indivíduo no plano formal, mas jamais o isentará das consequências morais de seus atos.

     

     

    Referências bibliográficas

    1          KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Trad. Guillon Ribeiro. 76ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005, cap. XX, item 230.

    2          _______, Allan. O Livro dos Médiuns. Trad. Guillon Ribeiro. 76ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005, cap. XXIV, item 303.

    3_______, Allan. O Livro dos Médiuns. Trad. Guillon Ribeiro. 76ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005, cap. XX, item 311.

    4_______, Allan. O Livro dos Médiuns. Trad. Guillon Ribeiro. 76ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005, cap. XX, item 317.

    10 de jan. de 2026

    Investigação de fraudes mediúnicas, liberdade de consciência e fidelidade kardeciana










    Jorge Hessen

    Brasíllia-DF

     

    A investigação crítica das manifestações mediúnicas, inclusive a identificação de fraudes, não configura perseguição religiosa nem intolerância, quando realizada com base na razão, na ética e no método espírita. Ao contrário, trata-se de um dever moral e doutrinário, conforme ensinado por Allan Kardec desde as origens do Espiritismo.

    O Espiritismo não se funda na aceitação cega de fenômenos, mas no controle universal do ensino dos Espíritos, na observação reiterada e na submissão permanente da fé ao crivo da razão. Kardec foi categórico ao afirmar que a fé espírita deve ser capaz de encarar a razão face a face, em qualquer época da humanidade (1).

    Denunciar mistificações não é atacar a espiritualidade, mas defendê-la da corrupção humana, da vaidade, do interesse material e da exploração da boa-fé. O próprio Codificador alertou que é preferível rejeitar várias verdades a admitir uma única falsidade, pois um erro aceito compromete todo o edifício doutrinário (2).

    A fraude mediúnica não é um fenômeno religioso, mas um ato humano. Ela não decorre da crença, mas da conduta. Investigar tais práticas não implica negar a mediunidade legítima, mas preservar sua dignidade moral e seu caráter educativo.

    Somente poderia ser configurado como intolerância religiosa se a crítica atacasse pessoas por sua crença ou generalizasse todos os médiuns como fraudulentos, promovendo com isso a ridicularização coletiva da fé.

    Nada disso se confunde com a análise séria de fatos, prática que o próprio Espiritismo exige. Onde não se admite o exame crítico, nasce o fanatismo; onde não se permite a verificação, prospera a fraude.

    Assim, pesquisar e denunciar fraudes mediúnicas é um ato de fidelidade a Kardec, de respeito à verdade e de proteção à consciência humana.

    O Espiritismo ensina que toda manifestação deve ser examinada pela razão, submetida ao controle e confrontada com a moral evangélica. Kardec adverte que aceitar mistificações compromete a credibilidade da Doutrina e favorece o fanatismo (3).

    A crítica aqui refletida dirige-se a atos e práticas, jamais à fé ou à liberdade de crença. Denunciar fraudes é proteger a mediunidade séria, o público e a própria Doutrina Espírita (4).

    O argumento aqui proposto não estimula perseguição religiosa, nem intolerância, pois se limita à análise crítica de práticas e alegações objetivas, conforme garantido pela liberdade de expressão, pesquisa e pensamento.

    Reenfatizamos que a investigação de fraudes mediúnicas não ataca pessoas ou grupos por sua crença; não generaliza fiéis ou médiuns; não promove discriminação, ódio ou exclusão; mas fundamenta-se em referências doutrinárias espíritas legítimas.

    O Espiritismo exige o exame rigoroso das manifestações, advertindo que a aceitação de mistificações prejudica a verdade e a moral da Doutrina (5).  Portanto, trata-se de análise legítima de práticas específicas, protegida pelo direito ao debate racional e plenamente compatível com o respeito à liberdade religiosa.

     

     

    Referências bibliográficas:

    1 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Trad. J. Herculano Pires. 131. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2019, cap. XIX, item 7.

    2 _______, Allan. A Gênese. Trad. Guillon Ribeiro. 52. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2018, cap. I, item 55.

    3 _______, Allan. O Livro dos Médiuns. Trad. Guillon Ribeiro. 82. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2020, itens 226–230 e 317

    4 _______, Allan. A Gênese. Trad. Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB, cap. I, item 55

    5 _______, Allan. O Livro dos Médiuns, item 317.

     

     

    9 de jan. de 2026

    Absolutismo Judicial e Liberdade Consciencial- Uma Ponderação Espírita


    Jorge Hessen

    Brasília-DF

     

    Nenhuma sociedade se torna legitimamente justa pela injunção de uma única visão de mundo (mormente avermelhada), ainda que tal imposição parta de tribunais e se revista da linguagem do “Direito”.

    Quando o Poder Judiciário ultrapassa sua função de guardião da lei para assumir o papel de árbitro moral e ideológico, instaura-se o que pode ser chamado de ditadura judicial: o exercício do poder sem limites efetivos e sem respeito ao pluralismo.

    À luz da Doutrina Espírita, esse fenômeno representa grave desvio da ordem moral. O Espiritismo ensina que existe uma Lei superior às leis humanas — a Lei Natural ou Divina — que não depende de decretos nem de interpretações circunstanciais para existir.

    Allan Kardec ensina com clareza: “A lei natural está escrita na consciência do homem”(¹). Sempre que a autoridade humana se afasta dessa referência íntima, a legalidade perde sua legitimidade moral.

    A liberdade de consciência é princípio fundamental do progresso espiritual. O Espírito Emmanuel esclarece que sem liberdade não há verdadeira responsabilidade, e sem responsabilidade não existe aprendizado para a alma (²). Quando o medo substitui o livre exame, a obediência exterior pode até ser obtida, mas o crescimento moral é interrompido.

    Léon Denis adverte que toda autoridade que não reconhece limites na razão e na consciência degenera em tirania  (³). Tal advertência aplica-se a qualquer forma de poder absoluto, inclusive àquele exercido sob o manto da justiça. Onde o poder se absolutiza, a consciência se cala; e onde a consciência é silenciada, o espírito deixa de avançar pela luz do discernimento.

    A liberdade, portanto, não é concessão do Estado nem privilégio circunstancial. É condição essencial da dignidade humana e do progresso espiritual. Sem liberdade de consciência não há responsabilidade moral; sem responsabilidade não há justiça verdadeira; e sem justiça, não pode haver paz duradoura.


    Referências bibliográficas:

    KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, questão 621. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: FEB.

    EMMANUEL (espírito). Pensamento e Vida. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. Rio de Janeiro: FEB.

    DENIS, Léon. Depois da Morte. Tradução de Leopoldo Cirne. Rio de Janeiro: FEB.



    8 de jan. de 2026

    O DNA numa breve reflexão espírita

     




     Jorge Hessen

    Brasília-DF

     

    De acordo com a tradição, o DNA (Ácido desoxirribonucleico) é a molécula que contém as instruções genéticas para o desenvolvimento, funcionamento e reprodução de todos os seres vivos, com uma estrutura de dupla hélice composta por quatro bases nitrogenadas (Adenina, timina, citosina, guanina) que formam genes, responsáveis pelas características hereditárias e pela codificação de proteínas.

     Essa molécula está presente no núcleo das células, é responsável por armazenar e transmitir informações genéticas aos descendentes e tem a capacidade de se autoduplicar. Mas, o DNA não é apenas um mecanismo biológico herdado dos pais terrenos; é um instrumento da Lei Divina, ajustado às necessidades evolutivas do Espírito, que o utiliza como vestimenta temporária para sua experiência na Terra.

    Allan Kardec ensina que o Espírito precede e governa a organização corporal, jamais sendo produto da matéria: “O Espírito modela o seu envoltório de acordo com o meio em que deve viver.”(¹)

    À luz desse princípio, o DNA pode ser compreendido como parte do ajuste orgânico do corpo físico, subordinado às leis naturais, mas direcionado pelas necessidades do Espírito reencarnante, sem que isso implique qualquer misticismo biológico.

    Léon Denis reforça essa hierarquia entre Espírito e corpo ao afirmar: “O corpo é apenas o instrumento da alma, que o dirige e dele se serve para manifestar-se.”(²)

    Assim, o DNA não define a essência do ser, mas expressa no plano material as condições educativas, provas e limitações necessárias ao progresso espiritual.

    Emmanuel, ampliando essa visão, esclarece que o corpo é uma concessão divina vinculada à Lei de Causa e Efeito: “O corpo físico é uma dádiva de Deus, atendendo às necessidades do Espírito na experiência reencarnatória.”(³)

    Desse modo, o DNA pode ser entendido como parte do planejamento reencarnatório, refletindo heranças físicas compatíveis com o passado espiritual do indivíduo, sem jamais substituir a responsabilidade moral e o livre-arbítrio.

    Desta forma, o DNA é biologia em sua estrutura, mas instrumento da Lei Divina em sua finalidade, servindo ao Espírito como meio de aprendizado, reparação e progresso.

     

    Notas Bibliográficas:

    KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, edição definitiva, 2013, cap. XI, item 18, p. 294.

    DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Tradução de Homero Dias de Carvalho. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2012, Parte I, cap. II, p. 63.

    XAVIER, Francisco Cândido (Espírito Emmanuel). O Consolador. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2019, questão 95, p. 87.

    7 de jan. de 2026

    Espiritismo, Política e Poder — Uma reflexão necessária




    Jorge Hessen

    Brasília-DF

    O Espiritismo não é uma doutrina alienada da realidade social, mas tampouco se confunde com sistemas ideológicos ou projetos partidários. Seu compromisso central é a transformação moral do indivíduo, condição indispensável ao progresso coletivo(¹).

    Deve o espírita repudiar projetos de dominação ideológica de matriz “ditatorial vermelha”? Sim, como espírita consciente, desde que o faça com lucidez, sem fanatismo e com firmeza moral, sem ódio.

    É bem verdade que Allan Kardec foi explícito ao afirmar que o Espiritismo não se ocupa da política prática nem se associa a projetos de poder:

    “O Espiritismo não vem absolutamente ocupar-se das questões políticas; deixa às instituições humanas o cuidado de se organizarem conforme lhes parecer melhor.”(²)

    Essa neutralidade doutrinária, contudo, não equivale à indiferença moral. A Doutrina Espírita avalia as consequências das ações humanas, através dos rótulos ideológicos que as revestem(³).

    Projetos políticos que, ainda que em nome da justiça social, resultam em perseguição a opositores, censura da imprensa, criminalização da divergência e concentração prolongada de poder entram em conflito direto com a ética espírita, pois violam o livre-arbítrio, a responsabilidade individual e a dignidade humana(⁴).

    Kardec é categórico ao afirmar:

    “A liberdade de consciência é uma consequência da liberdade de pensar, que é um dos atributos do homem.”(⁵)

    Do mesmo modo, assistencialismo sem emancipação e promoção social não é caridade. O Espiritismo distingue a caridade moralmente edificante do assistencialismo que perpetua a dependência:

    “A verdadeira caridade passa pela [benevolência, pela indulgência e pelo perdão] e busca no fundo do coração a causa dos males, para [ressignificá-los].”(⁶) (grifos meus)

    Assim, políticas que mantêm populações em dependência crônica do Estado, desestimulam o esforço pessoal ou instrumentalizam a pobreza não se harmonizam com o ideal espírita de progresso moral e material do Espírito(⁷).

    Kardec ainda adverte: “Os Espíritos inferiores procuram dominar; os bons jamais impõem, aconselham.”(⁸) Portanto, quando projetos políticos revelam vocação autoritária, isso reflete o grau moral dos Espíritos que os sustentam, encarnados e desencarnados, bem como das coletividades [militantes] que os toleram(⁹). grifo meu

    O dever do espírita não é idolatrar ideologias nem justificar abusos mas analisar com lucidez, denunciar injustiças e preservar a verdade sem ódio, lembrando que: “O verdadeiro espírita reconhece-se pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações.”(¹⁰)

    O Espiritismo não condena nem absolve instituições políticas específicas, mas condena toda prática que viole a justiça, a liberdade e a dignidade humana, venha de onde vier.

    A Doutrina Espírita não é de esquerda nem de direita — é da consciência.
    Não serve a projetos de poder — serve ao progresso moral da Humanidade.

    Toda estrutura que se afaste desse ideal responderá, cedo ou tarde, à Lei de Causa e Efeito, soberana sobre homens, partidos e governos(¹¹).


    Notas Bibliográficas:

    1. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Introdução e questões 776–785.
    2. ________ Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XXII, item 4.
    3. ________, Allan. O Livro dos Espíritos, questões 843–850.
    4. ________, Allan. O Livro dos Espíritos, questões 872–875.
    5. ________, Allan. O Livro dos Espíritos, questão 833.
    6. ________, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XIII, item 7.
    7. ________, Allan. O Livro dos Espíritos, questões 685–687.
    8. ________, Allan. O Livro dos Médiuns, item 258.
    9. ________, Allan. A Gênese, cap. XVIII, itens 24–27.
    10. ________, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XVII, item 4.
    11. ________, Allan. O Livro dos Espíritos, questões 964–965.

    Referências

    KARDEC, Allan. A gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, s.d.

    ________, Allan. O evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, s.d.

    ________, Allan. O livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, s.d.

    ________, Allan. O livro dos médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, s.d.


     

    3 de jan. de 2026

    O Tio Sam ante a soberania dos povos e o livre-arbítrio coletivo



    Jorge Hessen
    Brasília-DF

    A soberania do povo venezuelano esteve por muitos anos sob o cabresto da intervenção cubana, chinesa e russa. Ora, sabemos que o livre-arbítrio é atributo essencial do Espírito, estendendo-se também às coletividades humanas.

    Os povos, assim como os indivíduos, colhem os frutos de suas escolhas: “Os povos, como os indivíduos, têm a sua infância, juventude e maturidade; sofrem as consequências de seus atos.”(¹)

    Daí decorre que nenhuma nação pode arrogar-se o papel de juiz moral absoluto da outra, pois cada sociedade vive ou deveria viver experiências compatíveis com seu grau evolutivo, suas provas e expiações.

    A soberania, sob o prisma espiritual, não é apenas um conceito jurídico; é a expressão do direito de aprendizado coletivo, ainda que doloroso. O fato de um povo atravessar regimes autoritários não isenta os governantes de responsabilidade espiritual. Até porque o abuso de poder constitui grave falta moral e “todo aquele que exerce autoridade responde pelo mau uso que dela fizer.”(²) 

    Emmanuel pronuncia que “nenhum tirano se sustenta sem a colaboração direta ou indireta dos que o cercam.” Diz, ainda, que a tirania nunca é obra de um único homem, mas resultado de conivências, omissões e medos coletivos.” (³)

    Assim, reconhecemos o sofrimento causado pela guerra e pelas ditaduras, mas obviamente não deveríamos transferir automaticamente a terceiros o dever de “corrigir” pela força aquilo que pertence ao processo educativo de uma coletividade.

    A Lei de Justiça é inseparável da Lei de Amor e de Caridade. Justiça, logicamente, não se confunde com imposição, coerção ou violência travestida de boas intenções, até porque “a justiça consiste no respeito aos direitos de cada um.” (⁴)

    Sob esse ângulo, qualquer forma de intervenção, seja comunista ou liberal, que viole a autodeterminação dos povos e imponha modelos pela força, obviamente gera sofrimento indiscriminado e entra em conflito direto com a Lei Divina, ainda que sob a retórica de objetivos nobres. OK!

    Não perfilhamos guerras “justas” do ponto de vista espiritual, pois toda violência gera débitos morais e compromissos futuros. Mas não endossamos a indiferença moral diante do sofrimento alheio (a Venezuela está sob as algemas comunistas há vários anos). Kardec alerta que a omissão consciente pode ser forma de culpa: “Ser culpado não é apenas fazer o mal, mas deixar de fazer o bem quando se tem o poder de fazê-lo.” (⁵)

    Aqui surge uma distinção essencial entre essa intervenção política ou militar norte-americana e a solidariedade moral e humanitária. Refletimos que a Venezuela deixou de ter soberania há muito tempo; portanto, o que ocorreu exatamente HOJE (3-01-2026) entendemos como auxílio extremo e, embora com uso da força militar, se desponta como um socorro policial humanitário de um povo que grita aos quatro ventos por liberdade.

    Destarte, percebemos a atitude do Tio Sam como asilo aos perseguidos e denúncia ética das cruéis injustiças a fim de estimular a consciência venezuelana pela liberdade, não admitindo jamais a dominação ou tutela forçada de nações de ideologia comprovadamente totalitária.

    André Luiz, pela observação da vida espiritual, esclarece que as grandes crises sociais são, muitas vezes, provas coletivas, destinadas ao despertar moral dos povos, para ele, “as nações, como os indivíduos, atravessam experiências educativas que lhes burilam a alma coletiva.” (⁶)

    eterna interferência externa cubana, chinesa e russa, motivada por interesses “ocultos” (ouro negro) ou imposição ideológica, tem prolongado conflitos, agravando sofrimentos e gerando compromissos espirituais duradouros para todos os envolvidos.

    Temos consciência de que a questão da intervenção e da soberania não se resolve por slogans políticos nem por paixões ideológicas. Ela exige discernimento moral, humildade histórica e fidelidade à Lei de Justiça, Amor e Caridade.

    Repudiamos qualquer tipo de tirania; não veneramos políticos de estimação; jamais sacralizaremos governos totalitários. A verdadeira libertação dos povos (soberania) principia na consciência, cresce na responsabilidade coletiva e se solidifica na educação moral da população, jamais na imposição pela força de uma traidoríssima democracia avermelhada.

     

    Notas bibliográficas

    1.     KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 52. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira (FEB), 2016. Cap. XVIII.

    2.     KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013. Questão 932.

    3.     EMMANUEL. Pensamento e Vida. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. 27. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2015. Cap. 24.

    4.     KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 131. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2017. Cap. XI, item 3.

    5.     KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2013. Questão 642.

    6.     ANDRÉ LUIZ. Evolução em Dois Mundos. Psicografia de Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira. 20. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2014. Parte II, cap. I